28 de fevereiro de 2021

Luta na lama

A reunião já ia longa, cheia de picardias e desaforos. Mas sentia-se que faltava ao doutor coiso - sempre ávido de protagonismo - o seu momento. Na falta de melhor pretexto, utilizou o ponto sobre uma simples reserva de recrutamento, de dois técnicos para a área do saneamento, para arrastar a boneca lustrosa para uma luta na lama.

Resultado: sujou e sujou-se, gratuitamente, de uma forma tão feia e penosa que consternou a alma piedosa que moderava a reunião naquele momento e deu a D. Diogo a possibilidade de sair daquilo como um príncipe.


27 de fevereiro de 2021

O canto do cisne

O canto do cisne é uma crença antiga de que o cisne branco é completamente mudo durante toda a vida mas pode cantar uma bela e triste canção imediatamente antes de morrer. Sabe-se há muito tempo que a crença é falsa – os cisnes brancos não são mudos e não cantam antes de morrer. 

Todos sabemos que D. Diogo ouve bem, tem boa memória, e canta ainda melhor. Que tem um discurso politicamente construído, ideológico, mesmo na forma como introduz a tecnicidade, cheio de elementos significantes (a ordem, a fé, o elitismo, etc.), que usa uma retórica vigorosa, habilidosa, muitas vezes falsa, sem materialidade, ora cortês ora agressiva, não como instrumento de persuasão mas de manipulação da opinião pública e dos seus opositores. O seu problema esteve sempre na dose, foi a dose que o matou.

Ontem, nas reuniões do executivo e da AM, D. Diogo exercitou o seu discurso de despedida, um verdadeira representação do canto do cisne, repleto de ironia e sarcasmo, virilidade e altivez, verbosidade e impudência, pretensiosismo e vaidade, digno de quem se considera “o eleito” - ainda não caiu na real.   


25 de fevereiro de 2021

Anatomia de uma derrota


 


O Jornal de Leiria de hoje noticia - como deve ser - a saída de Diogo Mateus, conforme aqui anunciámos há um mês, neste post. 

A jornalista Anabela Silva questionou-o sobre o assunto e finalmente D. Diogo acedeu prestar declarações sobre o "tabu"  (não à imprensa da sua terra, que despreza, como tanta coisa), numa manobra que lhe permita dar a ideia de que vai embora por vontade própria e não afugentado pelos seus, pelo seu partido. 

Diz ele que “há mais de um ano” transmitiu às estruturas do partido que não pretendia voltar a concorrer à Câmara e que o fez “muito antes das trapalhadas de 2020”, referindo-se às polémicas em que se envolveu com os vereadores Pedro Brilhante e Ana Gonçalves, eleitos pelo PSD, a quem retirou os pelouros. "Trapalhadas" que, no seu entender, "mostraram muita coisa".

As declarações de D. Diogo ao JL acontecem dois dias antes do plenário de militantes do PSD (online), que há-de confirmar Pedro Pimpão como seu sucessor, numa inédita movimentação para lhe retirar o poder. Era preciso ser ele a dizê-lo, para não incorrer na vergonha de ser o partido. Diogo aprendeu a mentir (e a omitir) com naturalidade ao longo dos anos, como bom político. Foi o mais bem preparado de sempre, para o cargo, na nossa história contemporânea. A mesma história que nos tem mostrado como é que isso, só por si, não basta. E por isso conta a versão que lhe convém, para este final infeliz enquanto autarca social-democrata. 

É verdade que "as trapalhadas" do ano passado "revelaram muita coisa". E é interessante ter escolhido o termos 'trapalhadas' - não para aludir à mistura da vida pública e privada - mas para nos recordar das acusações sobre o uso indevido de meios públicos em benefício privado.

Apesar de tão bem preparado para o cargo de presidente de Câmara, Diogo sairá de cena por manifesta incapacidade: a de não ter percebido como exercer o cargo em democracia, onde o poder vem de baixo, do povo. E onde há linhas vermelhas (mesmo que ténues e imaginárias) que o povo não gosta de ver pisadas. Sabemos que prefere as monarquias, mas para isso terá de procurar outras paragens. 


23 de fevereiro de 2021

Para quem é bacalhau basta?

