12 de abril de 2021

Enfim, a Casa Varela

 As dores de parto da Casa Varela estão aqui arquivadas neste blogue, há vários anos. Mais do que aqueles em que esteve em obras, a cargo de uma mão cheia de construtores, saltitando de plano em intenção, sem nunca existir para ela um projecto definido. Ou melhor, existiram tantos, avulso, que o edifício parecia saído do conto infantil "Pedro e o Lobo": quando finalmente era verdade, já ninguém acreditava. Afinal, não foi um restaurante, nem um espaço de co-work, nem um hostel, nem uma pousada. É desde há uns meses um Centro de Experimentação Artística e acabou de abrir as portas ao público, ainda que timidamente - como tem de ser, em tempo de pandemia.

Enquanto no andar de cima continuam a acontecer residências artísticas, no de baixo está uma exposição de Nuno Mika. Chama-se "Interactivity" e resulta de duas instalações de arte digital, que podem ser experimentadas até Junho,  de quarta-feira a sexta-feira, das 16h00 às 21h00 e sábado e domingo, das 10h00 às 13h00 (por agora).

Talvez este não seja o destino que cada um de nós imaginou para a Casa Varela. Como falava há dias com o Filipe Eusébio (diretor artístico), cada um tinha uma ideia para ela. Mas vê-la abrir as portas à arte e abrir-se ao público é uma boa notícia. Falta-lhe (mais) autonomia, que lhe permita comunicar por meios próprios e construir a própria identidade, mesmo tratando-se de um equipamento municipal. Mas isso vai-se experimentando, e se esperámos tantos anos para a ver de pé, nada nos impede de acreditar que possa ter autonomia, personalidade, independência. Abrir-se ao mundo e trazer o mundo aqui, através da arte, independentemente da origem dos artistas. Além de tudo, é muito bom ver alguma coisa de novo e alternativo a acontecer numa cidade que está presa ao estigma bafiento do Marquês e parece caminhar só para o passado.



9 de abril de 2021

Os "mangas de alpaca" de Pedro Pimpão


 


Os primeiros nomes anunciados pela candidatura de Pedro Pimpão às eleições deste ano deixam adivinhar que, afinal, isto pode sempre piorar. 

Agora que entrámos no registo auto-suficiente, está "facilitado" o trabalho dos media locais, já que o PSD faz a festa, atira os foguetes, e apenas precisará de quem ajude a apanhar as canas. 

Diz a "notícia" elaborada pelo 'gabinete de comunicação' que estão escolhidos não só os responsáveis por essa área, como também de dois importantes cargos: o coordenador da campanha e o mandatário financeiro.

O primeiro é Renato Guardado, o melhor relações-públicas que o partido arranja para o social - mesmo que a fotografia tenha uns 10 anos e já vá longe aquele ar de menino. O segundo é Sérgio Gomes, velho conhecido aqui da casa e das redes sociais, impoluto presidente dos Bombeiros. Como dizem que o dinheiro não tem cor, estamos em crer que não haverá problema de maior. E se alguém vos disser que 'isto é uma casa a arder'...acreditem.

Entretanto, já ontem o partido tinha passado a guia de marcha ao presidente da Câmara e à presidente da Assembleia Municipal. Como o candidato a líder do executivo está escolhido, falta apenas anunciar quem será o cabeça de lista à AM. Para ser consentâneo com a linha agora revelada, apostamos (não todas, mas quase) as fichas em José Gomes Fernandes. Serás rapaz para aceitar dar esta pirueta JGF?



30 de março de 2021

“Parem de Fazer Política e Politiquice à Custa do Interesse Público e das Populações!”

O vereador Micael António, na última reunião do executivo camarário, deu uma lição de saber estar na política e de todo o histórico real da aprovação do PDM que define actualmente a Zona Industrial da Guia e do que deverá ser um papel responsável na política. Não poupa Manuel António e Manuel Serra, que estarão à frente de todo este movimento bastante activo nas redes sociais.


Esta intervenção surge na sequência da “exigência” a Diogo Mateus por parte do Pedro Brilhante sobre o projecto Lusiaves verberando a frase: “tem que ser parado já”. Para quem apregoa que se retira da política e se irá dedicar à vida profissional… parece que é difícil tirar a política do Brilhante quando vê a oportunidade de navegar uma onda que até nem é sua de origem.

Mais do que o ruído à volta desta novela, que terá o seu ponto alto na Assembleia de Freguesia de amanhã com emoções à flor da pele, no processo de entrincheiramento de um grupo que está organizado, que concerta as participações nas redes sociais, que têm dificuldade em encaixar opiniões diversas e vilipendia agressivamente alguns, o ponto mais concreto e fulcral é a providência cautelar interposta pela AMAGO – Associação de Moradores e Amigos da Guia Oeste.

