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20 de agosto de 2020

Onde se dá conta das dores do Pança com a investida do rufia

Com o Príncipe a-banhos, há muito que o Pança não se sentia tão feliz e importante, liberto dos mandos e das manias do Amo, e com todo o tempo para se dedicar ao seu condado e às festas da sua paróquia. Foi lindo vê-lo, feliz e contente, junto da sua gente, em grande devoção à N.ª Senhora das Dores (e que dores aí vêm!), nas celebrações eucarísticas, no arraial, nos festejos, junto do pároco, do povo e da fanfarra, sempre com grande solenidade, comunhão e entusiasmo cristão, derramando e recebendo lágrimas de prazer, com tão boa vontade e tão grande contentamento geral que parecia coisa milagrosa, tal era a ordem e a perfeição dos festejos. 

Mas enquanto o Pança celebrava junto dos seus; o rufia, que não nasceu para a forca, mas que o Pança e seu Amo quiserem enforcar, da corda do seu destino armava-lhes o laço com o engodo que os tem alimentado…

No dia seguinte, o Pança apresentou-se no Convento de Santo António, pelo romper da manhã, para mais uma semana de obediência ao Amo e de mando e desmando, inchado com tamanhos sucessos. Estava radiante, e nem o crocitar de um ou outro corvo nos beirais o afligiu, mas veio-lhe à memória, sem mais quê nem para quê, as preces do sacerdote na véspera, "Dai-nos a paz, dai-nos a paz, Senhor, vossa paz!" Sentou-se. Ligou a máquina.

– Foxx-se!, gritou logo de seguida, ou melhor, ganiu.
Depois, exclamou iracundo, de repente, dando sobre a mesa um soco com toda a força. E desabafou, “filho da mãe…”. Com isto, acordou o Príncipe, que logo o chamou:
- Dizei-me, Pança; tendes boas ou más novas?
- …só velhas e más, Alteza.
- Como…?
- O rufia, o ministro Jota, que jurou verdadeira lealdade, companheirismo e obediência, voltou a atacar, a atacar-me, com uma dúzia de perguntas sobre o fundo maneio; e quer que eu, este simples escudeiro, lhe vá responder na reunião em directo – afirmou, revoltado, o Pança.
- Esse peralta veio ao mundo com um certo descoco… - observou o Príncipe.
- Mas revela na traição grande mestria! – retrocou o Pança.
- Que quer ele saber? – perguntou o Príncipe.
- A história das facturas que entram e como sai o dinheiro do fundo… - respondeu o Pança.
- Então…?!, Isso é fácil de explicar...
- É?! … Olhe que não, olhe que não, ...porque pelo meio fazemos muitos truques…, e há muitas coisas em que não bate a bota com a perdigota – aclarou o Pança.
- Eu já tinha reparado que fazíeis algumas cousas mais solto do que devíeis, mas sois vós que tendes a responsabilidade pelo fundo… - lembrou, em tom de aviso, o Príncipe.
- Vossa Mercê pensa que é fácil justificar tanta saída de dinheiro, com coisas mui pouco honestas – afirmou o Pança, meio desolado.
- Sois mui cobiçoso, Pança; já devíeis saber que a cobiça é a raiz de todo o mal… - lembrou o Príncipe.
- Fala assim, o Senhor, porque está nesse pedestal, e ainda pensa que ninguém o derruba – retrocou o Pança, e acrescentou: - infelizmente, muitas vezes paga o justo pelo pecador.
- Neste caso, como bem ensina o versículo do salmista, “o pecador abriu um fosso e caiu no fosso que ele cavou!» - afirmou o Príncipe, com o seu sorrisozinho.
- O Senhor é muito desagradecido…Mas se Deus com sua infinita misericórdia nos não socorre… - observou o Pança.
- Desterra o medo, Pança; e faze das fraquezas forças, que a coisa vai como há-de ir, e nós por cá a gozar…
- Como, Alteza, se o peralta me afronta por todos os lados, com mil suspeitas? – perguntou o Pança.
- De cem coelhos, nunca se faz um cavalo; de cem suspeitas, nunca se faz uma prova – afiançou o Príncipe.
- Deus o ouça e o diabo seja surdo! Mas que eu estou muito receoso, estou..., para o nosso fim estar próximo só falta o rufia meter os malditos papeis nas mãos dos farpeiros.

                                                                                 Miguel Saavedra

18 de junho de 2020

Onde se dá conta das angústias do Pança com o eminente enjaulamento do Amo

Hum! Hum! – pigarreou o Pança, quando recebeu o estranho decreto assinado p`los opositores.  “Co`os diabos!” Soltou ele, para os seus entretidos tarefeiros, como se se sentisse culpado diante de citação de tão ruim presságio. Depois, exclamou para quem o quis ouvir, como se o seu Amo ali estivesse: “Real senhor, Deus o proteja destes fariseus”.
Com o semblante acabrunhado, dirigiu-se à doutora de leis, a nova cúmplice do Príncipe, para perceber o alcance da investida. Os corvos, já pousados no telhado do convento, ao sentiram os seus passos pesados, começaram a crocitar anunciando desgraça. Entrou apreensivo no poiso da doutora de leis, mas saiu de lá com os miolos ainda mais enturvados. Não queria acreditar no que tinha ouvido, mas percebia que abalo era forte. 
Hesitou interromper o repouso do Amo. Mas soube fazê-lo com o dramatismo que o momento merecia:

- Desculpai-me o incómodo, Alteza; mas tenho má novidade a dar-vos...
- Dize-me, dize-me, Pança; que agora só me fazeis maus anúncios…
- A armadilha está armada, e bem armada. Entrou decreto, assinado p`los falsos conselheiros, que ata Vossa Mercê de pés e mãos.
- Safados…
- Que será de nós, Senhor Meu Amo, rodeados de cobras venenosas por todos os lados, com Vossa Mercê enjaulado, e a Justiça à perna?
- Não necessito de lágrimas, Pança, mas de sangue… - lembrou o Príncipe. E acrescentou: - Reuni as tropas, e colocai-as em prontidão de combate.
- Às suas ordens, Alteza – retorquiu o Pança, sem o ânimo que sempre evidenciara quando era preciso sujar as mãos.

Estava desolado; tinha percebido, finalmente, que a ameaça era forte, e as desgraças corriam tanto e tão depressa, que se enleivavam no encalço umas das outras. Intrigava-o que a tropa fandanga se tivesse conseguido juntar, e reunido tino para tirar tal coelho da cartola. 
Perguntava-se, e voltava a perguntar, mas não sabia responder: “como é que o feitiço se tinha virado contra o feiticeiro?”; “como é que o seu Amo, Príncipe mui douto e temido, se tinha deixado cair nas suas armadilhas? O que seria dele, agora, com o seu Amo enjaulado e sem os reforços para o fundo de maneio?"

Mas, no fundo, reconhecia que não era preciso buscar a explicação num oráculo para tamanho e tão eminente malogro. A prática já lhe tinha mostrado que o mal reforça a acção mal começada, que o odioso gera odioso, e que os conselhos sempre chegam retardados se se acham desacordes à nossa vontade.