Nasci numa aldeia onde o colectivo sempre importou. Muito antes de haver uma associação (com estatutos e corpos sociais e tudo o que Abril nos trouxe, no final dos anos 70), o povo já se encontrava para fazer coisas, fosse no largo da capela ou num barracão, numa casa em construção ou numa esquina qualquer. Nasci naquela parte da Moita do Boi que era pertença da freguesia da Mata Mourisca (mais tarde da Guia), mas tinha menos de um ano quando me mudei para esta rua que as fotografias vos mostram. Rua da Guarita, Rua do Campo de Futebol. Metade das casas ali construídas nos últimos 50 anos são da minha imensa família. Cresci ali, à beira de uma estrada de terra batida, onde esfolei os joelhos vezes sem conta, onde no inverno havia uma brincadeira divertida que era não pisar as poças, numa gincana até chegar à estrada principal - também ela ainda de terra batida - e depois à escola. Lembro-me bem do espanto de uma das minhas professoras da primária, que me fez pensar pela primeira vez no que era não ter alcatrão. Foi numa aula de Meio Físico e Social. De modo que me lembro bem do que fomos, enquanto povo, num país desigual. Uma das primeiras lutas do meu pai quando voltou à terra foi essa do alcatrão. Ele e uns amigos andavam de casa em casa, com "os homens da Junta", a convencer os pares a ceder uns centímetros de terra, para que a estrada pudesse servir também para os automóveis. Não foi há 100 anos, foi há menos de 40. 

Ao mesmo tempo, o meu pai e esses amigos, e os homens mais velhos e os rapazes novos, erguiam a sede da Associação Desportiva Recreativa e Cultural da Moita do Boi (hoje também de promoção social). Nos tempos livres, organizam-se para os trabalhos de construção. No dia em que foi colocada a "primeira placa", juntaram-se para uma foto de grupo, que lá está, na parede do Bar da Associação, para que ninguém se esqueça de onde veio. E já se sabe, na Moita do Boi tudo começa e acaba na bola. A Associação nasceu a partir de uma equipa de futebol já formada - Os Corsários. Não é por isso de espantar a bravura com que tudo se faz. Só assim se explica que numa aldeia (que não só não é sede de freguesia como é dividida por duas - Guia e Louriçal), um clube que começa com uns rapazes a jogar  à bola onde calhava, a troco de recreio, chegue onde está. Desconfio que muitos não sabem que a Moita do Boi milita hoje na Divisão de Honra da Associação de Futebol de Leiria, a mesma onde estão o GD Guiense e o Sporting de Pombal. 

Desconfio que os autarcas também não sabem. Ou melhor, a memória selectiva só lhes permite lembrar desse feito em época de eleições, quando vão todos desfilar para o campo, nas bancadas, a ver o jogo e dar o seu apoio, a troco dos votos. Se não fosse assim, como é que se explica de forma racional o que está a acontecer neste primeiro trimestre de 2021? Como é que chegados a este tempo é possível fazer uma obra de tamanha vergonha, sem um único passeio? Como é que se arrancam manilhas e se atiram para as eiras e entradas das casas? Como é que se refaz uma rua e não se pensa no escoamento das águas pluviais? 

Esta é a rua do campo de futebol. Mas é também a rua onde estão sediadas algumas empresas de obras particulares e públicas. Que liga a Moita do Boi a Santo António e ao Louriçal. Antes da pandemia, aquela rua era um corrupio, todos os dias (não apenas pelos atletas da equipa sénior e escalões de formação), à conta dos treinos, dos jogos, e da atividade económica. Passam ali camiões de grande porte - o que ajudou a rebentar o piso. Foi com entusiasmo que vi as máquinas chegarem. E foi com pesar que este fim de semana percebi o desleixo, a incúria, o desprezo com que ainda são tratados os cidadãos da aldeia onde eu nasci, onde moram os meus pais, os meus tios, os meus amigos de infância.

Porque o poder - seja ele qual for - continua a olhar para o povo com a mesma expressão de há 50 anos: para quem é, bacalhau basta. Basta, sim. Só que basta de nos comerem por parvos. 

