18 de outubro de 2021

Habemos Papam - Profeta

Empossado ontem à tarde, logo animou a noite. E hoje saiu, logo de manhã, em peregrinação pela urbe, com todo o séquito – eleitos, não eleitos e ajudantes. Dirigiu-se ao quiosque da Central de Camionagem, onde se cruzou com o povo, benzeu as instalações e fez promessas.

Habemos Presidente da Junta. Habemos.

E habemos Junta. Habemos.

Abaixo o Despotismo Iluminado. Abaixo.

E Viva o Lirismo Militante. Viva.

E Viva o Presidente da Junta. Viva.

E viva a Junta. Viva.



O primeiro dia do resto da vida do PS




 Ainda no andar de cima se arrumavam os restos da festarola que demos para receber como deve ser Pedro Pimpão & sua banda (vereadora Isabel Marto ao piano, exímia em Yann Tiersen e La Valse D’Amelie, pouco consentânea com o show dançante), e já no andar de baixo a meia dúzia de eleitos do PS para a Assembleia Municipal fazia aquilo que em 28 anos ninguém se lembrou de fazer: ouvir a sociedade civil, o que resta dela.

Num domingo à noite, João Coelho e os cinco que o acompanham conseguiram dar esse pequeno passo que é trazer à cidade gente de todo o concelho (e de vários quadrantes políticos) para saber o que espera o povo destes que agora se vão sentar na AM. É claro que a conversa descambou para uma catarse por parte de quem não consegue - por defeito, claro está - vislumbrar unicórnios ao virar da esquina da pastelaria Mota, estrelas cadentes na Várzea ou bolas de sabão multicolores no Cardal. Gente que viu os filhos partir, as fábricas e as lojas fechar, que pede mais do que os acordes do ‘ai meu Pombal’ para se sentir feliz, que gostava de ver de novo alegria nas ruas [não confundir com isso da felicidade, como bem lembrou Francisco Faro]; que esperava mais de uma Oposição, estes anos todos, como apontava Jaime Portela, candidato da CDU nestas autárquicas. E que oposição será esta na Assembleia? - quis saber (e bem) Célia Cavalheiro, última (e única) eleita do Bloco de Esquerda. Terá a mesma posição sobre os contratos de associação dos colégios? Pois. Faz-nos muita falta falar. Discutir. Perceber o concelho onde vivemos e quem o habita, o que pensa, por que o pensa. Nem todos estão dispostos a fazer esse exercício, como ficou claro na noite (que não das facas longas, apenas de uma nova ambição). A começar pela própria estrutura do PS. 

É sintomático que num encontro como este nenhum dos vereadores eleitos se tenha dignado lá por os pés. Quem sabe tudo, não precisa de aprender nada, muito menos de perceber, quanto mais de ouvir.

Jorge Claro fez na sua intervenção a síntese perfeita do estado da arte.

Depois queixem-se do eleitorado. 

Regresso ao Farpas e unanimismo

Como é do conhecimento público, estive em campanha eleitoral por um movimento independente à Assembleia Municipal. 


Como não poderia deixar de ser, em termos éticos, não seria correcto usar esta plataforma durante a campanha eleitoral. 


O Farpas não existe para promover qualquer movimento político, mas antes para acordar de uma dormência coletiva de unanimismo e trazer para a agenda assuntos que não eram assuntos. Ao fazer isso, trás para o domínio público o que muitas vezes nem se sonhava existir, promovendo a crítica, feroz por vezes, da coisa e dos agentes públicos, onde também me incluo. 


Cada texto é de responsabilidade pessoal e por vezes contraditório de outros “farpeiros”. Mas é esse contraditório e comentário mordaz que gera a discussão e evidência diferenças e alternativa que garante democracia.


Quem assume um posicionamento político é “farpável”, e assim deve ser, com naturalidade. Quem não sabe lidar com o contraditório, dificilmente lidará com democracia.


Neste pontapé de saída do mandato, assusta o discurso de Pedro Pimpão de que tudo é importante, sem priorização, sem opções claras. Fala-se de um plano estratégico como primeira medida, depois de dizer que todas as áreas são uma prioridade.


Estudos há e houve como já aqui evidenciei.

http://farpaspombalinas.blogspot.com/2019/12/ha-estrategia-para-pombal.html?m=1


E por vezes este embalar de assuntos, numa música coletiva poderá servir para ganhar tempo, quando tempo é algo que não temos. 