Pensava para si e consigo, “Ai, meu Amo, meu Amo, acabou-se o fadário! Ah! Fostes tão poderoso, e tão temido; mas, se Deus Nosso Senhor vos não valer, ides acabar tão promissor reinado manietado, sem poder. E que será de mim, da minha sorte e do meu destino, nas mãos destes traidores? Só poderei contar com o cura Vaz, para me limpar os pecados da alma, e com a protecção da N.ª Senhora do Cardal, minha devota Santa. Amém.”

                                                                                              Miguel Saavedra

12 de maio de 2020

Onde se dá conta dos preparativos do Pança para o retiro

O último dia da semana despertou triste e molhado, propício à reclusão, à acomodação de mágoas e à digestão de ressentimentos. Mas quando o Pança chegou ofegante ao cimo da escadaria central, do Convento de Santo António, reparou que o Príncipe já estava no seu posto. Nesse instante, tremeu diante de ruim presságio. Lá fora, o céu alternava entre aguaceiros fortes e boas abertas; e do marasmo geral ressoava o cucar dos cucos na mata da rola, e o crocitar dos corvos, por cima do convento, que em seu grasnar anunciavam vingança.

O Pança, sabendo que o Príncipe ficaria ocupado, o dia todo, a fazer e a desfazer armadilhas, a reunir e a desagrupar rufias, a forjar e a desforjar agendas, resolveu ocupar o tempo em auscultações. Almoçou mal, porque o nó na garganta, que se tinha enrolado na véspera, obstruía-lhe o apetite. Durante a tarde, sentou-se para meditar um pouco – o que não fazia há anos. Veio-lhe à cabeça os companheiros que perdeu, os ódios e inimigos que gerou, as ameaças e os desgostos que se anunciam. E a meio da tarde começou a esvaziar o poiso – estava decidido a mudar de vida. Eis senão quando, é apanhado pelo Príncipe nos estranhos afazeres.

- Que estais fazendo, Pança?
- Estou a desaquartelar; a retirar os meus pertences…- afirmou o Pança
- Não tendes aqui nada, Pança, nem vontades – sentenciou o Príncipe.
- Ai tenho, tenho, Alteza. E preciso delas para as lides no meu condado - retorquiu o Pança.
- Oh! que vontade fraca – Exclamou o Príncipe. E acrescentou: - Sabeis bem que estamos os dois no mesmo barco.
- Pois,…; mas o navio abriu. Estamos naufragando! Prefiro morte seca que naufrágio sem velório – retorquiu o Pança.
- Por que sois tão temeroso? E tão desagradecido, Pança? Ou já vos aliastes aos desavindos para apressar o meu fim?
- Eu cá não sou temeroso, nem desagradecido. Tanto sei espedaçar um rufia como dar a camisa a um amigo - tenho na alma quatro dedos de enxúndia de cristão velho – afirmou o Pança. 
- Mas pensais com um quarto de bom senso e três quartos de cobardia – tornou o Príncipe.
- Não é cobardia, Alteza; não quero servir-vos de empecilho ou de bode-expiatório … - afirmou o Pança.
- Para que é essa pressa tanta, Pança? Para que é essa pressa tanta, Pança? – perguntou o Príncipe.
- Estou farto de desaforos, e de ameaças dos nossos, dos que o Senhor escorraçou. Com tanto odioso no ar, as coisas não estão para graças, e agora é que vamos para o caraças – afiançou o Pança. 
- Ouve-me com atenção, Pança amigo: estais enfeitiçado, caístes no encantamento de algum maltrapilho que te colocou na cabeça visão má. Precisais de voltar à Graça do Senhor. Tereis que tratar esse feitiço rapidamente – ordenou o Príncipe.
- Da alma sei eu tratar, Alteza; do que não sei tratar, e tenho medo, é da justiça – retorquiu o Pança.
- Deixai com quem sabe - comigo – as coisas de leis; e tratai da alma que bem precisais – tornou o Príncipe.
- A justiça é cega, Alteza; tão cega que meteu atrás das grades uma criatura muito mais poderosa que o Senhor. Desculpai-me! mas eu não confio em Vossa Mercê  - afirmou o Pança. (E pensou mas não disse: - naquela maldita reunião disseram que o Senhor não é douto em leis) 
- Sois mesmo vilão. Que tem isso com o que se passa aqui? – perguntou o Príncipe.
- Se Vossa Mercê se enfada, eu calo-me e deixo de dizer aquilo a que sou obrigado como leal escudeiro – afirmou o Pança.
- Dize o que quiseres — tornou o Príncipe — conquanto as tuas palavras se não dirijam a assustar-me.
- Digo que me parece que a minha estada neste castelo já é sem proveito. Que é meu cuidado livrar-me, enquanto é tempo, de cuidados maiores…- afirmou o Pança.
- És miserável e traidor, de origem simples para seres isso, e ruim demais para viveres – retornou o Príncipe.
- Para nós todos, Meu Senhor, o tempo ficou ruim demais, muito nublado – asseverou o Pança. 
- Não me anunciais senão perdas, nada mais. Dize, pois: perdi a coroa? – perguntou o Príncipe.
- Não sei, Alteza; vassalo não sabe nem pode julgar seu Rei – retorquiu o Pança.
- Alma despiedosa…- mimoseou o Príncipe.
- Agora o Senhor terá que por à prova os amigos que tanto o adulavam antes – afirmou o Pança.
- E vós me desampareis? – interpelou o Príncipe.
- Faltam-me forças para lutar contra os nossos – afirmou o Pança. Vai pelo nosso reino uma divisão desastrosa, como jamais se viu... E acrescentou: - Renego meus privilégios, abdico da pompa régia, e retiro-me para o meu condado…
- É o que fazeis, agora, Pança; quando mais preciso de ti? – perguntou o Príncipe. E acrescentou: - dei-vos tudo: boa renda, boa tensa, benefícios e privilégios, estatuto e pompa. E tive piedade de ti, não me poupei canseiras para ensinar-te bons modos, mas a tua raça não comporta nobres modos.
- Deu-me muita coisa, sim, Alteza; mas não fez de mim cavaleiro, e ministro, como prometido. E já não o fará - se alguma vez pensou fazê-lo – retorquiu o Pança.
- Sois muito desagradecido, Pança; e causa da minha desventura, também – afirmou o Príncipe.
- Vossa Mercê é que tem sido muito desagradecido comigo e com os seus, e mui amigo dos desumanos. Persistiu no enforcamento do rufia; enganou-se! O rufia não nasceu para a forca; e da corda do seu destino fez o nosso laço. Depois, cometeu o mesmo erro com a marquesa – afirmou o Pança.
- Sois fraco e traidor, Pança – afiançou o Príncipe. E acrescentou: - Grande é quem luta até por uma palha quando a honra está em jogo.
- Não consigo, Alteza. Tenho a alma atormentada e cheia de pecados – afirmou o Pança.
- Revesti-vos de coragem, Pança, vos peço. Estais desvairado, pressagiando desgraça? – Perguntou o Príncipe.
- Sinto que a nossa situação é pouco firme, mas enquanto for possível lavar nossas honras na corrente aduladora e as feições como a mascara do coração bondoso… - retorquiu o Pança.
- Receais que seremos ceifados antes do tempo? – Perguntou Príncipe. 
- É muito grande o meu medo… - afirmou o Pança.
- Temos que usar o medo religioso e o santo poder da salvação. Se está tudo perdido! Vamos rezar! Se está tudo perdido! Vamos rezar! – Rematou o Príncipe.
                                                                                           Miguel Saavedra