21 de fevereiro de 2021

Despedida de um camarada


Fernando Domingues, camarada e amigo, figura histórica do Partido Comunista Português em Pombal, vai hoje a sepultar. Homem digno, dedicou a sua vida política e sindical à defesa dos interesses dos que não têm voz, dos que estão mais afastados dos centros de decisão. Foi-lhe particularmente cara a luta pela defesa da floresta e do mundo rural em Pombal, nomeadamente na salvaguarda da propriedade comunitária dos baldios e das comunidades de compartes, assim como na protecção da biodiversidade e o equilíbrio ambiental.

Serão sempre escassas as palavras a ser ditas nestas ocasiões. Poderia lembrar o passado no movimento associativo, o seu sentido de humor, a forma simples com que pautou a sua vida, os magníficos queijos que sempre tinha, a coerência do seu pensamento político, a sua alegria de viver. Mas, mais do que palavras, a justiça à sua memória só será feita assumindo a sua luta. É esse o meu compromisso, camarada!

19 de fevereiro de 2021

Pombal sempre na “vanguarda”


 

Na ultima semana, fomos assistindo a vários municípios aqui à volta, a trazer a publico como irá arrancar o processo de vacinação nos seus concelhos.

Desde a cedência de espaços para o mesmo, até o dia em que o mesmo processo arrancará.

De Pombal nada. Contudo, soube que o processo de vacinação já arrancou, e que algumas pessoas já foram vacinadas (ainda bem).

Numa altura em que tanto se tem falado na transparência da informação, não percebo o silêncio em torno do assunto. Parece-me (por aquilo que observo) não haver articulação entre o município e as autoridades de saúde.

Sr.Presidente Diogo deixe lá as reuniões com as colectividades, que isso já o devia ter feito antes, e faça lá um Briefing a fazer o ponto da situação. Os munícipes agradecem.

18 de fevereiro de 2021

Subsídios e politiquice

Em Pombal, os subsídios e a politiquice têm andado sempre entrelaçados. Daí que não se estranhe a forma como a câmara os tirou (ou cortou) recentemente e os prometeu reforçar de imediato. Há muito que os subsídios são o alfa e o gama da política pombalense.

Para o bem e para o mal, esta trapalhada política tem um mentor (Diogo Mateus), um executor (Pedro Martins) e um denunciador (Pedro Brilhante) - o PS entrou nisto por arrasto.

Mas neste folclore não podia faltar o PSD local – Pedro Pimpão -, que veio censurar, em comunicado, o “ aproveitamento político desta matéria por parte do Partido Socialista e do Vereador Pedro Brilhante, a quem já retirámos a confiança política em Julho de 2020”. 

Ao mesmo tempo que mina a (fraca) credibilidade de D. Diogo e do seu executivo e se quer impor como candidato alternativo ao candidato natural do PSD à câmara, Pedro Pimpão dá uma no cravo e outra na ferradura, coloca um pé numa margem e o outro na outra.

Cuidado com as pernas muito abertas, Pedro - é uma posição muito instável, e vulnerável. 

12 de fevereiro de 2021

Subsídios – do 80 ao 8 num ápice

Vai (ou ia), hoje, à reunião do executivo uma proposta de corte de 160.000 € aos clubes desportivos do concelho (aproximadamente 40% do montante global e 50 % aos maiores clubes). 

Para tal, bastou que D. Diogo lavrasse um despacho que altera dois critérios do regulamento de atribuição de subsídios desportivos e o seu “vereador” executasse (L`Etat C`est Moi!).

Mas quando os clubes foram informados do que se ia passar na reunião (tinham sido avisados que eram pequenos cortes) revoltaram-se.

Perante a revolta, D. Diogo escondeu-se e mandou avançar o “vereador” do desporto – Pedro Martins – que, com a habilidade política que lhe conhecemos, em vez de acalmar a revolta estimulou-a. Não explicou nem negociou a medida; quis simplesmente saber como é que os clubes tinham tido acesso à informação - sempre a paranoia do controlo da informação. 

Resultado: alguns clubes (GD Ilha à cabeça) ameaçaram encerrar e entregar as chaves à câmara, se a proposta for aprovada. 

E agora, D. Diogo?

