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16 de julho de 2026

Hospital de Pombal com prognóstico reservado


 

A Santa Casa da Misericórdia de Pombal vai reunir hoje em Assembleia Geral com um ponto único na Ordem de Trabalhos - a situação do Hospital Distrital de Pombal. Daí deverá sair a legitimação das negociações, que na certa nos vão conduzir a uma espécie de PPP (Parceria Público-Privada), num modelo ainda não testado em Portugal. 

O que nos importa, nesta altura, é uma coisa básica: continuaremos a ter um hospital de acesso público? Em que moldes?

Há anos que o Hospital tem vindo a ser esvaziado de serviços e capacidade, conduzindo-o ao estado comatoso em que se encontra hoje. E no entanto, seria tão importante mantê-lo, até para aliviar o caos em que se tornou o serviço de urgência em Leiria, de onde queremos sempre fugir. 

Seria bom que tivéssemos um poder local firme, capaz de bater o pé à tutela e zelar pelo interesse colectivo. Ah, esperem, não se afronta a tutela. E não se afronta há muitos anos, independentemente do partido no poder. Até porque há peças que conseguem encaixar-se em qualquer puzzle: há dias, um grupo de cavalheiros que gosta de jantar com cheiro a naftalina em forma de "tertúlia", convidou o antigo administrador do Centro Hospitalar de Leiria, doutor Licínio Carvalho (grande obreiro do esvaziamento do HDP) agora vice-presidente da CCDR Centro. Espero que lhe tenham perguntado o que resultou, para a população, daquele corte cérceo. Também espero que o presidente da Assembleia Municipal, doutor João Coucelo - que já foi director do Hospital, que ainda hoje, apesar de aposentado, lá faz umas horas - tome a dianteira na defesa do que é nosso. 

Do resto, nada a esperar. É a dinâmica do território a funcionar. 

11 de julho de 2026

De queda em queda. Até quando?


 


As ruas da cidade tornaram-se verdadeiras armadilhas. Depois das 'cardaleiras' de má memória, devidamente arrancadas em boa hora, vivemos o tempo da gincana no simples acto de caminhar na rua. O caso de uma idosa, ontem, num dos passeios da avenida Heróis do Ultramar, veio avivar de novo o sentimento de insegurança que invade muitos transeuntes assim que põem um pé na rua. 

Não, não foi um caso único nem isolado. Todas as semanas há reportes de gente que cai na rua, tropeça nos passeios danificados da avenida, nas calçadas que clamam manutenção e nas lajes levantadas nas ruas da zona histórica. Bem podemos encher a boca e as redes sociais do município com floreados verbais, do género parte integrante da "Rede de Cidades e Vilas de Excelência", com "Plano Local e Municipal de Promoção da Acessibilidade", que no fim a realidade é outra: esta cidade não é para velhos, para quem tem dificuldades de locomoção, tão pouco é para quem só quer caminhar no passeio sem se estatelar, às vezes com gravidade.

Foi grave o que aconteceu à rapariga que tropeçou no passeio frente a uma loja na Rua Carlos Alberto da Mota Pinto, o que levou a proprietária a colocar no local uma enorme floreira. Leram bem, não foram os serviços municipais. Ou da mulher que caiu na Praça Marquês de Pombal, em frente à Loja do Cidadão, há poucas semanas. Têm sido graves muitas das quedas ocorridas por toda a cidade, mesmo antes de levantadas as raízes das árvores pela tempestade Kristin. Há muito que ninguém se importa com o estado das ruas. Uma das poucas zonas em que os passeios são suficientemente largos, a caminho da Senhora de Belém, está há anos com o piso partido em múltiplos lugares, num perigo evidente.

Não sei por onde costuma Pedro Pimpão fazer as suas corridas, mas certamente o trajecto não inclui estas artérias da cidade. E não, não era suposto falarmos dos buracos da estrada em 2026, logo nós, em Pombal: mandamos para o estrangeiro técnicos muito abalizados falar de experiências locais e absorver outras, para quê? Venderam-nos a ideia de que agora seríamos uma smart city, a cidade dos 15 minutos, mas não nos disseram que, provavelmente, esse é o tempo que demora a chegar a ambulância, ou o tempo que ela gasta até ao ao Hospital - enquanto temos.

Hoje mesmo a presidente da Junta de Pombal apresentou  numa reunião da  ANAFRE uma proposta para a Segurança Rodoviária de Proximidade, "defendendo a criação de um programa nacional que permita às freguesias terem um 𝗽𝗮𝗽𝗲𝗹 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗮𝘁𝗶𝘃𝗼 𝗻𝗮 𝗽𝗿𝗲𝘃𝗲𝗻𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗮 𝘀𝗶𝗻𝗶𝘀𝘁𝗿𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗲 𝗻𝗼 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼𝗹𝗼 𝗱𝗮 𝘃𝗲𝗹𝗼𝗰𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗻𝗼𝘀 𝗹𝗼𝗰𝗮𝗶𝘀 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗰𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗼𝘀" (sic). Seria bom se começássemos pelo básico: a manutenção das ruas. Não precisamos que os presidentes de junta se armem em presidentes de Câmara, a não ser nas terras onde as Câmaras estão ao nível das Juntas, e daquelas que só servem para carimbar papéis.

6 de julho de 2026

O que mudou em Pombal (e ainda não percebemos)


 Conheci na semana passada o Mateus (Hawi), num interessante debate provocado por uma residência artística na Casa Varela - que juntou gente diversa à volta da memória colectiva de Pombal. As outras pessoas eram todas minhas conhecidas ou amigas, traziam todas as suas memórias sobre a terra, e o Mateus absorvia tudo o que dizíamos: chegou a Pombal há cinco anos, veio de São Paulo (juntar-se à família, que já cá estava) e olha para a cidade por um prisma que nos passa ao lado - aqui vê o horizonte, a partir de qualquer ângulo. É produtor musical, tem cá um estúdio, toca vários instrumentos, é autor e compositor, talvez apenas conhecido pelas gerações mais novas, por causa das batalhas (de rimas) do Marquês - que acontecem e mobilizam gente.