Concordo em pleno que a associação tenha agido neste sentido, se existem preocupações sobre a transparência e legitimidade do processo de hasta pública. Também imagino que será com maturidade que a decisão do tribunal será recebida.

Importa clarificar que “quem tiver sério receio de que alguém lhe venha a causar uma lesão grave e dificilmente reparável ao seu direito pode requerer uma medida judicial, chamada providência cautelar, que se destina a assegurar a efectividade do direito ameaçado.” Só em custas judicias são 750€, fora os honorários dos advogados.

Uma das mais famosas foi a providência cautelar do José Sá Fernandes sobre o Túnel do Marquês em Lisboa, que atrasou 2 anos a obra e que custou 4 milhões adicionais aos contribuintes portugueses. Um grupo bem organizado conseguiu atrasar com grandes custos para todos. Na altura houve grande cobertura mediática e ruído. Hoje não existe quem conteste essa obra e é um não assunto.

Caso a providência cautelar não tenha qualquer provimento, visto que não foi considerada urgente e está em apreciação, será difícil manter a contestação para além do argumento que não se gosta do investidor em causa e do seu fundador.

Aguardemos com serenidade.

Gritar mais alto não significa que se tenha mais razão. 

Com a (meia) verdade vos engano

Há cerca de um ano, o presidente da câmara anunciou e publicitou o Investimento da Lusiaves na Guia como o verdadeiro “el dourado” para o Oeste e para o Concelho. Talvez tivesse sido mais avisado, para o curso do negócio, menos pompa. O povo não é todo burro, e quando a esmola é grande desconfia.

Com o passar do tempo e o esmiuçar da coisa, as dúvidas sobre o negócio cresceram com a névoa lançada sobre os seus impactos. A chegada do Pedido de Informação Pérvia (PIP) deveria clarificar a coisa, ofuscou-a ainda mais. A Oeste, onde foi distribuído aos bocados, acicatou desconfianças e “obrigou” o poder instalado a convocar a contragosto uma assembleia de freguesia extraordinária par
a discutir o caso. Nos passos do concelho, foi o assunto principal da última reunião do executivo.

Surpreendentemente, ou talvez não, coube ao vereador Murtinho, e não ao presidente da câmara que tem o pelouro do Desenvolvimento Económico, a defesa do negócio com informação até essa altura não divulgada – um esclarecimento sobre o PIP entretanto pedido, disse ele. Por alguma razão, não foi D. Diogo a revelar, e a usar, aquela informação supostamente relevante; e talvez pela mesma razão, coube, desta vez, ao vereador Murtinho o papel de ilusionista – fazer o truque de mostrar uma coisa para esconder outra. Falou da gama de produtos mas ignorou (escondeu) o que importa, o que esclarece tudo: o PROCESSO, mais concretamente o MATADOURO.

Nisto da política, o vereador Murtinho pode considerar-se já um feiticeiro, mas não passa de um simples aprendiz (do métier). Já percebemos que já aprendeu que meia-verdade é a melhor das mentiras, mas ainda não sabe mentir.


26 de março de 2021

A doutora Odete a recuar

Na reunião do executivo desta manhã, a doutora Odete questionou o presidente da câmara sobre qual o projecto que vai ser implementado no Jardim da Várzea. D. Diogo respondeu-lhe bem…

Quem olhar para a doutora Odete, naquela intervenção, percebe, pela sua expressão corporal, o vazio e o desnorte. 

A doutora Odete ainda não percebeu que as perguntas avaliam tanto ou mais que as respostas; nem percebeu que em política é sempre mau perguntar, porque pode haver resposta.

A doutora Odete preside ao PS local, é vereadora e candidata a presidente da câmara. Nos últimos tempos (anos), cavalgou unicamente o projecto de requalificação do Jardim da Várzea, e nem sobre esse conhece o estado.   

Havia um certo enigma sobre como é que a doutora Odete iria arrancar, ou se chegava a arrancar, na corrida à camara. Está desfeito o enigma: arrancou a recuar.



25 de março de 2021

A Oeste as coisas aquecem…

... Entre os defensores e os opositores ao Investimento da Lusiaves na Zona Industrial da Guia.

Com a chegada do Pedido de Informação Prévia (PIP), à câmara e à junta, ficou mais claro que a empresa pretende instalar um matadouro e processamento de carne(s) – “uma unidade industrial (tipo I) de processamento alimentar”, num complexo industrial com de 160 m de frente, 190 m de profundidade e blocos com 14 m de altura – um monstro -, junto à vila da Guia, com todos os impactos ambientais conhecidos.

