29 de junho de 2016

Prioridades invertidas (II)

A Quinta de Sant`Ana está encerrada há largos meses (com tendência para o abandono).
Este executivo está bem à imagem do português típico: não sabe resolver os seus problemas, mas tem (sempre) solução para os problemas dos outros. Não tem solução para os seus imóveis, mas ocupa-se a tratar dos imóveis dos outros.

E era um investimento estratégico, imaginem se não fosse!

28 de junho de 2016

Nota simples

De uma distinção justa e rara (por cá).
Quando se lidera um processo virgem, conflituoso e tortuoso, regulado por leis e regulamentos confusos e discrepantes, as falhas podem ocorrer. Mas quando se tem ética republicana e princípios democráticos sólidos os propósitos nobres são alcançados e reconhecidos. 

Acompanhámos, influenciámos e participámos no tortuoso processo da instalação do Conselho Geral Transitório do Agrupamento de Escolas de Pombal. Regozijamo-nos com esta distinção. Também é nossa razão de existência dar nota do gesto simples e desinteressado e da exemplar cidadania.

20 de junho de 2016

Autárquicas: samba de uma nota só

                                                             Foto: Ricardo Graça, Jornal de Leiria

Uma pessoa esforça-se por encontrar motivos de interesse à esquerda e à direita, contraria a sua natureza, faz de conta que as decisões vão ser tomadas em várias frentes, mas isto parece o fado da sina: "não podes fugir/ao negro fado mortal/ao teu destino fatal/que uma má estrela domina".
A entrada em cena de Narciso Mota condicionou todo o espectáculo. Daqui até ao outono de 2017 será uma vindima farta. Qual capataz apanhado a dormir a sesta, o PSD há-de tentar compor os estragos. Mas como não pode servir a dois senhores, num qualquer momento vai esticar a bota para que Narciso se espalhe. Pode ser já na próxima Assembleia Municipal, para a semana que vem. O problema é que, mesmo com apoio do feitor, Diogo Mateus nunca sairá imune (nem impune) dos estilhaços que esta granada vai espalhando por aí.
Enquanto isso, o PS continuará à procura de quem aceite vestir o fato, agora que Narciso disse que não, que não vai por eles. Está determinado nisto, o homem que tornou o PSD naquilo que ele é hoje: ou vai pelo partido, ou contra ele, como independente. Posto isto, o CDS - cuja cúpula distrital equacionava convidar o actual presidente da Assembleia Municipal de Pombal, contra a vontade da estrutura concelhia - pode dar seguimento ao plano Falcão.

Não é a favor, é a desfavor de Pombal

O normal – e correcto – é as câmaras fazerem as obras que são da sua responsabilidade, e deixarem para o governo as que são da responsabilidade deste.
Mas há câmaras que conseguem inverter isto a seu favor: para além de pressionarem o governo a fazer obras que são da sua responsabilidade, conseguem que o governo faça as grandes obras que são da responsabilidade da autarquia.
Depois, há o caso (especial) da câmara de Pombal que subverte as regras a desfavor do concelho: não faz as obras que são da sua responsabilidade, e oferece-se para fazer - e pagar - as obras que são da responsabilidade do governo.

Nem tudo é normal em Pombal Ocidental…

16 de junho de 2016

Prioridades invertidas

Da CMP saem todos os dias Notas de Imprensa inúteis – propaganda barata que nos fica muito cara.
No entanto, há seis meses que não publicam as actas das reuniões do executivo. Não é por falta de recursos, é por má utilização deles.

Cumpram a lei. 