O Mateus, 34 anos, já sabia a lenda do Bodo mas nunca tinha ouvido falar do baile dos cedros ou do baile da pérgula, do Agro-Bodo, da meia-maratona, ou da maioria dos postais que cada um guarda na sua memória. Depois daquele fim de tarde  promovido pelo Tristany Mundu - o artista que investiga o que é, afinal, um indígena (aquele que pertence à terra onde habita), ficou de combinar com o Alfredo uma incursão na Filarmónica ou no Rancho Típico de Pombal.

É apenas um dos mais de cinco mil cidadãos estrangeiros que aqui moram. Muitos deles têm colorido o jardim do Cardal nos últimos dias, abalando a pasmaceira habitual. No jogo em que o Brasil foi eliminado pela Noruega, domingo à noite, era um mar de gente.

Bem sei que aqui na terra vamos rapidamente do 8 ao 80 (ou do 80 ao 8, se falarmos na organização do Bodo deste ano), e por isso o cheiro a cachupa, futebol e funk não incomodam só um ou outro herdeiro dos pergaminhos de Pombal. Se o som é alto e prolongado, entra-nos a todos pelos tímpanos adentro, qual timbre do Pimpão na Assembleia Municipal. Mas o Mundial de Futebol vai acabar e voltaremos ao mesmo: dois ou três que dormem sestas nos bancos, um ou outro que fazem scroll, de cabeça baixa, enquanto caminham da estação para o Cardal ou vice-versa. Por isso, deixemos que este povo se divirta, por dias, na terra que também é sua.

O Pombal de Maria Fogaça, António Serrano, Maria Justina Varela Pinto,Guilherme Santos ou Maria Mafra já não existe. Há muito do que fomos que apenas subsiste na memória, e sim, deve permanecer na história, e ser evocado, passado às gerações mais novas. Já não existe O Eco, nem o Correio de Pombal, nem o Voz do Arunca, nem o Pombal Oeste, das rádios resta uma sombra do que foram, da vitalidade que entre os anos 80 e 90 fazia rodar gerações inteiras com programas temáticos e interacção com o público. Era no tempo em que sonhávamos muito e voávamos alto sem precisar de slogans para o fazer.

O que precisamos de fazer agora é uma cidade para os que vivem aqui e agora, se queremos que venham outros. Podíamos começar por acabar com essa mania de empedrar jardins, e cujo resultado esteve à vista, ainda estes dias. Mas essa é outra conversa, para termos a propósito de uma obra que aí vem. 

1 de julho de 2026

O verão é uma festa - e a Protecção Civil também!


Estamos na era da pós-verdade, da linha esbatida entre o que é informação e entretenimento, entre a comunicação e a propaganda. Já sabíamos disso tudo, e também já sabíamos que o poder autárquico faz o que quer - e sobra-lhe tempo. O que talvez ainda muitos não tenham percebido é como são marionetas para o mesmo poder. 

Depois da tempestade Kristin - em que a Protecção Civil civil municipal falhou em toda a linha, e percebemos que os planos municipais não servem para mais nada que ocupar meia dúzia de trabalhadores nossos a compilar dados e elencar medidas - ficou sempre a ideia de que o coordenador Hugo Gonçalves estava a prazo. Soubemos agora, sem a seriedade que o tema e órgão impõem, que vai embora (da Câmara, para já, mantendo-se como comandante dos bombeiros), sem que o presidente da Câmara tenha tido a decência de o dizer, nos sítios próprios - e mesmo de o confirmar aos jornalistas que o tentaram contactar. Ora, como toda a gente sabe, à era da pós-verdade junta-se a era do cordão umbilical entre o poder e a imprensa da terra. Terá sido certamente para poupar recursos que Pedro Pimpão contratou a directora e proprietária do Pombal Jornal (entretanto substituída, no papel, pelo decano social-democrata Rodrigues Marques), para funções ainda não totalmente claras. E como é que se poupa? No jornal. Que usa a(s) foto(s) publicada pelo presidente nas suas redes, com o despudor de quem sabe que isto é tudo nosso. 

Boa sorte, comandante Hugo.

Boa sorte, coordenador David. 

Máquinas. Campeões. Não se preocupem que isto é meia bola e força. Vejam só o caso da vereadora Carolina, que tutela precisamente a Protecção Civil, e que num passo de mágica passou da caixa de comentários do Farpas para a rádio, depois para o jornal, e agora exercita conselhos, de colete vestido, com toda a pompa. Simples!

26 de junho de 2026

Prospecção em Albergaria: a ponta da ponta do Iceberg


É inegável que todos, sem excepção, necessitamos de recursos para viver e
sobreviver. Nisso julgo que todos concordamos. No entanto - e temos disso evidências -  ao longo da história da humanidade existiram vários modelos para os obter.

Existem exemplos de tribos amazónicas que vivem em comunhão com o seu meio, mantendo um equilíbrio que lhes permite prosperar mesmo na adversidade. Regra geral, não usam mais do que necessitam.

No entanto, também existiram povos que desapareceram, ao que tudo indica, devido à

quebra do tal equilíbrio - disso a Ilha da Páscoa é um bom exemplo.

Por inverosímil que possa parecer, neste momento Pombal está mais próximo da Ilha de Páscoa do que imagina. Senão vejamos: a Freguesia de Albergaria do Doze ocupa cerca de 2305ha, dos cerca de 62600ha do Município de Pombal. Os pedidos de pesquisa e concessões para esta freguesia perfazem 477.78ha, o que representa cerca de 20.73% da sua área, ocupada com uma indústria extremamente destrutiva.

Se vos parece mal, ainda vai piorar.

 Neste momento está em consulta pública (entre outras) o plano de lavra da concessão C179-Eguins, e pasmem-se! A área da concessão intercepta o Rio Arunca!

Mas ainda consegue piorar. Cinco linhas de água que alimentam a nascente do Rio, chamadas de sub bacias, vão ser destruídas.

Está a doer? Ainda vai doer mais. Juntemos a isto os efeitos que a Kristin teve no povoado florestal desta freguesia, com 260,2ha destruídos, num total de 1507ha (fonte: Município de Pombal). A concessão de C-179 Eguins vai destruir 48.89ha, e a concessão C-175 Cartaria vai destruir 77.32ha.