Por isso não pode haver unanimismo, porque isso prejudica-nos a todos. 












15 de outubro de 2021

O triste fim de D. Diogo

Quis o destino – a acção dos homens/mulheres – que a decisão do Tribunal Constitucional, sobre o recurso interposto pelo presidente da câmara da decisão do Supremo Tribunal Administrativo, que declarou a nulidade da nomeação do instrutor dos processos ao ex-Director de RH, anulando-os, chegasse na véspera da apresentação do livro “Ciclo Autárquico – Pombal 2013-2021”, mandado editar por D. Diogo e pago pelos munícipes.

  

Desse fabricado livro não constará, com certeza, as perseguições, os ultrajes e os saneamentos praticados por D. Diogo, mas ficarão por aqui gravados para memória futura.

Convém por isso recordar que a nulidade da nomeação do instrutor, e a consequente nulidade dos processos, foi decretada na sequência do primeiro recurso interposto pelo visado, sobre o passo inicial dos processos - a nomeação do instrutor. Mas convém também reafirmar que os processos estão cheios de vícios formais e trapaças, também alvo de recurso e/ou queixa, que, por via desta decisão, serão uns inevitavelmente arquivados e outras dirimidas nos tribunais.     

A derrota é sempre um fim triste. Mas há criaturas - raras, cada vez mais raras - que sabem sair com dignidade, com o menor dos danos, sem enxovalho público. Por cá, temos pouca gente dessa. Mal para os/as que não sabem sair a tempo. E também para nós, que temos que os/as gramar mesmo depois de mortos. A Teologia diz-nos que há mortos que não se deixam enterrar, chama-lhes “almas penadas”.  Gravitam muitas por cá.

Diz-se que quem não sabe ganhar também não sabe perder. D. Diogo nunca soube ganhar. Mostrou-o na Junta de Freguesia de Pombal, onde derramou fel e malvadez contra o pobre António Lopes; e mais recentemente nos dois mandatos que lhe concederam na presidência da câmara.

Este recurso, sobre a derrota nos processos movidos ao ex-Director de RH, que bateu contra a parede – nem foi sequer admitido –, é só mais um acto de litigância compulsiva, de quem não sabe perder. Para mais, a fundamentação desta decisão é um atestado de “burrice e desconhecimento” – como disse o doutor coiso –, não para o vereador que alertou para o erro, mas para os serviços jurídicos e para quem os presta, para os vereadores com suposta formação jurídica, e para o presidente da câmara.

Litigar compulsivamente com os dinheiros dos contribuintes, e escudado no cargo de presidente da câmara, é fácil e barato.  O pior começa agora…


12 de outubro de 2021

A Cercipom - e o que ela representa


Foto: Município de Pombal

 O poder político e institucional da terra e da região foi em peso à inauguração das novas instalações do Centro de Formação e Inclusão Socioprofissional da Cercipom. É uma daquelas obras justas e necessárias, que "nunca dividiu" os actores políticos locais, como bem sublinhou no seu discurso o ainda presidente da Câmara, Diogo Mateus. De resto, por ser caso raro, sublinhou-o. A provar o que dizia, juntaram-se todos para a fotografia, para a posteridade. Foi bonito. 

Mas o que fica, para lá do edifício novo, onde a autarquia investiu mais que oportunamente um milhão de euros, é a determinação de quem tem erguido esta obra social desde 1979, ano em que foi fundada a Cooperativa de Ensino e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados de Pombal. E para lá dos órgãos sociais, há alguém que está lá sempre, discreta, atenta, sem nunca se colocar em bicos de pés como é tão típico cá no burgo: Preciosa Santos. Quem a viu atrás do micro, não a fazer discurso mas a assegurar o protocolo, domingo passado, percebeu-lhe de novo a grandeza. Formalmente, é ela a directora-geral da Cercipom. Na prática, é ela a alma daquela casa onde trabalham 100 pessoas, para apoiar 570. Dessas, 270 estão fisicamente nas instalações.

Sabemos que a sorte dá muito trabalho, e que às vezes é Preciosa. Na Cercipom tem sido assim. Não sei há quantos a conheço, mas não me lembro nunca de a ver - de perto ou de longe, sem saber que é observada, que é quando melhor compreendemos o trabalho dos outros - sem que tivesse um sorriso ou um genuíno esgar de preocupação com os outros, longe dos holofotes que, já se sabe, esta área não atrai. 

