O Mateus, 34 anos, já sabia a lenda do Bodo mas nunca tinha ouvido falar do baile dos cedros ou do baile da pérgula, do Agro-Bodo, da meia-maratona, ou da maioria dos postais que cada um guarda na sua memória. Depois daquele fim de tarde promovido pelo Tristany Mundu - o artista que investiga o que é, afinal, um indígena (aquele que pertence à terra onde habita), ficou de combinar com o Alfredo uma incursão na Filarmónica ou no Rancho Típico de Pombal.
É apenas um dos mais de cinco mil cidadãos estrangeiros que aqui moram. Muitos deles têm colorido o jardim do Cardal nos últimos dias, abalando a pasmaceira habitual. No jogo em que o Brasil foi eliminado pela Noruega, domingo à noite, era um mar de gente.
Bem sei que aqui na terra vamos rapidamente do 8 ao 80 (ou do 80 ao 8, se falarmos na organização do Bodo deste ano), e por isso o cheiro a cachupa, futebol e funk não incomodam só um ou outro herdeiro dos pergaminhos de Pombal. Se o som é alto e prolongado, entra-nos a todos pelos tímpanos adentro, qual timbre do Pimpão na Assembleia Municipal. Mas o Mundial de Futebol vai acabar e voltaremos ao mesmo: dois ou três que dormem sestas nos bancos, um ou outro que fazem scroll, de cabeça baixa, enquanto caminham da estação para o Cardal ou vice-versa. Por isso, deixemos que este povo se divirta, por dias, na terra que também é sua.
O Pombal de Maria Fogaça, António Serrano, Maria Justina Varela Pinto,Guilherme Santos ou Maria Mafra já não existe. Há muito do que fomos que apenas subsiste na memória, e sim, deve permanecer na história, e ser evocado, passado às gerações mais novas. Já não existe O Eco, nem o Correio de Pombal, nem o Voz do Arunca, nem o Pombal Oeste, das rádios resta uma sombra do que foram, da vitalidade que entre os anos 80 e 90 fazia rodar gerações inteiras com programas temáticos e interacção com o público. Era no tempo em que sonhávamos muito e voávamos alto sem precisar de slogans para o fazer.
O que precisamos de fazer agora é uma cidade para os que vivem aqui e agora, se queremos que venham outros. Podíamos começar por acabar com essa mania de empedrar jardins, e cujo resultado esteve à vista, ainda estes dias. Mas essa é outra conversa, para termos a propósito de uma obra que aí vem.

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