28 de março de 2014

Vamos todos à bruxa com o Vítor Leitão, vamos, vamos, vamos, vamos?

(Nota prévia: aqui há uns tempos, propus-me não arrolar o nosso-de-todos-mas-principalmente-só-de-alguns Sporting Clube de Pombal na tábua de malícias crónico-farpeantes por mim assinadas. Menti. Siga.)

Eu nem sei como (ou se) contar isto. Mas vá lá, conte-se: tanto tem desandado às arrecuas a minha, por assim dizer, meretricial vida, que me lembrei, a fim de socorrê-la um ’cadito que fosse ainda a tempo, de ir à bruxa.
A Coimbra ao psiquiatra, já tinha ido. Nada que se me aproveitasse: umas pastilhas para rir da tristeza como se fumasse daquele chá-mon de Marrocos – e mais nada.
Também fui ali ao bar do Moto Clube de Pombal no horário de expediente do Rui Valentim, pela simples e sensata razão de nem me achar assim tão feioso “ó-níbél” da tabuleta-de-ventas de cada vez que olho para o dito Valentim Rui. Também não resultou, até porque esse bom rádio-motard tem ficado mais bonito e mais giro e até mai’ lindo com a idade. Ou pelo menos assim o achei eu, depois da primeira litrada & ½ de bagaceira-casco-carvalhosa.

Bruxa, portanto. Tinham-me falado de uma que vive numa casa assim a atirar para o amarelo como punhadas de açafrão sita em recôndito e remo(r)to lugarejo da minha mui querida & estimada freguesia louriçalense. Falaram-me dela e recomendaram-ma, ressalvando porém que a dita maga-patalógika (esta, só os leitores dos disney-tiopatinhas dos antigamentes é que lá vão buscar) tem, como eu há mais de três décadas tenho, o mau hábito e o bom prazer de esfumaçar pelas guelras como o cavalo, que é como quem diz, ali pelas bandas da também louriçalense Moita do Boi (já lá vamos, já lá vamos), escacilhar a xoipa. E que por causa disso tem as presas da frente amarelas como as de coelho que fume abóbora-menina. Adiante. Pedi boleia (eu tenho carro e carta de condução, mas tanto o tal psiquiatra da Lusa Atenas como o Rui Brad Valentim Pitt me disseram que não, que era melhor não, que as estradas municipais deste concelho são demasiado às rectas curvas para tanto beber a torto e a direito), pedi boleia, dizia eu, e lá cheguei.

Lá cheguei mas vim-me logo embora sem entrar: é que na eira da espírita Madame Min local (outra para os disneylândios do meu tempo) ele era tanto carro de gente afecta ao Sporting de Pombal, mas tanto carro tanto carro tanto carro tanto carro, que eu vim logo embora, que antes de sábado de manhã de outro Novembro eu não seria atendido. Nem com passes de mágica, nem em casas-de-passe. Desertei o local contrariado. Contrafeito. Chateado. Malacafento da corneta. Aziago dos rins. Com a tripa a furar bichamente ao sótão da gorja.
Mas que carácio – dizia eu de mim p’ra mim também – fará aqui tanta ilustre grei do leonino Pombal? Será que a bruxa anda a fazer filhos para os juniores? Será que o vinho aqui é melhor do que o do Tapa? Será que o Adelino Leitão se perdeu e julgava que estes casais já eram Vermoil ou, pior ainda, a Amarante da senhora sua/dele esposa?
Aquele mistério pareceu-me tão capitoso e ao mesmo tempo tão jeitoso para aparecer, sei lá, no Pombal Jornal ou, pior, no Notícias do Centro, que até me deu pena de já não haver o Voz do Arunca ou O Abutre. Para mais, ainda não tenho os contactos da Pombal TV. Nem se calhar eles haveriam de querer saber disto, quem sou eu para dizer se sim, se talvez, se a gente ainda está a arrumar as tralhas da Gala.