2 de abril de 2020

Onde se dá conta da conversa da almeida com jardineiros sobre o derrube da marquesa

- Bons dias, colegas – atirou a almeida, ao passar pelos dois jardineiros que tiravam as ervas daninhas dos malfeitos canteiros da praça principal.
- Bom-dia – respondeu a jardineira.
- Bom dia – respondeu o chefe-jardineiro. 
- Já sabeis do novo escândalo que rebentou na corte? – perguntou a almeida.
- Ouvimos dizer qualquer coisa mas nem queremos acreditar – respondeu a jardineira. E prosseguiu: - eram tão próximos…; mas dizem que ela andava feita com o escrivão-mor para tramar o príncipe; e ele, vendo que tudo lhe ia de través, zás.
- Já vi que já emprenhastes pelos ouvidos com versão do escudeiro-mor – afirmou a almeida.
- Então,..? – atirou a jardineira.
- Se sabeis a verdade contai-a – instou o chefe-jardineiro. 
- Andais muito mal informados… Não sabeis do longo enredo de saias e ciúmes que se instalou há muito na corte? – perguntou a almeida.
- Isso é novidade velha – retrocou a jardineira.
- É velha mas só agora deu sentença – afirmou a almeida.
- Pensava que essa novela já não fazia peçonha a ninguém – afirmou a jardineira.
- Mas fazia! E fez tanta que a legítima, que faz da vergonha recreio, passou-se e exigiu a saída da marquesa - afiançou a almeida.
- E o Príncipe teve esse descoco? – perguntou a jardineira.
- Foi obrigado, colega; bem sabeis que ciúme na cabeça de mulher é drama que dá ruptura ou tragédia – afiançou a almeida. 
- Foi obrigado porque quis, porque não sabe temperar a ruindade – retornou a jardineira.
- Não te adiantes na língua que eu não quero cá problemas. Se correram com o escrivão-mor, melhor correm connosco. Se espírito travesso do escudeiro-mor passa por aqui, ou ouve alguns zunzuns, estamos despachados – afirmou o chefe-jardineiro. 
- Descansai, colegas; o escudeiro anda entretido a testar o vírus – assegurou a almeida.
- O nosso Soberano anda sempre metido em brigas. Ora numa brincadeira de garotos, ora num folhetim de rabo-de-saia – afirmou a jardineira.
- É verdade, colega; nunca vi uma criatura sob a forma de homem que revelasse tão feroz interesse em desgraçar vida doutrem – anuiu a almeida.
- Mas digo-vos, porque já o ouvi a muita gente, a devassidão é tirania que já ocasionou a queda de muitos reis – afirmou o chefe-jardineiro.
- Não sou letrada, mas sempre vos digo: o Príncipe não devia dar ouvidos à legitima – é uma desbocada que só traz desordem ao reino – afirmou a jardineira. 
- Mas deu, colega – afiançou a almeida.
- Mas desculpai-me, colega; ainda me custa acreditar nessa escusa. Se a novela era longa e conhecida, e se os reis e os príncipes sempre tiveram amantes - damas da rainha, cantoras líricas, senhoras da alta burguesia e até mulheres do povo -, porquê agora? E desta forma? - Perguntou a jardineira.
- Pois…, mas eram outros tempos... – retrocou a almeida.
- Eram outros tempos mas também o é nestes tempos – retrocou a jardineira. E acrescentou: - - sabeis bem o que se passa na corte dos nossos vizinhos…
- Sei, pois… - confirmou a almeida.
- Então, sabeis que o rei sempre teve amantes, e ainda as tem, mesmo com os pés a cova (Deus lhe dê juizinho). Mas a rainha Sofia deixou-o andar, e sempre se comportou como uma grande Senhora - afirmou a jardineira.
- É outra nobreza, colega – disse a almeida.
- É uma nobreza a sério, quereis dizer - retrocou a jardineira -; onde a rainha sabe ser Rainha. Sabe, como o caracol, carregar a coroa e a corte às costas, para poder esconder a cabeça e os cornos.
- Ai colega, não sei como sois tão liberal; eu não tinha estômago para tal… – retorquiu a almeida.
- Se a coisa não é recente já se devia ter habituado – afirmou a jardineira. 
- Mas parece que nunca se habituou – retrocou a almeida.
- Uma mulher ou é capaz de dar assistência ao homem ou não é; se não é… - afirmou a jardineira.
- Ai mulher! Estais tão liberal…- exclamou a almeida.
- Olha, colega, tomara eu que o meu homem, em vez de me estar sempre a procurar me desse descanso, que é o que o corpo me pede quando chego a casa moída, e desquadrilhada dos ossos, depois de um dia inteiro derreada a cavar e a sachar.
- Pois, colega, mas cada uma é como cada qual – afirmou a almeida.
- A fornicação é muito bonita mas é para quem não cansa o corpo, não é para mim, que já não tenho apetite de dar ao rabo – retrocou a jardineira.
- Bem sabeis, colega, que Deus deu chifres curtos à vaca maldosa; mas deixou sem chifres a muito maldosa – afirmou a almeida.
- Olha, juízo e vergonha é o que faz falta  a muita gente – rematou a jardineira.

                                                                                          Miguel Saavedra

4 de março de 2020

Onde se dá conta da hasta pública das escolas do reino, e de outras coisas

Ontem, ao final do dia, o Príncipe entrou na sala grande dos paços, meio composta, com algum atraso, e com cara mais de desgovernado, que de governador, para fazer a apresentação da hasta pública das escolas do reino, mandadas construir pelo estadista de Santa Comba Dão.

A sala encontrava-se meio composta, ou menos de meia, o que desagradou ao Príncipe, o que se percebia pelo nervoso miudinho do Pança. Mas que quer ele, deve ter pensado o Pança, com tanta baixa nos serviços, e no seu gabinete - sem ovos não se podem fazer omeletes.

Eram esperados representantes de diversas entidades, figuras mui principais, fidalgos galantes, burgueses abastados, escribas de cá e de fora. Mas não apareceram. Marcaram presença a marquesa Prada e o ministro (des)Humano, os regedores do reino, um ou outro escrivão da casa, um ou outro mordomo, a porteira e este mal-visto escriba. O Pança recebeu todos com a honra e a cortesia que lhe é característica. 

O Príncipe, depois de obsequiar os presentes com votos de boas-vindas, embalou para uma arenga mui elaborada sobre as miudezas em causa e sobre as potencialidades do reino para atrair visitantes e capitalistas. A seguir, interveio um pajem da corte, rapaz mui sabedor e de muito crédito na arte de atrair pés-descalços, que se esforçou, com o jeito que o Senhor lhe deu, para insuflar esperança e confiança num futuro risonho aos que se quisessem aventurar a viver da riqueza dos ditos. 