9 de fevereiro de 2021

Já há candidatos no Oeste

 

Enquanto cá no burgo persiste a dúvida (oficial) sobre quem são os candidatos à Câmara, naquela ala que domina o eleitorado, no Oeste as eleições autárquicas já correm com "normalidade". Gonçalo Ramos avança para um segundo mandato por conta própria, como independente, desta vez sem o chapéu de um movimento que nasceu e morreu em 2017 - Narciso Mota Pombal Humano - e que teve ali a sua única vitória.

Apesar de não apreciar o estilo engraxador que perpetua nas reuniões da Assembleia Municipal, e a bajulação ao presidente da Câmara, reconheço que cresceu muito ao longo deste mandato, sobretudo no relacionamento com os fregueses. E não é fácil comandar um barco como o daquela Junta de Freguesia, num mar agitado como é aquele onde navega. Demorará décadas até que sarem as feridas da agregação na Guia, Ilha e Mata Mourisca. 

E eis que finalmente Carlos Mota Carvalho pode ser candidato, agora que se aposentou. O dirigente associativo anda há (muitos) anos à espera deste momento. Será o cabeça de lista pelo PSD no Oeste. O convite está feito e aceite. Não é encarado com bons olhos por todo o núcleo do Oeste, mas...é a vida. 

Do PS, nada. Dos outros também não. 

3 de fevereiro de 2021

Os “processos” do processo (parte II) – Crime e Castigo

A reunião do executivo de 4 Janeiro, onde se discutiu e aprovou as conclusões dos inquéritos disciplinares às duas funcionárias do departamento de recursos humanos, ficará para os “anais da história” – como bem disse o doutor coiso. O vídeo/áudio abaixo mostra o essencial da longuíssima e despudorada discussão.

Como já aqui tinha informado, o instrutor – o “conhecido” dr. Agostinho – popôs, e o presidente subscreveu, a suspensão de funções de uma funcionária por 45 dias e outra por 90 dias, ambas com execução de pena suspensa por 2 anos.

Após a apresentação das conclusões - pelo presidente da câmara - o vereador Pedro Brilhante fustigou até à náusea o libelo acusatório por este se basear quase exclusivamente nas confissões das visadas (e no que não o é deriva delas), feitas por escrito, em dois momentos desfasados no tempo, com circunstancialismo, pormenores e formalismo jurídico de tal forma rebuscados que as torna pouco credíveis. São confissões que acabrunham quem as profere, pela culpabilidade e nível de incriminação assumidas, das quais se pode tirar não importa o quê, mas nada de bom para quem as profere; e em que - como bem disse Pedro Brilhante - só gente muito estupida acredita.

Estava dada a deixa para D. Diogo - o douto nobre sem nobreza – apoucar Pedro Brilhante. Recomendou-lhe a leitura de um clássico da literatura, “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, para que pudesse compreender que a consciência (pelo remorso e contrição) de um cidadão pode ser aquilo que verdadeiramente lhe dá paz, tranquilidade e bem-estar; e que, quem verdadeiramente não consegue perceber que isso é uma coisa boa é que é verdadeiramente estúpido. O nível da conversa ficou definitivamente traçado, depois foi sempre a descer.

Não se pode dizer que a escolha do “Crime e Castigo” para ajudar a interpretar o intricado enredo dos processos disciplinares em causa seja desajustada; até por que, se Pedro Brilhante tivesse lido Dostoiévski, teria podido dizer a D. Diogo que a tomada de consciência e o arrependimento do criminoso não acaba sempre, nem geralmente, com a sua pacificação; inicia, muitas vezes, um processo de auto-destruição do arrependido que conduz ao desespero e até ao suicídio. Mas, ajustado, ajustado, teria sido a escolha de “O Processo”, de Kafka, mais alinhado com esta trama.

 Se D. Diogo leu Dostoiévski – pode ter ficado somente pelo prefácio - sabe, com certeza, que num “crime” não participa somente o executante; participa igualmente o cúmplice, o consentidor, o influenciador, etc. Pelo que se vai sabendo, parece evidente que por toda a câmara, e não só no departamento de RH, surgem regularmente e à vista de toda a gente, irregularidades, falhas, abusos e apropriações indevidas. E D. Diogo comprova-o. E não parece que a leitura do “Crime e Castigo” o tivesse ajudado no processo de consciencialização. D. Diogo é uma espécie de antítese de Mefistófeles, que dizia que queria o mal e não fazia senão o bem. No final desta discussão, D. Diogo anunciou mais três processos disciplinares por factos conexos com a “matéria” destes processos. A intifada continua, como bem disse Pedro Brilhante.

