13 de abril de 2024

Canções de Abril #13

“Queixa das Almas Jovens Censuraras” é uma das canções do álbum “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, de José Mário Branco, gravado em Paris em 1971, e conta com um belíssimo poema de Natália Correia.  O título sugere um lamento dos jovens a quem impedem de ser livres. O poema é altamente metafórico e denuncia um regime que perpetua uma educação castradora e sufocante. 

Este magnífico álbum foi o responsável por revelar José Mário Branco, na época um ilustre desconhecido no país. Já a autora da letra era uma figura de grande destaque na cultura portuguesa. Açoriana, poeta, antifascista, Natália Correia afrontou Salazar ao honrar a tradição erótica e satírica portuguesa. A sua “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”, de 1966, foi censurada pelo fascismo e valeu à autora uma condenação por "consciente e pública ofensa do pudor, da decência e da moralidade pública". Natália é a responsável pela publicação da obra “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (as “três Marias”), em 1972. O livro é proibido pelo regime três dias após o lançamento, que o considerou “pornográfico e contrário à moral e aos bons costumes”. O adultério, a violação, o aborto e a subordinação da mulher, eram temas proibidos pelo Estado Novo, que via as mulheres como cidadãos de segunda, não lhes concedendo o direito de votar ou a possibilidade de sair do país, abrir conta bancária ou tomar contraceptivos sem a autorização do marido. Um livro urgente nos dias de hoje, onde muitos parecem ter saudades de um tempo em que a "família tradicional" era sinónimo de discriminação da mulher.

12 de abril de 2024

Canções de Abril #12

 


Em 1970 o jovem Hugo Maia Loureiro destacou-se no VII Grande Prémio TV da Canção Portuguesa. Nesse ano a RTP decidiu não participar no Festival da  Eurovisão, ainda mal refeita das expetativas goradas do ano anterior, com a Desfolhada de Simone de Oliveira.

“Canção de Madrugar” ficou classificada em segundo lugar, num concurso em que se sagrou vencedor Sérgio Borges, com o tema “Onde Vais Rio que eu canto”. Mas ficou no ouvido de todos o tema cantado por Hugo Maia Loureiro, um poema de Ary dos Santos, com música de Nuno Nazareth Fernandes.

Esta canção é uma obra poética, dividida em duas partes quase antagónicas. Na primeira, a alusão ao linho e aos nardos sugerem a preparar para algo sagrado. A segunda parte é marcada por uma entrega dolorosa, numa cadência de elementos negativos: nem 'choros', nem 'medos', nem 'uivos', nem 'gritos', ‘nem farpas nem farsas’…

A “canção de madrugar” termina sem a realização desse amor, mas com a persistência do desejo. O que à época foi um arrojo, e um desafio à censura. Ao longo dos anos muitas foram as versões que conheceu: Carlos do Carmo, Sérgio Borges, Conjunto Académico João Paulo, e mais recentemente Susana Félix, no projeto “Rua da Saudade”.

Foi banda sonora da série “E depois do Adeus”, da RTP, dedicada ao drama dos “retornados”.

Hugo Maia Loureiro morreu em fevereiro deste ano, afastado dos palcos. Canção de madrugar foi o seu maior sucesso. 

11 de abril de 2024

Canções de Abril #11


Canta, canta, amigo, canta
Vem cantar a nossa canção
Tu, sozinho, não és nada
Juntos temos o mundo na mão
 
Cinco mil pessoas, em coro, entoaram o refrão de “Erguer a Voz e Cantar” no I Encontro da Canção Portuguesa, que decorreu no Coliseu dos Recreios em Lisboa no dia 29 de Março de 1974. Na presença de um forte aparato policial, o público manifestava, dessa forma, a sua impaciência para ouvir os artistas que raramente tinha possibilidade de escutar: José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, José Jorge Letria, José Carlos Ary dos Santos entre outros. A canção tinha sido gravada quatro anos antes por António Macedo e, de imediato, se tornou um hino de resistência, adoptado por milhares de jovens em todo o país. O público que, nesse dia, enchia por completo o Coliseu era sensível à mensagem da canção, que apelava à solidariedade e à participação cívica activa.  
 
A singeleza musical e a mensagem simples e directa fizeram desta canção património da geração dos “filhos da madrugada”, ficando no imaginário popular de todos quantos viveram a Revolução dos Cravos. E se antes do 25 de Abril de 1974 a canção era cantada em festas privadas, reuniões estudantis e partidárias, depois da revolução passou também a fazer parte do cancioneiro litúrgico, cantada por muitos jovens em inúmeras igrejas do país. Na verdade, de todas as músicas de intervenção, “Erguer a Voz e Cantar” ou “Canta, Amigo, Canta”, como ficou conhecida, é talvez aquela que se pode dizer que se tornou verdadeiramente popular.

10 de abril de 2024

Canções de Abril #10



Nos últimos 20 anos do Estado Novo, estima-se que mais de 1,6 milhões de pessoas emigraram para diversos países da Europa e da América.  Mas o fluxo migratório acentuou-se na segunda metade da década de 60, essencialmente para França, como é disso exemplo o concelho de Pombal. E continuou nos primeiros anos da década de 70, com cerca de 300 mil a abalarem de Portugal. Depois do 25 de Abril, a emigração (legal) reduziu consideravelmente, mas ainda rondou as 100 mil pessoas até ao final da década.

Em 1970, o poema da galega Rosalia de Castro (1837-1885), escrito no século XIX, encontrou no Portugal do Estado Novo toda a atualidade. Desgraçadamente, em muitos momentos da nossa história manteve-se atual. José Niza musicou-o, e entregou este marco da música de intervenção à voz de Adriano Correia de Oliveira. Se fosse vivo, Adriano teria completado ontem 82 anos. 

A beleza triste desta canção perpassa também nas cordas da viola de Rui Pato e da flauta de Tiago Velez. "Cantar da Emigração" é do álbum 'Cantaremos', editado pela Orpheu em 1970. A canção marca o início de uma intensa colaboração entre Adriano e o compositor José Niza - com quem viria a gravar 'Gente daqui e de Agora', no ano seguinte. 

9 de abril de 2024

Canções de Abril #9

“Caio Guembo, 4 de Abril de 1972. Querida: Já é certeza, amanhã vou para Luanda, portanto não te preocupes. Já estou livre de perigo, agora é só aguardar o dia quinze para dizer adeus a esta Angola que não me deixa saudades algumas. Portanto fica descansada. Se Deus quiser no dia dezasseis já estou ao pé de ti. Adeus até ao meu regresso.”

O primeiro-cabo atirador Carlos Cândido da Silva Neves, que tinha partido para Angola a 18 de Fevereiro de 1970 a bordo do paquete Uíge, regressou à “Metrópole” no dia 16 de Abril de 1972, estando à sua espera, na estação de Faro, a sua madrinha de guerra e futura esposa, Rosa Maria Santos de Matos, com toda a sua família. Final diferente tiveram os mais de 100 mil civis e os 10 mil militares portugueses que faleceram Guerra Colonial, para além dos mais de 20 mil ficaram inválidos. Cerca de 90% da população jovem masculina de Portugal foi mobilizada para uma Guerra que durou 13 anos e só acabou depois da Revolução de Abril de 1974. Portugal era um país criticado pela comunidade internacional, isolado, “orgulhosamente só”, persistindo num esforço de guerra que chegou a consumir mais de 40% da despesa nacional, o que diz bem da demência do ditador e de toda a corja que governava o país.

