6 de agosto de 2018

A vida cheia precisa de inimigos, e nós de espiritualizar a inimizade

A cultura mole do politicamente correcto, do sim e não, do compromisso cobarde, da paz indolente, que se instalou, nomeadamente aqui, tem conduzido ao apagamento das consciências, à vida frouxa, ao definhamento e à decadência. No Farpas rejeitamos esta forma de estar e de viver; exigimos o possível, o decente, o engrandecedor. Somos diferentes: temos “inimigos” e gostamos de os ter. Temos feito caminho, mas falta caminhar muito. Com grandes mestres fá-lo-emos com sucesso.
“A espiritualização da sensibilidade chama-se amor: ela é um grande triunfo sobre o Cristianismo. Um outro triunfo é a nossa espiritualização da inimizade. Ela consiste em se compreender profundamente o valor que possui o fato de se ter inimigos. Em resumo: frente ao modo como se agia e concluía outrora, se age e conclui agora inversamente. A igreja sempre quis, em todos os tempos, a aniquilação de seus inimigos: nós, imoralistas e anticristãos, vemos nossa vantagem no fato de que a igreja subsiste... No campo político, a inimizade também se tornou agora algo mais espiritualizado.
Muito mais prudente, muito mais meditativo, muito mais cuidadoso. Quase todos os partidos compreendem que os interesses de sua auto-conservação apontam para a necessidade dos partidos opositores não perderem suas forças; o mesmo vale para o grande político. Uma nova criação sobretudo, algo como um novo império, tem os inimigos como mais necessários do que os amigos: somente na oposição ele se sente necessário, somente na oposição ele se torna necessário... Nós não nos comportamos de modo diverso frente ao "inimigo interior": também aí espiritualizamos a inimizade, também aí compreendemos seu valor. É preciso ser rico em oposições, e só pagando esse preço que se é fecundo; só se permanece jovem sob a pressuposição de que a alma não se espreguiça, não anseia pela paz... Nada nos parece mais estranho do que o que era desejável outrora, o que era desejável para o cristão: a "paz da alma". Nada nos deixa menos invejosos do que a vaca moral e a felicidade balofa da boa consciência. Renunciou-se à vida grandiosa quando se renunciou à guerra: Em muitos casos, por sorte, a "paz da alma" é apenas um mal-entendido, - algo diverso que apenas não sabe se denominar de um modo mais honroso. Sem rodeios e preconceitos, aqui temos alguns casos. A "paz da alma" pode ser, por exemplo, a irradiação suave de uma animalidade rica no interior do campo moral (ou religioso). Ou o começo da fadiga, a primeira sombra que a noite lança, qualquer tipo de noite. Ou um sinal de que o ar está húmido, de que o vento sul se aproxima. Ou a gratidão inconsciente por uma digestão feliz (às vezes chamada "amor aos homens"). Ou a aquietação do convalescente, para o qual todas as coisas possuem um novo sabor, e que espera... Ou o estado que segue a um intenso apaziguamento de nossa paixão dominante, o bem-estar de uma saciedade rara. Ou a senilidade de nossa vontade, de nossos desejos, de nossos vícios. Ou a preguiça, convencida pela vaidade a adornar-se moralmente. Ou a entrada em cena de uma certeza, mesmo de uma certeza terrível, depois da tensão e do martírio produzidos pela incerteza. Ou a expressão da maturidade e do domínio em meio ao agir, criar, efectivar, querer, o respirar tranquilo, a "Liberdade da Vontade" alcançada... Crepúsculo dos Ídolos: quem sabe? Talvez também apenas um tipo de "Paz da Alma"..."

3 de agosto de 2018

Bodo on tape, pessoal!


Eu até percebo os jovens que se querem divertir e ter algum protagonismo junto dos amigos. Agora a Rádio Cardal alinhar numa rubrica que de criativo apenas tem o conceito e de qualidade nem se fala, é que custa ver. 

Esta iniciativa da Rádio mostra que há espaço em Pombal para projectos arrojados, originais, irreverentes. Mas o ser "diferente" não justifica tudo e os nossos filhos nem sempre são os artistas que gostávamos que fossem. Se for para repetir a experiência - como espero - deixo um repto aos jovens protagonistas: revejam o que fizeram, sejam os vossos maiores críticos e trabalhem (muito) mais. O vosso potencial só tem hipótese de se traduzir em algo interessante se forem muito mais exigentes convosco próprios. 

Deixo também este último conselho também à Rádio Cardal. Sou um grande defensor das rádios locais e, por isso mesmo, contem sempre comigo para vos criticar. Acredito no sucesso dos meios de comunicação regionais de qualidade, geridos com rigor, comprometidos com as causas sociais da comunidade em que vivem, que saibam recuperar as redes locais de identidade e não cedam à tentação da subserviência ao poder. Já não acredito em projectos que valorizem o supérfluo e descurem o essencial. 

1 de agosto de 2018

A eficácia da farpa


Menos de 24 horas separam estas duas imagens do prédio 'Carlos Baptista'. Depois da denúncia feita aqui, no domingo à tarde, as pedras foram removidas do local e os mínimos de segurança repostos.
Falta-nos contar, ainda, que a estrada que liga os Motes aos Malhos começou a ser pavimentada no dia seguinte à denúncia pública do processo movido ao munícipe contestatário
E isso é tudo o que importa: que isto de denunciar sirva para melhorar o que está mal. 

31 de julho de 2018

Onde se narra a mui digna sessão de abertura do bodo


A sessão de abertura das Festas do Bodo teve muita solenidade e classe, com uma falha ou outra que não comprometeram a grandiosidade do momento. Os serviços já tinham estado muito bem no lançamento da primeira pedra do lar para os confrades - com o estear das bandeiras; recepção das autoridades eclesiásticas e políticas; banda filarmónica; cerimonial e discursos eloquentes -, mas a sessão de abertura das Festas do Bodo superou em muito o ensaio geral.
O Príncipe esteve portentoso: sereno, douto e gracioso – liberto de qualquer ódio baixo ou mal nascido, distribuindo graças e venturas por todos os presentes e alguns ausentes – clérigos, governantes, políticos, confrades, beneméritos e avarentos, vivos e falecidos, etc. Na oratória esteve sublime: registo bilingue; sermão em tom evangélico, inspirado com certeza na epístola de S. Paulo ao Coríntios, cheio de reminiscências bíblicas entrelaçadas com laivos profanos; palavras e frases bem escolhidas que tocam sempre as almas mais sensíveis.
O Pança esteve bem, também; mas com algumas falhas no protocolo. A maior – indesculpável – foi ter atirado Sua Excelência Reverendíssimo Bispo para a plateia quando deveria encimar a cerimónia, como é do protocolo nos reinos confessionais - como o nosso. Não menos desculpável foi ter atirado, igualmente, o nosso deputado para a plateia – parece que neste reino já não venera as altas figuras da República. Por outro lado, esteve bem o Pança ao puxar o sr. comendador para cima – e viu-se bem o quanto ficou feliz com a distinção. Mas o que não ficou nada bem ao Pança foi andar a distribuir copos de água durante a sessão. Um escudeiro-mor, que já é governador de um condado, e a quem o Farpas augura promissora carreira política, não pode ser pau-para-toda-a-obra. Bem sabemos que lhe falta gente; culpa sua: se não tivesse infernizado a vida à noviça de Alitém, ao ponto de lhe ter posto a cabeça-em-água, tinha uma prestimosa ajuda para estas situações mais exigentes.
Para finalizar uma referência – merecida - à Marquesa Prada: esteve portentosa, com muita “finesse” e deslumbrante (em contraste total como o tom mate geral).
                                                                                Miguel Saavedra (cronista do reino)

30 de julho de 2018

Sessão de abertura das Festas do Bodo

Uma coisa digna da Assembleia Nacional (Estado Novo).

