6 de maio de 2026

A realidade paralela que alimenta o unanimismo. Quem ganha com isto?


 


A minha costela masoquista levou-me a espreitar a gravação da Assembleia Municipal. A bem da verdade, se cada um de nós soubesse os mínimos do que se passa na coisa pública, talvez não deixássemos que a mesma chegasse a este estado, que o nível baixasse além da indigência. O Adelino Malho já aqui fez um bom resumo do que é aquele ajuntamento, por isso não importa repisar na forma, na deformada forma do órgão que deveria fiscalizar a actividade municipal.  Sendo assim, aqui deixo apenas duas notas para reflexão:

1. Os eleitos do PSD, incluindo os presidentes de junta, encarnam bem o papel da formiga no carreiro - mas nunca ousam ir em sentido contrário, como cantava Zeca Afonso, para nunca correrem o risco de lerpar e trepar às tábuas. Noutros tempos, a defesa da maioria (e do executivo) era feita com pensamento próprio. A excepção era o que agora se tornou regra: o elogio bacoco da actividade municipal, a lambebotice enfadonha. E a oposição? Prepara-se mal, fala a medo, deixou-se tomar pelos bullies que povoam a maioria. 

Olhando para o quadro de miséria que se abre à nossa frente, percebemos que é preciso afagar egos para singrar na vida: as assessoras/adjuntas que conseguiram um lugarzito nos gabinetes de ministros ou secretários de estado, os que ainda não conseguiram mas têm na vida esse objectivo, os que foram penosamente afastados e agora regressam, todos contentes. E voltamos aos presidentes de junta: só aqui é que são tidos como figuras políticas, só aqui têm a veleidade de perorar sobre as posições da oposição. Os que falam, gastam mais tempo a engordar o coro de ataque aos desgraçados do PS e Independentes do que a levantar os problemas - concretos e reais - das suas freguesias. Os que não falam, aprenderam rapidamente a rir, de gozo. Estão ali por inerência. Só para lembrar.

2. Custou-me, nesta assembleia, ver um homem que muito estimo (enquanto médico, mas também enquanto cidadão)  tecer loas a um dos ramos de enfeite do poder: a assembleia municipal sénior. José Grilo Gonçalves tem dedicado uma parte importante da sua vida à gerontologia. E saberá tão bem como eu que todos aqueles planos e estratégias "para o envelhecimento activo" não passam de balelas. Quem está nesta fase da vida sabe que lidar com a velhice dos pais é o verdadeiro desafio da idade adulta. E somos muitos. Não, não é com estes números de folclore (cujo critério de selecção já é, por si, duvidoso) que combatemos o idadismo, o isolamento, os dias dos que definham dentro de suas casas ou nas salas dos lares e centros de dia. Queremos dar visibilidade aos mais velhos? É incluí-los nas listas às juntas, à Câmara, à Assembleia. A intervenção de José Grilo teve o condão de colocar a nu a nossa realidade: por cada 100 jovens temos 261 idosos.

Depois de ouvir uns e outros tecer loas à eleição da jovem autarca, à realização da assembleia sénior e quejandos, uma pessoa fica a pensar que um dia destes ainda replicam os modelos na creche e no infantário; depois hão-de fazer a assembleia das mulheres, dos migrantes, dos canhotos e dos que usam bigode. Tudo serve para a fotografia, que é, afinal, o que lhes importa. 

Uma nota final para os que gostam de embandeirar em arco com "a juventude a discursar no 25 de abril". Que o façam uma vez, percebe-se. Que se torne prática, só se entende na lógica do "olhem para nós, em Pombal, que nos importamos com os jovens e com aquilo que pensam". Balelas. Duas coisas, senhores: o 25 de Abril é uma data política. Os partidos devem indicar para falar sobre ela quem entendem. Isto não é a jotalândia, ao contrário do que pensa o PSD, com anuência do PS - e do resto. 

2 de maio de 2026

Sobre a reunião da assembleia da “junta”

A assembleia municipal – agora definitivamente no patamar “junta” – reuniu durante cinco longas horas, no último dia do mês. É uma dor de alma ver e ouvir aquilo. No entanto, aquelas criaturas são capazes de passar uma tarde inteira a dizer tolices ou banalidades requentadas sem se cansarem e sem noção do ridículo. 