“Menina dos Olhos Tristes", escrita por José Afonso para a voz de Adriano Correia de Oliveira por volta de 1963, é uma das muitas canções anti-guerra gravadas nessa altura. Com um poema de Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (poeta português radicado em Moçambique, falecido em 1958 e filho do famoso Repórter X), a mensagem remetia abertamente para as Rosas de olhos tristes, que não viam os seus soldadinhos voltarem do outro lado do mar.  A Censura rapidamente proíbe o disco, mas não consegue apagar a música. Aliás, essa como muitas outras canções cruzaram o oceano e chegaram aos soldados, que as cantavam e adaptavam à realidade que viviam. Exemplo disso, é o chamado Cancioneiro do Niassa, uma colectânea canções centradas na vida dos militares portugueses colocados na região do Niassa, Moçambique, durante a Guerra Colonial, nos finais da década de 1960. 

No vídeo podemos ouvir a versão que José Afonso gravou para a Orfeu, em 1969, acompanhado pela viola de Rui Pato, e ainda as canções “Ronda do Soldadinho” e “Pedro Soldado”, interpretadas, respectivamente, por José Mário Branco e Manuel Freire.

8 de abril de 2024

Canções de Abril #8


O ano 1961 foi muito complicado para o regime de Salazar. Em Janeiro deu-se o assalto a um dos maiores paquetes portugueses, o "Santa Maria", por um comando liderado pelo capitão Henrique Galvão, o que constituiu um escândalo internacional. A 4 de Fevereiro, a insurreição do povo angolano marca o início das guerras coloniais. A 12 de Novembro, na farsa eleitoral para a Assembleia Nacional, a totalidade dos deputados eleitos pertence à União Nacional, o que desencadeou várias manifestações. Numa delas, em Almada, o operário Cândido Martins foi barbaramente assassinado pela polícia enquanto gritava "Não há medo". Tinha 28 anos. No dia 4 de Dezembro um grupo de dirigentes comunistas foge da prisão de Caxias no carro oficial de Salazar. A 18 de Dezembro as forças indianas invadem Goa, Damão e Diu, iniciando a derrocada do império colonial português. 
 
Tudo corria mal ao ditador. Em desespero, dá ordens para que a PIDE intensifique os métodos repressivos e de vigilância. No dia 19 de Dezembro, às oito horas da noite, José Dias Coelho, artista plástico na clandestinidade, militante do Partido Comunista Português e responsável sector intelectual do partido, é detectado pela brigada da PIDE. Um tiro à queima-roupa, em pleno peito, deitou-o por terra; o outro foi disparado com ele já no chão. Os assassinos meteram-no num carro e só duas horas mais tarde, quando estava a expirar, o entregaram no Hospital da CUF. «De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas»: esta foi a legenda que José Dias Coelho deu à sua última gravura, dedicada a Cândido Martins. Hoje, esta frase encontra-se inscrita no mesmo lugar onde foi assassinado. 

Em 1972, José Afonso, no seu disco "Eu vou ser como a toupeira", dedica-lhe o magnífico tema "A morte saiu à rua". É a voz do poeta que escutamos nesta versão.

7 de abril de 2024

Canções de Abril #7


“Dia Não” é uma canção composta em 1965 e editada em 67 no primeiro disco da trilogia “La Poésie Portugaise de nous jours et de toujors”. É uma bela balada com poema forte de José Saramago que aborda a força da palavra e do “não”.

“Que o poema se desnude

De tais roupas emprestadas

Seja seco, seja rude

Como as pedras calcinadas

 

Que não fale em coração

Nem de coisas delicadas

Que diga não quando não

Que não finja mascaradas”

O vídeo mostra Luís Cília numa actuação ao vivo no Palau de Sant Jordi, Barcelona, 1993.

6 de abril de 2024

Canções de Abril #6


A editora Orfeu é uma referência incontornável no panorama musical português das décadas de 1960 e 1970. Fundada em 1956, no Porto, por Arnaldo Trindade, a etiqueta prosperou apostando sempre nos novos valores da cena musical portuguesa, muitos deles ligados à chamada canção de protesto. Adriano Correia de Oliveira, primeiro, e José Afonso, depois, estabeleceram uma relação duradoura com a empresa, sem que esta impusesse condições à sua criatividade musical.

Um exemplo paradigmático das edições da Orfeu é o álbum “Fala de um Homem Nascido”, de 1972, uma opereta em duas partes composta por José Niza (trabalho iniciado enquanto alferes-médico em Angola), com encenação musical de José Calvário e baseada em poemas de António Gedeão. Os intérpretes escolhidos foram Duarte Mendes, Carlos Mendes, Samuel e Tonicha que, no ano anterior, tinha ganhado o Festival da Canção com "Menina", uma música de Nuno Nazareth Fernandes com letra de José Carlos Ary dos Santos. Um dos poemas musicados nesse disco, “Lágrima de Preta”, escrito em 1961, continua a ser, ainda hoje, um dos mais magníficos hinos à igualdade. Tornou-se conhecido na voz de vários cantores. A canção foi proibida pela censura, até à revolução de Abril de 1974.

A versão aqui partilhada não é das mais conhecidas. Interpretada por Duarte Mendes, capitão de Abril e vencedor do primeiro Festival da Canção em liberdade, tem um arranjo lindíssimo de José Calvário. A título de curiosidade, refira-se que Sam The Kid usou um sample deste arranjo no seu "Até Um Dia", do álbum “Beats Vol 1: Amor”. 

5 de abril de 2024

A mentira tem perna curta…

O povo costuma dizer que a mentira e a manipulação - seu parente próximo - têm perna curta. Mas correm rápido, e custam a apanhar.

Numa das suas “notícias”, o Jornal de Leiria desta semana titulava “Tribunal Constitucional dá razão a Independentes de Pombal”. E acrescentava logo no primeiro parágrafo: “Dois anos após o pedido de um eleito municipal do PSD de Pombal da perda de mandato na assembleia municipal contra Luís Couto, eleito pelo Oeste Independentes, por, alegadamente, ter concorrido em duas listas nas autárquicas de 2021, o Tribunal Constitucional (TC) concluiu não haver violação da lei eleitoral”.


Quem lê a “notícia” fica convencido que o Tribunal Constitucional se pronunciou sobre a regularidade do caso do independente do oeste que concorreu por duas listas de independentes e que o denunciante e/ou o presidente da Assembleia Municipal levou o caso até à última instância, ao Tribunal Constitucional. Ora, tanto uma coisa como a outra são redundantemente falsas. A CNE pronunciou-se nos seguintes termos: “Embora possa suscitar dúvidas o âmbito de aplicação desta norma, concluiu o TC, no seu acórdão n.º 508/2013, que... a limitação aqui instituída ser válida apenas relativamente ao mesmo órgão autárquico”. Só mentes muito crédulas ou muito perversas podem retirar estas ilações que a notícia refere.

O Farpas acompanhou este processo e teve conhecimento da decisão da CNE. Por achar o assunto pouco relevante e por seguir o critério de não dar relevância ao que é irrelevante deixou o caso na gaveta. Até porque sabemos do efeito perverso que a “publicidade”, mesmo se negativa, tem para agentes irrelevantes.