É tudo uma questão de fé


A regeneração urbana deveria estar obrigada a cumprir os mínimos em matéria de segurança. Em plenas Festas do Bodo, com milhares de pessoas a passar entre o Largo do Cardal e a Rua de Albergaria dos Doze, o cenário é este: é só escolher a pedra para atirar.
Estamos em crer que a fé move montanhas, assim como segura o perigo. Só assim se compreende que a Câmara permita uma coisa destas.

27 de julho de 2018

Em que se narra a desgraça do ministro das obras-tortas

No regresso das amarguradas férias, o ministro das obras-tortas tinha à sua espera uma dura acareação com o Príncipe e o seu fiel escudeiro. O escarcéu dos Malhos tinha deixado feridas profundas que tinham que ser limpas e tratadas. Quando o ministro das obras-tortas se apresentou no trono, já Pança e o Príncipe o esperavam. Apresentou-se mortinho e com cara de enforcado. Retraído como é, pediu licença para entrar, mas não chegou a ouvir a resposta; logo o Pança se adiantou: - Senta-te. Tens muitas explicações para dar, e lições para apreender.
Começou o Príncipe: - Explicai-nos, ministro das obras, duas coisas só: primeiro, que andais a fazer para deixardes ficar a estrada para os Motes naquele estado; segundo, como foi possível gerardes sozinho tamanho escarcéu mediático?
- Desculpai-me o sucedido, Alteza; que tamanha vergonha nunca eu passei, nem espero jamais passar…
Ao que logo interpôs o Pança: - se não ganhardes mais esperteza vais passá-las. Ai vais, vais!
- Posso continuar…- perguntou o ministro das obras-tortas? 
Ao que o Príncipe respondeu: - Deixai-o explicar-se, Pança.
- Então, continuando: a estrada ficou sem reparação porque acertámos em deixar atrasar aquilo para podermos receber algum dinheiro dos fundos…
- Aquilo não é uma estrada – rematou o Príncipe irritado.
- Pois não, Alteza – anuiu a contragosto o ministro das obras-tortas. E acrescentou: - as coisas vão-se degradando e os serviços nem sempre conseguem tocar tanto burro como temos para tocar.
- Aqui só houve um burro – afirmou o Príncipe.
O ministro das obras-tortas ignorou o comentário do Príncipe e prosseguiu nas desculpas: - sobre o escarcéu mediático, nem me fale, Alteza. Nunca imaginei que a queixa caísse nas mãos dos maldizentes – afirmou o ministro das obras-tortas. E acrescentou: - mas queixas às autoridades é coisa que se faz amiúde…
- Fazem-se mas é preciso saber fazê-las – replicou logo o Pança. E acrescentou: - e essa pasta é minha…
- Mas eu sou vice-governador, com a atribuição da ligação com as autoridades oficiais – lembrou o ministro.
- Para que vos meteis nestas coisas? - perguntou o Príncipe. E acrescentou: - Tendes tanto que fazer nas obras, que bem atrasadas estão; evitai pendências para as quais não tendes destreza.
- Desculpai-me, Alteza; em pena de ter infringido as leis da estadística e ter causado este grande desaforo; que Deus vos conceda dar-me merecido castigo (uns açoites).
Ao que o Pança contrapôs logo: - Os açoites não reparam os descómodos que estamos a sofrer, e ódios destes não se anulam com açoites no malfeitor.
- Nisto que nos agora aconteceu — tornou ministro — quisera eu ter tido o entendimento e a sabedoria que Vossa Mercê sempre tem nestas delicadas alturas; mas eu lhe juro, à fé de pobre homem, e do fraco entendimento que possuo nas manhas da política, que não repetirei tamanho dislate; e que se não fosse por saber, que todos estes descómodos andam muito anexos ao exercício da política, aqui me deixaria morrer de pura vergonha – afirmou o ministro.
- A tua desventura – que também é nossa - é daquelas que nem consolação admite. O pior nem é o muito mal que nos fizeste, é o muito que engrandeceste os maldizentes – devem estar bem inchados com tanta as visualização – retorquiu o Pança.
- Eu sei, eu sei, eu sei…- anuiu o ministro das obras-tortas.
- Mas bater com a mão três vezes no peito não chega – afirmou o Pança. Tencionava ajudar-te a chorar as mágoas, e suavizá-las o melhor que soubesse; porque sei, por experiência própria, que sempre é alívio nas desgraças termos quem se nos doa delas, mas … Se Deus com sua infinita misericórdia nos não socorre… - acrescentou o Pança.
Ao que o Príncipe aditou - Despertais-nos piedade, muito embora conceder-vos perdão seja impossível – neste caso, só Deus o pode fazer. Por isso, recomendo-vos uma confissão - preferencialmente pelo nosso Bispo -, uma penitência rigorosa, uns tempos de clausura com jejuns e outras inclemências que possam ajudar à remissão, senão do político, pelo menos da alma.
E o Pança acrescentou: - Mas tem cuidado; porque bem diz o povo que um mal nunca vem só, e que o fim de uma desgraça é princípio de outra maior.
Antes de sair, o ministro das obras-tortas, suplicou: - Senhor meu, tende sempre mão em mim... E saiu, mais falto de conforto humano e com a alma mais enegrecida do que quando entrou.                                                                                                                                                                                                                                         Miguel Saavedra

O aeródromo do Casalinho

26 de julho de 2018

Com razão mas sem emenda


Às vezes escolhe bem os assuntos, e consegue , até, defendê-los bem - como foi o caso. Mas nem nessas situações consegue fazer boa figura, porque, pelo meio e pelo fim, debita a cassete toda - um extenso rol de lamúrias repisadas até à exaustão.

PS: o vídeo é a parte que se aproveita, da longa intervenção.