15 de junho de 2016

Luta de Galos II

Se, como tudo indica, Narciso Mota avançar mesmo, as próximas eleições autárquicas disputar-se-ão entre dois galos bravos: ele e Diogo Mateus. A terceira via caiu, se alguma vez se começou a erguer.
Neste contexto, a concelhia local do PSD limitar-se-á a cumprir, sem grande entusiasmo, a orientação dos órgãos nacionais: apoiar a recandidatura dos presidentes em funções, travando, desta forma, o regresso ao poder dos autarcas que foram afastados com a lei da limitação dos mandatos. Consegui-lo-ão? Em Pombal, as dúvidas são mais do que muitas. Por cá, a tradição diz-nos que o candidato do PSD vale mais que os outros todos juntos, mas Narciso Mota, neste momento, valerá mais do que qualquer candidato do PSD, nomeadamente o actual presidente da câmara.
Narciso Mota é uma ameaça terrível para todos, porque é favorito e tem uma autonomia estratégica invejável: ganhando, ganha a todos, e, perdendo, não perde nada. Cientes disso, os outros partidos movimentam-se para o aliciar ou apoiar, se avançar como independente. É uma opção que parece interessante – oportunidade de ganhar alguma coisa sem esforço - mas que não assegurará ganhos a nenhuma das partes, nomeadamente a Narciso Mota, cuja força advém do povo, não de estruturas partidárias - para ele são parcelas que não somam, reduzirão até o seu espectro eleitoral.
Diogo Mateus enfrentará uma batalha de ganha-ou-morre. Se ganhar afasta definitivamente a ameaça, se perder morre politicamente, sem glória e sem honra. Ficará para os anais da política local como a histórica de um príncipe que em pouco tempo perdeu um reino pacificado e rico.

8 de junho de 2016

Luta de Galos

Em Pombal, as eleições autárquicas, previstas para o ultimo trimestre de 2017, já estão ao rubro, com três candidatos – dois galos e um frango - do mesmo galinheiro, cobiçando o mesmo poleiro.
Ontem realizou-se a primeira refrega: longa (até às duas da manhã) e duríssima (com muita bicada e descompostura), mas sem triunfador. Tudo correu conforme os propósitos: eliminar ou enfraquecer os galos de crista-alta para fazer avançar o frango. O confronto mostrou a política partidária no seu esplendor, repleta das suas misérias e das suas grandezas. Podem não respeitar Narciso Mota, mas respeitar o PSD local é respeitar o muito que Narciso Mota deu ao partido.
A forma como decorreu a refrega confirmou o que sabíamos: (i) o partido não quer o regresso de Narciso Mota; (ii) o partido gostaria de afastar Diogo Mateus; (iii) o partido gostaria de avançar com Pedro Pimpão - sabe-se por quê e para quê, mas amanhã ainda não será a véspera desse dia.
Daqui se conclui que a vida não está fácil para ninguém. Mas o caminho fica claro para os diferentes protagonistas: Narciso Mota deve fazer o seu caminho, independentemente do dos outros, porque não precisa do partido, o partido é que pode precisar dele; Diogo Mateus tem que “usar” cargo e desgastar Narciso Mota, mas o problema está na dose, e aí já demonstrou inépcia no doseio do fel; Pedro Pimpão e os dirigentes a si ligados têm a delicada empreitada de gerir uma guerra e participar nela.
Está renhida a luta. Infelizmente só com galos da mesma capoeira. Na política, tal como na economia, a fortuna e a penúria andam sempre ligadas, são o resultado de vasos comunicantes descompensados, sabiamente estabelecidos.

4 de junho de 2016

Uma aposta ganha


Depois da estreia da nova produção do TAP (em parceria com a AJIDANHA, Companhia de Teatro de Idanha a Nova), o momento alto do Festival de Teatro de Pombal 2016 acontece hoje, às 21h30, no Teatro-Cine de Pombal, com a apresentação de Electra, pela Companhia do Chapitô. É o regresso a Pombal de um grupo que grande qualidade, num evento que constitui a mais sólida aposta cultural da Câmara Municipal de Pombal. Estão de parabéns os promotores pela consistência do projecto.

31 de maio de 2016

O príncipe continua com o passo trocado

O príncipe continua a marchar (muito), mas com o passo trocado: na Educação (e não só) faz o que não lhe compete, e não faz o que lhe compete – anda atarefado na defesa dos contratos de associação com os colégios, e obstrutivo ao desenvolvimento da escola pública.
Resultado: “Nos últimos dez anos, o concelho de Pombal perdeu 30 turmas, 600 alunos. Isto é que é preocupante!”- Como bem lembrou o representante da DEGEsTE na reunião do Conselho Municipal da Educação.