Apesar do grande fastio e vagar da coisa, os regedores do reino aparentavam contentamento, talvez por verem nesta cartada a solução milagrosa para o ressurgimento dos seus condados. Um ou outra curiosa quis saber quem suportaria o investimento em edifícios muito degradados; coisa de somenos para o potencial da coisa, atestaram o perito e o Príncipe, e apontaram um ou outro caso de sucesso em condados vizinhos.

À parte do evento propriamente dito, muito estranhou este pobre escriba, que segue com muita curiosidade e interesse as intrigas, as invejas, as traições, os jogos de poder e de saias, deste malfadado reino, e as leva quentes aos seus leitores, que a marquesa Prada, ministra do reino com o pelouro do Turismo e afins, senhora licenciada e de muito bom saber nas matérias da atracção de visitantes, da cultura e das técnicas de venda, não tenha participado na apresentação da referida hasta, e tivesse sido remetida para um indigno lugar no meio do público. 

No final do evento, quando todos trocavam comprimentos e se despediam, este pobre escriba abeirou-se discretamente do Pança, e, por entre os dentes, perguntou-lhe: “já foram retirados os pelouros à marquesa?”. Ao que o Pança respondeu, também por entre os dentes: “que eu saiba ainda não”. Por onde vai partir a coisa?
                                                                                                  Miguel Saavedra

24 de dezembro de 2019

Onde dá conta das diligências e fadigas do Príncipe, no socorro às vítimas da tempestade, e das deslealdades de que foi vítima

Aos vinte dias do mês de Dezembro do ano de mil seiscentos e dezanove, o Príncipe mandou reunir os seus conselheiros para dar conta dos danos e males que S. Pedro tinha descarregado, na véspera, sobre o principado; dar conta das acções que mui oportunamente soubera tomar; tomar conselho; e, formalizar a troca de um Pedro por outro (Pedro).

Há hora marcada, marcaram presença na sala grande dos paços, com grande solenidade, ordem e regimento, tudo em grande perfeição; o Príncipe, em alto estrado na sua cadeira real, e mais abaixo; a Educadora-mor; o Obras-Tortas; a marquesa Prada; o comendador das Meirinhas; o conselheiro Coiso, o conselheiro Humano e a conselheira das Mouriscas; em seus assentos segundo suas precedências. O conselheiro Jota chegou com atraso por a charrete em que seguia ter descarrilhado outra vez.

O Príncipe começou por, de forma muito sentida e com uma arenga mui conforme ao caso, dar conta dos danos e das tormentas que tinham apoquentado o principado, na véspera; dos vastos trabalhos que tinha determinado para socorrer as vítimas; e das muitas fadigas que Ele próprio em pessoa cumpriu, por terras do Louriçal, onde rezou na Igreja de São Tiago e pediu compaixão a S. Pedro; por terras do Oeste; por terras da Redinha; e no açude, onde administrou o caudal do rio durante toda a noite.

De seguida, o Príncipe informou os conselheiros que, obtida a renúncia da conselheira do Oeste, e estando a governação manca, tinha convidado o conselheiro Pedro Humano, homem sesudo, mui obediente, e engenhoso no controlo dos bytes (alçapão por onde se têm esvaído os documentos secretos do trono), para substituir o ministro Jota, que previamente exonerara. E determinou logo ali e deixou assentado, que o novo ministro iria superintender os pelouros do ex-ministro Jota; e, posto isto, deu a palavra aos conselheiros.

O Pedro Humano, envergonhado por passar a Desumano, agradeceu, com palavras de fiel vassalo, a grande mercê que o Príncipe se dignou ofertar-lhe, e jurou total obediência.

A conselheira das Mouriscas tomou a dianteira e cumpriu rapidamente a formalidade, com palavras mui amorosas, asseverou muita confiança e contentamento por o conselheiro Humano ter siso designado ministro.

O conselheiro Coiso, grande paladino da honra, da moral e da ética, teceu uma grande léria sobre companheirismo e rectidão, com a propriedade e autenticidade que lhe é conhecida, atestando que o seu companheiro Humano, amigo de longa data, era tipo mui capaz; a quem, infelizmente, a providência divina tinha retirado as vértebras. 

O comendador das Meirinhas, que não é homem de grandes finezas e lealdades, também quis fazer fala, mas falou tão mal e com palavras tão piedosas para o novo ministro, e tão em desacordo com o conselheiro Coiso, que este nem o quis ouvir. 

Já a arenga ia longa, e o ambiente toldado, quando entrou na sala o conselheiro Jota, mui laborioso e bom falante, responsável e respeitoso, que se foi sentar no lugar do costume. Na sua vez, pediu a palavra que logo lhe foi concedida; e com falas mui ásperas e mui feias, destratou, sempre em crescendo, o Príncipe; Senhor mui poderoso, de grandessíssimas virtudes e bondades, excelentes costumes e manhas, mui generoso e mui cristão; acusando-o de lhe ter retirado, sem causa, ofício e a renda a que tinha direito, e de os ter entregado, de imediato, a um traidor sem direitos. 

O Príncipe mostrou-se mui agastado e mui revoltado com os maus modos e as cousas feias e desonestas que o conselheiro Jota lhe dirigiu; atribuiu o mau pensar ao acidente; e confirmou que retirou o ofício e a renda ao conselheiro Jota por não poder ter ministro desleixado, que passa o tempo na diversão e na politiquice.

O conselheiro Jota replicou, com palavras ainda mais azedas; dizendo que o Príncipe não lhe dava lições de trabalho por nunca ter trabalhado senão na política; e desafiou o Príncipe a apresentar provas do seu mau trabalhar.

O Príncipe, com a cortesia e sensatez que lhe é conhecida, rematou simplesmente: - “Sois só mal criado, e nada mais do que isso”. Alguém sussurrou por entre os dentes: - “Quer parecer tão nobre, mas vezes demais o diabo fala pela sua boca”. 

Terminados os trabalhos, o Príncipe convidou os conselheiros para o tradicional almoço de Natal. Seguidamente, discretamente, chamou o Pança e ordenou-lhe que, em saindo fora do convento, fosse o conselheiro Jota preso, levado para a praça velha, e largado dentro da cisterna.

Um Santo Natal!
Viva o Príncipe!
Viva o Principado!
                                                                                    Miguel Saavedra 