Por tudo isto, desconfiei da “notícia”. Achei pouco verosímil que o Professor de Direito tivesse embarcado na litigância compulsiva contra um pobre coitado, irrelevante e isolado nestes meandros, que nestas e noutras coisas deixa sempre alguma coisa a dever à ética política. Mas que um jornal com alguma reputação na região se preste a estas coisas é demais. Mas neste panorama informativo já se compreende quase tudo.   

Canções de Abril #5


Em 1963, uma música do álbum Baladas de Coimbra (o mesmo que inclui o icónico "Os Vampiros"), intitulada "Menino Do Bairro Negro", emergiu como obra seminal da canção de protesto, marcando uma ruptura significativa com o fado coimbrão tradicional. Esta canção, além de expressar temas de desigualdade e esperança, carrega consigo os traços distintivos das músicas de resistência à ditadura portuguesa. Acompanhada magistralmente pela viola de Rui Pato, esta balada de Coimbra revelou-se de uma eficácia surpreendente, tendo a simplicidade musical contribuído para realçar a mensagem do belíssimo poema de José Afonso.  

José Afonso afirmou que a negritude de que fala a canção não diz respeito à cor da pele, mas à condição dos meninos explorados nos bairros da cidade do Porto: "Tudo aquilo me chocou de uma maneira espantosa. A primeira vez que cheguei ao Porto depois de várias boleias era de noite. Num dos bairros da Ribeira, vejo quatro tipos a urinar para dentro de uma lata. Era uma cena altamente surrealista, mas muito tripeira. Lembro-me de ter visto os meninos que pululavam por aquelas ilhas. Foi uma coisa que eu pensei que só existisse nos filmes...". O "carácter subversivo" da canção não passou despercebido ao Secretariado Nacional de Informação (SNI) que se apressou a apreender "urgentemente os invólucros do disco de 45 r.p.m. da autoria do dr. João (sic) Afonso que contem (sic) as canções "Menino do Bairro Negro" e "Os Vampiros" e a solicitar ao Director dos Serviços de Censura que "se digne promover à acção conjunta para obviar aos malefícios provocados pela divulgação das referidas canções." A bem da nação!

A canção do “Zeca” sobreviveu ao SNI. A prova da sua intemporalidade é evidente na versão que aqui partilhamos, interpretada por Rita Dias, com acompanhamento de Miguel Pimenta.

4 de abril de 2024

O estranho caso do eleito do PS que é do PSD

 


O caso é comentado há meses entre Albergaria dos Doze, São Simão e Santiago de Litém: Ricardo Francisco, eleito pelo PS na Assembleia de Freguesia daquela União de Freguesias, filiou-se no PSD. A decência mandaria que o rapaz - cabeça de lista dos socialistas nas últimas eleições autárquicas - abandonasse o cargo e fosse à sua vida. Em caso de lhe faltar esse valor, impunha-se que o partido lhe retirasse a confiança política. Porque o partido sabe disto há exactamente os mesmos meses em que o assunto é comentado. Mais: foi tema num plenário de militantes. 

Não há muito a esperar de um partido que se permite ser humilhado sistematicamente por um presidente de junta (o da Redinha), que usa as cores e os meios do partido apenas quando quer voltar a ser eleito. Que não fora a denúncia, aqui no Farpas, de que se preparava para abalar da freguesia, teria feito as coisas à laia de regedor. 

Mas quando o caso incomoda até os eleitos de outros partidos - como aconteceu na semana passada, quando Maria José Anastácio, da CDU, tornou o caso público - chegamos ao ponto de não retorno. O que espera o PS para lhe retirar a confiança política? De o ver num evento público do PSD, a apoiar o líder? Ah, espera, já aconteceu.  


Canções de Abril #4

 


Se Abril trouxe a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, Setembro desse 74 ficou marcado como o mês da luta dos trabalhadores do Jornal do Comércio, que viria a contar com um aliado importante: o GAC - Grupo de Acção Cultural -  Vozes na Luta. Fundado por José Mário Branco, o colectivo de cantores e músicos politicamente empenhados nasceu um mês depois da revolução, e contava com nomes como Fausto, Afonso Dias e Tino Flores que se encontraram numa sessão de canções revolucionárias em Almada. 

A canção que se tornou hino dos trabalhadores do Jornal do Comércio é 'narrada' por JMB. Em Abril de 1974, o matutino contava com mais de 120 anos de história. Em Agosto, começara a greve, exigindo o saneamento do director, Carlos Machado. Durou 46 dias, ao som da cantiga que foi uma arma. 

3 de abril de 2024

Canções de Abril #3



“Meu País” é a canção de abertura do primeiro álbum de Luís Cília* - “Meu País”-, gravado em 1964, em Paris. O primeiro disco de resistência de uma geração de músicos exilados em França, pioneiro de uma nova canção popular de protesto entre nós.   

A música é simples e harmoniosa na relação da voz com a guitarra e deixa todo o protagonismo para a palavra, um poema de Daniel Filipe que canta a esperança na libertação do país amordaçado e oprimido.

A versão aqui reproduzida foi gravada em 1974.

 

*Luís Cília foi o primeiro cantor de intervenção que no exílio, de forma explícita, cantou e denunciou a guerra colonial e a falta de liberdade em Portugal. Nasceu em Angola (Huambo), em 1943; em 1960 veio estudar para a metrópole e envolveu-se logo nas lutas estudantis. É preso pela PIDE em 1962; e em 1964 foge para Paris, onde estuda guitarra clássica e composição e convive com importantes cantautores franceses, como G. Brassens e L. Ferré, e com músicos e poetas portugueses também exilados em França.

Na contracapa do primeiro disco (“Meu País”), escreveu: “Pode-se humilhar um povo, condená-lo à miséria, metê-lo em prisões. Mas não se pode reduzi-lo ao silêncio”. Mote para toda a sua produção artística.  

2 de abril de 2024

Canções de Abril #2


Vozes ao alto, vozes ao alto
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada
Ao Sol desta canção!
 
"Jornada", composta por Fernando Lopes-Graça em 1945-1946, é talvez a mais emblemática de entre as suas "Canções Heróicas", em grande parte devido ao poema de José Gomes Ferreira que a acompanha. Estas composições musicais assumiram um significado profundo no contexto da oposição ao Estado Novo, em particular no seio do Movimento de Unidade Democrática (MUD). O movimento, criado em 1945 para reorganizar a oposição e mobilizá-la para eleições, foi rapidamente ilegalizado por Salazar e as "Heróicas" proibidas pela Inspecção Geral dos Espectáculos. A "Jornada", descrita pela própria PIDE como o hino não oficial do MUD, passou a ser apenas cantada em convívios privados, em colectividades recreativas e associações estudantis. Na verdade, o poema de José Gomes Ferreira era demasiado provocatório para um regime opressivo, prepotente e para um ditador bacoco e provinciano.
 
Esta versão resulta de um projecto colectivo entre o Coro Polifónico Eborae Mvsica, o Coro da Universidade de Lisboa, o Grupo Coral ViVa Voz, o Grupo Coral Laudamus, alunos da Escola de Música Nossa Senhora do Cabo, o Coro Cardif a plein tubes, entre outros. Antes de "Jornada" pode ouvir-se "Acordai", outra das "Heróicas" de Lopes-Graça e José Gomes Ferreira.