Tudo somado, temos 361.03ha, o que significa que a freguesia de Albergaria dos Doze vai perder 23.96% da sua floresta.

E sendo assim, existe a probabilidade de o Rio Arunca deixar de existir em Albergaria dos Doze, e esta ainda ficar sem aproximadamente 1/4 da sua floresta.

Mas nada temam. O Sr. Presidente da Freguesia, em entrevista ao Jornal de Leiria, pede que “se continue a transformar este mal necessário em bem necessário”, falando numa ação de greenwash feita por uma das empresas de exploração.

Pessoalmente, vou esperar para ler as participações das associações (ditas do Ambiente) de Pombal e espero que tenham mais conteúdo que as últimas, assim como a manifestação contra a E-Redes , com direito a apoio dos presidentes de junta, aquando da tempestade.

Só para lembrar os mais distraídos: árvores = ar;  rio = água.

Gustavo Medeiros

(Farpas Convidadas)

9 de junho de 2026

Não és cabeça de cartaz no Bodo? O problema és tu.



O Município de Pombal anunciou sem pomba mas com circunstância a versão pobrezinha mas honrada do Bodo 2026: uma espécie de arraial na cidade, feito com a prata da casa, onde vão caber todos os amigos - o Graciano, os irmãos Silva, a Filarmónica, os dj's e o resto. 

Numa acção promocional de antologia, deu palco aos trabalhadores da Câmara e a muitos apoiantes do regime, desde o médico à polícia. Todos juntos, como Pimpão gosta, que isto de não estarmos todos unidos e amiguinhos, isto de discordar, pensar sobre as coisas e interpretá-las, já se sabe que não é bem visto. É pouco #adn236.

 Se por acaso és desses, fica sabendo que o problema és tu. Tu que não te esforçaste o suficiente para entrar no círculo, tu que não entendes que o governo não pode dar tudo a todos, tu que se não arranjaste o telhado, a chaminé, não conseguiste reabrir o negócio ou limpar os terrenos atulhados de árvores caídas. Tu que deves reverência e vassalagem aos 'heróis de capa azul e amarela', que nos dias de tempestade "comeram bifanas frias" (Pimpão dixit). Tu que ousas querer saber quanto custam as festas, nos últimos anos, sem que nunca ninguém te responda - lá está, há privilégios que são exclusivos dos cabeças de cartaz. E por isso estranhas quando te dizem que esta "edição especial com a prata da casa" é para conter custos, para aplicar o dinheiro na reconstrução do que falta. E falta muito. Mas o dinheiro municipal, imaginamos que sobre. Ou então não há justificação para a desistência do empréstimo que estava na calha. A pergunta é simples e exige resposta clara: quanto custa este Bodo? Quanto custou, afinal, nos anos anteriores?

Já para este dislate há uma justificação: a Câmara da era Pimpão vê o mundo à dimensão do Cardal. E ali, já se sabe, passa-se pouco mais que a missa e a venda de bolos dos escuteiros. Para quem queria voar mais alto, é poucochinho. Mas lá vamos, cantando e rindo,  tratando os munícipes com aquele paternalismo bacoco que começa nos "nossos artistas" e termina nos nossos eleitos, que só lá chegam por causa dos nossos eleitores. 

18 de maio de 2026

Solidariedade, fé & lixo



Há muitos anos que Pombal leva a taça na liga de apoio aos peregrinos de Fátima. Não há pai para nós: abrimos as escolas, os pavilhões, as colectividades, porque quanto mais caridosos formos mais rapidamente alcançamos o céu. E por isso o que importa se durante dias impedimos os clubes desportivos de usar os pavilhões, em nome da fé?

Nos últimos anos, o poder político descobriu neste nicho um degrau importante para mais promoção, para se mostrar mais e melhor. Já não é só o presidente da Câmara, os vereadores & assessores, mai-los presidentes da junta. Agora que temos proximidade com o Governo, vem também o secretário de Estado. É o comprometimento do Estado (supostamente republicano e laico, ainda), em nome de todos, com a causa de alguns. Imaginem vocês que um dia destes os evangélicos, ortodoxos ou outros decidiam fazer o mesmo?

Aqui na terra, as peregrinações servem sobretudo para duas coisas: aumentar os cofres da hotelaria e restauração, e dar mais pano de fundo àquilo que o poder autárquico considera trabalho - sorrir e acenar para as fotos. 

A foto que ilustra este post foi tirada ontem, domingo, junto à sede de uma colectividade na Charneca, que está sempre pronta para ajudar: acolheu uma escola de dança que ficou sem tecto na tempestade. É claro que vieram os peregrinos e há prioridades. As turmas de competição, que tinham torneio no fim de semana, perceberam-no perfeitamente. Foi dali que Pedro Pimpão fez vídeos em pleno baile, para todos verem. Mas na Câmara alguém se esqueceu do essencial: recolher o lixo. Esteve ali toda a semana. 

A propósito deste Maio, fui rever em forma de série o filme "Fátima", de João Canijo, filmado há dez anos. Está na RTP play (dividido em cinco episódios) e mostra, de forma exímia, uma peregrinação por dentro. 

28 de abril de 2026

Dar tudo a todos? Não. Dar alguma coisa a alguns


*foto do fotojornalista Nelson Garrido, no Público de hoje


Passam hoje três meses ( que nos parecem uma eternidade)  da tempestade Kristin. O que nos fica da resenha feita pelas tv's é que há, ainda, muita gente a passar mal. Muita gente que mal conseguiu repôr as telhas que voaram, que ainda não tem comunicações, que não sabe quando ou se algum dia vai recuperar a vida que tinha. 