Perante isto, a contestação da oposição (núcleo do PSD do Oeste), da associação de melhoramentos da Guia – Amago, que avançou com um Providencia Cautelar contra o Hasta Pública e o Investimento/Unidade, e de uma boa parte da população, a junta joga à defesa, queima tempo, esconde o jogo, e faz trapalhadas – convocou a contra-gosto uma assembleia de freguesia para discutir o PIP, por videoconferência, que não conseguiu(?) realizar.

Resultado: de um problema fez dois. Em política, os problemas desconhecidos abafam-se (e resolvem-se); os públicos enfrentam-se e matam-se o mais rápido possível.

Quem não tem posições claras sobre questões estruturantes pode servir para muita coisa, não serve para governar.

23 de março de 2021

Casas de Contenção - Uma mudança de paradigma no combate à violência doméstica

 

Numa sessão distrital do Parlamento dos Jovens (https://youtu.be/OOACL_Drrno), iniciativa da Assembleia da República, tropeço numa participação de uma jovem de 16 anos da Escola Básica e Secundária do Padrão da Légua de nome Matilde Simões.

Defende a existência de “Casas de Contenção” para que, após uma denúncia de violência doméstica e feita a análise de risco, não são as alegadas vítimas que têm que abandonar o seu lar, mas sim os agressores. Deixaríamos, com esta medida, de ter Casas Abrigo, como é o caso de uma que existe em Pombal.

Segundo a jovem, seria uma medida de 1ª instância com acompanhamento psicológico e jurídico. Defende que não devemos intervir na vítima, retirando-a do seu quotidiano, mas sim no agressor.

Será o/a agressor/a que deverá sair do seu quotidiano e não o inverso para recolha de mais informação para o processo.

Esta abordagem muda por completo o paradigma, evita um maior sofrimento e teria de imediato uma acção mais directa e eficaz.

Outra das participações refere que a mudança não vai pela educação contra a violência doméstica, mas a educação desde o 1º Ciclo para mudar os papeis de género.

No meio de tanto ruído, existem boas intervenções e quem pensa pela própria cabeça, não se limitando a repetir expressões e frases feitas ou soundbytes.

Esta nova geração, como todas as novas gerações, trazem sempre coisas boas e esperança! 

 



 

22 de março de 2021

Um registo verde a cair de maduro

 Tive que olhar duas vezes para ter a certeza de que não estava ver fotos da década de 90, quando o Dia da Árvore era tudo o que tínhamos em Pombal (e em Portugal, no resto do país não era muito diferente) para pensar no Ambiente e em como seria importante melhorar o planeta para cá continuarmos. 

Tive que olhar duas vezes para as fotografias porque não me parecia possível que em pleno 2021 uma Câmara - que se acha a última coca-cola do deserto em matéria de chavões eco-sustentáveis  mas depois acaba com jardins e privilegia praças - mandasse fazer uns bonés de propósito para a fotografia. O retrato era, afinal, muito mais rebuscado: o Município envolveu naquele excerto de política do enfeite os seus "colaboradores" - como foi amplamente replicado pelos media locais, que há muito desistiram do jornalismo - enfiou-lhes um boné e toca de os pôr a plantar árvores, que bonito. A ideia de plantar estas 140 árvores (que nos fazem falta, estas e muitas mais) foi "repor a pegada carbónica provocada pela quantidade de papel consumido, durante o ano de 2020, nos diversos serviços municipais", diz a autarquia. Todo o mise en scène foi devidamente fotografado e filmado e difundido por colaboradores - esses sim - já que se há feito a registar nas contas de merceeiro do Largo do Cardal é que o Município não criou um único posto de trabalho na área da comunicação. Primeiro valeu-se de um falso recibo verde, agora de avenças e acrescentos enxertados de outros departamentos. E como os delegados sindicais também devem ter desistido de Pombal,  não vimos ninguém importar-se com isso de chamar colaboradores aos trabalhadores, pois que moderno. 

Moral da história: há quem goste de enfiar a carapuça e bater a pala, porque ainda por cima aparece no jornal e nas redes sociais, disfarçado de "colaborador" de multinacional em registo de responsabilidade social. E pensam vocês: isto não é nada face ao que aí virá, em matéria de coaching motivacional.

Há gostos para tudo. 


*fotos de André Malheiro, publicados no jornal O Pinheirinho

17 de março de 2021

De como o Pança se quis montar em dois cavalos (burros) e acabou apeado


“Traidores. Traidores. Traidores do Oeste. Traidores. Traidores. Traidores do Oeste…”; gritava ele, sobressaltado, e sempre em crescendo até à aflição; parecia que acordava no final da agitação, mas logo caia num sono profundo; de onde saia, passados uns instantes, noutra e noutra agitação, noites a fio, há muitas noites… 

Lá em casa já se tinham apercebido, e compreendido, que tamanho abalo se devia ao afastamento do Amo; a quem nunca se fartara de servir, sem olhar a maus dias e a piores noites, sempre atrás do aspirado e prometido título de cavaleiro, e depois a Conde ou a Marquês de uma província qualquer; que depois, dizia ele, “saberei torná-la independente, e reiná-la a meu belo prazer, e fazer do meu conchego rainha e dos meus rebentos infantes”. 