 A doutora Odete - sempre alinhada com o doutor coiso - acompanhou e suplantou até D. Diogo na incriminação das “desventuradas” – nunca a vimos tão determinada e aguerrida na defesa de uma causa! Começou por se indignar por o vereador Pedro Brilhante ter criticado a forma como defesa das funcionárias (não) foi feita; depois, discorreu sobre a verdade e o valor da confissão como prova, sem nunca suscitar uma ponta de dúvida sobre as condições e a forma como as confissões foram obtidas. Será que a doutora Odete considera que a confissão é a rainha das provas, como foi no passado, no Império Romano e na época da Inquisição? Como boa-cristã estará ela convencida que a confissão, o arrependimento e a penitência purificam tudo? No final, alegou impedimento na votação por ter sido advogada de uma das funcionárias (Pedro Brilhante tinha-o lembrado pouco antes!), mas não o quis dizer aqui no Farpas, mesmo depois de ter sido desafiada a justificar o impedimento.

O doutor coiso gastou - mais uma vez - o tempo e a energia a mostrar o que não é. Primeiro, a censurar e depois a aconselhar Pedro Brilhante sobre a forma de fazer política. Depois, a mostrar muita compaixão pelas funcionárias e a suplicar máxima reserva da intimidade das suas vidas privadas, até porque, disse ele, uma delas estará por um fio. Pelo meio, defendeu com “unhas e dentes” a acusação e teceu rasgados elogios ao instrutor - percebe-se: têm atributos semelhantes, mas pouco recomendáveis. Terminou da forma mais abjeta e na mais profunda contradição, profanando o que tinha começado por implorar aos outros: falou da vida privada das funcionárias, nomeadamente do lado mais íntimo e mais dorido da vida de uma delas. Afirmou que foram dirigidas por quem se aproveitou delas e acabaram por criar factos na vida delas, alguns já não têm volta, pois uma - e nomeou-a - está divorciada, e divorciou-se no âmbito destes factos. Simplesmente execrável. Quando o doutor coiso prega moral ou apregoa virtude é capaz de irritar um morto.


2 de fevereiro de 2021

O estado a que chegámos: da incúria à xico-espertice


A SIC abriu o noticiário desta noite com laivos de proximidade a Pombal: o marido da responsável distrital da Saúde Pública, Odete Mendes (natural de Vermoil), foi vacinado contra a covid-19, sem fazer parte de nenhum dos grupos indicados como prioritário. Estava "ali à mão", que é como quem diz dentro do carro, como explicou aos jornalistas em tom exasperado outra médica de Saúde Pública, Ana Silva. 
As notícias dos últimos dias sobre a vacinação mostram bem o oportunismo e a xico-espertice que reina nas instituições de solidariedade social deste pobre país - que de resto explica bem o número de casos elevados que proliferam lá dentro. Mas não é só. Este encobrimento tácito nas estruturas da Saúde públicas chega a dar náuseas. Ao mesmo tempo que Armínio Azevedo negava, ao telefone, ter sido vacinado, a mulher, Odete Mendes, confirmava-o de viva voz e consciência tranquila. 
E o que tem isto a ver com o facto de Pombal continuar sem delegado de Saúde? - perguntará o leitor, perante a incapacidade do vereador Pedro Murtinho em explicar, na reunião de câmara, o que é que o poder político tem feito por isso. Ora acontece que Odete Mendes foi a mesma que passou por cima de uma ordem de José Ruivo, em novembro, dando parecer positivo a um torneio de xadrez onde o marido iria participar, quando as indicações do então delegado de saúde iam no sentido contrário. É a mesma com quem D. Diogo reúne. Só não sabemos se também já falaram desse gesto demagógico do nosso presidente da Câmara, que mandou emitir um comunicado a anunciar que prescindia da vacina, sob o argumento de que "o Estado deve ser criterioso e que o Plano Nacional
de Vacinação seja executado a um ritmo muito elevado”, privilegiando  "os cidadãos com mais de 80 anos". Diz o autarca-modelo que isso de considerar prioritários os responsáveis  locais pela Proteção Civil (como é o caso dele) “resulta de um processo lamentável de atropelo e respeito pelas pessoas mais prioritárias e mais confrontadas com o risco". Em certa medida, lá tem a sua razão. Só corre risco aquilo que existe. E em Pombal, não sabemos nada da Proteção Civil nesta pandemia. 
Ora, perante este lodaçal em que andamos a escorregar todos os dias, espero que D. Diogo guarde uma réstia do seu moralismo para as conversas com a coordenadora da USP Pinhal Litoral. E já agora, que Pombal não apareça nas notícias um dia destes. Certamente não aparecerá, porque quando a excepção se torna regra, entramos no registo do cão que mordeu o homem. E como se sabe, só o contrário é notícia.

