A tatear e a improvisar, sem liderança, sem rumo, sem critério.
Avança. Recua.
Expõe-se à chacota.
Deus lhes perdoe.
"E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa: apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal."
A tatear e a improvisar, sem liderança, sem rumo, sem critério.
Avança. Recua.
Expõe-se à chacota.
Deus lhes perdoe.
A “junta” reuniu, ontem, para cumprir as formalidades e permitir as solenidades habituais nestes momentos.
A vice Marto conduziu os trabalhos com a descrição habitual.
O vereador não-eleito (doutor Coelho) monopolizou novamente a sessão com um sermão mui bem entoado, cheio de reparos, conselhos e preocupações, sempre no tom meloso, cheio de compaixão e até de piedade, como era conveniente, onde não faltou a indignação, como também era obrigatório, nomeadamente com os insensíveis governantes; e até a raiva, mas não a raiva que vem do ódio, mas sim a pura, a cristã, aquela que avigora sempre o lado humano.
O Conde do Oeste apresentou as suas curiosidades, e fez as suas observações.
O ausente que se ausentou sem dizer nada a ninguém também esteve presente – podia ele faltar nesta imperdível ocasião?! Não. Não podia. Mandou ler uma prédica laudatória dirigida aos destinatários habituais.
A “junta”, com a doutora Marto atrás da (des)coordenação da resposta e na dianteira da comunicação - domínio em que é especialista, e dá lições -, tem respondido “muito bem” à calamidade provocada pela tempestade, na linha do modelo governamental – quem sai aos seus não degenera.
Mas há um reparo/questão que tem que ser aqui deixado: por que razão (ou razões) não aceitaram a colaboração dos ascetas/escuteiros do PS? Eles gostavam tanto de participar…
O Processo chegou ao fim (na Justiça Nacional): o ex-Director de Recursos Humanos da CMP (Miguel Ribeirinho) foi absolvido do crime por cuja prática foi acusado, por violação do princípio “ne bis in idem” – art. 29º, n.º 5, da Constituição da República Portuguesa. As outras duas “acusadas” também foram absolvidas - por arrasto, contra a sua vontade expressa.
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| Tão diferentes, e tão iguais - na litigância compulsiva |
O tribunal concluiu que “o Ministério Público não podia, como fez, criar outro processo, idêntico a um já definitivamente decidido, com o único objetivo de corrigir erros na elaboração da acusação, contornando desta forma, ilicitamente, as limitações legalmente previstas à modificação dos factos descritos na acusação e o efeito preclusivo de uma decisão de não pronúncia transitada em julgado”.
Convém recordar que o Processo foi desencadeado e conduzido pelo ex-presidente da câmara (Diogo Mateus), na sequência de um processo disciplinar ardiloso, conduzido pelo actual Director Municipal, que teve igual desfecho na Justiça, e prosseguido pela mão do actual presidente com requintes persecutórios verdadeiramente kafkianos. Tudo com a participação de muitos persecutores activos e/ou coniventes/colaborantes.
O regime chegou a este ponto. Chegou ao ponto em que usa e abusa dos amplos poderes administrativos para perseguir pessoas que julga inconvenientes; e quando não o consegue pela via administrativa, usa e abusa da via judicial com todos os artifícios da litigância compulsiva, porque sabem que não suportam qualquer custo e sabem que o desprotegido cidadão tem que arcar com os enormes custos do Sistema de Justiça.
Se Kafka ainda fosse vivo, e se lhe contassem o enredo deste Processo, e de todos os que lhe antecederam, deixar-nos-ia, com certeza, o Processo II; agora não sobre a lógica opressora do sistema de justiça, mas sobre a lógica opressora dos sistemas administrativos.
Eis a prometida felicidade no seu esplendor.
O concelho de Pombal votou maioritariamente em André Ventura para as eleições presidenciais. Seguiu-se Seguro, e só depois Marques Mendes, o único candidato que afinal aqui veio, em campanha. De pouco valeu o apelo público do presidente da Câmara e de todo o séquito do PSD local, nomeadamente do presidente-deputado João Antunes dos Santos.
Os resultados destas eleições no país - e particularmente no concelho de Pombal - deviam também servir para o PS local aprender alguma coisa, nomeadamente sobre respeitar em vez de culpabilizar o eleitorado. Mesmo quando não agrada, mesmo quando preferíamos ter outro resultado.