Esperei até ao fim do dia porque imaginei Pedro Pimpão a fazer um balanço (como as outras Câmaras de concelhos igualmente afectados) do estado do concelho. Não aconteceu. O povo, na sua imensa sabedoria, lá diz que "quem muitos burros toca algum tem que ficar para trás". Para nosso infortúnio, ficamos nós, munícipes deste condado. Penso no casal da Guia que continua a viver envolto no cheiro a mofo que a humidade trouxe, na célebre casa-embrulho (coberta com plástico, para não chover lá dentro). E em todos aqueles que, como eles, só queriam ter recebido uma visita do poder local, uma palavra de conforto e de ânimo. Mas já se sabe que a vida dos autarcas é uma correria, que não dão vazão a tanta pose para tanta fotografia. Se ao menos tivéssemos nascido todos nas Meirinhas...haveria visitas de ministros e presidentes, e hordas de assessores a atropelarem-se para fazer acontecer. O quê? Selfies. 

Passam hoje três meses e quase não se ouve falar de Pombal, do muito que ficou destruído. Uma excepção à hora de almoço, quando o repórter da RTP entrou em directo do Casal da Clara, a mostrar que os cabos eléctricos continuam no chão do lugar, como se fora 29 de Janeiro. O que sabemos é que a Câmara resolveu fazer de conta que está a poupar em tudo para "ajudar" a colmatar os prejuízos. Cancela-se o Bodo (como o conhecemos), programa-se uma alegoria para o Cardal. Alguém acredita que uma Câmara que passa um mandato inteiro sem apresentar contas das festas vai ser capaz de gerar assim dinheiro para repor edifícios e compor vidas? Não. Para mais, agora que o Governo anunciou resmas de milhões, ninguém pára a dinâmica do território. É por isso de louvar que freguesias como o Louriçal decidam manter as festas, o que faz mais pela saúde mental (e económica) da região que centenas de relatórios elaborados pelas senhoras técnicas. Como é de louvar que o Grupo Desportivo Guiense tenha recuperado para si a organização da FAGO, como dantes. Porque não podemos apagar o 28 de Janeiro nem esperar que carpir mágoas nos leve a algum lado. 

Devíamos esperar pelo apoio do Estado, prometido e devido, mas esse chega a conta-gotas. E quando hoje ouvimos o Primeiro-Ministro dizer que "não pode dar tudo a todos", cresce uma raiva nos dentes: vivesses tu, Luís, sem comunicações; chovesse na tua casa, visses as paredes escurecer de bolor, enfrentasses as respostas lacónicas das seguradoras, e perceberias que bastava dar alguma coisa a alguns, para remediar esta calamidade. 




16 de março de 2026

A feira dos hamburgueres, o chouriço e o porco




Pedro Pimpão levou hoje à reunião de Câmara a boa-nova: afinal a organização do "evento solidário" tinha para dar a Pombal mais de 10 mil euros!

Ora, como o presidente continua a enrolar, voltamos a perguntar: Que relação de custo-benefício teve para Pombal? 

Para a empresa privada, foi realmente espectacular (como não se cansou de dizer o empresário, em declarações à web rádio Onda Certa). Horas depois do mega sucesso que devolveu a luz, som e festa ao Cardal, a empresa anunciava nas suas redes sociais um passatempo no valor de...10 mil euros. Está bem de ver que o que aqui "deixaram" são trocos. O equivalente a um chouriço, numa terra de onde levaram o equivalente a mais do que um porco.

Depois disto, por que foi mesmo que a Câmara cancelou a feira do livro, o mercado medieval, e anunciou um Bodo mais comedido?


15 de março de 2026

Evento solidário? A Câmara explica.

 



Ao segundo dia da feira dos hambúrgueres no Jardim do Cardal, a Câmara veio a público "responder" às perguntas do Farpas, que são também as dúvidas legitimamente levantadas por muitos cidadãos. 

Numa publicação nas redes sociais, dizem-nos que "Pombal foi escolhido" para acolher o evento. Foi, depois de outros municípios o terem recusado. Ora, como meias tintas é meio caminho andado para troca-tintas, lá se arranjou à pressa quem vai gerir o dinheiro - os donativos que são feitos num quiosque, onde, ao primeiro dia, uma jovem universitária estava sozinha, com duas máquinas de multibanco, à espera das doações "para as vítimas da tempestade". Perguntámos como é que se processava a coisa, quem geria os donativos, pois que não sabia. A super-organização do evento não teve sequer o cuidado de fazer um briefing aos que vieram "ganhar uns trocos". 

Foi então que a Câmara teve uma ideia de génio: passar essa batata quente às duas organizações com estatuto, juntando nesta demanda Rotários e Lions. Amanhã o executivo leva a reunião de Câmara um protocolo, que rabisca a forma em que deve ser gerido o dinheiro. A doutora Ana Carolina vereadora deve ter explicado à Ana Carolina presidente do Lions Clube os termos da coisa. Aguardemos então por novidades desta novela, depois de um fim de semana em cheio, a cheirar a esturro no Cardal.

12 de março de 2026

Solidário para quem?

 


Vai um frenesim pelo largo do Cardal com a montagem de palco e barraquinhas, uma espécie de Bodo em edição de bolso, com algumas nuances. O evento chama-se Pombal Solidário, acontece este fim de semana, e tem entrada livre, porque o móbil é a reconstrução e as vítimas da tempestade. Qualquer coisa aqui não bate certo. Ou melhor, várias coisas aqui não batem certo. 

Primeiro a Câmara vem fazer um choradinho piedoso e cancela o mercado medieval e a feira do livro (como se a feira do livro fosse um evento de larga escala), e diz que vai cortar 200 mil euros nas festas do Bodo, porque é preciso aplicar o dinheiro na reconstrução. Até aqui compreendemos, mesmo com dúvidas sobre o real impacto dos cortes. Mas de repente a Câmara predispõe-se a gastar o que não tem, e financia um evento privado: a Portugal Burger Cup. Nisto, não há ventania que nos varra. Continuamos a ser a presa fácil para o chico-espertismo. A Câmara monta o evento, suporta os custos, alinha na parolada do cartaz (e não, não estou a falar da escolha musical, apenas do mau gosto gerado através de IA, que faz escorrer a gordura pelo castelo abaixo) e no fim pagamos todos. 