1 de abril de 2024

Canções de Abril #1

 


Zeca Afonso adaptou-a de uma canção tradicional da beira alta. Gravou-a pela primeira vez em 1969, no disco "Menina dos Olhos Tristes", e o tema  tornou-se um dos principais hinos de luta durante o fascismo, incluindo nas cadeias, onde  frequentemente lhe eram incorporadas outras estrofes, como "pára-raios na igreja/é para mostrar aos ateus/que o crente por mais que o seja/não tem confiança em Deus".

Na plataforma Spotify aparece sobretudo a versão de Maria da Glória, a cantora alentejana de voz grave, que editou o seu último disco em 1974. 



30 de março de 2024

Ana Cabral no topo dos bombeiros

Meio Pombal regozija com a cooptação da dotora Ana Cabral para presidente dos bombeiros. E o Farpas não poderia desassociar-se deste feito. É lindo ver uma bombeira atingir o topo da organização. Mas na verdade, a novidade é só no género – no resto tem sido esta a regra.

A dotora Ana é uma criatura amorosa. E os bombeiros devem estar carentes de amor. Eis a mulher certa, no lugar certo, no tempo certo. Eis a felicidade no seu esplendor.

 


28 de março de 2024

Sobre ingenuidades e grandolândias

A Citrinolândia foi à reunião da “junta”. Sabe o que é, caro leitor? Não, com certeza. Não se importe. Ninguém sabe… Mas é por esta e por outras que Pombal continua a ser o campeão das futilidades e irrelevante no essencial.

Nada descompõe melhor uma tolice que uma ingénua observação (ou pergunta). O dotor Simões possui aquela ingénua esquisitice mental que, neste novo mundo da realidade ilusória e da virtual realidade, se tornou um atributo necessário para toda a figura pública fazer figura. Se ele não tivesse feito a ingénua observação sobre a Citrinolândia a coisa passava despercebida, e a tolice maior ficava escondida. 

Perante a ingénua observação, o dotor Pimpão, manhoso, saltou fora da conversa e passou a palavra à dotora Marto - um bom-cristão não atira uma criatura indefesa, que prende a língua e choca com as palavras quando tenta usar termos caros, para o martírio. Para nós, meros espectadores desta comédia de província, é sempre um deleite assistir à estratégia, à ciência, à investigação e ao palavreado que estas criaturas, politicamente impreparadas, colocam na justificação do seu voluntarismo estéril. 

Ora ouçam...


27 de março de 2024

O irreal social


 *créditos do fotógrafo Mário Cantarinha

Este ano a excursão à feira de Nanterre voltou a ser uma ocasião de grande convívio, desta vez alargado a meia dúzia de presidentes de junta. Estou em crer que foi a forma que o Pedro arranjou de zelar pela felicidade de seus autarcas, proporcionando-lhes uma visita à cidade-luz. Alguns dos autarcas exibiram, contentes (pois claro) as suas fotos nas ruas de Paris, by night. 

Estranhamente, nas redes sociais do presidente e da Câmara - que são a mesma coisa - nem um sinal da presença na feira/festa da comunidade emigrante. Talvez porque esta visita foi demasiado relâmpago: Pimpão arrancou mesmo antes da sessão de encerramento, deixando o stand entregue a Ana Fernandes, técnica da Adilpom que já está habituada a estas lides.

Diz-se na Câmara que este presidente governa a autarquia a partir do facebook. Aqui no Farpas acreditamos que era perfeitamente dispensável aquele alargado gabinete de comunicação, pois que ele mesmo escreve, fotografa, filma e partilha as coisas mais inusitadas. Se a realidade fosse o Instagram ou o Facebook, estaríamos perante um caso de dedicação e trabalho árduo. O problema é que as obras e os projetos ainda não acontecem a partir do ecrã. Mas não percamos a esperança. A página do Município de Pombal já responde às pessoas, quando sujeita a críticas. É preciso acreditar. De resto, isto é mais ou menos como o refrão que cantavam os Ban, no final dos anos 80 : "Não me dês moral, dá-me um ideal irreal social popular"

26 de março de 2024

Dotora Gina na corda-bamba

Já se sabia que o clima na “junta” andava agitado, entre os vereadores e o dotor Pimpão – problemas de coordenação e de excesso de felicidade. Mas recentemente soubemos - e comenta-se nos “mentideiros” locais – que o dotor Pimpão quis substituir a dotora Gina pelo seu ajudante de campo - Marco Ferreira. Para tal, preparou o terreno e as contrapartidas: tentou convencer a dotora Gina das vantagens mútuas da sua renúncia; e prometeu-lhe colocação numa empresa municipal.  

A dotora Gina, confrontada com a delicada situação e a contrapartida, mostrou abertura e ficou de dar resposta na segunda-feira seguinte. Mas, depois de pensar e se aconselhar, recusou. 

Agora estamos assim: com uma “vereadora” (que nunca o foi) materialmente demitida... Trapalhadas de “junta” - de rapaziada.





PS: Toda a espécie de comunicação social que por aqui ainda existe conhece este relevante facto político, mas não informa porque não quer incomodar o poder.

25 de março de 2024

O 25 de Abril na Ilha

 



O café Lanheiro estava à pinha: novos e velhos reunidos para ouvir "histórias do25 de Abril nas tabernas", naquela que terá sido a mais genuína iniciativa das comemorações dos 50 anos da revolução -  testemunhos de quem a viveu, sob diversas formas. Durante a tarde de domingo, esteve ali tudo:  o povo e a forma como vivia, sem paz, pão, habitação; os privilegiados da Guia (Artur Carreira e Amândio Neves assumiram-no e contaram-no com grande generosidade, desde a campanha de Humberto Delgado às lutas estudantis em Coimbra), os que não conseguiram escapar à guerra e combatiam contra a vontade, os que foram vítimas do processo de descolonização. E os que cresceram a ouvir as histórias dos pais e avós, que já nunca conheceram a ditadura mas têm consciência e valorizam as portas que abril abriu. Ao fundo, uma fotografia antiga dos homens que criaram a primeira Comissão de Melhoramentos da Ilha, essa terra especial onde o tempo fez cinza da brasa. Um mão cheia deles. 

"Estes homens sofreram muito. Ninguém imagina. O povo vivia mal". As palavras da Ti Preciosa, viúva de um desses homens, avó da Patrícia, que agora gere o Lanheiro (antiga taberna) vão ecoar-me por muito tempo. O medo. O medo de falar, de agir, de ser "chamado a Pombal", à Câmara, ou ao capitão Gonzaga. Os pides infiltrados entre a populaça, controlados pelos homens poderosos da terra. As diferenças tão vincadas entre uma aldeia como a Ilha (que podia ser a minha Moita do Boi) e a Guia, "que ao pé de nós era uma cidade". As diferenças tão vincadas na sociedade. E a declaração emocionada de António Moderno, professor jubilado: "Ninguém imagina a alegria que eu sinto em olhar à minha volta e ver que o neto do sapateiro é engenheiro, que toda a gente tem instrução, quando naquela altura havia três ou quatro licenciados. O 25 de Abril foi o dia mais feliz da minha vida".