Acerta o passo, Diogo. Até o Passos já viu que esta “guerra” não lhe traz simpatias…

Desnorte no Cardal

Há poucas semanas o gabinete de propaganda da câmara usava todos os canais para divulgar a agenda (cheia) do príncipe. Entretanto, a agenda deixou de estar acessível.
O príncipe está doente, foi de férias ou suspendeu a divulgação da agenda?

A malta gostava de saber…

30 de maio de 2016

A ambição de ser camisola-amarela


Vejo as imagens da manifestação de ontem, organizada pelo Movimento "em defesa da escola, ponto" que desfilam nos murais de muitos amigos.Tudo o que penso sobre o assunto já o disse neste post. A mim também me marcou muito o Instituto D. João V, mas isso não me tolda o pensamento. Revolta-me até às entranhas que muitos não consigam perceber a gravidade e a consequência dos seus actos. E isso vale sobretudo para os dirigentes locais (e regionais) do PS. Quando nas próximas autárquicas, o PSD colocar as unhas de fora, fazendo uso de todo o discurso anti-Governo, anti-PS, anti-esquerda, anti-cortes-nos-colégios-privados, vamos assistir àquele momento hilariante que acontece sempre que vestimos demasiado uma camisola: um dia ela vai à lavagem e encolhe, e depois fica bastante ridícula. Por enquanto são todos felizes, lado a lado, nas fotos. Partilham-se uns aos outros.
Foi com surpresa que assisti à defesa férrea feita por um antigo autarca e dirigente socialista de Pombal, do patrão e dos colégios privados (está tudo aqui, a partir do minuto '25). É com surpresa que assisto às tomadas de posição públicas de dirigentes actuais do que resta do PS em Pombal, numa clara oposição à corajosa medida deste frágil Governo. 
É verdade que, lá diz o povo, "ideologia cada um tem a sua". E esta é uma questão ideológica, sim, que defende um serviço público em vez de coutadas privadas. Se dúvidas houvesse, veja-se a partidarização feita de imediato, enrolando nesse abraço todos os que se deixaram levar. E ainda faltava Assunção Cristas, líder do CDS, num momento infeliz, sugerir ao Estado sacrificar as escolas públicas.
Com amigos destes, o PS não precisa de inimigos.


27 de maio de 2016

Afinal, estamos alinhados

Os resultados comprovam-no: duplicação do número médio de visitas e elevação da linguagem. A explicação por quem estuda estas coisas.

