2 de abril de 2020

OS SUPER-HERÓIS



Parte da minha actividade profissional não permite o tele-trabalho. Como tal, todos os dias tenho de sair de casa para trabalhar e, intermitentemente, para ir comprar alguns víveres.

Confesso que a situação que vivemos (a do vírus malvado) me assusta bastante. Não só pelo receio de contrair a maleita, mas também por poder transformar-me inconscientemente num veículo transmissor.

Nos atravessamentos receosos que TENHO DE FAZER na nossa cidade, observo diariamente agrupamentos de um tipo de respeitáveis cidadãos: OS NOSSOS MAIS VELHOS.

Por ignorância (alguns) ou por mera marialvice (outros), esquecem-se que, para além de constituírem o pitéu preferido do maléfico Corona, possuem o super-poder do contágio.


AI OS MENINOS!

Onde se dá conta da conversa da almeida com jardineiros sobre o derrube da marquesa

- Bons dias, colegas – atirou a almeida, ao passar pelos dois jardineiros que tiravam as ervas daninhas dos malfeitos canteiros da praça principal.
- Bom-dia – respondeu a jardineira.
- Bom dia – respondeu o chefe-jardineiro. 
- Já sabeis do novo escândalo que rebentou na corte? – perguntou a almeida.
- Ouvimos dizer qualquer coisa mas nem queremos acreditar – respondeu a jardineira. E prosseguiu: - eram tão próximos…; mas dizem que ela andava feita com o escrivão-mor para tramar o príncipe; e ele, vendo que tudo lhe ia de través, zás.
- Já vi que já emprenhastes pelos ouvidos com versão do escudeiro-mor – afirmou a almeida.
- Então,..? – atirou a jardineira.
- Se sabeis a verdade contai-a – instou o chefe-jardineiro. 
- Andais muito mal informados… Não sabeis do longo enredo de saias e ciúmes que se instalou há muito na corte? – perguntou a almeida.
- Isso é novidade velha – retrocou a jardineira.
- É velha mas só agora deu sentença – afirmou a almeida.
- Pensava que essa novela já não fazia peçonha a ninguém – afirmou a jardineira.
- Mas fazia! E fez tanta que a legítima, que faz da vergonha recreio, passou-se e exigiu a saída da marquesa - afiançou a almeida.
- E o Príncipe teve esse descoco? – perguntou a jardineira.
- Foi obrigado, colega; bem sabeis que ciúme na cabeça de mulher é drama que dá ruptura ou tragédia – afiançou a almeida. 
- Foi obrigado porque quis, porque não sabe temperar a ruindade – retornou a jardineira.
- Não te adiantes na língua que eu não quero cá problemas. Se correram com o escrivão-mor, melhor correm connosco. Se espírito travesso do escudeiro-mor passa por aqui, ou ouve alguns zunzuns, estamos despachados – afirmou o chefe-jardineiro. 
- Descansai, colegas; o escudeiro anda entretido a testar o vírus – assegurou a almeida.
- O nosso Soberano anda sempre metido em brigas. Ora numa brincadeira de garotos, ora num folhetim de rabo-de-saia – afirmou a jardineira.
- É verdade, colega; nunca vi uma criatura sob a forma de homem que revelasse tão feroz interesse em desgraçar vida doutrem – anuiu a almeida.
- Mas digo-vos, porque já o ouvi a muita gente, a devassidão é tirania que já ocasionou a queda de muitos reis – afirmou o chefe-jardineiro.
- Não sou letrada, mas sempre vos digo: o Príncipe não devia dar ouvidos à legitima – é uma desbocada que só traz desordem ao reino – afirmou a jardineira. 
- Mas deu, colega – afiançou a almeida.
- Mas desculpai-me, colega; ainda me custa acreditar nessa escusa. Se a novela era longa e conhecida, e se os reis e os príncipes sempre tiveram amantes - damas da rainha, cantoras líricas, senhoras da alta burguesia e até mulheres do povo -, porquê agora? E desta forma? - Perguntou a jardineira.
- Pois…, mas eram outros tempos... – retrocou a almeida.
- Eram outros tempos mas também o é nestes tempos – retrocou a jardineira. E acrescentou: - - sabeis bem o que se passa na corte dos nossos vizinhos…
- Sei, pois… - confirmou a almeida.
- Então, sabeis que o rei sempre teve amantes, e ainda as tem, mesmo com os pés a cova (Deus lhe dê juizinho). Mas a rainha Sofia deixou-o andar, e sempre se comportou como uma grande Senhora - afirmou a jardineira.
- É outra nobreza, colega – disse a almeida.
- É uma nobreza a sério, quereis dizer - retrocou a jardineira -; onde a rainha sabe ser Rainha. Sabe, como o caracol, carregar a coroa e a corte às costas, para poder esconder a cabeça e os cornos.
- Ai colega, não sei como sois tão liberal; eu não tinha estômago para tal… – retorquiu a almeida.
- Se a coisa não é recente já se devia ter habituado – afirmou a jardineira. 
- Mas parece que nunca se habituou – retrocou a almeida.
- Uma mulher ou é capaz de dar assistência ao homem ou não é; se não é… - afirmou a jardineira.
- Ai mulher! Estais tão liberal…- exclamou a almeida.
- Olha, colega, tomara eu que o meu homem, em vez de me estar sempre a procurar me desse descanso, que é o que o corpo me pede quando chego a casa moída, e desquadrilhada dos ossos, depois de um dia inteiro derreada a cavar e a sachar.
- Pois, colega, mas cada uma é como cada qual – afirmou a almeida.
- A fornicação é muito bonita mas é para quem não cansa o corpo, não é para mim, que já não tenho apetite de dar ao rabo – retrocou a jardineira.
- Bem sabeis, colega, que Deus deu chifres curtos à vaca maldosa; mas deixou sem chifres a muito maldosa – afirmou a almeida.
- Olha, juízo e vergonha é o que faz falta  a muita gente – rematou a jardineira.