16 de novembro de 2019

De como o Príncipe distribuiu as comendas e ficou com as honras

Três dias antes o do dia do Reino (o mui santo dia de São Martinho), por haver que atribuir comendas a benfeitores que se houvessem distinguido, o Príncipe mandou chamar os do seu conselho ao Convento de Santo António. Todos os estimáveis conselheiros marcaram presença: o comendador das Meirinhas, o doutor coiso, a doutora da Guia, a doutora das Mouriscas, a marquesa Prada, a Educadora-mor, o ministro das Obras-Tortas, e o conselheiro Jota; mui bem assistidos pelo fiel-escudeiro e pela escrivã-mor.
O Príncipe iniciou as práticas com uma arenga mui bem-feita, com grande solenidade, ordem e regimento, tudo em grande perfeição, e bem conforme ao caso. No final, Sua Alteza deu fala aos conselheiros, que mostraram grande descrição e mui singulares virtudes. 
Iniciou as falas o conselheiro Jota, que destoou um pouco mas sem atingir o desprimor e a fogosidade habitual, ao propor ex-deputado da Nação e actual regedor da vila e a noviça actriz de novela oriunda do oeste; figuras que, apesar de mui principais, doutas e afamadas, não poderiam agradar ao Príncipe. 
Destoou também a doutora das Mouriscas, não pelo estilo, sempre dócil e delicado, mas pelo atrevimento nas propostas, ademais e a muito a desagrado do Príncipe, ao propor o cônsul português em terras gaulesas, a caridosa doutora benzinho, a cozinheira do risoto, e outros. 
O comendador, que não é homem de grandes finezas e lealdades, esteve mui discreto e em grande sintonia com o Príncipe; o doutor coiso não acrescentou coisa que para este escriba mereça registo; e a doutora da Guia esteve, como habitual, silenciosa e portentosa.
O Príncipe a todos ouviu, e com muita atenção. Depois, com palavras mui sábias e muitas razões, rejeitou as propostas por serem de figuras que fazem coisas mais a solto do que deviam, ou sem benefício para o reino, ou por razões de serem figuras sem real condição ou merecimento. Dito isto, silenciou por momentos, para dar entrada dos devidos arrimos; que vieram unicamente da Educadora-mor. Feito o compasso, Sua Alteza afirmou que o reino devia agraciar sete barões já assinalados; e porquê sete?, perguntou Ele e respondeu, afirmando que sete é número perfeito e mui cristão.
De balanço, deu Sua Alteza a conhecer, aos do seu conselho, os sete barões assinalados: os ronaldos da Pelariga; o pasquim “Os Doze”, pela grandiosa história e trabalho; a Misericórdia do Louriçal, pela miseração que pratica; o ilustre museu da pradaria, nas terras de Almagra, que pede meças ao museu do Prado; a indústria maxi, pelos plásticos que plastifica;  a associação dos comerciantes, por sobreviver sem comerciantes; e o laborioso albergariense, de criação pobre mas de mui bom coração (“se isto se pode dizer de um pobre”, soltou num aparte), que por terras gaulesas alcançou muitas cousas e muita renda para si; e com alguma acaridou alguns.
E assim, com tudo consentido e mui bem acabado, a prestimosa escrivã assentou tudo o que Príncipe determinou com os do seu conselho. E todos se foram com grande contentamento pelo grande contributo dado ao reino e à humanidade. Excepto o Pança, coitado, que não compreendia tamanha manha e injustiça do Amo, ao não agraciar o irmão, um escravo do regime, aqui e além; que não agraciasse o cônsul, que nunca fora fiel ao regime, percebia-se; agora o irmão, regedor, deputado da Nação e profeta-maior da boa vontade, não! Resmungava por dentro, o Pança, que por fora não o podia fazer sem lhe cair no lombo mais açoites, e sabia bem que ainda lhe falta dar-se muitos, e o espinhaço já está dorido demais.                         
Viva o Príncipe, Viva o Reino.
                                                                              Miguel Saavedra

4 de novembro de 2019

Onde se dá conta do merecido castigo que o Príncipe aplicou ao Pança

O convento de Santo António parece amaldiçoado por almas danadas, pelo demónio; é local de encantamentos, de maus-olhados e de refregas inusitadas. Há muito que o cura Vaz, farto de ouvir mágoas no confessionário, sobre medos e aflições, gritos e emudecimentos, ringido de portas e zumbido nos beirais, tinha sugerido ao Pança benzer e regar todo do convento, com o hissope e muita água-benta. O Pança transmitiu ao Príncipe a bondosa mercê, mas este ignorou-a, por não acreditar que as penitências do cura Vaz cheguem ao Senhor. 
Mas a verdade verdadeira é que o Pança e o Príncipe têm andado fora da Graça de Deus, com questiúnculas e pendências regulares. As práticas para finalizar o Orçamento Régio mostraram o desnorte e descoco reinante, ao ponto de tirarem do sério, e arrastarem para refrega indecorosa, a donzela das Mouriscas. Mas a coisa correu-lhes mal. A donzela das Mouriscas não se deixou enrolar com meia-dúzia de lérias; mostrou ser pessoa mui singular, com virtudes e manhas desconhecidas; descompôs, por atacado, um e outro; e determinou, logo ali, e deixou assentado, que sendo a coisa aprovada seria anulada. O Príncipe ficou muito enojado com as trapalhadas do Pança, e com os agravos deste à donzela das Mouriscas, pessoa que mui estimava.
- Vinde cá, Pança, e explicai-me a trapalhada com o envio das convocatórias para a reunião sobre o Orçamento Régio – ordenou o Príncipe.
- Foi tudo feito conforme os procedimentos, Alteza; se alguma não chegou ao destino, azar o deles.
- Não desconverses, Pança. Dizei-me: foram bem endereçadas? – perguntou o Príncipe.
- Não sei, Alteza; a escrita não é da minha conta – afirmou o Pança. Mas sentindo o Amo insatisfeito com a desculpa, acrescentou: - O amanuense pode ter trocado alguma morada, comete muitos erros, anda deslembrado…
- Se o admitis o erro, Pança, por que não vos desculpastes à doutora das Mouriscas? Por que infernizastes o juízo à doce donzela, com mentiras e agravos, ao ponto de despertares a cólera em tão bondosos peitos? – perguntou o Príncipe, num tom irritado.
- Porque contava com a sua mentira, Alteza. Mas se errei, porque não desfez Vossa Mercê o erro, assumindo-o? perguntou o Pança.
- Porque esse é o teu dever, Pança - és escudeiro, sabeis? – indagou o Príncipe.
- Sei, Alteza; mas neste reino uma pessoa é preso por ter cão e preso por não ter – exclamou o Pança.
- Cala-te, Pança, cala-te – ordenou o Príncipe; - Já devíeis saber que as afrontas que ferem directamente à formosura e presunção das mulheres, despertam nelas grande cólera e acendem o desejo da vingança. 
- Conselhos; sabe Vossa Mercê dar, mas…(cala-te boca) - …- observou o Pança 
-Teus aleives, Pança, o juízo me varam – afirmou, desolado o Príncipe. E prosseguiu:- comigo nunca chegarás a cavaleiro, nunca passarás de simples escudeiro.
- Convosco, Alteza, ninguém sobe, só desce – retorquiu o Pança; e acrescentou: - eu já aderi à causa monárquica, meus feitos hão-de fazer-me cavaleiro – retorquiu o Pança.
- Enganas-te, Pança, enganas-te! Com festas e bolos enganas os tolos, mas não enganas nobres de funda linhagem – afirmou o Príncipe.
- Se até o Senhor os engana, porque não os hei-de eu enganar? – indagou o Pança.
- Cala-te desventurado escudeiro, alma de cântaro, coração de rija madeira, que tantas e tamanhas vergonhas e desafores me tens feito passar, nos últimos dias. Se a janela deste convento fosse mais alta atirava-te pela janela, mas como não é, aplico-te correctivo equivalente: mil e trezentos açoites no lombo. 
- Co`os diabos! Não achai, o Senhor, demais? 
- Não, Pança; até estou a ser meigo; não há ruim estudante de doutrina que os não leve todos os meses – afiançou o Príncipe.
- Perdoai-me, meu Amo. Vos juro e prometo, pelas Chagas de Cristo, que não tornarei a errar.
- Perdoar-te, Pança, perdoarei; depois de cumprido o correctivo – reafirmou o Príncipe.
- O Senhor é muito desagradecido, e vingativo. Mas se tem que ser, que seja; quem está habituado a levar bordoadas, também arca com uns açoites – afirmou o Pança, resignado -; mas dizei-me: - Terei que os levar todos de uma vez?
- Deveria ser, Pança; mas como talvez ficásseis muito dorido, e és necessário, concedo que os fracciones até ao final do ano, duas dúzias por dia, uma de manhã e outra à noite.
- E posso escolher quem mos dá? – perguntou o Pança.
- Não, Pança; a primeira dúzia dar-tos-ei, para que percebas a força como devem ser dados. Os restantes ficam por tua conta, mas terão que ser dados a valer e por tua vontade, não consinto que mão alheia tos dê – a boa penitência deve ser feita pelo próprio, para poder ser agradecida pelo Senhor. 
Oh alma despiedosa! Quem vos devesse fugir mais do que ajudar. Pensou o Pança, mas não o verberou.
                                                                                      Miguel Saavedra

