Pela primeira vez em 20 anos não fui a reuniões de pais e mães, e posso olhar para o início do ano lectivo em Pombal apenas como cidadã. Por estes dias a minha filha mais nova já foi estudar para fora, e portanto caminho agora neste limbo confortável de não me preocupar com refeições escolares, recreios, actividades e quejandos. O que não quer dizer que não me preocupe com o outro, com os outros. E todos os dias nos chegam preocupações de quem vai fazer esta travessia com mochilas demasiado pesadas, seja no primeiro ciclo - à conta das obras na Escola Conde Castelo Melhor, que para mal de uns e bem de outros se prolongam no tempo, seja na escola Gualdim Pais, que no dizer de alguns professores e pais, parece saída de um cenário de guerra, também à conta das obras.
Mas fazendo fé num vídeo promocional publicado hoje mesmo pela Câmara, está tudo bem. "Em Pombal educar é apoiar as famílias e garantir que cada criança encontra as condições certas para aprender", diz a narradora ao serviço do município. Eu não sei em que realidade paralela vivem estas pessoas. Não sei se é por osmose que o presidente Pimpão consegue passar à "equipa" estes conceitos colados a cuspo. Ou se isto é apenas para ficarem todos de bem com a própria consciência.
Porque o que eu vejo, em Pombal, são escolas com recreios empedrados, onde não cresce uma erva saudável quanto mais uma criança.
O caso da Escola Conde Castelo Melhor angustia-me. Não julguei possível que qualquer decisor político assinasse de cruz fazer uma escola, aos dias de hoje, enfaixada entre estradas e edifícios, claramente como se metesse o Rossio na Rua da Betesga. A sério que isto é querer o melhor para Pombal?
Nas últimas décadas habituámo-nos a isto, de cada vez que se constrói um edifício público (ou privado). Na verdade, quando olhamos à volta, só nos restam dois edifícios com algum verde para caminhar e respirar: a Casa da Criança e o Hospital. O conjunto de Lares de Idosos, Creches, Escolas e demais equipamentos são verdadeiros bunkers ao nível do chão, numa selva de pedra que cresce todos os dias.
Em 2020, um estudo da universidade de Hasselt (Bélgica), publicado no Guardian e na revista Plus Medicine mostrava como crescer num ambiente urbano, com mais áreas verdes, estimula a inteligência das crianças e diminui os problemas comportamentais. Aqui ao lado, na Universidade de Coimbra, por exemplo, sucedem-se estudos que concluem sempre pela necessidade de aumentar os espaços verdes nas escolas e nas cidades. Na semana passada, o professor Carlos Neto apelava à reabilitação urgente dos recreios escolares, insistindo que "nas primeiras semanas de aulas os alunos deveriam estar todos brincar, para aprenderem a relacionar-se". Presumo que todas estas questões tenham feito parte da reunião, comunicada nas redes, entre a Associação de Pais de Pombal e a Câmara. Afinal, não será por falta de interlocutores que a comunicação vai deixar de fluir.
Ali a meio da minha viagem nas escolas, nos últimos 20 anos, envolvi-me na criação da dita associação de pais - como se recordarão os que andam por aqui há mais tempo. Acreditei mesmo que seria possível incluir todos, envolvê-los. Enganei-me. O organismo nasceu, começou a andar, mas tropeçou em valores mais altos que se levantavam para várias almas de (aparentemente) boa vontade. Serviu intentos de ascensão social, profissional e política, e ficou acomodado no degrau onde nasceu. Olhando agora para a constituição dos novos órgãos, passámos a outro patamar. A primeira foto oficial foi tirada nas escadas da Câmara, o que dispensa legendas.
Mais ou menos na mesma altura passei pelo Conselho Geral. Foi onde melhor conheci os professores. Fui a conselhos de turma, vi linchar crianças de 11 anos como se fossem terroristas do Daesh. Também vi gente boa, empenhada em fazer da escola um sítio seguro e melhor, para todos.
Ao cabo de tantos anos, já não tenho ilusões. Mas nunca perco a esperança. É o que ainda me faz caminhar na floresta, sem ficar presa à imagem da árvore.
Desejo-vos o melhor: mães, pais, alunos, professores, e - tão importante - auxiliares de todas as escolas. Coragem, porque vão precisar.