Porque este não é um evento solidário como os demais, nos outros concelhos, em que se organiza um espectáculo, os artistas contribuem com o seu trabalho, e o público contribui com a entrada. Simples. Foi assim que aconteceu na Marinha Grande, em Coimbra, em Leiria, em vários concelhos afectados. Aqui é preciso irmos à página do evento para saber que, no local, "haverá um quiosque solidário para fazer donativos e apoiar as pessoas afectadas pelas tempestades". Diz também a organização que "parte das receitas do evento também será destinada a esta causa".

Vamos lá por partes:

1. Quem gere o quiosque solidário? E vai fazer chegar o dinheiro a quem, com base em que critérios? 

2. Que parte das receitas é destinada à causa? E se o evento der prejuízo? 

Numa terra em que há vários anos deixámos de saber quanto custam, de facto, os eventos, uma coisa destas só pode soar a fraude. Que haja uns chico-espertos privados que tentem ludibriar o público, é da vida. Que o poder autárquico embarque no logro, é preocupante. 

6 de fevereiro de 2026

Um dia a casa vem abaixo

 



O poder caiu na rua, por estes dias, e a nossa má-sorte conheceu hoje novos episódios. Enquanto Pedro Pimpão permanece em convalescença, o vazio de poder vai encontrando quem o agarre aos bocados, aqui e ali. Nas freguesias, há presidentes de Junta para todos os (des)gostos e feitios. Na Câmara, ficou evidente a incapacidade de liderança. Ora, ao 10º dia deste comboio de tempestades, eis que aparece um imediato a tentar emergir. A meio da tarde, a Câmara publicou nas redes o anúncio de que amanhã acontece a demolição da casa Mota Pinto, aquela que ia ser um museu, um centro de interpretação, qualquer coisa que em 30 anos nunca saiu do papel. E nunca vai sair, soubemos hoje.

Curiosidade: como documenta este print da publicação, a ordem foi dada por essa entidade que é o director municipal, achando-se agora presidente em exercício. Mais tarde, alguém terá tido um rasgo de bom-senso, e a publicação foi eliminada, como se fosse possível apagar esse rasto atrevido.

7 de janeiro de 2026

A igualdade e a mobilidade à moda de Pombal

 



A Câmara de Pombal trouxe ontem e hoje à cidade um espectáculo com o cantor Clemente, figura de proa da música portuguesa em anos passados,  e cuja discografia é facilmente reconhecida pela população sénior. Até aqui, só aplausos: uma autarquia preocupada com aquela que é uma fatia grande da sua população, a gentileza de pensar nela, a abertura de um espectáculo não só às IPSS (Lares e Centros de Dia), como até à população em geral, desde que com inscrição prévia! 

O que está mal, então, neste gesto tão nobre dos nossos actores políticos?

Atente-se nas recomendações do mail enviado pela enfermeira Patrícia Rolo, que agora tutela a pasta da Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento Activo: "Dadas as condicionantes da sala, não são aceites inscrições de pessoas com cadeira de rodas. Nestes termos, e para facilitar a preparação da logística associada à participação do vosso grupo, verifiquem, por favor, as seguintes notas: 1. A participação de pessoas com mobilidade condicionada/reduzida poderá ser posta em causa, pelas questões técnicas e de segurança da Sala.".

Este é o concelho que se arroga o maior em matéria de mobilidade e de igualdade. Ganha prémios, exibe-os, enche a boca com planos. Como bem sabemos - e aqui denunciamos há anos - não passam de ramos de enfeite do andor autárquico. 

O Teatro-Cine não tem condições para acolher estas pessoas? Façam no Expocentro, façam num pavilhão. O que não nos falta são espaços. Falta-nos o resto, e esse é o nosso drama.

10 de novembro de 2025

Dia do Município: O regresso dos que nunca foram




 


Em vésperas da celebração do Dia do Município, ficámos a saber pelo Pombal Jornal* que a Câmara vai distinguir três figuras com medalha de Ouro. Muitos de nós somos do tempo em que a medalha de ouro constituía uma excepção, em si, precisamente para não se banalizar. E por isso nunca estranhámos os anos em que não foi entregue nenhuma desse grau. Mas agora que Pombal voa por cima da carne seca, como explicar às redes sociais (o que importa, afinal) que a maltosa da 'Comissão de Melhoramentos' não encontrou ninguém por aqui que tenha desempenhado feito suficiente para tal? Vai daí, ocorreu-lhes pendurar a medalha ao peito de três figuras que fazem a sua vida bem longe daqui. Mal podemos esperar pelas justificações de Pedro Pimpão & sua tropa para entender as razões. 

Comecemos por Paulo Mota Pinto. Nos últimos anos desempenhou (bem, como era seu dever) o papel de presidente da Assembleia Municipal. Além de ser filho do malogrado Primeiro-Ministro Mota Pinto (cuja ligação a Pombal sempre foi sempre esbatida), e de ter feito essa paragem na AM, que razões encontramos para o medalhar? Depois, Isabel Damasceno. Tenho ainda mais dificuldade em compreender qual é o fundamento. Depois de perder a Câmara de Leiria, em 2009 (deixando o PSD local quase como o PS daqui, sem margem para voltar ao poder), tem administrado a CCDR Centro. Faz bem o seu trabalho? Ainda bem. É para isso que todos pagamos. A não ser que a ligação familiar (o marido é natural de Pombal) já sirva de justificação para as medalhas. Por fim, Ana Paula Duarte. Quem?! É natural que o leitor não saiba quem é. A actual reitora da Universidade da Beira Interior, na Covilhã (onde mora há décadas) nunca manteve qualquer ligação a Pombal que não fosse estritamente pessoal e familiar.

Uma pessoa olha para a lista dos galardoados (o jornal divulgou-a também) e não se espanta com nada. Mas não deixa de se espantar com a lata do poder: Nenhum dos três distinguidos a ouro mora em Pombal, nenhum escolheu esta terra para viver ou trabalhar, o que indicia bem o nosso nível de desfalecimento. 