24 de julho de 2018

Sobe & Desce

Ti Milha: O povo que ainda canta


Na minha juventude a Ilha ocupava uma nota de rodapé na (nossa) agenda festiva. Os bailes no salão da Igreja não eram os mais badalados da região, aquele era um momento em que se vivia uma espécie de intervalo na riqueza cultural daquela terra. Só o percebi quando comecei a trabalhar, nas reportagens (para o Correio de Pombal) que me contaram tudo sobre as origens daquele povo. Para isso muito contribuiu um homem extraordinário (Manuel Marques), que já cá não está, e guardava um espólio rico e vasto de tudo e mais alguma coisa. Era entendido em partilhas e tinha aquele dom de descobrir a riqueza da água debaixo da terra, com uma verga. Num desses verões, em 1993, quando o jornal começou a fazer cadernos especiais dedicados a cada uma das 17 freguesias, percebemos que a Ilha batia o record de colectividades, apesar de tão pequena. Era daí que eu me lembrava da ARCUPS. O que nesse tempo não podíamos imaginar era que um dia haveríamos de assistir a um festival como o Ti Milha (o David Gomes explicou-me aqui a origem do nome), onde cabem os bons sons e as músicas do mundo. 
Fui lá, finalmente, nesta terceira edição. O que ali aconteceu deve orgulhar-nos a todos, em sinal de gratidão para com aqueles rapazes e raparigas que levam os pais e os avós ao parque de merendas da Ilha, e que têm a capacidade de atrair (cada vez mais) forasteiros, graças a um cartaz muito bem feito, a pensar em todos. A valorizar aquilo que em muitas outras terras foi engavetado. 
O que aconteceu na Ilha este fim-de-semana foi um verdadeiro hino ao colectivo. O Ti Milha é um oásis no deserto. Faz-nos acreditar que a desertificação não leva sempre a melhor, que é possível preservar as raízes, o amor à terra, e voar ao mesmo tempo. Rapazes e raparigas da ARCUPS: you are the world!

ps1: Há muitas fotos aqui. Quem não foi, roa-se de inveja, como diz o (Wilson) Capitão.
ps2: Uma vénia ao Vítor Couto (o Vítor Caseiro) que há três anos teve esta magnífica ideia.

23 de julho de 2018

Quando o Presidente puxa o tapete ao Pedro

Quem mora no convento é que sabe o que lá vai dentro. O ditado aplica-se por estes dias às conversas de bastidores na Câmara de Pombal, onde toda a gente sabe que Pedro Brilhante já só faz número.
Por esta altura, o jota já deve ter-se arrependido do dia - nas autárquicas de 2017 - em que teve a (presunçosa) coragem de encostar Diogo Mateus à parede: ou ia na lista, ou a JSD não aparecia na campanha. Nem que para isso fosse preciso deitar borda-fora o companheiro Renato Guardado, a quem acabou por substituir no executivo.
Na última reunião de Câmara, o Presidente puxou-lhe delicadamente o tapete, para que possa esticar-se à vontade. Foi este o momento.  

20 de julho de 2018

Para que serve uma farpa


Andamos há 10 a farpear os interesses instalados, os oportunistas e os manhosos. E também a dar nota do gesto simples e desinteressado - infelizmente, com pena nossa, muito mais a primeira que a segunda.
Mas o que aconteceu nas últimas 24 horas deixa-nos com a sensação clara de que isto vale a pena. E que, aos poucos, a comunidade onde nos inserimos vai ganhando consciência dos seus direitos, vai perdendo o medo de apontar o dedo a meia dúzia de pseudo poderosos que se acham no direito de pôr a pata em cima. Fortes com os fracos e fracos com os fortes.
Este post escrito aqui ontem por nós alcançou, em 24 horas, mais de 17.700 pessoas. Foi partilhado por mais de 100, comentado por outras tantas. A indignação tomou conta do Facebook, no que diz respeito a Pombal. Só lhe falta agora saltar para a rua, como fez aquele jovem munícipe dos Malhos. A Câmara (na pessoa do vereador Pedro Murtinho e, em primeira instância, do seu presidente, Diogo Mateus) devia tão só um pedido de desculpas ao cidadão que protestou, e a todos os que, há dois anos, são fustigados pelo mau estado da estrada. Optou antes por pôr em prática tiques de autoritarismo, persecutórios. Que o povo nunca se esqueça que é ele quem sustenta isso tudo, e que tem nas mãos o poder de acabar com estes laivos. 

19 de julho de 2018

Maldade de um cara-de-pau


Dia 2 de Julho, um cidadão dos Malhos, indignado com o péssimo estado da Rua Principal dos Motes e com a indiferença da câmara perante os vários protestos dos aí residentes, decidiu: partir uns ramos de eucalipto; espetá-los nas crateras da via; e publicar o feito no facebook. Inspirou-se, com certeza, nos desordeiros autarcas cá da terra, que, com D. Diogo à cabeça, realizaram, em Março de 2017, uma manifestação contra a falta de segurança no IC2, recorrendo a recursos e equipamentos públicos, onde tentaram, e conseguiram, cortar o trânsito no IC2, apesar da oposição da GNR.
Na semana passada, a GNR recebeu um e-mail do vereador Pedro Murtinho com uma queixa contra o cidadão dos Malhos. Actuou prontamente: abordou o indignado cidadão na sua residência; identificou-o; autuou-o em 300 a 1500€ por “infracção à liberdade de trânsito”; e notificou-o a comparecer no posto a fim de prestar depoimento no processo criminal instaurado.
Se fossemos todos iguais perante a lei – como esta estabelece – a GNR tinha actuado com os autarcas cá da terra como actuou na semana passada com o cidadão dos Malhos: tinha autuado e processado a generalidade dos políticos cá da terra e umas dezenas dos seus mais acérrimos defensores que os acompanharam na desordeira manifestação. Mas desenganem-se - ainda não somos todos iguais perante a lei. Continuamos a ser uma comunidade estratificada em mandantes e mandados, poderosos e fracos, privilegiados e desprotegidos, alinhados e desalinhado com o poder, gente de sangue azul e gente de sangue vermelho, etc. É nesta dicotomia social e neste caldo de cultura que as assimetrias se cavam, que os poderes fácticos medram, que a hegemonia se acentua, que o autoritarismo se instala, que até o beato Murtinho bufa. O poder instalado tem um cunho persecutório; se as polícias e os tribunais alinharem com isto (e estão a ser arrastadas) estamos lixados.

16 de julho de 2018

Defesa da floresta e do mundo rural


Os trágicos acontecimentos do ano passado vieram mostrar que as questões relacionadas com a floresta e o mundo rural a todos dizem respeito. O paradigma da nação urbana e desenvolvida, onde a relação do português com a natureza era encarada como uma saudade na geração dos mais velhos e uma ficção de que ouvem falar os mais novos, revelou-se desadequado e o insistir na ideia de que a ruralidade já pouco faz parte da substância da identidade portuguesa um erro que pode custar caro.

É urgente que Portugal se reencontre com a sua matriz rural. A perspectiva não é saudosista, nem corresponde a um regresso ao passado. As potencialidades do mundo rural, da pequena agricultura familiar e da floresta são muitas e a forma de nos relacionarmos com essas realidades deve ser reinventada e projectada no futuro. Acredito que um Portugal moderno só faz sentido se conseguir cimentar a sua identidade nacional, dando corpo e espaço à nossa cultura tradicional. 

Por tudo isto decidi participar na recém formada Comissão de Populares para a Defesa da Floresta e do Mundo Rural de Pombal e Pinhal Interior Norte do distrito de Leiria. De entre os objectivos dessa comissão destaco o da mobilização da população em geral e todos os interessados - nomeadamente pequenos produtores florestais e de agricultura familiar desta região - para defender a floresta, o mundo rural e a agricultura de subsistência. 

