26 de janeiro de 2026

Do negócio de porcos à porca da política

O assunto parecia encerrado, desde há vários anos, mas eis que renasceu: a Câmara de Pombal equaciona aprovar a exploração de uma suinicultura na renascida freguesia da Mata Mourisca, que vai afectar pelo menos oito localidades de duas freguesias. Não há como dourar a pílula - quem mora na Mourisca de Baixo, nas Biqueiras, nas Castelhanas, na Moita de Boi e outros lugares limítrofes corre o risco de passar a viver infestado pelos cheiros e pela merda. Vamos dizer isto com todas as letras, para ver se os senhores e senhoras autarcas percebem bem. 
Está em marcha uma petição - que pode e deve ser assinada por qualquer um, seja ou não morador, pois que numa terra que aceita tudo é melhor todos porem as barbas de molho - mas é preciso endurecer esta luta. É preciso ir à reunião de Câmara, ir à Assembleia Municipal, ir a todo o lado expor o que não era suposto: a mesma Câmara que entre 2019 e 2021 travou a criação de porcos no meio das pessoas, à beira de uma ribeira, está agora a vacilar e pondera aprovar o que vai ser - não duvidem - um atentado ambiental. 
Na aldeia onde nasci e onde moram os meus já há meses que se sabe disto. Nas outras também se foi anunciando, a partir do momento em que o dono da Suinijanardo (empresa proprietária da pocilga, ofereceu uns porcos assados para um torneio de cartas. Com pés de lã, foi avançando. Na semana passada convidou os presidentes das junta das freguesias afectadas e uma comitiva da Câmara para visitar a pocilga-modelo, na freguesia de Colmeias, concelho de Leiria. Lá foi uma comitiva liderada pela vice-presidente Isabel Marto e a super-vereadora Ana Carolina Jesus ver como é, supondo que a ideia é contar como é que foi. 
Ficámos a saber disso na sexta-feira passada, numa reunião com a população na Associação de moradores da Mourisca de Baixo (na foto), onde o presidente da junta da Mata Mourisca - o estreante Nelson Matias - informou os presentes desse e outros pormenores. Por exemplo, de como andou de fita métrica na mão a medir as estradas circundantes, para concluir que dificilmente ali passariam os camiões a que o negócio obriga. Seria cómico, se não fosse trágico. O problema não é a estrada nem o piso. O problema é o cheiro, o problema é a merda. O problema é travar o licenciamento de uma indústria que não vai criar sequer postos de trabalho quanto mais riqueza (a não ser para o proprietário), ou qualquer bem-estar, antes pelo contrário. Vai comprometer a qualidade de vida dos que ali moram, agora e no futuro.
E por isso é preciso firmeza nesse parecer que as autarquias são chamadas a dar. "Ah, porque se não licenciar a Câmara tem que indemnizar o proprietário". Das duas uma: ou usa a sua litigância para o que importa, ou usa o dinheiro para bons fins. O que não pode é usar o poder que o povo lhe conferiu para comprometer o futuro.
Na assembleia popular de sexta-feira ficou uma nota positiva para o presidente da Junta do Louriçal, Célio Dias, que se mostrou frontalmente contra a engorda de porcos. Pessoalmente tenho zero simpatia pela figura, mas pode bem vir a ganhar a minha admiração. Diz ele que as únicas botas que engraxa são as suas, por isso cá estaremos para ver. Igualmente curiosa foi a aparição/participação dos senhores do PS (mesmo que a esmagadora maioria dos presentes não soubesse quem eram, e nem eles tenham tido o bom senso de se apresentar), que ali foram misturar alhos com bugalhos.



2 comentários:

  1. A suinicultura é uma actividade necessária para a economia de uma região. Tem é de se encontrar os locais e as infraestruturas de modo a que essa actividade económica não prejudique as populações. Esse tipo de instalações nunca pode ficar localizada junto de aldeias e sem ter as devidas condições de protecção ambiental.

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  2. Paula, não se trata da porca da política, mas sim da falta da sua ação preventiva ante um problema que se percebeu ia crescer e que um dia ia estalar na mão de quem preferiu ir adiando as soluções.
    Porque o negócio dos porcos é legitimo como o são todas as atividades económicas que se pretendem instalar num local com vista à sua produção.
    O problema está sempre entre os interesses antagónicos entre os empresários que sempre acabam por influir no meio ambiente com movimento, ruido, cheiros, fumos, insetos e insegurança, na sua visão sempre diminutos ou quase inexistentes, porque mitigados por prometidos meios tecnológicos e o das populações a quem vão alterar o bem-estar até então vigente acaso as tais promessas e garantias não venham a funcionar como anunciado, o que invariavelmente acontece, infelizmente.
    Porque ou a tecnologia milagrosa não existe, embora prometida, ou porque os processos mitigantes sejam de tal monta caros que inviabilizam economicamente a produção, levando sempre ao jogo do gato e do rato, onde após a instalação os efeitos nefastos sejam também objeto de avaliação e leituras diferentes entre empresário e população.
    É indesmentível que todas as atividades são necessárias para a nossa vida coletiva, mas isso não é suficiente para que todas se instalem em qualquer lugar onde possa prejudicar núcleos urbanos onde até então se vivia com qualidade. Porque viver com qualidade é também uma consequência de uma vida económica bem organizada e uma vida bem organizada obriga fixar nos sítios mais indicados os meios de produção.
    No caso vertente, apesar dos pareceres técnicos das entidades, da localização de PDM que o permite, aponta a proximidade do núcleo urbano e os ventos dominantes para ser um local que tem tudo para vir a perturbar de forma profunda a vida dos residentes locais e, nessa medida a recomendação para que se evite a entrada em funcionamento da exploração em causa.
    Os efeitos habituais são conhecidos e é mais que legítima a preocupação dos habitantes que ainda por cima têm o apoio das juntas de freguesia local, Mata Mourisca e vizinha Louriçal.
    É nestes casos que o poder político mais se vê confrontado com as possíveis soluções e aconselháveis decisões.
    Para mim, neste caso só há uma saída que terá de ser a favor da população, uma decisão exclusivamente política, mas com consequências para quem decide, porque passa pela inviabilização da exploração naquele local com um obrigatório acordo com o empresário (que já vem muito tarde), que na minha opinião poderia passar pela aquisição das instalações pelo próprio município com posterior utilização ou venda para outra qualquer atividade possível com muito menores impactos ambientais.
    O custo pode não ser baixo, mas se se aplicam milhões em parques de lazer para a melhor qualidade de vida das populações também aqui serão justificáveis investimentos vultuosos na promoção de iguais desígnios para as populações ali residentes e aqui até com alguma possibilidade de retorno financeiro.
    Na Guia ainda está em cima do pescoço dos Guienses uma possível mega fábrica no núcleo urbano, que só o movimento da população conseguiu até agora atrasar, mas sem garantias absolutas e também uma fábrica de biodiesel na Zona Industrial da Guia que aumentou a produção e passou a haver uma atmosfera constante a ranço oleoso na zona urbana a prejudicar o bem-estar da população, ou ainda o aumento do aviário na Aldeia dos Redondos a ter iguais efeitos para a população local.
    Todas estas consequências devem ser bem lidas pelo poder político e obrigar o mesmo a criar regras e procedimentos que os consigam evitar, ou não será para isso que o povo vota neles?

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