12 de março de 2026

Solidário para quem?

 


Vai um frenesim pelo largo do Cardal com a montagem de palco e barraquinhas, uma espécie de Bodo em edição de bolso, com algumas nuances. O evento chama-se Pombal Solidário, acontece este fim de semana, e tem entrada livre, porque o móbil é a reconstrução e as vítimas da tempestade. Qualquer coisa aqui não bate certo. Ou melhor, várias coisas aqui não batem certo. 

Primeiro a Câmara vem fazer um choradinho piedoso e cancela o mercado medieval e a feira do livro (como se a feira do livro fosse um evento de larga escala), e diz que vai cortar 200 mil euros nas festas do Bodo, porque é preciso aplicar o dinheiro na reconstrução. Até aqui compreendemos, mesmo com dúvidas sobre o real impacto dos cortes. Mas de repente a Câmara predispõe-se a gastar o que não tem, e financia um evento privado: a Portugal Burger Cup. Nisto, não há ventania que nos varra. Continuamos a ser a presa fácil para o chico-espertismo. A Câmara monta o evento, suporta os custos, alinha na parolada do cartaz (e não, não estou a falar da escolha musical, apenas do mau gosto gerado através de IA, que faz escorrer a gordura pelo castelo abaixo) e no fim pagamos todos. 

Porque este não é um evento solidário como os demais, nos outros concelhos, em que se organiza um espectáculo, os artistas contribuem com o seu trabalho, e o público contribui com a entrada. Simples. Foi assim que aconteceu na Marinha Grande, em Coimbra, em Leiria, em vários concelhos afectados. Aqui é preciso irmos à página do evento para saber que, no local, "haverá um quiosque solidário para fazer donativos e apoiar as pessoas afectadas pelas tempestades". Diz também a organização que "parte das receitas do evento também será destinada a esta causa".

Vamos lá por partes:

1. Quem gere o quiosque solidário? E vai fazer chegar o dinheiro a quem, com base em que critérios? 

2. Que parte das receitas é destinada à causa? E se o evento der prejuízo? 

Numa terra em que há vários anos deixámos de saber quanto custam, de facto, os eventos, uma coisa destas só pode soar a fraude. Que haja uns chico-espertos privados que tentem ludibriar o público, é da vida. Que o poder autárquico embarque no logro, é preocupante. 

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