Fica o convite a todos os que queiram conhecer melhor os objectivos desta comissão ou associar-se a esta iniciativa para comparecer no acto público de apresentação que irá decorrer amanhã, dia 17 de Julho de 2018 (terça-feira), pelas 21h, no edifício da COPOMBAL. A apresentação pública contará ainda com a participação e intervenção de Isménio de Oliveira, membro do Executivo da Direcção da CNA (Confederação Nacional da Agricultura). 

10 de julho de 2018

A insustentável leveza de Rodrigues Marques



Sexta-feira à noite há duas reuniões importantes, embora uma mais importante que outra. 
O movimento de Narciso Mota (ou o que resta dele) vai tentar apanhar os cacos da última reunião da Assembleia Municipal, enquanto o PSD anda a juntar as peças. De maneira que há, no meio disto, um dilema por resolver, na pessoa do engenheiro Rodrigues Marques, que - sabe-se agora - nunca deixou de ser militante do partido, incorrendo na ilegalidade de pagar quotas de um lado e ser eleito por outro. Ora, quando convocado para a reunião do movimento que o elegeu - e que muito dinheirinho lhe deu a ganhar, na última campanha - respondeu que não, que não pode ir, que daquela vez o coração (chamemos-lhe assim) falou mais alto e optou por estar ao lado do 'amigo' Narciso, mas que desta vez é a razão que o leva à assembleia de militantes do PSD.
Já todos tínhamos percebido que continuava (ele e não só) a ser laranja por dentro e por fora, naquela bancada, como ficou bem claro na última reunião da AM. Mas faltava a confirmação: afinal o engenheiro só foi ao NMPH fazer uma perninha, e agora quer voltar ao PSD. 
Resta saber se o PSD o quer de volta.

6 de julho de 2018

Meirinhas, esse exemplo (in)feliz


Já sabemos que há terras onde os fenómenos eclodem com mais intensidade, mas o que aconteceu recentemente na freguesia de Meirinhas bem pode entrar para o Guiness no domínio das decisões mais rapidamente revogadas. Ou melhor: é digno do jornal do Incrível. 
Aconteceu então que a Junta de Freguesia se prontificou realizar o sonho de qualquer IPSS: pagar o salário de duas funcionárias - as mesmas que haviam feito um POC (programa ocupacional do Instituto de Emprego) -durante um ano, ao Lar da Felicidade. E para isso fez um protocolo à medida, que acabaria por passar apenas com recurso ao voto de qualidade do presidente da mesa da Assembleia, faz hoje oito dias. Há ainda a particularidade de o presidente da Junta ser, ele próprio, presidente da assembleia geral do Lar. E o tesoureiro da direcção é nada menos que um dos membros da assembleia, Daniel Mota, que encabeçou a lista do movimento de Narciso Mota - e que por isso se escusou à votação.
Em acta não constam só os três votos a favor de dois membros do PSD e do único eleito do PS (!), os três votos contra da bancada do CDS e as duas abstenções de um membro do movimento NMPH, e outro do PSD. Constará também a história mal-amanhada de uma manigância. E provavelmente alguém na junta pôs a mão na consciência, horas depois de aprovado o protocolo. Resultado: no dia seguinte à aprovação, o presidente da Junta fez chegar ao Lar da Felicidade um "comunicado", sublinhando que face à (tremida) votação, "não se encontram reunidas as condições adequadas para a boa implementação do protocolo". 
Talvez seja melhor revogar primeiro a decisão da AF, não, presidente?
E sim, é sensato da parte dessa autarquia recuar. Antes que as restaurantes colectividades e/ou IPSS's da freguesia lhe comecem a bater à porta e pedir o mesmo. Era um luxo, se não fosse uma fraude.

5 de julho de 2018

3 de julho de 2018

Acabou o estado de graça para o ministro Jota

O último processo autárquico partiu o PSD local; que a vitória - esmagadora - atenuou. Dividiu também a JSD; só que, ali, a vitória não atenuou a divisão, acentuou-a.
O Farpas não gosta de se meter nas intrigas da rapaziada; por isso, engavetou as múltiplas informações que nos sopraram sobre os desmandos do ministro Jota – porque considera que a rapaziada merece atenuantes e oportunidades para brilhar. Mas, quando a coisa toma proporções tal, que o presidente recebe uma deixa para censurar publicamente o ministro Jota; a coisa tomou, com certeza, proporções inquietantes – para o ministro Jota.

2 de julho de 2018

O pobre “novo PS” (II)

A fonte de todo o oportunismo está em partir dos sintomas e não do problema, dos efeitos e não das causas, da parte e não do todo; está em ver no interesse particular e na sua satisfação uma forma de captar um apoio momentâneo, não um meio para a criação de uma alternativa política. O populismo pode parecer o caminho mais fácil para captar simpatias, mas obriga a cedências aos interesses particulares e compromete a coerência de qualquer projecto político.
Só a ausência de qualquer pensamento político minimamente estruturado e o desespero político pode ter levado o pobre “novo PS” local a quebrar o mais elementar solidariedade política e a enveredar pela veia oportunista e populista, contra o programa do partido e do governo.
Quem tem alguma consciência política e viu o pobre “novo PS”, envergonhado, na mini-manifestação organizada pelos três militantes do BE contra o encerramento da agência da CGD do Louriçal, deve ter ficado perplexo e deve ter pensado que este PS bateu no fundo. Se o pensou, enganou-se. O pior estava para vir, logo a seguir!
O pobre “novo PS” juntou-se ao PSD, na rua e com um moção apresentada na AM - logo apropriada pelo PSD -, no combate a uma medida emblemática ideologicamente e de uma racionalidade económica à prova-de-vala do actual governo – manutenção/reforço dos contratos de associação com os privados onde não existe procura ou oferta pública. Perante tamanha insanidade política, pergunta-se: está tudo doido? São socialistas? Sabem qual é o partido que está no governo? Acham que o país é rico? Ou que pode duplicar e desperdiçar recursos?
Depois, como o partido não possui nenhum pensamento político minimamente estruturado, os seus representantes decidem tudo casuísticamente, são apanhados a cada passo em contradições indesculpáveis num partido que deveria ser alternativa.
Decididamente, não têm futuro.

Quando o CDS aponta o dedo


Ricardo Ferreira é - já aqui o dissemos - um dos melhores na actual composição da Assembleia Municipal. Para infortúnio nosso e da terra, está cá pouco tempo. Ainda assim, deixa sempre uma marca em cada sessão, a contrastar com o silêncio ensurdecedor do companheiro de bancada, Henrique Falcão, que quando intervém é para elogiar - claro - o que faz o executivo. Um fala em AM outro em FM, pelo que assim é difícil perceber a mensagem do partido. Ainda assim, fica o exemplo, a ironia e o tacto político do jovem Ricardo, a fazer aquilo que o PS (já) não sabe, ou não quer: denunciar o job for the girl criado pela própria Catarina Silva, quando era vereadora.  