*o jornal tornou-se oficialmente o portal de informação autárquica. No dia em que o depauperado gabinete de comunicação remetia para mais tarde a divulgação do programa do 11 de Novembro, já ela se passeava em meia página de publicidade, ao detalhe, na edição. Ao lado, no editorial, um queixume a propósito de uma queixa sobre um alegado "artigo de opinião" do presidente-candidato-amigo Pimpão. Qualquer pessoa com dois dedos de testa conclui o óbvio: há coisas que não são ilegais, mas são imorais. Pensando bem, por que precisa o Pedro de um gabinete de comunicação? Não admira, por isso, que neste mandato tenha dispensado dois terços dos que o compunham. 


5 de novembro de 2025

Distribuição de tarefas na 'Comissão de Melhoramentos'

Esta manhã reuniu pela primeira vez a Comissão de Melhoramentos - sucedânea da 'junta' - sem grandes novidades. A craveira de cada um dos titulares já deixava adivinhar que tanto fazia Pedro como Paulo à frente das obras ou das licenças, mas vale a pena partilharmos como os nossos leitores o essencial desta salganhada. Há, neste elenco, uma super-vereadora identificada, uma velha conhecida do Farpas; Ana Carolina Jesus assume então o pelouro das Obras Particulares e Fiscalização Municipal, do Urbanismo e Habitação, mas também a Gestão, Administração e Financiamento, Recursos Humanos e Gestão Organizacional, Freguesias, Associativismo e Cidadania, Proteção Civil e Segurança, e ainda uma competência antiga em que terá adquirido experiência nos últimos anos: Gestão de Cemitérios.

Isabel Marto, a única que transitou do executivo anterior, prepara-se para um mandato mais levezinho: Ambiente e Ecologia, Inovação e Empreendedorismo, Águas e Saneamento Básico,Transportes e Mobilidade,Smart Cities e Transição Digital, e ainda Património e Equipamentos Públicos.

A enfermeira Patrícia Rolo assume, claro, o pelouro da Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento Ativo. Calhou-lhe também o Turismo e Promoção Territorial; Desenvolvimento Rural, Agricultura e Florestas, Espaços Verdes e Jardins, Proteção e Bem-estar Animal. E por último, dois inusitados pelouros: a Cultura (um workshop no TAP vale sempre alguma coisa) e outro novo - Rede Social, Interculturalidade e Inclusão. Recuperando as intervenções que teve, ao tempo da assembleia de freguesia do Oeste, a propósito dos imigrantes que viriam trabalhar para a Lusiaves...a coisa promete.

Por último, Marco Ferreira. Sem surpresas, Pimpão entregou (finalmente e oficialmente) ao ex-companheiro da bola o Desporto e Juventude; Educação e Formação Profissional; Ensino Superior, Ciência e Conhecimento (por via das dúvidas, se vier o Politécnico, o desaire terá um rosto); Rede Viária e Conservação do Espaço Público; Mercados e Feiras; Comércio Tradicional; Defesa do Consumidor e Direitos dos Munícipes. Eu voto na contratação do Caló como adjunto. 

E Pimpão, tem pelouros? Tem. Planeamento Estratégico e Desenvolvimento Territorial; Economia, Atração de Investimento e Empreendedorismo; Obras Públicas; Assuntos Jurídicos, Transparência e Integridade; Felicidade e Desenvolvimento Sustentável (what else?), e por últimos, duas escolhas que lhe assentam que nem uma luva: Comunicação, Protocolo e Relações Externas. E Diáspora e Internacionalização. Que se é para voar, que seja daqui para fora. 

Nota de rodapé: Manuel Serra (CH) e Fernando Matos (PS)

*fotografia publicada pelo Pombal Jornal





8 de julho de 2025

São canos, senhores. E cheira a fim de regime

 O que aconteceu hoje na freguesia da Redinha deveria entrar para os anais da história: uma ministra (por sinal uma académica, das poucas que ainda estão no Governo) veio nas suas tamanquinhas inaugurar uma rede de esgotos. Estamos em 2025, e tudo nas imagens que a Câmara (e a querida imprensa local) divulga cheira a mofo, ou a fim de regime. A bandeira que cobre uma pedra, os metros de passadeira que parecem ombrear com os de cano enterrado. Talvez tenha faltado o padre cura para benzer a obra, mas estava D. Diogo (regressado à terra), e com isto fica assegurada a solenidade do acto.

Daqui até às autárquicas, o Pedro vai desunhar-se em inaugurações. Por ora, ainda sem Mithá Ribeiro (e o amanuense Manuel Serra) a morder-lhe as canelas, vai fazendo de conta que está tudo como dantes: o PSD a distribuir jogo, o PS a vê-lo passar, como se nestas eleições não se adivinhasse um pequeno cataclismo. Parece-me bem que continuemos num clima festivo. A cidade a condizer, com arrais e foguetes no ar (veja-se a decoração deste Bodo), as ruas esventradas, o povo indignado nas redes sociais, sem a alegria que costumava ter. Por ironia, José Cid há-de vir à festa cantar esses versos. 

Está tudo bem. Tudo bem. 






26 de junho de 2025

O caso da farmácia de Albergaria e os outros que se seguirão


A última reunião da Assembleia Municipal de Pombal contou com três valiosas intervenções do público, todas com um denominador comum: o rei vai nú e passeia-se pelos corredores do município. Não é que isso nos surpreenda, até pelo tanto que até temos exposto nos últimos anos. Mas é sempre perturbador perceber que os cidadãos se vêem obrigados a recorrer ao espaço da AM como tábua de salvação, qual grito de alerta, depois de goradas as outras tentativas. 

Merece especial atenção o caso levado ao púlpito pelo farmacêutico João Rocha Quaresma. Porque ali foi abanar a consciência (dos que a tiverem) das várias bancadas, chamando à atenção para o que está a acontecer na comunidade: a deslocalização consentida de farmácias, que um dia destes podem deixar a descoberto algumas populações das 17 freguesias. E isso, como bem notou o presidente da Junta de Freguesia de Meirinhas, João Pimpão, é o princípio do fim. 

João Quaresma foi cauteloso nas palavras, sabendo - como admitiu - que a intervenção poderia ser arrolada a um conflito de interesses. Mas, invocando o passado, e o tempo em que o pai (o também farmacêutico António Rocha Quaresma, ex-presidente daquele órgão autárquico) pugnou para que todas as freguesias tivessem a sua farmácia, arriscou exercer o que parece esquecido, tantas vezes: o exercício de cidadania.