"Depois do abuso, o fim dos comentários online

A nova liberdade oferecida aos leitores por websites e imprensa online nas secções de comentários está a ser abusada por pessoas não identificadas. Não contribuem para mais conhecimento nem valorizam o debate democrático.
Estudos académicos sobre imprensa online nos EUA revelaram que, quando os leitores são expostos a comentários incivilizados e negativos no fim dos artigos, a tendência é para terem menos confiança na peça jornalística que lhes deu origem. The Atlantic, uma revista, descobriu que os comentários negativos conduziam os leitores a ter menor consideração pela notícia.
A codificação da liberdade de expressão tem pouco mais de 300 anos. Em 1689, a Declaração de Direitos aprovada pelo Parlamento inglês estabeleceu que a liberdade de expressão não pode ser impedida. Precisamente cem anos depois, é publicada em França a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Declara a liberdade de comunicação como a primeira das liberdades. Nesse ano de 1789 entra também em vigor a Constituição dos EUA, que estabelece no ‘First Amendment’ que o Congresso não pode aprovar leis que restrinjam a liberdade de expressão.
Em 1948 é adotada em Paris, pela ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Consagra o direito individual à liberdade de opinião e de expressão. Em 1950, é iniciada em Roma pelo Conselho da Europa a ratificação da Convenção Europeia dos Direitos do Humanos que estabelece aquele direito. Em 1976, a Constituição Portuguesa postula, logo no Art. 2º, o direito e liberdade ao pluralismo de expressão. Este conjunto de diplomas revela bem o valor primordial da liberdade de expressão. É preciso cuidar dela.
A Internet veio ampliar os meios disponíveis à liberdade de expressão. Facilitou e multiplicou o alcance da opinião expressa através da propagação em cascata (‘retweet’, ‘forward’, gosto). Esta bênção oferecida à cidadania é por muitos utilizada a favor do bem comum. Fadi Chehadé, CEO da ICANN, a corporação responsável pela estabilidade da Internet, considera que esta é “uma plataforma para a solidariedade”. Mas é também um instrumento para a prática do crime (‘cyber bullying’, fraude, terrorismo, tráfico ilegal de medicamentos e armas, etc.).
A liberdade de expressão é regulada em todas as democracias por dispositivos legais que lhe impõem limites, em particular quando entra em conflito com os valores e direitos de outros como, por exemplo, quando é utilizada para insultar, difamar ou exaltar o ódio. Mas é preciso conhecer quem prevarica para poder acionar a lei.
Esta nova liberdade oferecida aos leitores por websites e imprensa online nas secções de comentários está a ser abusada por pessoas não identificadas. Tem sido utilizada para insultar, difamar, destilar ódios. É raro encontrar-se um debate sério e construtivo. E, aparentemente, são sempre os mesmos autores, alguns deles utilizando vários pseudónimos, que em palavras apressadas e quantas vezes vulgares, promovem ignorância e ideias negativas. Não contribuem para mais conhecimento nem valorizam o debate democrático. Um mundo de diferença civilizacional em relação aos comentários de um jornal como o Financial Times.
A vulgaridade é universal. Muitos jornais americanos aboliram as secções de comentário, apesar de estarem legalmente imunes quanto à responsabilidade por esses conteúdos. Em 2013, a Popular Science desligou os comentários. Em 2014, Recode, Mic, the Week, Reuters, Bloomberg, the Daily Beast também. Dos 137 maiores jornais americanos, mais de 49% não permitem comentários anónimos e pelo menos 9% não têm essa possibilidade. Depois do National Journal ter eliminado a secção, o tráfego online aumentou.
O mais recente abolicionista foi Above the Law, um website especializado em direito. O que tinha começado por ser um sítio de comentário substantivo, transformou-se num meio de propalação de ofensas. Quando antes havia informação sobre sociedades de advogados e piadas, conhecimento relevante e civismo básico, passou a haver commentariat – abusos e insultos.
Uma alternativa à abolição é a (re)introdução de moderação por jornalistas que aprovam comentários dignos de ser publicados. Mas é mais um custo. Diz Above the Law que, num ambiente mediático cada vez mais competitivo, os websites não podem permitir que os seus conteúdos e marcas sejam manchados deste modo. Alguns dos commentariats de Above the Law transferiram a sua bílis para o Facebook. A liberdade de ser vulgar encontrou um ‘escape’".
                                                                                               Nuno Cintra Torres, Investigador e Professor Universitário 

26 de maio de 2016

Nos passos do mestre (II)


Quando Diogo Mateus, na sua tomada de posse, declarou querer seguir o exemplo de Narciso Mota, só pedimos que essa vontade não fosse extensível às tristemente célebres alarvidades do seu antecessor. Qual quê! Bastou sentir-se acossado pela iminente candidatura do agora rival, para vir a público com afirmações boçais e homofóbicas.

Vale a pena ler a notícia do Pombal Jornal. O discurso proferido em Abiúl, "não raras vezes impregnado de ironia", é de um marialvismo tão bacoco que a única coisa que revela é um politico beato, em fim de carreira, numa busca desesperada por algum protagonismo.