Na verdade, tudo ali é vulgar, rotineiro, rasteiro e enfastiante. De um lado ao outro, das peças da mobília aos novatos, mais acima ou mais abaixo, nada daquilo anima, cativa ou engrandece.  Todos (ou quase) vão para ali cumprir a sua rotina, ler a sua folhita, sem graça e sem alma. De um lado debitam sermões de escuteiro ou de beata benfeitora, encharcados de sentimentalismo bacoco e de teologia positivista; do outro largam perguntas inconsequentes e críticas repisadas condenadas ao fracasso. Não há ali qualquer rasgo, qualquer improviso bem esgalhado ou uma réplica desarmante do adversário. Do lado da oposição, só o doutor Gonçalves revela alguma desinibição política e capacidade retórica, mas sem conteúdos preparados e enquadramento político perde-se facilmente no fogo fátuo das tiradas despropositadas.  

O presidente da “junta” cansa até ao sorriso repulsivo, só de ouvi-lo na cantilena de trivialidades e elogios sonsos, pontuados sistematicamente com as batidas estrondosas do “extraordinário” e do “notável” no bombo discursivo – parece ter nascido ou enlouquecido com a mania do notável e do extraordinário.

Sobre o grande assunto da agenda – Relatório de Gestão de 2025 – a bancada PS entregou a importante matéria ao inenarrável Conselheiro Acácio, que de gestão e dos seus instrumentos parece saber tanto como boi de palácios. Vai daí, fez o que sabe fazer: leu, cabisbaixo, a sua habitual ladainha de maneirismos e coquetismos discursivos, mas não resistiu à vaidade tola de lhe acrescentar o seu truque de retórica sofista barata: somou o que não é somável (resultados líquidos anuais - dos últimos anos)! A ignorância é muito atrevida. 

Mas as coisas são como são, e nestes jogos de soma nula acabam sempre por se equilibrar. Coube à doutora Catarina, porventura inadvertidamente, traçar o verdadeiro retrato do documento e do desempenho da câmara quando afirmou, e rematou, que “o nível de concretização vai de encontro aos documentos estratégicos e também ao programa eleitoral que foi sufragado”. 

A política é a única farsa onde o farsante acha que faz boa figura se se engrandece com ela. 


28 de abril de 2026

Dar tudo a todos? Não. Dar alguma coisa a alguns


*foto do fotojornalista Nelson Garrido, no Público de hoje


Passam hoje três meses ( que nos parecem uma eternidade)  da tempestade Kristin. O que nos fica da resenha feita pelas tv's é que há, ainda, muita gente a passar mal. Muita gente que mal conseguiu repôr as telhas que voaram, que ainda não tem comunicações, que não sabe quando ou se algum dia vai recuperar a vida que tinha. 

Esperei até ao fim do dia porque imaginei Pedro Pimpão a fazer um balanço (como as outras Câmaras de concelhos igualmente afectados) do estado do concelho. Não aconteceu. O povo, na sua imensa sabedoria, lá diz que "quem muitos burros toca algum tem que ficar para trás". Para nosso infortúnio, ficamos nós, munícipes deste condado. Penso no casal da Guia que continua a viver envolto no cheiro a mofo que a humidade trouxe, na célebre casa-embrulho (coberta com plástico, para não chover lá dentro). E em todos aqueles que, como eles, só queriam ter recebido uma visita do poder local, uma palavra de conforto e de ânimo. Mas já se sabe que a vida dos autarcas é uma correria, que não dão vazão a tanta pose para tanta fotografia. Se ao menos tivéssemos nascido todos nas Meirinhas...haveria visitas de ministros e presidentes, e hordas de assessores a atropelarem-se para fazer acontecer. O quê? Selfies. 

Passam hoje três meses e quase não se ouve falar de Pombal, do muito que ficou destruído. Uma excepção à hora de almoço, quando o repórter da RTP entrou em directo do Casal da Clara, a mostrar que os cabos eléctricos continuam no chão do lugar, como se fora 29 de Janeiro. O que sabemos é que a Câmara resolveu fazer de conta que está a poupar em tudo para "ajudar" a colmatar os prejuízos. Cancela-se o Bodo (como o conhecemos), programa-se uma alegoria para o Cardal. Alguém acredita que uma Câmara que passa um mandato inteiro sem apresentar contas das festas vai ser capaz de gerar assim dinheiro para repor edifícios e compor vidas? Não. Para mais, agora que o Governo anunciou resmas de milhões, ninguém pára a dinâmica do território. É por isso de louvar que freguesias como o Louriçal decidam manter as festas, o que faz mais pela saúde mental (e económica) da região que centenas de relatórios elaborados pelas senhoras técnicas. Como é de louvar que o Grupo Desportivo Guiense tenha recuperado para si a organização da FAGO, como dantes. Porque não podemos apagar o 28 de Janeiro nem esperar que carpir mágoas nos leve a algum lado. 