O presidente mandou levar à reunião da “junta” um regulamento sobre a atribuição de incentivos à fixação de médicos no concelho, que lhe permite atribuir todo o tipo de bónus (casa, deslocações, despesas, impostos, etc.) aos novos deuses na terra (os médicos). Por ser uma medida reclamada, há muito, pela dita oposição e é agora do agrado do poder, provocou de imediato um aguerrido despique pela paternidade da excrescência política, na reunião e publicamente.
A medida
tem tanto de depravada como de perigosa. Depravada porque na administração da
coisa pública não pode valer tudo - os fins, por mais nobres que sejam, não
podem justificar que se abuse dos meios. Perigosa porque não resolve, nem
ameniza, nenhum problema do SNS; antes pelo contrário, só os agrava. Para quem
anda todos os dias com a defesa do SNS na boca não deixa de ser bizarro, mas é
o que temos…
Temos uma “classe” política populista e inepta que só conhece uma forma de resolver os problemas, despejar dinheiro sobre eles, gerando mais despesa e problema maior, qual marceneiro que, só conhecendo a ferramenta martelo, julga, no seu fraco pensar, que resolve todos os problemas pregando pregos. E desconhece, ou manda às urtigas, o princípio básico de toda a arquitectura do Estado: a clara delimitação de atribuições e responsabilidades entre os diferentes níveis e estruturas, a fim de evitar sobreposições, desperdícios e injustiças.
Há homens que passam pela vida predestinados a resistir, mesmo que isso implique sofrer todas as dores. Artur Carreira era um deles. Vai hoje a sepultar na Guia esse homem que foi guardião das memórias da terra na idade adulta, depois de uma juventude dedicada a construir um futuro de liberdade para todos. Logo ele, que era um privilegiado, que nascera numa família de posses, que podia gozar das benesses, escolheu desde miúdo o outro lado, da resistência, desde logo na campanha de Humberto Delgado. Haveria de conviver com Salgueiro Maia, ao tempo do liceu, em Leiria, e pela vida fora emprestar à terra que amava todos os valores do socialismo democrático.
O Artur Carreira foi meu professor no antigo Externato da Guia, precisamente no ano em que passou a chamar-se C+S, assumida pelo Estado. Pouco depois haveria de ser encaminhado para o antigo SASE (serviços de acção social escolar). Um acontecimento trágico haveria de ligar para sempre as nossas famílias: perdeu a mulher num acidente de viação, precisamente no mesmo dia em que também o meu tio Amadeu foi vítima de um desastre. Muitos anos mais tarde, quando o reencontrei nas lides dos jornais (era um colaborador assíduo do Voz do Arunca, mas viria a colaborar também com O Eco, enquanto o dirigi), percebi que era dono de um espólio impressionante. Era preciso contar a história da FAGO? Ele tinha documentos e fotos. Era preciso falar do GD Guiense? Ele sabia tudo. E da cantina, e da feira dos 10, e do salão José Maria Duarte, e da Acurede. E das marchas, e das matinés, e dos bailes. O Artur Carreira sabia de tudo. Olhando à distância, facilmente percebemos que era um cidadão inteiro, mesmo que tantas vezes desfeito em pedaços. Foi assim que criou, na Guia, a Associação de Pensionistas, Aposentados e Reformados do Oeste (APARO).
Talvez a memória seja o nosso bem mais precioso. Porque nos permite eternizar momentos, porque é uma forma de homenagearmos sem alarde mas com sentimento aqueles e aquelas que nos ajudam a erguer o mesmo chão, a nossa história. Por isso estranhei que os diversos poderes, sempre tão solícitos em obituários, tenham feito tábua-rasa do desaparecimento de Artur Carreira. Como ontem, no meio do velório do pai de uma grande amiga, me dizia um antigo presidente da Câmara, "é só ignorância". E como sabemos, a ignorância é muito atrevida.
Em memória de toda a sabedoria que Artur Carreira carregou consigo, ao longo de 80 anos, que a terra lhe seja leve.
*fotografia que lhe fiz na tertúlia "0 25 de Abril nas tabernas", no café Lanheiro, na Ilha, no âmbito das comemorações dos 50 anos da revolução. Artur Carreira ia então usar da palavra.