Nos últimos tempos, acordava sempre com o fígado aziado e a mioleira inchada de tanto magicar, e não acreditar, que usança de agradecido, entre Amo e escudeiro, fosse quebrada de modos tão nunca vistos nem pensados, por um Amo tão poderoso. E pior ficou quando percebeu que o desafiador era da sua linhagem, e não lhe dera cavaco nem abrigo, por estar comprometido com os fidalgos do Oeste.

Na passada semana, murmurou o seu plano com o lacaio, que lhe franziu o cenho untoso, como se falasse consigo próprio: “veio-me, Deus sabe a razão, o desejo de me vingar daqueles velhacos”. 

Dito e feito, escrevinhou meia dúzia de afrontas e fê-las chegar ao governador do Oeste, arqui-inimigo dos seus inimigos. Tinha aprendido com o seu Amo que, nisto da canalhice (política), inimigo do nosso inimigo é nosso amigo. Mas logo a coisa chegou ao Farpas, que a fez correr.

Quando o aspirante a príncipe - o Profecta da Boa-Vontade - deste reino demonizado foi alertado para a canalhice, por um seu mancebo, dissimulou à sua maneira desconhecimento da traição, e mandou chamar o Pança.

O Pança chegou calado e fez-se quedo. 

- Diz-me, irmão, se o que se diz nos mentideiros, sobre a tua afronta aos nossos companheiros e amigos do Oeste é mentira ou verdade? – perguntou o Profecta da Boa-Vontade

- É verdade – respondeu o Pança.

- Endoidaste, irmão, ou andais fora de conta! – exclamou, de repente, o Profecta da Boa-Vontade; e acrescentou: - Não te deixes cair em desgraça, como o teu Amo.

- Na desgraça já eu estou - caí de um cavalo e não me deixam montar no que julgava certo – retrocou o Pança.

- Se o estás é por tua sandice. Agora, que te poderia dar estado, esbardalhas-te todo…!   

- Sei bem que às vezes me desmando, digo e faço coisas que não vêm a pelo, mas as minhas intenções sempre as dirijo para bons fins, e até Deus e o Diabo já escreverem direito por linhas tortas – retorquiu o Pança.

- Esta rixa, irmão, não é uma rixazinha; é uma rixa que poderá desgraçar-nos num momento – alertou o Profecta da Boa-Vontade.

- Desgraçado já eu estou – retrocou o Pança -; perdi o meu Amo e a confiança dos da minha linhagem. Mas digo, e juro-o, e podeis crê-lo ou não, que é tão certo como Deus ser Santo e Cristo ser Deus: farei campanha contra todos os causadores da minha desgraça.

- Irmão, não há motivo para te vingares de ninguém, nem isso é de bom-cristão e de bom-escudeiro. Bem sabeis que é feio agir por ódio e tomar cabal vingança – profetizou o Profecta da Boa-Vontade.

- Sei bem por que assim falais, mano; estais mui comprometido com o conde e os fidalgos do Oeste, esses traidores, que conspiraram a teu favor, e muito demandaram contra o seu Senhor natural e a Pátria … - retrocou Pança.

- São nossos companheiros e irmãos, irmão; acalma-te e pede perdão – suplicou o Profecta da Boa-Vontade.

- São hereges, maus cristãos e maus companheiros… – retrocou o Pança. O pior deles é o dito conde, que uns valentes açoites merecia, ou prendê-lo e fazer-lhe justiça segundo as culpas dele.

- Irmão!; na empreitada que temos pela frente, todos contam, todos são importantes…

- Contam, mas não são de confiança nem da tua linhagem; e se traíram os da sua linhagem mais depressa trairão um filisteu, que bem diz o rifão: cada ovelha com a sua parelha – asseverou o Pança, já irritado.

- O poder fez-te mal, irmão; ainda não foste apeado e já trazeis cara de desgovernado. Toma um pouco de ruibarbo; purga essa cólera; talvez, assim, reencontres as energias positivas - aconselhou o Profecta da Boa-Vontade.

- Tenho que me vingar dos traidores à Pátria e à nossa Majestade – sentenciou o Pança.

- Diz-me, irmão, como bom-cristão e bom-escuteiro, conheceis os Mandamentos do Evangelho e a Lei da Alcateia?

- Conheço… – respondeu o Pança. 

- E qual a é tua divisa, que juraste cumprir?

- Servir “(me)”.

                                                                                                Miguel Saavedra