1 de fevereiro de 2021

Obviamente que a obra é para avançar!

 



Supostamente, arrancaram hoje as obras de requalificação do Jardim da Várzea (do lado do caminho de ferro).

Afinal a tal “auscultação pública” do projecto serviu para quê? Serviu para atirar areia para os olhos daqueles mais distraídos e para os crentes. Se o projecto já tinha ido a concurso publico, queriam o quê?

Foram enganados Caros Pombalenses! Nada que já não tivéssemos alertado por essa altura.

30 de janeiro de 2021

D. Diogo faltou!

D. Diogo faltou à reunião do executivo municipal. Preferiu a reunião da CCDR Centro.

Percebe-se: o momento é de resguardo, de jogar com o tempo, de dar a iniciativa ao adversário. 

Fugir mostra fraqueza. Mas o homem que foge pode combater outra vez.

D. Diogo mantém-se em combate.


28 de janeiro de 2021

A saúde que (não) temos




Passaram quase dois meses desde que o delegado de Saúde pediu a exoneração. Não foi substituído. Mas ninguém parece importar-se com isso.

Desde final de novembro que "a vida é sempre a perder", como cantam os Xutos, no que diz respeito à situação de Pombal face à pandemia. Mas o poder político parece mais preocupado com passeios no parque, exibicionismo de boas práticas disto e daquilo, do que em bater o pé e exigir que um concelho como este - que tem só um dos números mais elevados do distrito no que respeita à letalidade por covid-19, à data de hoje 566 casos activos - tenha o que merece: uma autoridade de saúde que não comande a pandemia à distância.

Depois da saída de José Ruivo, a médica que supostamente o viria substituir ficou "retida" em Leiria. E é a partir daí que somos vistos, que é coordenado o estudo epidemiológico, segundo as regras ditadas pela tutela: o rastreio de contactos dos infectados faz-se a 48 horas, e não a 14 dias, como defendia o anterior delegado de saúde. Talvez isso explique por que razão, até novembro, Pombal era uma exemplo a quebrar cadeias de contágio. É claro que entretanto o efeito bola de neve ganha escala... E por mais competentes que sejam os profissionais de saúde que a partir de Leiria coordenam o trabalho do ACES Pinhal Litoral, não é bem a mesma coisa do que estar no terreno. Saber se naquela localidade há um parque industrial, um supermercado ou um café. Ou já não nos lembramos de como era até novembro?

Qualquer cidadão bem intencionado (e não de bem...) imagina o esforço hercúleo que médicos, enfermeiros e administrativos estão a fazer por cá, para que o Centro de Saúde de Pombal e as Unidades de Saúde Familiar (São Martinho e Marquês, na cidade; e Vale do Arunca e Sicó) continue a trabalhar com a aparente normalidade. Contando que as falhas de meios humanos são imensas, que faltam médicos, que ainda recentemente a Unidade de Saúde Pública esteve três semanas sem administrativa. 

E nisto, temos quase 3000 utentes sem médico de família.

A reboque da pandemia, há um tecido social que se fragiliza e precisa de apoio. Imaginemos uma família infectada, sem rede, que ainda por cima tenha a seu cargo um idoso. Quem é que a apoia? Noutros concelhos essa é uma articulação que está a ser feita pela Protecção Civil. Mas aqui preferimos gerir egos e questiúnculas, concentrando esforços no que é acessório e não no que é essencial. A propósito, por que deixámos de ter o tradicional briefing com/para a imprensa, logo quando era mais preciso? Por que deixamos de ter boletins epidemiológicos?