Os donos da bola

No meio do parco espírito associativo que caracteriza esta terra, talvez poucos tenham dado conta de que a direcção do Sporting Clube de Pombal está demissionária, há várias semanas.Enquanto os poucos sócios interessados aguardam  Assembleia Geral, a 9 de Junho, a direcção (que esteve menos de um ano em funções) partiu-se em duas listas, potenciais candidatas à liderança do clube. Ou melhor: o presidente demissionário, Manuel Matias, recandidata-se por um lado; do outro aparece José Guardado, candidato à Câmara pelo CDS nas últimas autárquicas, e que já nas últimas eleições era dado como certo na corrida à liderança. Dois professores aposentados, com tempo e vontade para isto. Mas há sempre lugar para o insólito, no Pombal ocidental: dois vice-presidentes do clube, demissionários, usaram esta semana a imagem do Sporting de Pombal para um comunicado (que deveria ser pessoal) divulgado em 1/4 de página no Pombal Jornal. Pergunta para queijinho: qual das listas vão integrar?

24 de maio de 2016

Um cartaz caracterizador

A má arte revela o artista que a produziu, tal como a pedra talhada revela o pedreiro que a talhou.
O cartaz da JSD (na figura) revela o(s) criador(es) e divulgador do cartaz. Se F. Pessoa fosse vivo, diria, ao olhar para aquilo, que “A este género de espírito chama-se ordinariamente apenas grosseria. Nada há mais indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão com pessoas”.
O PSD deixou, há muito tempo, de ser um partido de matriz social-democrata. Talvez nunca o tenha sido se descontarmos o período pós-revolucionário – altura em que, de certeza, não conseguiria ser o que hoje é. Nos últimos tempos, tornou-se um partido ultraliberal, com uma agenda política centrada no desmantelamento do Estado Social (Educação Pública, Serviço Nacional de Saúde e Segurança Social) e até na limitação de outras funções associadas à soberania do Estado. Mas a rapaziada (crescida) da JSD é, ainda, mais extremista do que o partido, o que não surpreende - os dirigentes do partido têm de lá saído, e não tem saído grande coisa.
A colagem do PSD, e da JSD, à polémica do momento sobre os contratos de associação entre o Estado e os colégios privados, revela tudo sobre a agenda ideológica do partido: retalhar a Escola Pública em contratos de associação com os privados, e depois estender o modelo à Saúde e à Segurança Social. Há muito que o PSD abdicou da construção de um Estado melhor, que assegure serviços de qualidade aos cidadãos, para se transformar no maior defensor do Estado subordinado aos interesses particulares.
Esta polémica política não se baseia em critérios de racionalidade económica, é puramente ideológica e emblemática, tanto para a corrente liberal como para a social-democrata. A corrente social-democrata assenta o desenvolvimento da sociedade num contrato social com os cidadãos em que o Estado fornece serviços públicos a todos os cidadãos, com altos padrões de qualidade, e os cidadãos financiam os serviços com impostos. A corrente liberal e ultraliberal – do PSD actual – defende que o afortunado - “os que têm unhas é que tocam viola” - não pode ser reprimido no exercício da tirania sobre os desafortunados.

Nesta guerra ideológica, vale tudo: ataques de carácter, baixeza política, enxovalho de ministros; pincelado com muita ignorância e falta de memória política. O cartaz da JSD inscreve-se neste ardil. 

20 de maio de 2016

Laranja podre


Que o PSD faz do município uma coutada privada, já há muito se sabia. Há quem se incomode mas, pelos vistos, a maioria da população aceita isso passivamente. Entristece-me... O problema é que, perante tanta passividade, a falta de decoro agrava-se e, a partir de certa altura, nem os próprios se apercebem da indignidade das suas decisões.

Vem a propósito da cerimónia de inauguração da nova Casa Abrigo para vítimas de violência doméstica que vai ocorrer hoje, pelas 17 horas, nos Paços do Concelho. Há muito que a APEPI - Associação de Pais e Educadores para a Infância - reclamava da necessidade de uma nova Casa Abrigo e a autarquia, nos finais de 2013, acedeu assumir as despesas da obra, reconhecendo "a importância do projeto e a incapacidade da administração central em poder assumir este investimento". Até aqui tudo bem. 