Devíamos esperar pelo apoio do Estado, prometido e devido, mas esse chega a conta-gotas. E quando hoje ouvimos o Primeiro-Ministro dizer que "não pode dar tudo a todos", cresce uma raiva nos dentes: vivesses tu, Luís, sem comunicações; chovesse na tua casa, visses as paredes escurecer de bolor, enfrentasses as respostas lacónicas das seguradoras, e perceberias que bastava dar alguma coisa a alguns, para remediar esta calamidade. 




23 de abril de 2026

O que nasce torto tarde ou nunca se endireita

O vereador não-eleito Manuel Serra, número dois da lista Chega, que assumiu o cargo após a renuncia do cabeça de lista Mithá Ribeiro, anunciou, hoje, na reunião da “junta”, que se desvinculava do partido e passava a vereador independente.

Bastaram seis meses para Manuel Serra despir a camisola que decidiu envergar; o que diz muito, ou tudo, da coerência e da consistência política que actualmente se pratica, em total desrespeito pelos eleitores. Porventura, assume agora o papel que sempre desejou representar, mas sério, correcto e digno seria a renúncia ao triste papel que continua a representar. 




12 de abril de 2026

Ditadura Democrática em Pombal – a suprema tontice do PS local

Na ausência de melhor apreciação, o PS local, nomeadamente pela voz do seu líder na Assembleia Municipal (dotor Manuel Gonçalves), acusa o dotor Pimpão de exercer uma Ditadura Democrática em Pombal!



A acusação tem tanto de inverosímil como de contraditória. Por isso, só pode advir de quem perdeu, há muito, o tino (político). Se por um lado, a expressão é uma contradição nos termos, porque não se pode ser uma coisa e a outra em simultâneo, por outro, o classificativo “Ditadura”, ao estar bem estabelecido pela História e pela Ciência Política, e por estar bem presente, de forma traumática, na nossa memória colectiva, não deveria ser usado corriqueiramente, nomeadamente pelos ditos democratas. Mas o pior nem está na dimensão contraditória da imputação, já de si muito relevante e reveladora; está na total e absoluta inverosimilhança da mesma. Se há faceta que o dotor Pimpão não tem – mesmo - é de ditador. E digo mais: é a sua antítese.

A crítica política, para ser eficaz, tem de cumprir, no mínimo, duas condições: ser minimamente verosímil e ser bem-apresentada e explicada. Regras que o PS local parece desconhecer ou é incapaz de implementar. Mas pior: parece desconhecer totalmente a terra onde vive e a forma como é exercido o poder. Os problemas do concelho, ao nível do exercício do poder, não estão, de certeza, nos supostos abusos de poder do presidente da câmara para condicionar os outros poderes, nomeadamente da oposição; estão, acima de tudo, na impotência da dita oposição para exercer o poder que lhe compete – o contrapoder.

Sobre o exercício do poder que se faz, ou não faz, por cá, convinha que os actores políticos metessem uma coisa muito simples nas cabeças: o dotor Pimpão só se preocupa com uma coisa aparentemente muito simples e ao mesmo tempo complexa: ser amado. Se para isso for necessário abdicar do exercício do poder, abdica (abdicou). É isso que ele tem feito, com sucesso, sem contrapoder.

9 de abril de 2026

Tozé no país das Meirinhas

https://youtu.be/Hnywooh9VTs?si=IXkcCxt-Qk5QCLDm

 Quando António José Seguro começou esta presidência aberta, parecia mesmo que estava a virar uma página na política portuguesa: guardo a imagem do presidente em Ourém, a fazer o que ainda nenhum outro tinha feito – a visita ao povo afectado pela tempestade, o contacto directo com pessoas sem tecto, longe dos ambientes controlados que têm almofadado as visitas sucessivas de ministros, o desfile obsceno a que temos assistido, sem que daí resulte nada, nicles, zero.