Por felicidade, era dia de piquete do Rui Valentim no bar do Moto Clube. Lá me fui a ele. Entrei de mansinho, conferi as moedas na algibeira enquanto subia a escadaria, boa-noitei a maltosa presente, assídua & circunstante – e sentei-me onde não chateasse nem cheirasse demasiado mal a ninguém. O Carlos Vinhas Arquitecto ainda não tinha chegado. O Matias pequenito também não. O Jorge Franco idem aspas negativas, que esse agora só cavilha para raias da Charneca, faz ele bem. Quem também lá não achatava os pezunhos por essa hora era o bom do Paulo Alexandre, porque esse agora é magnata da Rolls Beer, a qual ainda não provei apesar das garantias do Toninho Roque Caixeiro-Viajante da dita marca artesanal que fermenta já borbulhantes e prestigiosas glórias ao nosso terrum concelhio “ó-níbél” nacional, internacional, mundial e mesmo até ao Barrocal.
Foi boa ideia. Na mesa ao lado, dois gandins já madurotes, assim tipo orquídea de pedúnculo a tombar pró murcho, era de Sporting de Pombal que falavam. E isto era o que rosnamurmuravam, dito & transcrito por mim, qu’eu seja ceguinho das orelhas se estou aqui pa’ d’zer a verdade seja sobre o que for:

Fosca-se, meu, queixam-se do quê, os gajos? Só da Cambra em 2013 encoiraram eles umas 49 e meia milenas d’aéreos.
Isso tamãe é capaz de ser inzajêro, digo eu c’os nerbos.
Mas q’ais inzajêros, mex, mas q’ais inzajêros? S’e não foi mais até, cumó Vítor Leitão.
- Eh pá, num mistures na mêma salgadeira o que num é de misturar, porque bá lá que num bá, no Spórtem-Pomvale ninguém gamou nada a ninguém pa’ putas e vinho-verde daquele de rolha de malte, tás-ma-ber-aki-ó-kê?
Tá-bãe, nisso tens razão, mas olha q’agora esse até ch’crabeu ’ma carta tãn linda mas tãn linda ao Diogo, q’o Diogo diz qu’até fez mais escabeche a chorar a lê-la do que um carapau é capaz d’alombar com binagre ódebaixo daquela cebola toda, e olha que pa’ chorar não há como a cebola nem com’à tua m’lher.
A minha m’lher num é p’aqui chamada, vai mazé pôr os porcos a tossir jaquizinhos como tu ó o carago.
Num é p’aqui chamada? Ai não que num é: atão não é ela que ganh’algum, e dizem que nem é pouco, com aquele par-táime qu’ela tem de bruxa licenciada no Livro de São Cipriano, qu’inté muita maltosa afectiba do Spórtem-Pomvale lá tem ido ver s’ela faz o milagre de nascer dinheiro para pagar à Dulce funcionária que já não vê há luas o qu’é dela enquanto eles vão ao Algarve comprar autocarros onde chove e cujos travões diz que era para haver mas até hoje népias qu’até é uma bênção aquilo ’tar parado como a vida da Dulce administrativa?
Isso é mê’m’assim? Às bezes as bozes são mais q’as nozes…
Mazé q’é sem tirar nem pôr. Ali na Associação da Moita do Boi, só assalariadas são catorze. E não s’consta que a nenhuma deles falte o guito ó fim do mês, méne.
A minha mulher tamãe ’inda num recebeu nada té-gora.
Olha, ela q’espere sentada como tu ’tás agora. Ó Rui Valentim, traz mazé aí mais uma jarrola de sangria. Olha, e um bagaçola ali pró escritor qu’inda num parou de escreber à pressa e com erros ós modos qu’inté ’tá a grabar o q’a gente aqui diz.

De modo que a vida às vezes inté parece melhorar sozinha.
Sem psiquiatra.
Sem chorar como o Diogo e como o Vítor.
Parece bruxedo.

5 comentários:

  1. Amigo e companheiro dos sumos, Daniel Abrunheiro, boa tarde.
    Fala comigo que eu meto empenho numa bruxinha fininha, loirinha e sabedora para te tratar das tuas maleitas.
    O nosso companheiro Rui Valentim já lá foi.
    Aquilo é tiro e queda.
    Conta comigo.
    Abraço solidário

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    1. Já vou a caminho, Amigo. E o Rui também. Vou de mota com ele. Levamos acordeão e viola.

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  2. Bom dia
    Caro Daniel a tua melhor bruxaria é a tua cabeça. o papel e o lápis, no entanto, se fores lá, leva também o camarada Manel, antes que seja tarde!

    Imagina tu a escreveres a letra o Manel a recitar e o Rui Valentim a tocar acordeão, dava um bom espectáculo de beneficência!

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    1. Amigo e companheiro Papagaio, boa tarde.
      Compro as duas ideias.
      Abraço.

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