A ilha é uma terra especial. Dali sempre brotou intervenção pública, sobretudo cultural. E ontem, ao ver aquele encontro de gerações e de interesses (que terminou com a brilhante atuação dos músicos André Ramalhais e Evandro Capitão, a acompanhar a declamação da poesia de Ary dos Santos pela Lina Oliveira), tive a certeza de que ali se cumpriu Abril. 

Só nos faltava agora que este Abril não se cumprisse.

22 de março de 2024

A paródia pousou arraiais nas Meirinhas

Nos últimos dias, o dotor Pimpão prosseguiu e reforçou a sua desenfreada empreitada de festas, eventos e conferências. E não se prevê abrandamento. 



Anteontem esteve nas Meirinhas (e em mais uma enfiada de eventos), com a rapaziada, a dar posse a outro presidente da junta! Se fosse para substituir o que lá meteram, e que há muito perdeu todas as condições para se manter no cargo, vá-que-não-vá; mas não, foi só para se entreter, e entreter a rapaziada.

Gabo-lhe a fértil imaginação e a frivolidade festiva que consegue colocar nesta contínua paródia. Vai conseguir terminar o mandato sem queimar um único neurónio. É obra. 

No início do mandato, a dita oposição exigiu-lhe participação oficial em todos os eventos organizados pela câmara. A sua ambição sempre foi ser ramo de enfeite do poder; da qual, a evidente concertação política com o Pimpão é a mais escabrosa amostra. Mas como até neste frágil ponto falharam, mereciam um valente castigo: ser obrigados a acompanhar o dotor Pimpão na sua desmesurada empreitada de festas, eventos e conferências. Talvez assim nos víssemos livres dos pimpões e das oposições.

19 de março de 2024

Sobre a reunião da “junta”

A “junta” reuniu outra vez, quinta-feira. A reunião foi rápida e simples; serviu unicamente para cumprir as formalidades e as obsequiosidades habituais. O presidente - um esforçadíssimo relações-públicas que se consome numa infinita e sobre-humana enfiada de eventos e conferências - gastou rapidamente a pouca voz que lhe restava nos obrigatórios obséquios. Depois, coitado, ficou sem goela para responder às frágeis observações…



A dita oposição cumpriu a sua condição: reiterou os obséquios e recolheu a senhazinha.

Siga a festa.

18 de março de 2024

Feliz é quem diz: quando há dinheiro há palhaços

 



Estava a malta descansada a comemorar Abril como deve ser, este ano, e eis que abre o alçapão para ressuscitar a ditadura da felicidade. Podemos não dar uma para a caixa no que respeita à juventude, à confrangedora feira que se finou no domingo, mas é de pequenino que se ensina aos catraios que o que importa é a felicidade. O resto logo se vê. Atentem, pois, no programa preparado pelo pelouro da dita, para esta tarde de quarta-feira - dando (mais) uso à tenda no Cardal. 

Como as estrelas maiores ficam sempre para o fim, lá se arranjou maneira de tornar orador mais um apóstolo da Felicidade, que atualmente desempenha as funções de chefe de Divisão de Desenvolvimento Social e de Saúde na Câmara de Pombal. Para os que se intrigavam com o papel de 'vereador oficioso' que desempenha em atos oficiais, ao lado do executivo, eis a resposta. 

A 'jornada' termina com o Tochas, longe dos tempos em que usava o seu humor para denunciar como é que o rei ia nu em Pombal. Mudam-se os tempos, os autarcas, as vontades, continua a haver dinheiro e por isso há palhaços.

Sorriam! estão a ser captados :))))))

15 de março de 2024

Pombal - Exposições e Feiras para encher agenda (II)

O cenário em redor da tenda que acolhe a “Feira de Formação e Orientação Vocacional” (belo nome para coisa nenhuma), integrada na Semana da Juventude, mais parece uma exposição das forças de segurança e bombeiros que coisa ligada à juventude. E do recheio (da tenda) pode dizer-se com segurança que é coerente com o embrulho (com a face). É coisa para espantar juventude – autêntico espantalho.

Reconheço que tenho uma certa aversão às polícias (às forças de segurança em geral), que atribuo às memórias de infância - ao medo que os meus avós e vizinhos me transmitiram quando ordenaram reclusão imediata e trancas na porta quando o boca-a-boca anunciava a entrada da GNR a cavalo na aldeia - e ao comportamento autoritário das polícias, mesmo em Democracia. Porventura por estas experiências, mas também pelo sentir de alguns jovens, não vejo sentido e préstimo na presença das Polícias neste tipo de evento,  nenhuma afinidade na associação das polícias à juventude num evento cujo propósito, dizem, é a formação e orientação vocacional dos jovens. Mas o equívoco maior nem será a monopolização do evento pelas forças de segurança e afins, é todo o cenário e enredo do evento: uma mimetização pobre (de mau-gosto) e infrutífera dos eventos organizados pela União Nacional e pela Mocidade Portuguesa, mas sem o rigor, o foco e qualidade cénica que o antigo regime colocava na coisa.  



Lá dentro, encontrei meia dúzia de “gatos-pingados” e “barracas” abandonadas; e uma tentativa, meio-falhada, de interagir com os jovens, em que, a muito pedido, participei por misericórdia. No final, tive uma curta conversa com o jota assalariado na câmara que supervisiona a coisa, onde apontei a obsolescência do modelo, o peso dado às polícias e afins, e a descabida presença da JSD. Ao que ele me respondeu, com uma sinceridade cativante, que os jovens têm mostrado algum interesse e até já tinham várias adesões. 

Não há nada mais enternecedor que a confissão de um bom-cristão tenrinho. Perdoai-lhes Senhor…

14 de março de 2024

Pombal - Exposições e Feiras para encher agenda (I)

Por norma não participo nas iniciativas da câmara. Considero-as desinteressantes – destinadas simplesmente a preencher agenda – e, vezes demais, de grande mau-gosto. Evito, assim, o desprazer pessoal e mais reacções críticas.   



Ontem, alertado por amigos/as e desafiado pelo presidente da “junta”, fui ver a exposição “50 anos, 50+5 rostos – as marcas do tempo”, integrada nas comemorações dos 50 anos do 25 Abril 74, patente nos Claustros dos Paços do Concelho. E, aproveitando a passada, visitei a “Feira de Formação e Orientação Vocacional” (belo nome para coisa nenhuma), integrada na Semana da Juventude, a decorrer no Jardim do Cardal. Com esta dose dupla fiquei imunizado por um longo período. Contava ir a uma palestra que me pareceu interessante e se realiza hoje, integrada nas Comemorações do 25 Abril de 74, mas perdi o interesse - não posso arriscar uma terceira dose seguida.

A exposição “50 anos, 50+5 rostos – as marcas do tempo”, é coisa sem critério e sem trambelhos, sem propósito e sem lógica que se perceba, mais digna do 24 Abril que do 25 Abril, com rostos do passado (alguns já desaparecidos) e sem passado ligado ao 25 Abril – salvo raríssimas excepções.

O curador – desconhecido! - diz-nos que a amostra “é um exercício que nos mostra o passado, o presente e o futuro através do olhar dos pombalenses e pela objectiva de Victor Freitas”. Do passado vá-que-não-vá, mas do presente e do futuro cruzes canhoto e Deus nos livre destes apóstolos e destas apologias.