Vamos então a factos: O que está a acontecer em Albergaria dos Doze já aconteceu em Almagreira - que depois da deslocalização da farmácia para o Louriçal, ficou apenas com um posto. Quem autoriza? A Câmara, cujo parecer é vinculativo. Só em função disso o Infarmed se pronuncia. Há vários anos que os proprietários (da Farmácia Torres & Correia, em Pombal, também donos da farmácia da Pelariga) tentam esta manobra. Começou no tempo de Diogo Mateus, que o rejeitou, prosseguiu no mandato de Pedro Pimpão, que numa primeira tentativa ainda se agarrou à nega do antecessor, mas que agora se prepara para aprovar a deslocalização da Farmácia de Santa Maria para Pombal. Pimpão vai escudar-se no parecer da Junta de Freguesia (favorável, pois), que por sua vez se muniu de um parecer dos proprietários (o nosso conhecido Rodrigues Marques e família) da outra farmácia local, a Albergariense, garantindo assegurar tudo - a distribuição de medicamentos a todos e até os trabalhadores...

Até agora os eleitos locais poderiam alegar desconhecimento. A partir desta AM, já não podem. A Saúde, que tem servido para alimentar tanto discurso político, passa também por aqui. Aguardemos então as cenas dos próximos capítulos desta caixa de Pandora acabada de abrir. 

26 de maio de 2025

Quem tramou Zé Paulo?

 Nos corredores da Câmara pairam partículas que tendem a formar-se um novelo. Não é nada que nos surpreenda - de tal forma aqui o temos exposto - mas um e outro acontecimento vão fazendo levedar este bolo, até que um dia destes azede. Um dia, só não sabemos quando.

O mais recente episódio foi o concurso para um novo cargo de direcção - o de Chefe de Unidade de Desporto e Juventude - lugar que, em teoria, acaba de ser criado. Mas na prática era há muito ocupado por uma rapaz da terra que toda a gente conhece: o José Paulo Oliveira, o Zé Paulo Bimba, nome que lhe advém do pai, mestre Bimba, já desaparecido. Faço esta referência porque estamos na terra onde o presidente da Câmara puxa por esses galões "da comunidade", a toda a hora, como se fossemos a vila dos anos 80, em que todos se conheciam e partilhavam os mesmos gostos e lugares. Dirá o leitor que este já não é o tempo "das cunhas", em que ser da Jota significava uma garantia de emprego na Câmara, de que foi expoente máximo o reinado de Narciso Mota. 

Mas o tempo afigura-se manifestamente pior. 

O que aconteceu no final do mês passado com o concurso para chefe da Unidade de Desporto é revelador de quem manda agora na Câmara (o director municipal, recordemo-nos), que neste caso foi o presidente do júri do concurso. Pimpão lava daí as mãos, como Pilatos. 

Ora atente-se na acta final (pública) do concurso para perceber como se faz: o segredo está em desenhar bem o guião da entrevista pública de selecção, sobretudo quando na prova escrita os resultados eram outros.  E então basta um ponto percentual para fazer a diferença entre dois candidatos que revelam exactamente o mesmo perfil para o cargo.

Ora, falta aqui dizer que, em resultado deste concurso - que colocava em pé de igualdade um superior hierárquico e um subordinado - o júri pendeu, à luz da subjectividade que implica a entrevista, para o subordinado. É a vida - dirão. 

O novo chefe é agora Paulo Fernandes, que até agora dividia o tempo entre as funções de assalariado do Município e treinador de natação do Núcleo de Desporto Amador de Pombal, uma prática comum nos espaços desportivos municipais, a que José Paulo nunca aderiu, mas foi permitindo de forma conivente, nomeadamente nas piscinas.

Como bem dizia um dirigente do PSD, "quem tem unhas é que toca viola". 



19 de maio de 2025

Chega? Ainda não.




Quem se senta numa qualquer esplanada de Pombal e ouve as conversas, quem anda na rua, quem entra no comércio, quem aqui vive, não acordou hoje surpreendido com estes resultados. Estamos (finalmente) em linha com a média nacional no que toca aos votantes no Chega, embora aqui tenhamos começado com avanço. Estão em todo o lado, em todas as comunidades, em todas as famílias. Juntos, formam um bolo que cresce à custa de vários ingredientes: há os saudosistas do fascismo e das colónias, admiradores de Salazar, mas há também muitos que não sabem sequer o que é a ideologia. São apenas revoltados com a vida que lhes calhou em sorte, gente que noutro tempo encontrava em partidos de esquerda uma âncora, que votava neles em protesto contra aquilo que - achávamos nós - era a Direita. Juntemos ainda os desiludidos com outras ideologias. É desses todos que o astuto Ventura se alimenta e cresce, falando-lhes ao jeito, dando corpo àquilo que o escritor Vicente Valentim chamou em livro "O Fim da Vergonha". Porque até há pouco tempo, tinham vergonha de dizer que pensavam assim. Mas isso acabou. Da próxima vez, não haverá pudor em dizer às empresas de sondagens o verdadeiro sentido de voto. E nessa altura o partido terá de arranjar novo bode expiatório. Por agora, descansem: o Chega diz que não vai atrás de ninguém. Isso será depois. 

A ironia desse voto de protesto num partido de extrema direita que, afinal, normalizámos, é que está assente naquilo que condena: o 25 de Abril, a Constituição, a liberdade. Ao mesmo tempo, vão desaparecendo do mundo dos vivos os que sofreram às mãos da ditadura. A escola falhou em toda a linha quando não explicou o que era e como aqui chegámos, e escusam de pensar nas famílias porque essas estavam muito ocupadas a ganhar dinheiro, umas para enriquecer, outras, muitas mais, para pagar a casa, o carro, as contas do supermercado. Não sobrou espaço para nada, tão pouco para o envolvimento cívico, muitas vezes sequer para votar. A maioria nunca foi a uma assembleia de freguesia, ou mesmo a uma assembleia geral da associação da terra. Alguns nunca tinham votado. Chegados a 2019, eis que um homem se anuncia como o Messias para salvar Portugal. Nessa noite eleitoral em que foi eleito pela primeira vez, André Ventura profetizou que em oito anos seria Primeiro-Ministro. E esse é o próximo passo. Talvez não seja má ideia que isso aconteça rapidamente. Às vezes o povo precisa de terapias de choque. As primeiras vão surgir já nas eleições autárquicas.