17 de outubro de 2019

Que trata do costumado retiro espiritual do Príncipe

O Príncipe partiu para o costumado e merecido retiro espiritual, onde expiará os seus muitos pecados, e limpará a alma através de um período de clausura, meditação e forte penitência, e reencontrará, assim, a paz do Santíssimo Espírito Santo e a Graça do Senhor. 
Antes de partir instruiu o seu fiel escudeiro sobre as prioridades e os modos da ordenança. 
- Pança; vinde aqui…
- Que ordenais, Alteza? – acudiu o Pança.
- Como sabeis; estou de partida para o retiro de S. Josemaria Escrivá…
- Sim, Alteza; sabia mas até já me tinha deslembrado, de tão atarefado que tenho andado a apagar fogos… - afirmou o Pança
- Espero que tudo já esteja serenado, e que, na minha ausência, sejais capaz de colocar na ordem algum rufia mais desvairado – advertiu o Príncipe.
- Ficai sem cuidado, Alteza; deixai isso a meu encargo – afirmou o Pança.
- Não consigo, Pança, porque desta vez quero que assumas as rédeas do reino – ordenou o Príncipe.
- Mui agradecido fico, Alteza, com tamanha distinção – afirmou o Pança; mas Vossa Mercê conhece bem os múltiplos afazeres em que me desdobro: no reino, no meu condado, no partido, no glorioso, e em mais meia dúzia de agremiações…
- Já te avisei, Pança, que és meu escudeiro a tempo inteiro, e só deveis desdobrar-te em afazeres que me sejam úteis – avisou o Príncipe.
- Eu sei, eu sei, Alteza; desculpai-me, e tende sempre mão em mim …– suplicou o Pança.
- Na minha ausência quero ordem e disciplina neste convento, e resposta atempada de todos os pelouros, e rédea curta nos ministros, e vigilância apertada ao jota fusco e a todos os desalinhados – ordenou o Príncipe.
- Se Vossa Mercê o queredes, o teredes. Mas não julgais, Senhor meu Amo, que é carga em demasia para este humilde escudeiro; logo, agora, que Vossa Mercê está pejado de pelouros? 
- Sempre estive, Pança. E bem sabeis que os tenho exercido todos - com a tua prestimosa ajuda – afirmou o Príncipe. 
- Eu sei, Alteza; mas se o Senhor já me tivesse feito cavaleiro, como prometido, ainda vá que não vá…– redarguiu o Pança.  
- É promessa que não ficará por cumprir – garantiu o Príncipe -; mas tereis antes que passar por esta prova.
- Sim, Alteza; percebo que a escadaria do poder tem mais degraus que um escudeiro julga – anuiu o Pança.
- Se cumprirdes com distinção esta prova, só vos ficai a faltar a prova da conquista do poder no partido – afirmou o Príncipe, e atirou de seguida: Mas dize-me lá, Pança: como está essa empreitada? 
 - O que sei dizer a Vossa Mercê — respondeu Pança – é que a empreitada está mui dificultosa: faltam-me apoios: o ex-ministro jota fusco, o Manel e muitos outros dizem que não posso estar sentado em mais cadeiras…- afirmou o Pança, desgostoso. 
- A seu tempo, trataremos dessa empreitada – afirmou o Príncipe. E acrescentou: - Agora, tereis que cumprir esta decisiva etapa da tua ascensão.
- O que tem que ser, tem que ser…- anuiu o Pança
- Mas sede cauto, Pança; faze gala da humildade da tua linhagem, não te deslumbres; esforça-te para te mostrardes pessoa assisada e cordata, evita os agravos, e tende moderação na língua, no trato e nos modos – avisou o Príncipe. 
- Ficai descansado, Senhor meu; procurarei fazer tudo no seu nobre registo – anuiu o Pança.
- Deus te guie, Pança, e te governe – desejou o Príncipe.
- Mui obrigado, Alteza; e graças ao Senhor e a Deus Nosso Senhor – gratulou o Pança.
No dia seguinte, bem cedo, antes de todos, o Pança subiu as escadarias do convento de Santo António e sentou-se na poltrona. Estava inchado e apreensivo com tamanha prova, desejoso de mandar e receoso de errar - não sabia por onde começar. Veio-lhe à cabeça a ideia de nomear um escudeiro, que bom jeito lhe fazia, mas no seu pessoal nem valia a pena procurar, e fora do seu poiso não confiava em ninguém. Pensou contratar alguém, mas logo abandonou a ideia; se o ministro jota fusco tinha sido despachado por menos; ele, mesmo com mais créditos, não poderia arriscar chumbo nesta etapa. Nisto, bateu-lhe à porta o ministro das-obras-tortas; vinha dizer-lhe que os buracos nas obras novas já tinham sido remendados, e que era preciso anunciar o feito, ao que ele replicou com um “alto lá, Obras-tortas, não nos faças passar mais vergonhas, deixa ao menos passar o Inverno, e reza para que ele não passe por ti”.
                                                                                   Miguel Saavedra