Custa a aceitar que o comissário das comemorações, Luís Marques (pessoa culta e com forte vivência do período), tenha dado aval a isto! Agora, já só se pede que não levem pela frente a ideia peregrina de distribuir o vídeo realizado pelas escolas, para ser utilizado como instrumento formativo sobre tão importante período da nossa História recente.  

11 de março de 2024

Eleições Legislativas – resultados e consequências

1 – A AD (o PSD) ganhou

A AD ganhou porque tinha de ganhar… Os astros (PSD, PR, PGR, PS, Media, e CDS…) alinharam-se para esse fim. Não é uma vitória com sabor a derrota porque sabe bem à maioria conjuntural o afastamento do PS do poder. Mas é uma vitória forçada, arrancada-a-ferros, que pelas suas contradições e frágeis condições políticas dificilmente corporizará uma alteração significativa dos status e responderá às expectativas dos descontentes.


 

2 – O PS perdeu

O PS perdeu porque tinha de perder… - cumpriu-se o que estava escrito nas estrelas. Mas no final da noite eleitoral chegou a pairar o improvável: a vitória do PS. Teria sido um mau fim para este ciclo político, tanto para o PS como para o Regime. O PS precisa de uma cura de oposição, de fazer mea-culpa dos seus erros e a síntese dos seus importantes sucessos, a fim de reassumir rapidamente o seu preponderante papel na política nacional.

3 – O Chega triunfou

O Chega triunfou, e provocou um pequeno terramoto que abalou todos, de uma ponta a outra do Regime, com fortes ondas de choque no centro-direita, e na esquerda.

Ao contrário do que muitos afirmam, o Chega não é um verdadeiro partido de extrema-direita, falta-lhe substrato ideológico, é essencialmente um partido populista, de protesto, que é muito eficaz a aglutinar descontentamento, mas sem perfil de poder – é de contra-poder. Até há pouco, foi um problema eleitoral e de poder para o centro-direita; nestas eleições foi um problema eleitoral para a esquerda, comeu eleitorado tradicional da esquerda a sul. Enquanto for liderado por A. Ventura – um demagogo extremo -, e a conjuntura lhe for favorável, vai ter sucesso eleitoral e mediático. 

4 – A IL e o BE falharam

Dois opostos que, numa conjuntura que lhes era favorável, falharam: a IL falhou a afirmação; o BE falhou o renascimento. Enfrentarão ambos tempos difíceis. Nos próximos tempos, a IL jogará a sua sobrevivência, tenderá para a desagregação. O BE resumir-se-á ao nicho onde se acantonou (Ideologia de Género e LGBT).

5 – O PCP mumificou  

O PCP secou e mumificou, por erros próprios e pelos ventos dos novos tempos. Custa ver o partido de Cunhal entregue a estas fracas figuras. Mas as coisas são como são: o igualitarismo levado ao extremo leva à mediocridade completa.

6 – O Livre brotou

O Livre é um epifenómeno metropolitano programaticamente inócuo que não resistirá à próxima intempérie.

7 – O PAN

O PAN não adianta nem atrasa - irrelevante.

8 – O Regime

Nestas eleições, todo o Regime foi a jogo e saiu combalido. Diria, até, que foi derrotado pelo povo. Os partidos de poder (PS e PSD) perderam influência e poder. A Presidência da República perdeu poder e legitimidade (se Marcelo tivesse a dignidade de Sampaio, perante a situação política criada, renunciava). A Justiça fragilizou-se ainda mais… O dito quarto poder (media) perdeu por simpatia e má figura.

9 – O populismo

O populismo medrou muito, mais à direita que à esquerda. E vai continuar a medrar porque a realidade socioeconómica de toda a EU é terreno fértil para o discurso demagógico e de protesto.

10 – Líderes partidários – vencedores e perdedores

Destas eleições (só) saiu um vencedor: André Ventura (facto que não carece de explicação). A globalidade perdeu. Uns mais que outros, uns pelos resultados (em termos absolutos ou em função das expectativas), outros pelo enfraquecimento das suas condições políticas.

Luís Montenegro conseguiu uma vitória tangencial, mas o resultado e o quadro parlamentar saído das eleições deixam-no com poucos graus de liberdade para exercer os cargos de primeiro-ministro e de presidente do PSD. Em princípio, é líder a prazo. O “não é não” foi a sua mais ousada cartada política, que, ao contrário do que muitos laranjas pensam, pode ser muito valiosa para ele e para a coesão do próprio partido.

Pedro Nunes Santos perdeu, mas manteve intactas as condições políticas para liderar o PS e a oposição. Tem o perfil apropriado para líder da oposição - na noite eleitoral já o mostrou.

Rui Rocha perdeu nas urnas (em função das expectativas e circunstâncias) e perdeu capital político para se afirmar. Abusou no discurso neoliberal. E pior: levou uma cabazada do discurso conservador e corporativista. É líder a prazo.  

Mariana Mortágua perdeu nas urnas (em função das expectativas e circunstâncias) mas não perdeu as poucas condições políticas que dispõe para fazer crescer o partido. Manter-se-á à frente do Bloco.

Rui Tavares ganhou nas urnas mais três deputados, mas não passará de grilo falante de uma sociedade unipessoal inócua. 

Paulo Raimundo perdeu nas urnas e perdeu as condições para fazer política no parlamento – na verdade o PCP já as tinha perdido no último mandato com aquela fraquíssima bancada.   

Nuno Melo ganhou um balão de oxigénio para se manter ligado à máquina mais uns meses.

Inês Sousa Real não ganhou nem perdeu nada. Manteve o que tinha: o ordenado e as respectivas mordomias.

As eleições em que o PS foi ultrapassado pelo Chega



Quando as televisões avançaram ontem à noite com projeções distritais, os primeiros dados apontavam o Chega em segundo lugar no distrito de Leiria. Não aconteceu. Foi o PS o segundo partido mais votado. Mas em Pombal, onde a realidade consegue sempre superar a ficção, já não tivemos essa sorte. 

Os números finais mostram que o PSD se mantém na liderança - como sempre, como dantes - e que o PS fica remetido a humilhantes 18,28% de votantes, numa eleição em que a abstenção acompanhou, também aqui, (e ao contrário do que é hábito) o retrato nacional: o voto de protesto, dos que são anti-sistema, e que por isso nunca votavam, foi arrebanhado pelo populismo. Conheço muitos dos que votaram ontem neles, e que esperam (coitados) alguma coisa dali.

Mas é preciso olhar melhor para o que nos dizem os números relativamente ao concelho de Pombal, que já não está no topo da lista dos municípios onde a coligação da AD faz brilharetes. Os possíveis, diga-se, no meio deste estado de sítio. No que toca à vitória do PSD/CDS no distrito, estão à frente de Pombal concelhos como Alvaiázere (50,56%), Ansião (43,27%), Pedrógão Grande (41,42%) e Batalha (42,61%). 

Aqui, o Chega só não ultrapassou o PS nas freguesia de Pombal, Redinha, e União de Santiago de Litém, São Simão de Litém e Albergaria dos Doze. A AD consegue o seu melhor resultado em Abiul (51,63%), Carnide (52,43%) e  por fim das irmãs desavindas de Vermoil e Meirinhas, ambas na casa dos 48%. E é precisamente em Carnide e Meirinhas que o Chega consegue resultados quase nos 25% de votação. Acima dos 20% são várias. Em suma, o PS consegue o seu resultado menos mau na Redinha e em Pombal, e o pior em Carnide e Meirinhas, na casa dos 8%. 