1 de julho de 2018

O pobre “novo PS” (I)

A nudez ideológica do “novo PS” – dirigentes e autarcas – é tal que deixa qualquer um na dúvida: resulta da impossibilidade do uso activo da inteligência (medo, por exemplo) ou de ausência da própria inteligência.
Por isso, não surpreende que até um PSD convicto lhes dê uma lição de social-democracia numa área fundamental – Educação.

30 de junho de 2018

Sectarismo profundo


Há pessoas em que o sectarismo profundo é estrutural, é um traço vincado da sua personalidade. A presidente da AM é um caso desses, que não seria grave e censurável se a senhora não exercesse a função que exerce - onde a imparcialidade e retidão devem estar sempre presentes.
Temos, aqui, apontado várias situações/decisões em que a senhora falhou nos seus deveres – agiu sectariamente –, na esperança que, por decoro, contivesse os ímpetos e corrigisse a postura. Sem resultado. A senhora não é capaz, é um caso perdido, um erro de casting; no lugar mais alto, rebaixa o nível quando deveria elevá-lo (para o rebaixar já chegam alguns membros da assembleia). Decide: pelos seus desejos, não pelo regimento que desconhece; com uma parcialidade congénita que a conduz sempre para aquilo que julga poder ajudar à sua facção, e não com bom senso, que não tem; trata os seus uma maneira (ex: seu chefe de banca),  e os outros de outra; etc. 

PS: o seu secretário (o deslumbrado doutor em leis) acompanha o registo: só se lembra da lei quando lhe interessa.

29 de junho de 2018

A vã glória de mandar

foto: dreamstime

O que aconteceu ontem na Assembleia Municipal de Pombal, a propósito da (legítima) luta dos pais de Albergaria dos Doze pela abertura de (mais) uma turma no Externato local merece um 'páre, escute e olhe na vida política local'. Num rasgo de impulsiva antecipação, a bancada do PS apressou-se a apresentar uma proposta "pelo financiamento de uma segunda turma do 7º ano", naquele estabelecimento de ensino privado. Respondendo com a habitual manha, a bancada do PSD logo lhe fez um abraço de urso - como aquele que, em 2016, já acontecera. Se bem que, desta vez, o PS conseguiu superar-se: não foi a reboque, tomou a dianteira. Como se isso lhe rendesse qualquer dividendo político, a não ser a vergonha alheia. O filme acabou com uma cena mimosa de um texto comum - lido em voz alta por Manuel António, líder do PSD/Pombal, que até então se mantinha num silêncio ensurdecedor*. O mesmo PS a quem o mesmo PSD, na mesma sessão, tratou de forma rasteira, a propósito de outra cena da vida pombalense - o encerramento do balcão da Caixa Geral de Depósitos no Louriçal. E na verdade, há que dizê-lo: tem razão Diogo Mateus quando lhes atira que são essas atitudes que fragilizam o concelho. Só lhe faltou dizer que o PS está paulatinamente a cavar a sua própria sepultura, sem coerência, sem estratégia, sem qualquer pensamento político.
É verdade que a questão dos contratos de associação é ideológica, sim. Foi este Governo que a levantou e a tem vindo a pôr em prática, acabando com o regabofe que durante anos encheu cofres privados à conta do dinheiro público. Por isso talvez alguém deva avisar o PS de Pombal que existe um programa, e que as estruturas não servem só para levar congressos ao colo e embandeirar em arco com eles.

*Tenho muita curiosidade em saber se, também neste particular, o ex-presidente da Junta da Guia e actual dirigente do Agrupamento de Escolas de Pombal, virou a casaca, ou se continua a pensar como dantes, mas é uma chatice admiti-lo. 

28 de junho de 2018

A integração à moda de Pombal


Quem passou no Cardal ao final do dia de segunda-feira foi surpreendido com um concerto de (boa) música pela comunidade cigana de Pombal. Mais tarde, a Câmara fez passar nas redes sociais a mensagem sobre o que ali tinha acontecido: as comemorações do Dia Nacional do Cigano, um evento que " serviu também para alertar a Sociedade para a exclusão social daquela comunidade", diz o Município.
Convém lembrar que a comunidade está perfeitamente integrada em Pombal. Só não sabe disso quem não tem os filhos na escola pública - ou que optou por retirá-los para não haver misturas. Quem assistiu, por exemplo, à festa de final de ano do Centro Escolar de Pombal ou da Conde Castelo Melhor, pôde verificar isso mesmo.
Por isso não deixa de ser estranho que a Câmara tenha optado por promover aquele concerto do Dia do Cigano à socapa.  Resultado: ciganos a actuar para ciganos, com a cortesia da presença do senhor presidente.
Às vezes, em Pombal, há uma linha muito ténue que separa a integração da segregação. Foi uma política iniciada por Narciso Mota (quando empurrou os ciganos para lá do rio e da linha do comboio, e da cidade, afinal) e continuada na perfeição por Diogo Mateus. Já sabemos que os ciganos quase não votam - mas fazem propaganda. E isso explica tudo, afinal. 

25 de junho de 2018

Obras tortas


A câmara não acerta uma…
A obra de Requalificação da EN237, entre o Alto do Cabaço e o Barco, tem sido um calvário para quem usa a via: cortes no trânsito e falta de segurança (buracos no piso; máquinas, materiais, trabalhadores e transeuntes na via; trabalhos de noite sem iluminação, etc.).
A esta desorganização acrescenta-se o faz&desfaz.
Na semana passada, para compor o ramalhete, parte da via - praticamente concluída - abateu!
Valha-nos N.ª Senhora do Amparo.

22 de junho de 2018

A oeste nada de novo

Par além das múltiplas irregularidades detectadas e relatadas na auditoria, a assembleia de UFGIMM revelou mais dois actos de gestão falhados, praticados também de forma irregular, que dizem muito do poder local que temos: a aquisição da Varredoura Urbana; a contratação da auditoria.
A Varredoura Urbana foi adquirida por adquirir – sem utilidade (uso significativo).
A auditoria foi contratada e logo abafada - para proteger os companheiros. Palmas para a pessoa que a quis tornar pública; obrigando, assim,  à sua discussão, mitigada, envergonhada, comprometida.

Ensaio sobre a cegueira


Os dados estavam lançados e aqui no Farpas - onde uma parte importante dos leitores está no Oeste - julgámos que a reunião da Assembleia de Freguesia que iria discutir a auditoria às contas do anterior executivo seria um momento-chave na vida política do concelho. Ledo engano. Aquilo a que assistimos na noite passada, no salão paroquial da Ilha, só não foi tempo perdido porque:

1. Certificámo-nos de que Manuel Serra já foi encostado pelo PSD e Gonçalo Ramos já encostou o nado-morto NMPH (Narciso Mota Pombal Humano).
2. A montanha pariu um rato: a auditoria revela aspectos graves da vida autárquica naquela freguesia, a que só Dino Freitas (CDS) fez cócegas, ao de leve.
3. Uma auditoria paga pelo povo tem de ser do conhecimento do povo. A auditora, Isabel Clemente, que massacrou o público durante uma hora com considerandos de douta sabedoria (quando nem sequer devia ter sido chamada a intervir), bem pode aproveitar as férias de verão para ver uns filmes ou ler uns livros que contam o caso watergate. Gonçalo Ramos também, em vez de olhar por cima do ombro a tentar perceber como é que a auditoria transpirou para fora, qual miúdo que atira a pedra e esconde a mão.