                                                                                          Miguel Saavedra

1 de abril de 2020

Quem é que manda aqui?



À hora a que vos escrevo Pombal continua (destacado) a ser o concelho do distrito de Leiria com mais casos confirmados de Covid-19. Mas a crise sanitária - para a qual o poder autárquico acordou tarde - não se afigurou suficientemente grande, aos olhos dele(s): Em plena pandemia, o presidente da Câmara retirou os pelouros à vereadora Ana Gonçalves, abrindo mais uma crise política.
Aqui no Farpas já tínhamos avisado que a decisão estaria iminente. Mas a nossa maior futurologia não poderia conceber que tal acontecesse num tempo como este, que todos estamos a viver. 
Na reunião de Câmara da semana passada, uns e outros falaram do assunto com pinças. Ana Gonçalves referiu-se a "pressões exteriores", ela que acabou por ser vítima desta espécie de fado do ciúme. Não foi explícita, como não foi nenhum dos vereadores. Mas quem circula pelo comércio e serviços locais sabe bem do que está a falar, sabe que há neste enredo toda uma novela de faca e alguidar, que começa com alegadas traições e termina com alegadas chantagens. 
Não temos nada contra novelas, que tantas vezes retratam a vida como ela é. Já não achamos normal que andemos a ser governados por terceiros, por quem não elegemos. 
Nos últimos dias a nossa primeira-dama assumiu, nas redes sociais, o papel que caberia ao gabinete de comunicação da autarquia, se ele existisse. A proposta que deixamos a D. Diogo é que regularize de uma vez por todas essa função. Que contrate esses serviços, às claras. Não é o primeiro nem será o último presidente de Câmara deste país a fazê-lo. Perante tamanha abrangência demonstrada publicamente, não é de estranhar que a senhora esteja apta a assegurar alguns pelouros, aliviando assim o fardo dos poucos vereadores que restam. 
Além disso, se é para nivelar por cima, por que não haveríamos de ter a nossa Hillary Clinton, em versão direitolas?

31 de março de 2020

Alguém percebe a comunicação da Câmara Municipal de Pombal?


Erro número 1: Impressão de viseiras para proteção do staff nas instituições

Usar uma situação de crise para promoção pessoal é o pior exemplo que se pode dar.

Quando é necessário dinamizar pessoas porque precisamos de apoio de muitos para acções concretas (e acredito que vamos precisar de muitas nos próximos tempos), faz todo o sentido, mas não é este o caso da promoção da impressão 3D de viseiras que é apresentado pelo Presidente da Câmara. Erro comunicacional na forma e no actor.


Este pedido deveria ser promovido por quem gere e bem esta instituição, Nelson Pedrosa, e não pelo Presidente. A Câmara pode e deve dar visibilidade a esta ação e colocar recursos para encontrar empresas com CNC que possam apoiar rapidamente os números necessários e coordenar a recolha para evitar deslocações como é indicado. Não digam às pessoas para visitar o projecto Maker na Biblioteca Municipal É necessário ficar em casa!

Erro número 2: Conferência de imprensa

A comunicação do número de infectados e em vigilância é da competência das autoridades de saúde e não da câmara, e muito menos interpretações de carácter pessoal. Em boa altura que esta comunicação passou a ser passada directamente para os meios de comunicação social regionais. 

Criam-se alarmismos falsos e errados, nomeadamente de situações com os Bombeiros sem qualquer articulação com as autoridades de saúde. Deveria por exemplo indicar quais as medidas que pode ou não apoiar na proteção dos bombeiros de Pombal.

Erro número 3:

Toda a comunicação deveria estar direcionada para a situação de crise e das ações da câmara. Não é compreensível que o executivo neste momento desfoque disso, ora vejamos algumas notícias disponíveis no site da Câmara (https://www.cm-pombal.pt/noticias-3/)

  • 30 de Março: Município de Pombal apoia requalificação de parque infantil na Mata Mourisca (cerca de 10 mil e 6 mil euros para a Fábrica da Igreja)
  • 27 de Março: Pombal adere à Hora do Planeta 2020 numa altura de crise esta paragem é sequer de considerar?
  • 26 de Março: Construção do Centro Escolar de Vila Cã com Parecer Favorável do Tribunal de Contas já aqui foi falado várias vezes sobre a (pouca) importância deste investimento

Prevêem-se tempos difíceis para pessoas, empresas e instituições.

O bom senso dita que, antecipando-se necessidades, todo e qualquer investimento seja suspenso para potenciais necessidades imediatas. 

Se os cenários se cumprirem, brevemente teremos pessoas sem dinheiro para comer e será preciso mobilizar fundos de imediato porque o Governo Central não terá capacidade. Existem na lei mecanismos para alterar o orçamento municipal rapidamente se for necessário.

Ninguém quer saber de programas eleitorais neste momento!

Haja bom senso na comunicação e nas decisões.