Do resto, o que dizer? A IL mantém-se como quarta força política, crescendo em votos e percentagem (5,22%), e o BE manteve-se mais ou menos estável no concelho de Pombal, enquanto quinta força política, com menos de 4% dos votos. Se já em 2022 notámos a descida da CDU no concelho, desta vez ficou-se na 9ª posição, com  apenas 1,22% dos votos. Uma nota ainda para o Livre, que vai crescendo, também no concelho de Pombal: mais do que duplicou das últimas eleições. 

Feitas as contas, duas notas apenas como rodapé deste quadro: 

1. João Antunes dos Santos foi eleito deputado da AD, devolvendo a Pombal um lugar no parlamento, valha isso o que valer, já que a vitória de pirro da coligação precisará de muito jogo de cintura para se conseguir aguentar no Governo. Não, ninguém quereria estar na pele de Montenegro. 

2. Ao contrário do que acontece no todo nacional, aqui, como em algumas geografias, o Chega poderá ser um problema nas autárquicas, mordendo os calcanhares do PSD. Esta seria mais uma oportunidade para o PS perceber que é preciso ser oposição, combativa, sem medos, e sem paninhos quentes. Porque o ruído chegará, para ocupar um espaço vazio. 

De resto, amparemo-nos na poesia de Manuel António Pina: "ainda não é o fim nem o princípio do mundo. Calma, é apenas um pouco tarde". 


Resultados do concelho de Pombal aqui.

4 de março de 2024

Sobre os “políticos” da Pedra Seca

Estamos rodeados por todos os lados por políticos da pedra seca – criaturas de pensamentos atávicos, aspirações vagas, desejos fúteis, sentimentos envelhecidos e actos falhados, que agem para se entreter e vêm méritos nas tolices que praticam.

O dotor Pimpão é o maior exemplar desta espécie. Mas os seus colegas da Associação Terras de Sicó não lhe ficam nada atrás. Sem saberem ao que se dedicar, mas desejosos de mostrar serviço, atiraram-se aos chamados muros em pedra seca, lançando a sua candidatura a Património Imaterial da Humanidade – pobre Humanidade. Arranjaram, assim, uma empreitada para se entreterem por muitos anos, e um pretexto para muitas “notícias” encomendadas sobre a matéria. 



Basta ir uma vez à Serra da Sicó para se perceber a origem e necessidade daquelas toscas edificações, que acima de tudo serviam para arrumo das pedras que cobriam o solo e era necessário retirar para aproveitar todo e qualquer pedaço de terra para a economia de subsistência. Agora, uns quantos (poucos) teóricos do mundo rural, herdeiros de um surrealismo retardado eivado de romantismo bucólico, vêm ali arte e valor.

Para nossa desgraça, esta tontaria afecta tanto os protagonistas do poder como da oposição. Por exemplo, a dotora Odete, coitada, na ausência de melhor assunto – daquela cabeça nunca saiu nem sairá uma ideia – e desejosa de mostrar serviço, agarra-se a estas coisas, segue as suas anotações no caderninho, e farta-se de questionar e colocar pressão no dotor Pimpão. 

É por estas e por outras que estas terras não conseguem progredir mais rápido. Estamos manietados pelos políticos da pedra seca. Melhor dizendo: de cabeça seca.

3 de março de 2024

Câmara deixou de disponibilizar os vídeos das reuniões

A câmara deixou de disponibilizar o vídeo da reunião aberta à participação do público (a última de cada mês), como era da praxe. 

O dotor Pimpão procura, com certeza, proteger-se e livra-nos do mal – das figuras tristes.

Faz bem – aquilo não tem interesse nenhum e de más figuras já estamos fartos.

1 de março de 2024

A pergunta que ficou sem resposta em Abiul – um berbicacho

A presidente da junta de Abiul (Sandra Barros), para além de ter recebido bem os membros da AM, dizem eles, fez, logo na abertura, no seu estilo discreto e oportuno, uma boa intervenção. Para além de, como é da praxe, agradecer alguns investimentos e apoios fez também os inevitáveis pedidos… E obteve as habituais respostas. 

Até aqui tudo bem – tudo como é da praxe.



Mas para o final da sua intervenção, a presidente guardou a pergunta maldita, que muitos membros da assembleia conhecem e deveriam fazer, mas não fazem. Perguntou se os contratos de arrendamento das antigas escolas primárias, para exploração turística privada, realizados há mais de dois anos, ainda estavam em vigor, porque ainda nada foi concretizado e as escolas estão abandonadas, com muito arvoredo, os residentes a reclamar e a junta nada pode fazer! E deu o exemplo da escola de Almezinha, um edifício com três salas e bom espaço adjacente com valor para os residentes. Não obteve resposta!

O dotor Pimpão fala muito, e muito alto, porque não é verdadeiramente questionado - só lhe dão deixas (compreensíveis se vindas da bancada da maioria, mas indesculpáveis se “deixadas” pela dita oposição).

Aos que nos rotulam de só criticar por criticar, relembro que na altura da adjudicação tracei, aqui, o destino desta tola ilusão – a conversão das antigas escolas primárias para Alojamento Turístico. Não me enganei. O resultado está à vista. Às vezes até tenho pena de acertar tantas vezes no prognóstico destas tolices camarárias. Mas enfim – de onde não há não se pode tirar. 

Os estragos desta tolice não se ficam só pelo abandono destes imóveis – já assim estavam – e pelos custos administrativos do processo de adjudicação. Como era previsível, esta hasta pública só atrairia um ou outro oportunista, um ou outro falso empreendedor, sempre pronto a colar-se e a medrar à custa do Estado. Quando viram que isso não era viável abandonaram as ideias e os imóveis. Uns não mexeram uma palha porque queriam que a câmara fizesse o investimento inicial na requalificação dos imóveis, obrigação que nunca esteve no contrato, para eles depois cobrarem as rendas se algum perdido por ali aparecesse. Outro, consta, converteu ou quer converter o edifício para habitação particular, em total violação do contrato. Como a câmara faz algumas coisas só para mostrar que faz (alguma coisa), não controla as coisas nem se dá ao respeito, não exigiu obras no prazo e não cobrou as rendas devidas. Resultado: em vez de resolver um problema menor arranjou dois ou três - meteu-se num berbicacho financeiro e jurídico!

Estamos neste ponto. Cantemos o refrão dos Deolinda:

“Ai, ai, ai, Viriato, queremos ver, 

Como é que vai resolver o berbicacho”.  

29 de fevereiro de 2024

Política pombalense – uma dor de alma

Os abiulenses ignoraram a reunião da Assembleia Municipal (AM) na sua terra; só se deve dar importância ao que a tem. E na verdade, estes “números” só interessam aos pimpões desta vida.



Nesta terra - e não só - a política deixou de ser um desígnio nobre para se tornar simples obrigação rotineira. Mas nunca esta veracidade se expressou como na última reunião da AM, realizada em Abiul. Perpassava por aquelas caras, por aquela espécie de bonecos ali sentados, uma resignação e um estupor apático gritantes, só quebrados pelos trovões, risadas e irritantes apartes dos pimpões.