No domingo, através de um ecrã de telemóvel, senti uma obrigação imensa de dizer obrigada à Preciosa por tudo o que ela tem feito por esta comunidade. Porque como poucos encaixa naquelas notas breves que compõem a segunda parte da nossa linha editorial, que a muitos passa despercebida.


8 de outubro de 2021

Uff; terminou

Realizou-se hoje a última reunião do executivo que nos (des)governou nos últimos quatro anos. Terminou como “d'habitude”: envolta em polémicas, conflitos estéreis e irregularidades várias.

Para a última reunião, Diogo Mateus agendou a aprovação de várias actas fora de prazo – prática reiterada. Já em agosto tinha submetido ao executivo, numa reunião não transmitida e sem a presença do vereador Pedro Brilhante, uma simples lista de Excel com a identificação de dezenas de actas. Foram aprovadas! 

Agora, Pedro Brilhante requereu antecipadamente a retirada do ponto da ordem de trabalhos, por a aprovação se fazer fora do prazo e por não existirem condições para a sua aprovação consciente (conhecendo-as). O requerimento foi indeferido.

Mas as afrontas à lei e aos princípios democráticos não se ficaram por aqui. O vereador Pedro Brilhante requereu também a participação na reunião por via remota, por se encontrar distante, e por a lei contemplar essa prerrogativa até 31 de dezembro. Competia ao presidente despachar favoravelmente o pedido e dar instruções aos serviços para assegurarem a participação do vereador na reunião. Não o fez. Resolveu submeter o pedido à consideração e decisão do executivo, violando a lei. Votaram pela concessão do pedido (do direito) os vereadores Narciso Mota, Ana Cabral, Ana Gonçalves e Odete Alves. Votaram pela rejeição do pedido (do direito) o presidente e os vereadores Pedro Murtinho, Pedro Martins e o coiso. O requerimento foi rejeitado com o voto de qualidade do presidente. E as actas foram aprovadas irregularmente e de “cruz”. Segue nova queixa para o Ministério Público. 

Já tínhamos aqui dado a extrema-unção (política) a D. Diogo e aos comparsas que o acompanharam nesta malfadada descida aos infernos. Consumado o afastamento, dele e dos seus comparsas, ignorámos os seus actos e os seus comportamentos. Ignorámos até uma licenciatura escandalosa; e deixei passar sem o respectivo troco injúrias falsas e cobardes (nas costas) do lacaio falso. Tudo por uma saída com um mínimo de dignidade. Que se tornou inviável.

Terminou a guerrilha política mas não terminou a guerra. Seguem-se as batalhas judiciais. O pior dos fins. 


7 de outubro de 2021

Ainda os Resultados das Eleições Autárquicas

Muita coisa já se disse sobre os resultados das autárquicas - sobre os vencedores, sobre os derrotados, sobre a abstenção, etc. Por cá correu tudo dentro das previsões: ganhou o mesmo, perdeu o mesmo, e o resto não contou  para nada.

Mas poucos terão reparado na expressiva dimensão dos votos Brancos (950 – 4,14 %) e Nulos (511 – 2,23 %). Somados dão 1461 – 6,37%. Ou seja, no momento em que se tornou muito difícil mobilizar e envolver as pessoas na política e levá-las participar e a votar – mais de metade não vota (53,33 %), pelas mais diversas razões -, 1461 (6,37%) eleitores vão às urnas expressar a convicção que não se revêm em nenhuma força política. 

Mais: a coisa é de tal forma proeminente que os Brancos (950 – 4,4 %) já representam o 3.º maior resultado – batem o Chega (841 – 3,67%), a Iniciativa Liberal (741 – 3,23%), o Bloco de Esquerda (668 – 2,91%) e o PCP/PEV (407 – 1,77%).

Dá que pensar. E deveria fazer repensar a forma de fazer política por parte dos pequenos partidos. E pelo PS local - também já um pequeno partido, partido.     