Recordo que temos 1 presidente da Câmara e 8 vereadores. 13 presidentes de Junta. Uma presidente da Assembleia Municipal. 27 membros eleitos por 5 forças políticas. Será que algum mexeu uma palha em nome deste elefante na sala?

Passaram quase dois meses desde que o delegado de Saúde pediu a exoneração. Não foi substituído. Mas ninguém parece importar-se com isso.

 



Auschwitz

Porque ontem foi dia internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. 


Tinha 23 anos quando cheguei a Cracóvia para uma visita. 


Hoje acho que a sorte bafeja-nos o destino para que não passemos pela vida com falta de experiências para uma vida toda. 


Era a viagem que punha um ponto final a quase dois anos na Alemanha, que tinha também ditado a minha interrupção do curso de Economia. Por isso tinha que ser mítica.


O motivo principal da paragem em Cracóvia significou, na altura, falta de planeamento ou sequer uma pesquisa sobre as atrações turísticas da cidade. 


Na segunda-feira levantei-me de manhã e percorri a praça do mercado. Lembro-me da presença de imagens e estátuas de Karol Wojtyla por todo o lado. Afinal foi ali que andou no seminário. E eis que vejo a paragem de autocarros para os sítios turísticos. Foi na noite anterior que me falaram que estava perto dos campos de concentração. Não estava minimamente preparado para o que ia ver nesse dia.


Fiz a visita sozinho, senti-me um peregrino  que expia os seus pecados. 


É impossível não nos sentirmos culpados do pecado da humanidade, da qual fazemos parte e estamos intrinsecamente ligados. É impossível não chorar. Levar um pontapé no peito quando respiramos aquele lugar. É preciso parar, muitas vezes, para reflectir e digerir as monstruosidades que nós fizemos a outros como nós. Como fomos capazes de deixar que o ódio por outros, iguais a nós, inebriasse perdidamente a réstia de empatia nos nossos corações. 


Demorei o dia inteiro... não consegui comer. Bebi apenas a garrafa de água que levei. Sentei-me em várias pedras. Fiquei mais de uma hora no pátio junto à parede onde fuzilaram milhares, mesmo ao lado do edifício onde fizeram os testes humanos. Levei os dedos aos buracos de balas na parede, fim da linha do trajecto que tinha trespassado alguém como eu. Passei pelos fornos semi destruídos.


Não falei nesse dia.


Despedi-me com os olhos da frase “Arbeit macht Frei” em ferro.


É preciso não esquecer.


Foto: Czesława Kwoka, menina, 14 anos (foto original a preto e branco colorida por Marina Amaral)



O XATO - Os "Humanos"


 

25 de janeiro de 2021

O que dizem os teus votos

O resultado das eleições presidenciais de ontem é uma espécie de choque frontal com a realidade, que passou diretamente das redes sociais para os boletins de voto.

Pombal é o que sempre foi - ao contrário de muitos concelhos que só agora estão a (re)descobrir a banalização do mal e o discurso do ódio, através da retórica fácil de AV, sempre de faca afiada e língua de fora. 

A esta altura do dia já todos estamos fartos de análises, de comentadores, e seria bom que os líderes partidários tivessem percebido o que parecem querer continuar a ignorar: nada fica como dantes, depois destas eleições terem revelado que Portugal continua, afinal, alinhado com o resto da Europa e do mundo, só com um bocadinho de atraso. Não é defeito, é feitio. O que aconteceu agora à esquerda (que não percebe a importância de se unir em vez de esfrangalhar) já acontecera antes noutros cantos do mundo. A ascensão  apocalíptica de Ventura não é diferente da de Le Pen, Bolsonaro ou Trump. A base do seu eleitorado é a mesma, e não é a esses que devemos culpar, pois que o desencanto e a revolta nunca deram bom resultado. Rui Rio não percebeu nada do que se passou ontem, e seria bom que alguém fosse capaz de lhe explicar. Do Chicão não se pode exigir mais do que aquilo. É na direita democrática que está o segredo para fechar esta caixa de pandora.