Nesta nova realidade, a bancada da maioria, mais lúcida, já interiorizou a sua obsolescência, excepto o João Pimpão. A da dita oposição ainda esbraceja, despedaçada entre os seus êxtases e os seus tormentos, por uma salvação que sabe(?) não chegará. A descrença e o desnorte são tão grandes que já quase abdicam do PAOD, sacrificando tudo na imolação final com as malditas Recomendações. Agora acompanhados, também, pelo Oportunista do Oeste; arrumado sem levantar garupa por dois coices do João Pimpão.

Este PS não aprende nem ganha juízo, definha lentamente, meio-deprimido, numa agonia dolorosa cheia de traições e contradições. No ponto mais importante da reunião – Alteração do Orçamento e GOP – os representantes do partido no executivo aprovaram, os membros da bancada na AM rejeitaram!  

28 de fevereiro de 2024

Uma tourada em Abiul

 



A ideia peregrina de levar as reuniões magnas da Câmara- e agora da Assembleia Municipal -  para as freguesias, conheceu ontem novo capítulo, em Abiul. Ora, como está bem de ver, eram resmas de cidadãos daquela freguesia a assistir à reunião...o que diz muito da eficácia desta falaciosa iniciativa. Valeu a clarividência da presidente da Junta de Pombal, Carla Longo, que logo ao início deu a nota importante: isto é tudo muito bonito mas não há condições. Condições de trabalho. É claro que só quem trabalha consegue compreender a falta que faz uma mesa de apoio para consultar documentos, em papel ou no computador. Quem olha para a atividade política e para o exercício das funções públicas como um roteiro de vaidades, uma forma de passar o tempo e ainda ser pago por isso, nem sequer se lembra desses "pormenores". No melhor dos casos, a coisa serve para acicatar as vontades de outros presidentes da junta, como se viu bem intervenção de Gonçalo Ramos, que, pois claro, também queria um auditório. 

O mandato vai a mais de meio e já não tenho grande esperança que Paulo Mota Pinto consiga passar ao resto da sua tropa do partido algumas noções básicas de como saber estar. Ontem, em Abiul, mais uma vez Pedro Pimpão deu mostras de quem dignifica muito pouco o lugar de presidente da Câmara, num chorrilhos de à partes, bocas e risadas que lhe podiam ficar bem quando era um jota em ascensão, mas lhe ficam mal, tendo em conta o cargo que ocupa. Foi várias vezes advertido pelo presidente da AM, mas estou em crer que o que não tem remédio remediado está. 

Como isto é dos Pimpões, o auditório voltou a estar por conta do irmão João, que se permitia falar da sala, falar do corredor, falar como e quando lhe apetece.

Toda este quadro que está a acontecer tem o condão de desprestigiar o órgão AM, que todos prometaram dignificar, em juramento solene, pelas funções que lhe são confiadas. Vem-me à memória o que me disse há muitos anos o já falecido Pimpão dos Santos, na primeira reunião da Assembleia a que me mandou assistir: "é o órgão mais importante do município". E era.

Em resumo, quando perguntei sobre como tinha corrido a sessão que só hoje espreitei, aqui, a resposta não podia ser mais clara: 

- uma tourada!

16 de fevereiro de 2024

Coisas de deslumbrado

Por princípio, não gostamos de publicitar nulidades ou excrescências, mas regra é regra e excepção é excepção.

Bem isto a propósito de uma criatura deslumbrada, João Antunes dos Santos (JAS), quarto na lista do PSD/AD às próximas legislativas,  que tem andado a solo num rodopio bacoco e inútil a incomodar instituições respeitáveis e a abusar da boa-vontade dos seus dirigentes; e que, vejam só, não saciado com os tais desvarios, resolveu fazer uma apresentação pública da “sua candidatura”, no Cine-Teatro. Não se enxerga. Nem o insofrido Pedro se prestou a tamanho ridículo!


O provável deputado é uma criatura difícil de caracterizar e descrever. É pedante. E medíocre (politicamente). Dos seus talentos ressalta a capacidade de sorrir sem cessar e piar como o pintassilgo.  Mas já se vê como grande entre os grandes da política e do regime. Não tem noção, coitado, que é simples figurante da romaria, que não acrescenta nem retira nada (nem um voto), tal a sua insignificância. É  uma criatura talhada para nos envergonhar, não para nos representar.

Adenda: aqui no Farpas, depois de rebolarmos uma pedra, repetimos frequentemente entre nós: a realidade (local) ultrapassa sempre a ficção. E cá temos o deslumbrado para o confirmar: não satisfeito com o patético acto da apresentação da “sua candidatura, resolveu lançar uma lista de apoio à sua candidatura! Aonde pode chegar o delírio!

9 de fevereiro de 2024

A infantilização dos idosos (e o aproveitamento dela)

*foto da galeria publicada na página do Município de Pombal


Não contente com o aglomerado de crianças pequenas que quase nunca se divertem com desfiles militarizados, o município de Pombal apostou nos últimos anos em transpor para os mais velhos  esse exibicionismo ao gosto dos lares, centros de dia e demais "respostas sociais", numa chocante infantilização dos idosos. Que não apenas mereciam como têm direito à dignidade, à decência, ao respeito, numa fase da vida em que muitos já não estão capazes  de decidir por si. Questiono-me, nestas horas, para que serve um Plano Municipal para a Igualdade. Para que serve, afinal, a tal estratégia para o "envelhecimento ativo", para que servem os estudos, as conferências, os debates, as evidências, as palavras vãs, se acabamos nisto. 

2 de fevereiro de 2024

Desmandos da “Junta”

Antes de ontem, o dotor Pimpão mandou reunir novamente a “Junta” para dar sequência à distribuição de loas e aos seus desmandos.



Fez aprovar, por unanimidade, e aclamação silenciosa, a aquisição de 48.207 m2 de terrenos rústicos (pinhais), ali para as bandas do Pinheirinho, por uns módicos 578.484 euros, ao preço de 12 euros por metro quadrado. O caro leitor também faria e agradeceria, com certeza, tão frutuoso negócio - se tal lhe fosse permitido.

Em 2020, a câmara vendeu 121.850 m2, urbanizáveis, contíguos à Zona Industrial da Guia, por 640.000 euros, ao preço de 5,2 euros por metro quadrado. Na altura, D. Diogo justificou o preço com dois argumentos racionais e compreensíveis: primeiro, a câmara deve disponibilizar terrenos para a localização de indústrias a preços acessíveis; segundo, a câmara tinha adquirido os terrenos a 2 a 3 euros o metro quadrado, logo vendeu com uma mais-valia aceitável.

Para o dotor Pimpão & C.ª, e para a dita oposição (se tal "ofensa" se pode fazer àquelas pobres criaturas), os fins justificam os meios, ou como diz o “outro”, daqui por uns anos ninguém se vai lembrar do preço pago. Estamos assim entregues a tagarelas movidas por esponjosos anseios, incapazes de compreender o princípio da utilidade e o valor do dinheiro, que compram tudo feito, ao preço que lhes colocam à frente.

Num passe de mágica passámos do despotismo iluminado para o estéril desportivismo. Que mais nos irá acontecer?!