Mas voltemos a Pombal. Sem surpresa, o PSD (ok, chamam-lhe AD) ganha, com ligeiro aumento de percentagem e número de votos. Mas está longe da supremacia de outros tempos na maior parte das freguesias, com o Chega a morder-lhe não só os calcanhares como a disputar eleitorado. Há pouco mais de uma década o PSD ganhava em diversas freguesias entre os 70 e os 80% dos votos. Agora, restam-lhe as freguesias de Abiul (54%), Carnide (56%) e Meirinhas (50%) para brilharete. O Chega atinge ou supera os 25% de votação em várias (Meirinhas, Vila Cã, Carriço) e no resto anda entre os 20 e os 25%, números que, aqui, o PS deixou de alcançar há muito. O PS: já nas eleições de 2024 ficara atrás do Chega, mas desta vez ficou reduzido a menos de 15% dos votantes. Pouco mais de 4.200 votos. O mal menor acontece na malha urbana (freguesia de Pombal), onde a AD tem a sua vitória mais magra. 

Uma nota final para a realidade paralela em que parecem viver os nossos actores políticos: Pedro Pimpão veio às redes dizer ao povo que faça "a sua análise", "as suas reflexões" e que tire "as respectivas conclusões". Partimos do princípio que também vai fazer as suas. 

Porque o Chega não é o companheiro fofinho que o PS foi para o poder nos últimos anos. 

30 de abril de 2025

O inenarrável livro sobre o Externato da Guia - que todos pagámos


 

Tive a sorte de nascer na fase final da ditadura, e por isso de crescer em liberdade. Isso quer dizer que, ao contrário do que o destino traçava, antes do 25 de Abril de 1974, não fora a madrugada do dia inicial, inteiro e limpo, a minha caminhada na escola terminaria, muito provavelmente, na escola primária da Moita do Boi. A minha e a da esmagadora maioria dos que nasceram como eu: numa aldeia, no seio de uma família sem posses, onde a porta de saída era a emigração clandestina. Entre os 10 filhos da avó Leontina e do avô Zé Maria, nos Antões, nenhum foi além da quarta classe. Entre os 13 da avó Maria da Luz e do avô António, alguns não foram sequer à escola, outros mal aprenderam a ler e escrever. A minha prima Rita foi a primeira a licenciar-se. Tem agora 60 anos. Lá na minha aldeia os dedos de uma mão chegam para contar os que frequentaram a universidade, ao tempo dos meus pais. Eram todos da mesma casa.

Foi nesse oeste de pobreza, no início da década de 1960, que nasceu o Externato da Guia. Olho para a listagem dos 13 alunos que abriram o primeiro ano lectivo, todos da idade da minha mãe (agora com 75 anos) e imagino que também ela ali poderia estar. Tinha 10 anos. Nessa altura já cuidava de um rancho de irmãos, ela e as outras lá da terra, e deste país. A educação, os estudos, eram privilégio de muito poucos.

Mas as fábricas de serração de madeiras e resina conferiam àquela região algum poder económico, pela mão de meia dúzia de proprietários. Depois havia a localização, excelente, com a qual o professor Armindo Moreira (que há décadas emigrou para o Brasil) convenceu o seu colega António Ramos de Almeida (o Dr Almeida, de que gerações inteiras e seguintes ouviram falar) a investir ali, num colégio privado, em vez de Montemor-o-Velho. O trio de fundadores ficaria completo com um dos poucos conhecidos resistentes anti-fascistas deste concelho, o farmacêutico Amilcar Pinho. 

Uma das portas que Abril abriu foi o acesso à Escola Pública. Quando no ano lectivo de 1983-84 ingressei no então 1º ano do ciclo, o Estado já adquirira o Externato da Guia. A minha documentação era da nova C+S, apesar dos resquícios de colégio particular. Ali fiquei até à abertura do Instituto D. João V, no Louriçal. À medida que me fui cruzando com personalidades e histórias, ao longo da minha vida profissional, fui sabendo alguma coisa sobre a fundação "do Colégio", embora sem um fio condutor que me parecesse seguro. Havia (e há) muitas pontas soltas. E foi por isso que pedi a mão amiga um exemplar do livro que acaba de ser publicado, e lançado, com a chancela da Câmara Municipal de Pombal. 

São mais de 240 páginas impressas em papel couché semi-mate, escritas pela pena do fundador António Ramos de Almeida, agora com 94 anos. São vários capítulos da sua versão dos factos: o registo é muitas vezes agoniante, numa espécie de vendetta contra várias coisas e pessoas, num saudosismo reaccionário. 

O Dr. Almeida tem todo o direito de escrever as suas memórias e lavar a sua alma. No tempo que vivemos, pode até achar-se no direito de vilipendiar o quanto custou a Liberdade, pois que "a anarquia e a instabilidade governativa vieram colocar um ponto de interrogação na continuidade do Ensino Particular", levando-o a vender o colégio ao Estado. E sem o Colégio, muitos dos que lá ingressaram "não teriam passado de simples labregos ou marchantes", sic.

Mas quando isso é pago com o dinheiro dos nossos impostos, o caso muda de figura. Este agrado que Pedro Pimpão fez à família Almeida (e seus interlocutores) custou-nos a módica quantia de 5.299 euros mais IVA, perfazendo um total  € 5.616,94 (cinco mil, seiscentos e dezasseis euros e noventa e quatro cêntimos). Isto para 300 exemplares. Que no dia do lançamento - por piada de mau gosto integrado nas comemorações do 25 de Abril - estavam a ser comercializados pelo doutor Né, ao serviço da Câmara, a 20 euros cada exemplar. Foi um ajuste directo, este agrado. Uma bela cama que Pimpão anda a fazer.

Não em meu nome.