Mas onde isto tudo começa a cheirar muito mal é no que vem a seguir. Para começar, a Casa Abrigo vai chamar-se Teresa Morais. O nome da antiga Secretária de Estado da Igualdade, cuja ligação a Pombal presumo que seja apenas por ter sido a cabeça-de-lista pela PaF (e antes do PSD) em Leiria às eleições legislativas, vai passar a fazer parte da nossa toponímia local. E mais: como havia necessidade de marcar uma data para a inauguração em que a senhora pudesse cá vir, nada melhor do que fazê-lo para o dia em que se realiza o jantar das Mulheres Sociais Democratas de Pombal. Matam-se dois coelhos de uma só cajadada: cerimónia oficial às 17h; convívio às 20h30. 

Será que só eu é que me incomodo com isto? Estamos todos a pagar - sim, caro Diogo Mateus: o dinheiro é nosso - para os laranjinhas se andarem a bajular uns aos outros? Conseguiram transformar uma iniciativa interessante numa sabujice política. Haja dignidade! 

Quanto mais a luta aquece, mais longe está o PS


As eleições desta sexta-feira vão trazer para a ribalta um novo líder do PS/Pombal. Não conheço o senhor Alberto Gameiro Jorge, mas espero, sinceramente, que esteja à altura dos desafios. É verdade que desconfio sempre de quem só se lembra que é de Pombal no outono da vida - embora, no caso, me pareça que foi alguém que se lembrou por ele - como o próprio admite em declarações ao Jornal de Leiria.
Numa altura em que o PSD está a braços com a pior crise de que tenho memória (a iminente guerra fraticida entre Diogo Mateus e Narciso Mota), seria de esperar que o PS aproveitasse para cavalgar a onda e instalar-se onde há brechas. Mas isso era se o partido existisse entre eleições, se houvesse trabalho feito, e se os dirigentes locais soubessem fazer a destrinça entre o que são problemas internos e a causa pública. Não sou militante (nunca serei) mas já dei a cara e a alma pelo partido, como independente, nas eleições autárquicas de 2013, integrando a lista candidata à Junta de Freguesia de Pombal. E o que aconteceu depois disso legitima-me para questionar um partido que utiliza as pessoas de quatro em quatro anos, para depois as abandonar à sua sorte. 
Como é que um líder local se demite de funções, a pouco mais de um ano das eleições autárquicas, sem dar justificação do acto? 
Esperará ele - e os outros membros da comissão política igualmente demissionários - que os eleitores tenham compreensão pelas razões desconhecidas? 
O que importa ao cidadão comum que as guerras intestinas do PS tenham levado mais de meia dúzia de dirigentes locais do PS a um processo judicial ainda sem fim à vista, por causa das eleições para a federação, há dois anos? Ou melhor: o que interessam as guerras internas ao cidadão comum? Zero. O que falta ao PS - e aos eleitos pelo partido - é qualquer coisa de muito básico: perceber que o eleitorado que, de 4 em 4 anos, às vezes a vida toda, vota naquele projecto político, merece respeito e defesa até ao fim. Que um eleitorado que não se revê na forma como o PSD faz política há 20 anos.
É por isso que a unanimidade não é apenas burra (como dizia Nelson Rodrigues), mas é também uma falta de respeito, quase desprezo, para com aqueles que acreditaram - noutra gente, noutro projecto, noutra forma de estar e fazer política. Ser oposição é isso. É mostrar que há outra forma de fazer as coisas, e ter coragem de o dizer. Já se sabe que ter opinião cria muitos inimigos, mas lá dizia o outro: quem não suporta o calor não se chega a cozinha. 
Como sou crente, fico à espera dessa mudança que aí vem. Até porque identifico no grupo gente de muito valor.
Ou isso ou o PS corre o risco de ser rapidamente ultrapassado pelo CDS nas próximas eleições. É que esse, se conseguir libertar-se do espírito PaF, está com todas as condições para capturar esse eleitorado descontente. O resto, aquele resto que alinha pouco em centralismos, obviamente penderá para a esquerda, em Bloco. Se os candidatos se aproveitarem, claro.