Numa região onde a agregação está longe de ser aceite e não vai demorar até que o tema salte para a ribalta, de novo, o público é a maior lição: enche os salões nas assembleias, e é capaz de esperar até às 2h30 da madrugada para intervir, chutado para último. A mesa da Assembleia comporta-se como os membros do NMPH - faz só figura de corpo presente, não conduz os trabalhos, cada um fala o tempo que quer, como e quando quer. Saímos de lá com a dúvida: a AF daquela União de Freguesias tem regimento, como as outras, ou não?
No fundo, aquela reunião com 10 (dez) pontos, marcada para as 21 horas de uma quinta-feira, foi uma cegueira colectiva. 
Manuel Serra não percebeu que era tempo de digerir a derrota e sair de cena, cego pelo poder. Gonçalo Ramos está deslumbrado com o mesmo, transforma a apresentação de cada ponto em floreado verbal, arrastando os trabalhos no tempo e no espaço. Avançou sem medos para a auditoria, mas depois não soube o que fazer com ela, refugiando-se num "aperfeiçoamento de procedimentos". 
Dino Freitas (CDS) arranca sempre bem, mas intervenções, mas vai perdendo força e não consegue ser eficaz na oposição.
Hugo Sintra (PS) vai acabar com os últimos votos que o partido - que foi ali poder - ainda tinha.

21 de junho de 2018

Auditoria arrasadora


O novo executivo da União de Freguesias da Guia, Ilha e Mata-Mourisca (UFGIMM), presidido por Gonçalo Ramos (NMPH), decidiu mandar realizar uma auditoria ao executivo, do mandato anterior, presidido por Manuel Serra (PSD). A decisão foi acertada – imperiosa, responsável, transparente -, mas deve ser consequente.
As conclusões da auditoria são arrasadoras para o executivo presidido por Manuel Serra: 
- O presidente “autorizou a realização e o pagamento de despesa”, apesar de “não ter delegação de competências” para o efeito;
- “Não há evidência de controlo físico dos bens da freguesia”;
- “A junta não dispõe de registo de assiduidade, controlo e autorização de horas extraordinárias”;
- “Não estão redigidos a escrito os contratos com os trabalhadores da junta”;
- A junta fez “o pagamento de despesas correntes a trabalhadores e fornecedores sem documento de suporte válido e sem a obrigatória comunicação aos poderes públicos”;
- “A despesa não é cabimentada previamente, permitindo a ocorrência de despesa sem a efectiva disponibilidade dos fundos financeiros”;
- A junta não controla os produtos comprados, “não emite requisições internas nem externas e consequentemente “os fornecedores não indicam o número do compromisso”;
- “Despesa com refeições confeccionadas no valor de 32 mil euros”: “40% serviços de catering para Actividades de Animação e Apoio à Família – Ilha”; “Relativamente aos restantes 60% não existem deliberações ou evidência da necessidade da (sua) realização”;
- “Na aquisição de bens e equipamentos e na realização de empreitadas e obras públicas, o ajuste directo não se encontra fundamentado em violação dos princípios da transparência, igualdade e concorrência”;
- “Os apoios directos não estão regulados nem publicitados”;
- Em 2016, a junta gastou 17.351 € no restaurante “Couto e Santos, Lda”.
Depois de muitas hesitações, a discussão do relatório faz parte da agenda da assembleia, que reúne, hoje, na Ilha. Altura para os fregueses conhecerem melhor como é (ou não é) administrada a coisa pública, e para Manuel Serra e o seu executivo se explicarem.

19 de junho de 2018

Sensações


O vazio pode encher-se com o vazio! É o que sinto quando percorro os espaços do lugar onde nasci, na minha aldeia, ou o centro histórico da minha cidade.
Os espaços do lugar onde nasci atraem-me pela mesma razão que o ladrão retorna ao local do crime; há ali uma atracção que não se explica, sente-se. Não sei se é o vazio do lugar que me preenche ou se sou eu que, de alguma forma, preencho aquele vazio.
Quando percorro o centro histórico da minha cidade – faço-o regularmente – sinto um vazio profundo, que não preencho nem me preenche. É uma sensação estranha de desilusão, de letargia e de mágoa, onde os sentidos convocam a memória e esta os reprime. Paro sempre naquela praça solitária, despida, sem vida, com uma história que não conta, embelezada com uma coerência falsa, sem brilho nem beleza. Olho para cima, medito no paradoxo que foi querer dar vida à natureza morta que é castelo e a sua encosta e ao mesmo tempo matar a praça. É uma amargura, uma tristeza de alma, ver o que isto é e não conseguir sentir o que isto foi.
Outrora, criança, percorri estas ruas, nos dias de mercado, num corrupio sempre apressado contra a escassez do tempo e dos bens. Outrora gozei tudo aquilo: o passar dos comboios; o frenesim da abertura das cancelas que restabelecia o fluxo das formigas apressadas no carreiro principal; a simpatia do boneco da sapataria Cruz; o regateio entre compradores e vendedores na praça; etc.
Hoje, vagueio por aquelas ruas estreitas, silenciosas, nuas, sem vida; por aqueles espaços que nada têm e pouco dizem. Sinto-o; sente-se um adormecimento sofrido que contrasta com uma agressividade que mora ao lado. Ali, as portas antigas fecharam-se definitivamente, e as “portas abertas” ainda não se abriram. Os poucos rostos, que vagueiam como eu, parecem reflectir as lajes escuras, ou as amarguras de vidas amachucadas.
Nas horas de expediente, paro na loja do Maia - um rebento híbrido da Casa Fortunato. Umas vezes, entro; outras, olho para aquilo, da rua, circunspecto. Admiro a resiliência daquele homem. Custa-me descer o resto daquela rua, a grande avenida do cemitério da minha cidade; custa-me mais do que o despovoamento da minha aldeia, que, pelo menos, mantém a força estimulante da natureza selvagem.

14 de junho de 2018

Onde se dá conta da avaliação que o Príncipe e o seu escudeiro fizeram do Estado da Nação