Anatomia de um órgão [agora em funcionamento]




 Ao fim 7 (leram bem, SETE anos), ontem tive a sensação de  que o Conselho Geral do Agrupamento de Escolas de Pombal está finalmente a funcionar de forma completamente autónoma e independente, mesmo que estas normas do regulamento para a eleição dos representantes de pais, mães e encarregados de educação nos pareçam saídas de um quebra-cabeças. 

Quem por aqui anda há mais tempo lembrar-se-á dessa novela, que começou aqui, com protagonistas que (na sua maioria) já desempenham outros papéis, noutros lugares. Na verdade, estamos condenados a isto: temos grande propensão para ser barriga de aluguer, aqui e ali, deste e daquele. Mais: há até protagonistas que conseguiram mudar de lugar, e outros que agora experimentam papéis que tanto condenaram. Afinal, Cartola tinha razão: o mundo é um moinho. 

Nem sequer conheço a maioria dos representantes de encarregados de educação da (única) lista que ontem se apresentou a sufrágio. Mas confio que defenderão os interesses de todos, o melhor que souberem e puderem. O que importa aqui vincar, para memória futura, é que pela primeira vez uma eleição destas foi feita como deve ser: no seio do conselho geral, sob a égide do (novo) presidente, Arlindo Araújo, sem mais interferências.

Para tudo é preciso um caminho.  E arriscar fazê-lo, contornar as pedras, sem ter de fazer delas castelos. Já temos de sobra. Convém é termos memória. 

O resto é o resto. 

3 de outubro de 2021

Prelúdio outonal, em Pombal

Depois de um verão tórrido começou o outono: choveu forte, reina um céu nublado e sereno que entrelaça nuvens escuras e brancas; sente-se a brisa fria, uma a húmida melancolia, o ar pesado e a miséria oculta; caem as primeiras folhas.

Como dizia Pessoa, na vida tudo se renova: à primavera segue-se o verão, ao verão o outono, ao outono o inverno, e ao inverno a primavera, e assim gira e regira o tempo nesta volta contínua. Só a vida humana corre para o seu fim, ligeira, mais do que o tempo, sem esperar o renovar-se, a não ser na outra, que não tem termos que a limitem. Cada outono que vem é mais perto do último outono que teremos.

Por cá, depois do outono que agora começa virá um inverno, que trará uma primavera ou não - ou não. 



29 de setembro de 2021

Um concelho abstencionista, notável e extraordinário


 

Nas eleições de domingo, o PSD conseguiu no concelho de Pombal o seu melhor resultado em todo o distrito de Leiria - que em tempos foi um impenetrável bastião laranja. Um orgulho partidário: o concelho onde apenas 46,77% dos eleitores foi votar, o único que perdeu vereadores e eleitos na Assembleia Municipal, pode continuar a abanar a bandeirinha, que aqui ninguém nos bate. Sobre a vitória anunciada de Pedro Pimpão já aqui falámos, no dia das eleições; sobre a derrota do PS e da Odete Alves também. Por isso falta perceber que Câmara e Juntas vamos ter.

Dentro de 15 dias tomará posse a ilustre desconhecida equipa do Pedro: Isabel Marto, Gina Domingues, Pedro Navega e Catarina Silva compõem o naipe de vereadores eleitos pelo PSD. Esperamos pela tomada de posse e pela distribuição de pelouros para mais pormenores acerca deste quarteto, onde apenas a última tem experiência autárquica. Nos lugares do PS vão sentar-se Odete Alves e Luís Simões. 

Ao fim de dois mandatos com uma Assembleia Municipal mais plural, com a presença do CDS, do PCP e do Bloco de Esquerda, voltamos (quase) ao antigamente: o PSD elegeu 14 dos 21 lugares. Além de Paulo Mota Pinto - que fará o obséquio de vir a Pombal, cinco vezes por ano, presidir a estas reuniões - foram eleitos João Coucelo, Adelaide Conceição, José Gomes Fernandes, Renato Guardado, Elisabete João, João Antunes dos Santos, Henrique Mota, Andreia Marques, Ilídio da Mota, Manuel Serra, Nicolle Lourenço, Fernando Matias e Alexandre Santos. 

O PS conseguiu recuperar dois lugares na AM. Neste regresso de João Coelho juntam-se a ele Aníbal Cardona, Carla Mariza Pereira, Leandro Siopa, Nuno Gabriel Oliveira e Marlene Matias.