Mas bastaram os dias seguintes para percebermos que foi ledo engano. Seguro está, afinal, a trabalhar para a reeleição, versão 2.0 de Marcelo, a distribuir beijos, selfies e abraços com um afinco tal que nos sufoca. Não há esperança para isto. Desde a Junta ao topo da República, 99% por centro dos políticos só está preocupado com a sua própria sobrevivência no cargo.

A sua passagem pelas Meirinhas, durante o dia de hoje, rivaliza com qualquer filme de Kusturica.

Poupo-vos aos pormenores, deixo à curiosidade de cada um as imagens (algumas em vídeo, que mostram bem o ar de deboche de vários protagonistas), e permito-me soltar uma gargalhada, só. Eu havia de viver para isto: ver uma terra onde ser socialista está ao nível da extrema esquerda, rendida a Tozé Seguro. E ver Tozé Seguro rendido ao poder laranja, levado em ombros por aqueles que a vida toda apoucam, desprezam e ridicularizam os que vêm da mesma família política, fez-me lembrar uma procissão de Senhor dos Passos fora de prazo. Mas serviu para conhecermos, todos nós, o que (lhes) importa.

Seguro passou, Meirinhas soma e segue (não esquecer que ali os prejuízos se contam aos milhões, não é aos milhares), quem ainda não tem telhado que espere. Pelo dinheiro do seguro, do Estado, ou tão só por uma visita de alguém da Câmara.

Uma nota final para o desfile de assessores, uns moiros de trabalho a saltar de fotografia em fotografia. Alguém que lhes arranje um banco corrido, que isto cansa. Não acreditas? Estudasses!

Foto do dia

 

Para macacadas, prefiro os caretos de Podence.

1 de abril de 2026

Reunião da “junta”

A “junta” reuniu, ontem. Cumpriu-se mais uma formalidade, sem chama e sem relevo, num registo uniforme e indolente mais digno de final de ciclo.



O vereador não-eleito (doutor Coelho), que rapidamente e compreensivelmente se tornou insubstituível, descarregou, sem força e sem animo, qual Diácono Remédios, o volumoso saco de preocupações e minudências que colecta nas conversas mundanas e arrasta consigo. Carrega, coitado, com a sua circunstância e a consciência das próprias fragilidades. Com o outro vereador não-eleito não vale a pena gastar muito latim, continua agarrado à Guia e a distribuir umas loas pelos companheiros/as, sempre no registo assembleia de freguesia.

O doutor Pimpão despachou bem todas as preocupações dos vereadores não-eleitos – são uma das suas especialidades; a outra é a felicidade. Mas sentiu-se entalado com as intervenções do público, do senhor Amadeu e da senhora Durvalina, que esperam, há longo tempo, por uma solução para os seus problemas: um projecto parado há mais de meia dúzia de anos; e uma obra torta que incomoda sem solução por igual período. Chutou as batatas quentes para a tarefeira-mor, que, coitada, só teve para oferecer a voz e o tom meloso, que só serve para embalar camelo. No entanto, as duas questões do público tiveram o mérito de fazer luz sobre as razões por que rodam tanto os vereadores, sobretudo no urbanismo e obras.

26 de março de 2026

Sobre o malfadado território

Há autarcas que andam sempre com o território na boca, mas desprezam-no olimpicamente. Pior: nalguns casos nem é por má vontade, é por simples ignorância - não têm, sequer, noção das facadas que lhe dão.

A profissionais da engenharia industrial sabem que o lay-out determina a produtividade. Os autarcas deveriam saber que o ordenamento do território determina a qualidade de vida das populações e a eficiência económica. Mas não sabem, nem querem saber; preferem uma benfeitoria aqui, outra ali, e muita propaganda. O ordenamento do território exige estudo, planeamento, critérios e perspectivadas em horizontes temporais suficientemente largos para garantirem eficácia, equilíbrio e estabilidade. Tudo o que nos falta, e eles (autarcas) não valorizam.

Bastou passar por cá um “estrangeiro” – um tipo do Fundão (Paulo Fernandes - coordenador da Estrutura de Missão para a Reconstrução da Região Centro) - para constatar e expor o óbvio: o eixo Leiria-Pombal apresenta uma flagrante falta de ordenamento do território. Venho alertado para isso há décadas...

Por cá o nosso autarca prefere debitar falácias sobre a eficácia do poder local.