A meio do ano, antes do período de descanso, o Príncipe decidiu avaliar o Estado da Nação, a fim de prevenir incómodos no regresso. No final da passada semana, antes de abandonar o trono, informou o Pança desse seu propósito; avisou-o que se preparasse convenientemente, durante o fim-de-semana, para lhe prestar contas, na primeira hora da semana seguinte, sobre as mui valorosas empreitadas de lhe tinha destinado.
O Pança não contava com esta incumbência de última hora. Depois de várias semanas em grande azáfama, que o obrigaram a desdobrar-se como nunca, tinha reservado o fim-de-semana para a família. Erro seu. Já deveria saber que escudeiro não tem outro Senhor nem ócios. Mas o pior nem era abdicar da família, que coitada já estava acostumada, era o muito trabalho que o esperava, toques e mais toques que era preciso dar, relações e compromissos que era necessário revisitar e avivar, depois de ter colocado as suas empreitadas em segundo plano para acudir às emergências do Príncipe.
Quando o Príncipe chegou, já o Pança estava no seu posto, e já tinha aproveitado o tempo de espera para fazer os contactos que não tinha conseguido fazer durante o fim-de-semana – sem sucesso. Assim que o Príncipe chegou ao cimo das escadas, avistou-o logo, e comunicou-lhe que se apresentasse daí a cinco minutos. O Pança estava nervoso; sabia bem que um exame político, com o Príncipe, é sempre imprevisível, e para este tinha sido apanhado de surpresa.
Quando o Pança se apresentou à porta do trono, o Príncipe ordenou de imediato:
- Entrai, Pança; não temos tempo a perder…Sentai-vos.
- Com licença, Alteza.
- Dizei-me, Pança: como vai o reino? E as nossas relações com os condados desalinhados?
- Bem, muito bem, Majestade. Reina uma paz absoluta; mérito, com certeza, da sua brilhante arte de governar. Oposição não tem, e a que tem serve, quanto muito, para mostrar aos súbditos que há Rei neste reino. Os condados desalinhados estão absorvidos, ou, pelo menos, em vias disso. Vossa Alteza tem, novamente, o poder absoluto. Viva o Rei.
- Deixai-vos desses adornos, Pança, são despropositados neste momento – avisou o Príncipe.
- Desculpai-me, Alteza; mas uma pessoa empolga-se com tanto sucesso, e não consegue guardar sempre a descrição que a solenidade de certos momentos exige – anuiu o Pança.
- Mas dizei-me, Pança: como vão as coisas pelo condado de Roda?
- Melhor do que alguma vez esperámos: o homem é nosso. Rompeu totalmente com o inimigo; assunto encerrado, parece tão confortável connosco que nem dispêndio nos vai exigir – afirmou, orgulhoso, o Pança.
- Bom trabalho… E a Oeste: como estão as coisas? – perguntou o Príncipe.
- Mais atrasadas, mas vem encaminhadas, Alteza. O Ramos é um rapaz de bem - se tal título se pode dar a um adversário que nos combateu e derrotou. Se não fosse a resistência da sua arisca escudeira, e as areias que o Conde-sem-condado e o Manel têm metido na engrenagem, já estava totalmente do nosso lado – afiançou o Pança.
- Não digo menos, nem o contrário disso, Pança – respondeu o Príncipe -; mas dizei-me: já conseguistes abafar a inspecção ao livro-de-contas?
- Ainda não, Alteza – afirmou o Pança. E acrescentou: - esse é o grande empecilho à pacificação …
- Mas dizei-me, Pança: o relatório é assim tão comprometedor para nós?
- É, Alteza. É como o de Abiúl, só que de maior grandeza. De tal forma que, se não fosse por saber que todos estes descômodos andam muito anexos ao exercício da política, aqui me deixara morrer de pura vergonha – afirmou, desgostoso, o Pança.
- Deixai-vos disso, e fazei das fraquezas, forças, Pança. Se em Abiúl – terra de toiros e toureiros – conseguimos abafar a coisa; ali, melhor haveis de o conseguir também – reforçou o Príncipe.
- Este contratempo não é daqueles que se passa bem para detrás das costas, ou se cura com uma prebenda avantajada, é uma rixazinha que poderá desgraçar-nos a reputação… - afirmou o Pança.
- Fazei como em Abiúl – ordenou o Príncipe, e acrescentou: - Sabeis, com certeza, arranjar maneira de meter o relatório na gaveta ou fazê-lo desaparecer.
- Claro, Alteza; temos que arranjar uma forma de o fazer desaparecer. Na última reunião conseguimos arregimentar a nossa malta mais influente (o Manel, o Ferrador e C.ª) e abafámos aquilo. Mas a coisa não está fácil, mesmo contando com a boa vontade do Ramos…
- Mas ele está, ou não está, connosco? Perguntou, meio irritado, o Príncipe.
- Está, Alteza; mas a estrada a percorrer é de via única – não cabem lá dois cavalos. O Conde-sem-condado quer recuperar o condado, ainda não percebeu que tem que abrir caminho…O Ramos sabe que se perder a face abre caminho ao Conde-sem-condado, ou a outro dos nossos.
- Costuma-se dizer, Pança, que cada qual é artífice da sua ventura. O Conde ficou sem condado, coitado, porque tem uma inclinação, que lhe vem de haver sido abastado no tempo da sua mocidade, que o leva a ser liberal e gastador. Foi pelo caminho mais fácil: seguiu a (des)governação do Manel, que eu já tinha denunciado há vários anos, mas não se deu conta que não possuía os dotes dissimuladores dele – afirmou o Príncipe.
- Tendes razão, Alteza; é sempre assim: para os vencidos muda-se o bem em mal e o mal em pior – atestou o Pança.
- Há mais algum problema no reino, Pança? - perguntou o Príncipe.
- Em Abizeude as coisas podem descambar. A governanta não é de confiança: muda de camisola ao ritmo que nós mudamos de humor. Agora anda alinhada com o inimigo (ou amigo, veio de lá): aprovou-lhe as propostas todas. Diz-se que está revoltada porque Vossa Mercê ainda não cumpriu o compromisso que assumiu com ela – afirmou o Pança.
- Deixai esse assunto comigo… Conheceis mais desavenças que urge conter? - perguntou o Príncipe.
- No condado de Vermoim as coisas também podem azedar. Como o Senhor bem sabe, o beato Ilídio não nasceu para ser desobedecido; e, naquele seu jeito languinhento, quer todos em concórdia consigo. Resultado? O gordo sente-se mais desgovernado do que governador – explicou o Pança.
- Aí, controla-se bem a coisa: fazemo-los passar pelo confessionário…- concluiu o Príncipe.
                                                                                                                  Miguel Saavedra

12 de junho de 2018

Um toque de vermelho na onda laranja


O PSD local exibiu na rede algumas imagens desse jantar de tomada de posse onde "fizeram questão de comparecer mais de 250 pessoas", diz a legenda. Já se sabe que estes eventos são de uma procura frenética. Mas este era especial: Pedro Pimpão entregou os trabalhos da concelhia ao ressuscitado Manuel António, num esforço que era escusado: Com jeito, a derrota naquela junta de freguesia transforma-se rapidamente em vitória.
Mas vale a pena determo-nos nas fotos que falam, de que é exemplo maior esta que aqui vemos, e que aqui no Farpas nos deixa descansados, de alguma maneira: A (ainda) jovem Ana Carolina Jesus - que se tornou conhecida dos meandros políticos e mais tarde públicos através deste blogue, quem não se lembra da menina JA e seu rol de comentários contra-poder-laranja? - entrega a Pedro Pimpão um cartaz em que lhe agradece, em nome do vasto grupo. Diz então que "é uma honra fazer política contigo, muito obrigada Pimpão", antes de fazer circular a imagem pela sala do restaurante à cata de declarações de agradecimento.
Em Pombal este fenómeno da metamorfose não é raro. Chama-se instinto de sobrevivência. Por isso acreditamos que a rapariga que se dizia de esquerda - e que vestiu de vermelho, num inusitado pendant com o amigo Pimpão - "ainda vai cumprir seu ideal". 

