O vazio pode encher-se com o vazio! É o que sinto quando percorro
os espaços do lugar onde nasci, na minha aldeia, ou o centro histórico da minha
cidade.
Os espaços do lugar onde nasci atraem-me pela mesma razão que o
ladrão retorna ao local do crime; há ali uma atracção que não se explica,
sente-se. Não sei se é o vazio do lugar que me preenche ou se sou eu que, de
alguma forma, preencho aquele vazio.
Quando percorro o centro histórico da minha cidade – faço-o
regularmente – sinto um vazio profundo, que não preencho nem me preenche. É uma
sensação estranha de desilusão, de letargia e de mágoa, onde os sentidos
convocam a memória e esta os reprime. Paro sempre naquela praça solitária,
despida, sem vida, com uma história que não conta, embelezada com uma coerência
falsa, sem brilho nem beleza. Olho para cima, medito no paradoxo que foi querer
dar vida à natureza morta que é castelo e a sua encosta e ao mesmo tempo matar
a praça. É uma amargura, uma tristeza de alma, ver o que isto é e não conseguir
sentir o que isto foi.
Outrora, criança, percorri estas ruas, nos dias de mercado, num
corrupio sempre apressado contra a escassez do tempo e dos bens. Outrora gozei
tudo aquilo: o passar dos comboios; o frenesim da abertura das cancelas que
restabelecia o fluxo das formigas apressadas no carreiro principal; a simpatia
do boneco da sapataria Cruz; o regateio entre compradores e vendedores na
praça; etc.
Hoje, vagueio por aquelas ruas estreitas, silenciosas, nuas, sem
vida; por aqueles espaços que nada têm e pouco dizem. Sinto-o; sente-se um
adormecimento sofrido que contrasta com uma agressividade que mora ao lado.
Ali, as portas antigas fecharam-se definitivamente, e as “portas abertas” ainda
não se abriram. Os poucos rostos, que vagueiam como eu, parecem reflectir as
lajes escuras, ou as amarguras de vidas amachucadas.
Nas horas de expediente, paro na loja do Maia - um rebento híbrido
da Casa Fortunato. Umas vezes, entro; outras, olho para aquilo, da rua,
circunspecto. Admiro a resiliência daquele homem. Custa-me descer o resto
daquela rua, a grande avenida do cemitério da minha cidade; custa-me mais do
que o despovoamento da minha aldeia, que, pelo menos, mantém a força
estimulante da natureza selvagem.






