Quando domingo à noite se contarem os votos, é bem provável que Narciso Mota abra aquele riso do costume, orgulhoso do "Povo de Pombal". Não tenho grandes ilusões neste acto eleitoral, como se estivesse conformada em esperar mais quatro anos para voltar a ter esperança. Nessa altura, Diogo Mateus ou Adelino Mendes hão-de dar uma volta a isto. Com ideias e projectos que deixem a esfera redutora da gestão corrente. Porque é disso que se trata há 16 anos. Não há uma ideia para Pombal. A Câmara tem sido uma
espécie de comissão de melhoramentos em grande escala, que
constrói edifícios sem se preocupar como é que lhes há-de dar vida depois. Lembro-me, assim, de repente, do Teatro-
Cine. Uma espécie de barriga de aluguer sem programação própria. Bem recuperado (como competia a qualquer Câmara), seria um meio excelente para outros fins culturais. Verdade?Mas
convencionou-se que a cultura era servida em
flutes, no café concerto, embrulhada por uma empresa municipal que fez o que quis e ainda lhe sobrou tempo.
O Centro Cultural (só eu e mais meia dúzia é que nos devemos lembrar de que se chama assim), vulgo Celeiro do Marquês. Exemplo maior de que uma autarquia pode e deve preservar e aumentar o património, mas com o mínimo de estratégia. Verdade?
O Arquivo Municipal, cujo nascimento teve o dom de tocar o coração mole do presidente que assim reparou (?) um dos erros cometidos ao longo dos anos com vários recursos humanos. Podia e devia ter outro papel e outra função. Verdade?
A Praça Marquês de Pombal, onde enterrámos dinheiro a
rodos para a utilização que se sabe, contando já com o parque, verdade?
Sim, há outra verdade: o engenheiro fez muitas obras. Talvez tantas quantas tinha obrigação de fazer, ele ou outro, desde que com meios à disposição. Mas faltou-lhe (e há-de continuar a faltar) rasgo. Visão. Às vezes convenço-me que não aprendeu nada em 16 anos. De cada vez que ouço falar do concelho charneira humanista e solidário, ou de como "não podemos ser sectários", belisco-me.
De tudo o que ficou por fazer por esta terra ao longo de tanto tempo, custa-me particularmente não termos um parque verde. O meu filho fez-se rapazinho sem nunca ter tido esse privilégio. Gastámos dinheiro (sim, porque o dinheiro é nosso, dos que aqui moramos e aqui pagamos impostos) a ajardinar para encher o olho de concursos floridos, num vislumbre de qualidade de vida que é uma falácia.
Eu tinha pouco mais de 20 anos quando Narciso Mota aqui chegou. O tempo passou, a vida correu, e o homem nunca mais daqui saiu.
Talvez seja mesmo verdade a máxima: cada povo tem aquilo que merece.