10 de junho de 2018

...Afinal havia outra

O encerramento da Caixa Geral de Depósitos no Louriçal despoletou uma inusitada tomada de posição por parte de Diogo Mateus. É um tanto estranho vê-lo alinhar numa posição assaz musculada, e isso fez-nos soar campainhas. Talvez a chave para este enigma esteja na possibilidade  de ver outra Caixa encerrar balcões noutras freguesias do concelho, e com isto dar um sinal de que não anda aqui a brincar.
Na verdade, a Caixa de Crédito Agrícola pode parecer, mas não é a Santa Casa da Misericórdia (se é que a comparação tem ainda cabimento, nos tempos que correm). E depois de fechar as agências de Vila Cã e Santiago de Litém, há várias freguesias candidatas ao destino final, num quadro que atesta bem o desfalecimento do concelho-charneira. Passou um mandato, entrámos no segundo, e os investidores da América Latina nunca nos vieram salvar. Em rigor, depois da Derovo (ainda na década de 90) nunca mais se instalou aqui qualquer indústria de relevo. 
A agregação das freguesias só veio acelerar esse processo. Não é por isso de estranhar que a próxima vítima do fecho dos balcões seja a Mata Mourisca, freguesia-mãe do Oeste, onde o movimento pós-fecho do centro de saúde é quase nulo. A Caixa dá-se bem em qualquer terra (como diz o slogan), mas é preciso que a terra também se dê. E agora, Diogo? A Câmara também equaciona retirar as contas de lá?

8 de junho de 2018

Como a valorização da irrelevância expõe o populismo mais bacoco

A propósito do encerramento da agência de CGD no Louriçal:
- Diogo Mateus decidiu “que perante tal situação tão desagradável e a desconsideração pelo povo de Pombal, neste caso mais concreto do Louriçal, a CMP vai tomar uma posição e deixará já a partir de amanhã de trabalhar com a CGD”.
- Pedro Pimpão – esse grande deputado da Nação – “remeteu uma pergunta regimental dirigida ao Ministro das Finanças…” e “manifestou a total solidariedade para com a população do Louriçal e toda a região envolvente pelo anúncio de uma decisão com a qual não concordamos e que pode ter consequências muito nefastas para um território com uma interessante dinâmica económico-social que merece um melhor tratamento por parte das entidades responsáveis nos diversos sectores”.
- O sonso PS local associou-se ao choradinho e veio “reconhecer a importância que aquele balcão da CGD tem para a população, para os empresários do Louriçal e para o desenvolvimento económico da região”; atestar que “A manutenção de um serviço público bancário na vila do Louriçal é uma necessidade e também um direito próprio das populações”; asseverar que “Reduzir o número de agências da CGD no concelho de Pombal a apenas uma, é incompreensível e inaceitável do ponto de vista da coesão territorial e do interesse das suas gentes”; e, disponibilizar-se para “acções de luta e em negociações que tenham em vista a reversão daquela intenção de encerramento”.
O PSD local veio “expressar a mais profunda indignação relativamente à intenção … de encerrar, no próximo 29 Junho, o balcão situado no Louriçal”; contestar a decisão com argumentos falsos; e, exigir ainda mais do acabrunhado PS local.
- Etc.
Pobre terra que tem políticos destes: escravos do populismo bacoco, sonhadores débeis, pobres-diabos cuja racionalidade não vai além da banalidade, moralistas ascéticos que abrem feridas para poderem seduzir pelo consolo.
Se há alguma injustiça ou irracionalidade na decisão de encerrar o balcão da CGD no Louriçal, pergunto: porque é que esta amálgama de populistas bacocos não junta esforços e exige a abertura de uma agência da CGD em cada freguesia (Abiul, Vila Cã, Santiago de Litem, S. Simão de Litém, Albergaria dos Doze, Vermoil, Meirinhas, Carnide, Ilha, Mata Mourisca, Guia, Carriço, Almagreira, Pelariga e Redinha)?
Porque é que, durante tantos anos, se esqueceram das populações das 15 freguesias discriminadas - dessa suposta necessidade básica, desse serviço público essencial, desse direito próprio das populações?
Decididamente, somos governados por criaturas sem qualquer noção do ridículo.

7 de junho de 2018

Demagogia barata

Diogo Mateus decidiu fazer uma declaração pública sobre o encerramento da agência da CGD no Louriçal, antes da reunião do executivo. Convidou a pombaltv para fazer um extra - para a divulgar.
A declaração mostrou um presidente dominado por baixo espírito: demagógico, precipitado, inconsequente - um fantasma arrogante.
Naquele número baixo, salvou-se Narciso Mota: surpreendentemente sensato.

6 de junho de 2018

É a economia, estúpido!


A CGD decidiu fechar mais 70 agências até ao final do ano. Mas a coisa não vai ficar por aqui, nem na caixa nem nos outros bancos. É a Economia. E na economia não há coincidências, apenas consequências.
Em Pombal, a CGD vai fechar o balcão no Louriçal; o que está a provocar a revolta do presidente da câmara, que ameaça fechar as contas da câmara e retirar de lá 21 milhões de Euros (?) – diz a notícia. Está dado o mote: nos próximos tempos, teremos o presidente da câmara no papel de grande-cavaleiro a lutar contra moinhos de vento. Já tínhamos o seu escudeiro a encarnar o Pança, mas nunca imaginámos ver D. Diogo no bobo papel do D. Quixote dos tempos modernos. Uma coisa é certa: não lhe vão faltar moinhos de vento para derrubar e fortalezas para defender: agências bancárias, empresas históricas, colégios, etc. Diogo Mateus vai ter tudo o que necessita para se sentir forte e feliz: conflitos, pendências, chantagens, vinganças. E os pombalenses desgostos.
Não deixa de ser estranho, e contraditório, que uma criatura esclarecida – Diogo Mateus - que considera que não se justifica a existência de um posto de turismo, porque, nos dias de hoje, com uma app e um ipad, vai-se a todo o lado, considere imperativo manter agências bancárias deficitárias e assim empurrar um sector vital da economia, que neste momento não é rentável, para a falência.
Antes de atirar pedras, Diogo Mateus deveria bater com a mão três vezes no peito e assumir a sua enorme responsabilidade no desfalecimento do concelho, que governa há três décadas. Porque, apesar de a economia do país mostrar uma vitalidade assinalável, os pombalenses assistirão a este drama contínuo, com algumas tragédias de permeio, a esta antinomia entre a culpa de uma câmara rica e o desfalecimento do concelho charneira que permanece sem solução.

4 de junho de 2018

Olhar para os aviões


A abertura da Base de Monte-Real à aviação civil é uma revindicação recorrente que a maioria dos políticos da região, e aspirantes a sê-lo, gosta de fazer publicamente. Na ausência de outra coisa mais sensacionalista, atiram com esta...!
Mas surpreendentemente, até Narciso Mota já abandonou a ideia de transformar a base militar, ou parte dela, em aeroporto. Agora bate-se pela transformação da (sua) pista do Casalinho: primeiro em aeródromo, depois em aeroporto!
O que não nos falta é gente com ideias…