Mas voltemos a Pombal. Conheço muitos dos que deram ao "messias" estes 2.366 votos, e que se vinham revelando nas redes: há uma maioria, jovem, que nunca votava, e que agora vê nele a salvação "para essa cambada de ladrões e chupistas". Depois há mais velhos, que replicam sem pensar todos os mêmes que lhe aparecem à frente, contra os "malandros que não querem trabalhar", contra o RSI, contra os imigrantes, contra os refugiados. E ainda há os outros, saudosos do tempo da outra senhora. Esses, pelo menos, nunca enganaram ninguém. E continuarão a ser tratados nos hospitais públicos, a receber a dignidade que negam aos outros, em todas as áreas. Preparemo-nos para as autárquicas...

Há muitos anos, num aniversário da revolução que permitiu a estes todos a liberdade (que acabaria no exacto momento em que a extrema-direita chegasse ao poder), publiquei no jornal que dirigia um artigo de opinião de um assumido defensor desse tempo. Porque naquela altura, muito jovem, cheia de esperança no mundo, ainda acreditava que a liberdade de expressão era isso: dar voz a todos, até a esses. Encontrei na rua um leitor que me disse assim: "pois eu não sei se aqueles que são contra a liberdade merecem usá-la, sobretudo para isto". Hoje sei que tinha razão.

Marcelo ganhou também em Pombal, mas por menos que em 2016. Perdeu mais de 3.200 votos. Também votaram menos 3.770 eleitores. Percentualmente, dilatámos ainda mais a abstenção. E há apenas uma freguesia onde Ana Gomes fica à frente de AV: Pombal.

 E quem é que subiu aqui a votação, quem foi? Tino de Rans, que um dia vi hipnotizar uma galinha junto ao mercado municipal, quando ele era a atração de uma campanha autárquica do PS. Quem foi que disse que éramos uma espécie de Entroncamento?

O XATO - Pelos Cabelos


 

24 de janeiro de 2021

A (in)esperada saída de Diogo




Os órgãos distritais  - e nacionais - do PSD preparam-se para ratificar  o nome de Pedro Pimpão como candidato às eleições autárquicas deste 2021. Tornou-se, afinal, inevitável - mesmo com a pandemia no seu auge. 

Em nome da franqueza que me merecem os leitores do Farpas, admito: sobrevalorizei Diogo Mateus e  menosprezei Pedro Pimpão, neste jogo de cintura política. Acompanho o percurso dos dois desde o princípio, e não julguei que a capacidade estratega do primeiro escorregasse em cascas de banana; Podemos tirar (todos) daqui uma grande lição: nunca é bom contar só com a sua própria esperteza, por mais alicerçada que esteja em conhecimento e capacidade. 

Diogo cometeu vários erros neste trajeto que preparou desde a juventude, e ao longo do qual ultrapassou obstáculos complicados [recuemos a 2001, quando Narciso o deixou de fora das listas, deu a volta por cima e conquistou a Junta de Pombal para o PSD. Conseguiu voltar à Câmara em 2005 e aguentar o cargo de vereador até chegar a sua hora de subir ao poder, em 2013]. Está na Câmara desde 1994. O maior erro talvez tenha sido rodear-se mal. No pressuposto de evitar capacidades maiores à sua volta, acabou sozinho.

Mas há erros que se pagam caros. E se a substituição - por razões que a razão desconhece - da vereadora Ana Gonçalves não teve grandes custos políticos (afinal ela continua ao lado dele, sempre, a votar quando é preciso), já a de Pedro Brilhante foi-lhe fatal. E embora a nível local o PSD tenha feito de conta que as denúncias de utilização de meios públicos para fins privados não importavam - os órgãos nacionais preferem não arriscar. A história autárquica está já bem recheada de casos que redundaram numa substituição do candidato à última hora, por contas com a Justiça. Aconteceu aqui ao lado, em Ourém, há 4 anos. E resultou numa derrota inesperada para o PS.

Percebe-se agora o peito cheio dos mais próximos de Pimpão: com a unanimidade da concelhia (os que iriam votar contra vão fazer o favor de não comparecer ao plenário de militantes, quando ele acontecer), a distrital só tem que aprovar-lhe o nome. 

Perante isto, já era tempo de Diogo dar uma palavra aos súbditos. 

Dirimir a altivez não é fácil, mas é digno. Se é que isso (lhe) importa.