26 de julho de 2019

Do que sucedeu ao nosso farpeiro-mor nas festas do reino

Ia mui descansado, o nosso farpeiro-mor, festejo adentro, quando lhe saiu, da casa em ruínas, um fantasma que o interpelou:
- Ó! farpeiro-mor! Aonde is? Que andais aqui fazendo, sozinho, noite adentro, correndo mil perigos?
O farpeiro-mor estremeceu, parou, mirou o fantasma, e não respondeu; quando se preparava para retomar a marcha, o fantasma insistiu:
- Se vindes à procura de diversão, tende dó dos teus pés, cospe na entrada e torna sobre eles. Que fazeis por aqui? Por que vos perdeis no meio de tanto devoto, num arraial sem luz, sem alegria e sem cor? Ide de volta; afastai-vos do incenso, da neurose religiosa, desta devoção sem honra nem glória, que todavia fará notícia! Maldita terra que é administrada por um soberano que pensa que é o Rei Sol, e tem um pároco que se julga Papa.
- Quem sois, fantasma indiscreto, e que de mim requeres? – perguntou o farpeiro-mor.
- Pacientai, valente farpeiro; esta alma penada é fã vossa – recomendou o fantasma.
- Não perco tempo com fantasmas…- retrocou o farpeiro-mor.
- Sois mui desagradecido, farpeiro-mor; mui e boas farpas vos poderei ofertar – afirmou o fantasma; e prosseguiu: neste reino e neste convento, já fui quase tudo; agora sou bobo da corte – faço espírito com os pobres de espírito.
- Que fazeis, aqui, nesta casa em ruínas? - perguntou o farpeiro-mor.
- Refugiu-me aqui para fugir do Convento Assombrado – afirmou o fantasma.
- Assombrado…? - perguntou o farpeiro-mor.
- Pior, farpeiro-mor, muito pior: amaldiçoado por almas danadas. Vós não sabeis metade do que por lá se passa, ou como diz o rifão, só sabe o que se passa no convento quem está lá dentro. Desconfio que foi amaldiçoado pela alma danada do Sebastião José de Carvalho e Melo, que eles tanto veneram, que pela veneração talvez tenha sido absorvida pelo soberano e rapidamente passada ao escudeiro...
- Cala-te! – exclamou o farpeiro-mor – poupai-me à ladainha do bruxedo. Não tendes vivido muito tempo nesse pântano?
- Porque preciso, Farpeiro-mor, tal como vós precisais. Bem-aventurados os que partiram, e já foram muitos, e muitos mais iriam se pudessem; mas como não podem, têm que suportar este inferno, Satanás e Barrabás – afirmou o fantasma, e prosseguiu: Acreditei – acreditámos – que, depois do provinciano desbocado, seriamos governados por um grande homem. Enganei-me. Saiu-nos um cabeça-grande. Há homens que carecem de tudo, conquanto tenham qualquer coisa em excesso; a esses chamo eu aleijados às avessas: têm pouquíssimo de tudo e uma coisa em demasia. O nosso soberano é um cabeça-grande, um dominador, com uma cara malvada e uma alma vã, que nunca descarta as suas baixezas que tem à mistura com as suas grandezas. Neste convento, não se consegue estar uma hora em sossego: ora é cólera ao soberano; ora são as sandices, os agravos ou os maus modos do escudeiro.
- Dizei-me: com tanto reparo, o Pança ainda não aprendeu nada? – perguntou o farpeiro-mor.
- Pior, caro farpeiro-mor; piorou! Não se percebe se por ser duro da cabeça ou por falta de miolo (que para o mal, o tem). O certo é que, tanto procura parecer uma criatura de bem, como, logo a seguir, procura fazer quantas sensaborias pode, sempre pela via mais a desmodo. Tornou-se um espanta gente. Precisava que alguém o obrigasse a comer uma dúzia de sapos, duas de lagartos, e três de cobras.
                                                                                  Miguel Saavedra

23 de maio de 2019

Onde se dá conta da mui importante viagem do Príncipe e da ascensão do Pança

Há muito que Sua Alteza se vem afastando das miudezas do reino - se alguma vez esteve verdadeiramente focado nele -, mas nos últimos tempos tem abusado em demasia no desapreço aos seus vassalos e ao povo: não aparece, não avisa nem envia subalterno.
Valha-nos, em contrapartida, o apego do seu fiel escudeiro: um moiro de trabalho que se desdobra pelo reino e pelo seu condado, e ainda dá uma mão pelo glorioso.
Sua Alteza está numa fase em que prefere o bom passadio ao exercício do poder. Partiu para terras gaulesas e reinos Balcãs, agora acompanhado pela Senhoríssima Primeira-dama - mui distinta, cordata e discreta senhora, de trato mui cortês e carácter mui assisado. Esteve bem, agora, Sua Alteza, no respeito pelo protocolo monarquista, fazendo-se acompanhar pela Senhoríssima Primeira-dama e não pela viçosa marquesa.
Fez bem, também, em delegar no Pança a governação do reino; que, dotado de astúcia plebeia e já entendido nas artes da governação, é mais confiável que os seus subalternos.
No primeiro dia, o Pança manteve-se no seu posto; mas depois da saída dos servidores do reino testou o trono; quis sentir se tinha rabo para aquela cadeira, antes de nela se instalar.
Ali sentado, com grandessíssimo contentamento, dizia ele entre si, que via agora, antes do tempo, e contra a lei das suposições razoáveis, os seus desejos premiados: estar ali sentado, acima de todos os servidores do reino: artífices e amanuenses, gentis-homens e nobres, oficiais e ministros, condessas e marquesas. Estava inchado como uma rã ao sol, capaz de rebentar pelas costuras; alargou o laço da gravata e desapertou o cinto; relaxou um pouco, antes de se empertigar novamente para dar graças ao céu; a Deus-Nosso-Senhor; à N.ª Senhora do Cardal, que suavemente sabe dispor as coisas; à grandeza que em si encerra a profissão de fiel escudeiro, que com tanto denodo e galhardia tem sabido praticar; ao seu Amo, que não é tão desagradecido como o pintam, seus ingratos e cavalgaduras preguiçosas e maldizentes. Apetecia-lhe berrar tão alto que todos ouvissem, “se trabalhásseis como o Pança seríeis reconhecidos, que ele nem tem por trabalho o que faz, antes por vida mui regalada, o andar distribuindo reprimendas e açoites por um e por outra, que o rebanho não se ajunta nem se conduz sem uma verdascada aqui e outra acolá”. Mas veio-lhe à cabeça cisma acertado, que o aconselhava a mostrar sossegada compostura, e a só responder a desaforos, de um ou outro bacharel ou amanuense que lhe tem osga, se o desafiassem. O dia fechava-se; apertou o cinto, ajustou o casaco e foi-se…
No dia seguinte, entrou no Convento de Santo António com o sorriso largo que o caracteriza, cumprimentou todos com boas-maneiras, dirigiu-se ao trono e sentou-se; irradiava felicidade; distraiu-se até a ouvir o chilrear dos pardais nas varandas do convento, mas logo se lhe despertou na cabeça a estúpida boa vontade do fazer mas não sabia o que fazer. Conteve-se! Já sabe por experiência própria que os bons comedimentos evitam desmandar-se.
A meio da manhã, sentiu que era tempo de iniciar funções. Fê-lo pelo início, como mandam as regras da boa governação, e como bem tinha aprendido com Amo mui douto. Mandou chamar os ministros e entregou: o despacho da papelada - que ele não gosta de ler e sabe que é arriscado assinar sem ler - e a representação na cerimónia de condecoração do coveiro-mor, pelo bombeiral, ao ministro das obras-tortas; a pasta das relações públicas à marquesa e à educadora-mor; a representação no 90.º aniversário da associação do jogo-do-pontapé-na-bola ao ministro jota, à qual faltou; repreendeu-o mas evitou dar-lhe castigo maior, já que o rapaz está fragilizado demais e o último empurrão deve ser dado por Sua Alteza; não por ele, que depois disto, não está para voltar para trás...
                                                                                      Miguel Saavedra

15 de abril de 2019

Que trata da primeira saída que o Pança fez como governante

O Príncipe decidiu aceitar o honroso convite do Conde de Nanterre para assistir às festividades do mui cristão povo irmão. Chamou o Pança para lhe comunicar os contornes da expedição a terras gaulesas: 
- Pança; apresentai-vos no trono.
- O que desejais, Alteza? – acudiu o Pança.
- Vou participar, como convidado de honra, nas festividades do condado amigo de Nanterre. Ireis acompanhar-me no duplo papel de meu escudeiro e de governador do teu condado.
- Meu mui digno patrono e amado Príncipe, Vós sois tão agradecido. Oh Deus! Abençoado dia que me fizestes escudeiro deste Senhor meu amo.
- Partiremos daqui a três dias, deveis empregar estes dias a preparar esta mui honrosa visita oficial.
- Ficai descansado, Senhor meu. Eu dedico o dever, assim como a alma, primeiro a Deus, depois a Vossa Alteza – afiançou o Pança; e não havendo mais a tratar, saiu depois de fazer uma vénia mui curvada.
O Pança não estava à espera de ensejo tão gostoso. No regresso a casa, conversava consigo mesmo e questionava-se por que é que o Amo não se tinha feito acompanhar pela marquesa, que tanto gostava de o acompanhar, e Ele de ser acompanhado por ela; por que não tinha optado pelo seu devoto vice; ou até pelo ilustre representante do Reino nas Cortes. Ia intrigado e eufórico para contar à sua amada esposa tão honrosa distinção.
O Príncipe reuniu com o Pança na véspera da partida para verificar se estava tudo em ordem e para dar alguns conselhos ao Pança sobre bons modos e comedimentos nos contactos com os gauleses, povo de fino requinte, merecedor de toda a nata da cortesia e de toda a flor das bem-criadas cerimónias. Recomendou-lhe que se esforçasse para se mostrar discreto, contido na fala e à mesa, pessoa mui assisada e cordata. Já na relação com o povo irmão, não achou o Príncipe necessário qualquer reparo - o Pança sabe movimentar-se, melhor que ele, entre iguais. O Pança asseverou, a Sua Alteza, que não receasse que ele se desmandasse, nem que dissesse coisas que não viessem bem a pelo, já que ainda não se tinha esquecido dos conselhos que há pouco tempo Sua Alteza lhe tinha dado, sobre o falar muito ou pouco, bem ou mal, comer pouco e beber menos.
Partiram. A viagem correu sem contratempos com o Pança sempre solicito a desimpedir o caminho a Sua Alteza. À chegada, o Príncipe reforçou as recomendações:
-  Sede cauto nesta primeira: faze gala da humildade da tua linhagem, Pança, e não tenhas desprezo em dizer que és filho de jornaleiro; ufana-te mais em seres humilde virtuoso, que pecador soberbo; não vos despeiteis, não vos metais onde não sois chamado e não deis conselhos a quem vo-los não pede.
- Procurarei fazer tudo conforme vossas sábias recomendações, Majestade, mas se me estiver a desmandar dai-me um sinal que logo porei remate a alguma tolice – afiançou o Pança.
O Príncipe e o Pança foram recebidos com pompa e circunstância pelos nossos irmãos e com muito donaire pelos gauleses. O Príncipe esteve soberbo, com muito donaire e nobreza. O Pança, sempre inchado e pomposo, não cabia em si de contente; foi discreto com os gauleses e igual a ele próprio com o povo irmão. Foi apresentado como governador de um condado do Reino, discursou no seu registo efusivo, distribuiu elogios e convidou o povo irmão para o próximo Festival da Fava, no seu condado. Depois, foi um mordomo de engenho alegre e desenfreado: distribuiu cumprimentos e cortesias, retratou e fez-se retratar, pôs-nos ao corrente daquela grandiosa jornada com retratos artísticos e mensagens eloquentes.
O Pança ficava por lá mais uns dias, seduzido como estava pelos atrevimentos lascivos das donzelas chiques desguardadas. Mas o Príncipe relembrou-lhe que estamos na quaresma  e que não poderiam faltar à Missa da Ceia do Senhor e Lava-pés.
                                                                                                      Miguel Saavedra

6 de fevereiro de 2019

Que trata da desventura do Pança com os mandos do Príncipe

Os últimos dias têm custado a passar ao socarrão Pança, tem andado mui atormentado, ao ponto da sua maria já ter notado a mudança de espírito e lhe ter recomendado “tomai cuidado com o aziado! Quem assim procede acaba sempre mal”. Mas o desconsolo do Pança, com os últimos mandos do Príncipe, parece ser daqueles que nem consolação admite; anda roído por dentro e alterado por fora, de noite não prega olho, de dia não tem maneiras - se alguma vez as teve –, anda de maus-feles, dá ordens e reprimendas a todos e sobre tudo; não lhe sai da cabeça a injusta entrega da mui cobiçada chefatura do apoio aos idosos à filha do mais miserável traidor, inimigo ruim demais para viver, aqui ou alhures, quanto mais para receber prebendas; não entende, diz ele, a razão da sem-razão de tal escolha, que contrabalanço Sua Alteza procura, por que desbarata tão valiosa mortalha com tão ruim defunto, que nada tem para dar e tudo pode deitar a perder; não saberá, Sua Alteza, que há muita prosélita à espera duma graça ou de alguma migalha do poder, e vai dar valiosa prebenda ao inimigo, catano; as prebendas têm que ser bem dadas, primeiro os nossos, depois os de ninguém, e depois de depois acabou-se; neste negócio da política quem cai cai e acabou-se.
O Pança sabe que precisa de se conter para não desagradar ao Amo, que incenso e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, mas tem necessidade de um pouco de ruibarbo para purgar a sua demasiada cólera; vai daí, sendo muito devoto da N.ª Sr.ª do Cardal e do Santo P.e Amaro, buscou protecção na providência divina, já se fez confessar pelo padre Vaz, que lhe prenunciou penitência ajustada, jejuar uma semana somente a pão-e-água, ao que ele pensou contrapor que preferia rezar um mês com sopa da pedra e carne barrosã, mas, pelo sim pelo não, anuiu, e lá foi cumprindo, com um ou outro deslize menor, que o corpo é fraco e Deus é amigo, e o festival do glorioso, na casa do rival, não poderia ficar sem festejos a preceito.
A danação interior do Pança, reprimida mas mal contida, não passou despercebida ao Príncipe, que deixou a coisa moer até ao ponto certo. No final do dia de despacho, perguntou-lhe:
- Por que andais tão aziado, Pança?
- Desculpai-me a franqueza e fraqueza, Alteza, mas tenho andado com o miolo em ânsias desde que o Senhor brindou o nosso maior traidor e inimigo com valiosa prebenda – replicou o Pança.
- Sois mesmo de entendimento boto, Pança; e ainda não aprendestes nada da arte de mandar e ser obedecido – retrocou o Príncipe.
 - Desculpai-me o reparo, Alteza; posso ser de entendimento fraco, mas tanta bondade condiz mais com frade – retorquiu o Pança.
- A bondade das coisas, Pança, depende do momento e do intento. O teu reparo é tão sem sentido que me parece será tempo perdido o que se gastar para te convencer da minha subtileza e da tua simpleza – Rematou o Príncipe.
Oh alma despiedosa! Quem vos devesse fugir mais do que ajudar - pensou o Pança, mas não o verberou.
                                                                                                Miguel Saavedra