A única novidade chama-se Oeste Independentes. O Luís Couto encabeçou uma lista a partir da sua região (Ilha, Guia e Mata Mourisca) e conseguiu ser eleito, contra todos os prognósticos.

Nas freguesias, pouca coisa mexe. Começa agora o último mandato da maioria de uma geração de autarcas. Mas é melhor vermos caso a caso:

Abiul. A campeã da abstenção (60%). Sandra Barros começou por ganhar a Junta há 8 anos para o CDS. Mudou-se para o PSD há 4. Perde um membro na assembleia de freguesia (7-2) para o PS, através do resistente Manuel Silva, na sua terceira tentativa. Ainda assim, o PSD ganha com 71.79% dos votos.

Almagreira. Humberto Lopes chegou a ser dado como certo na equipa de Pedro Pimpão para a Câmara, mas acabou por ir a jogo para um segundo mandato. É dele a segunda maior vitória para o PSD numa freguesia (73.25%). O PS também cresce, mas pouco. Não é alheio aqui o facto do CDS - que nas últimas duas eleições fora a segunda força política mais votada - ter desaparecido.

Carnide. Uma estreia, e uma das três mulheres que vão liderar autarquias no concelho. Sofia Gonçalves ganhou confortavelmente a Junta para o PSD (67.14%), mas é aqui que - surpreendentemente - o PS consegue a segunda melhor percentagem numa freguesia. Vítor Morgado conseguiu uma votação bastante superior à do partido para a Câmara, por exemplo. Elegeu dois membros para a Assembleia de Freguesia, de onde o PS fora varrido nas últimas eleições.

Carriço. Pedro Silva vai pegar ao serviço na Câmara com a mesma tranquilidade com que ganha a Junta, em cada mandato. Não se dá por ele, mas está sempre lá. O PS fez-lhe o favor de nem sequer concorrer. Ali, só o CDS lhe roubou cerca de 200 votos para não ser uma coisa muito aborrecida. Ganhou as eleições com 74.75% dos votos. 

Louriçal. Devoto de Diogo Mateus, estamos curiosos em ver como é que José Manuel Marques vai adaptar o estilo. Perde votos, mas continua absolutíssimo (8-1), com uma vitória de 68.37% dos votos. O candidato do PS - que num debate reconheceu ter sido "empurrado" para ali, foi o único eleito. João Pedro Domingues, do Bloco de Esquerda, subiu a votação mas falhou a eleição. E anunciou a retirada da vida política. Um descanso para o Zé Manel. 

Meirinhas. João Pimpão é o segundo "achadiço" (adoro a palavra e aprendi-a em Vermoil) a ganhar a Junta. É a vitória mais pequena em percentagem (56.35%) para o PSD, mas era aqui que se concentrava o maior número de candidaturas. Será a Assembleia de Freguesia mais plural, com representantes do PS (que sobe ligeiramente a votação e por isso elege dois membros) e um da Iniciativa Liberal. 

Pelariga. Nelson Pereira perde votos e um membro na Assembleia de Freguesia (6-3). É aqui que o PS consegue o seu melhor resultado numa freguesia - mesmo que sejam só 29.39% dos votos - com a persistência de Raul Bruno, que voltou lá, pela segunda vez. 

Pombal. Carla Longo é a primeira mulher a presidir [oficialmente] à Junta de freguesia. Na verdade, foi ela a presidente nos últimos quatros anos. Conseguiu recuperar eleitorado que fugira para o Movimento NMPH há quatro anos e apesar da vitória com 56.41% dos votos, passa de 7 para 9 membros na Assembleia de Freguesia. O PS, através de Elisabete Alves, também sobe em número de votos, percentagem e eleitos, recuperando um (9-4).

UF Santiago, São Simão de Litém e Albergaria dos Doze. Manuel Henriques Nogueira Matos (um dos mais antigos autarcas em funções no distrito e talvez no país) arrecadou mais uma vitória para o PSD, mas desta vez não foi sem espinhas: a eleição de Maria José Anastácio, da CDU, é a nota dominante aqui, acompanhada da subida do PS, que praticamente duplica a votação e elege dois membros para a AF. 

Vermoil. Parada no tempo e no espaço, a freguesia ainda consegue reforçar a vitória no PSD (7-2), para quem Daniel Ferreira consegue mais de 60% dos votos. O PS tinha ali um dos seus melhores candidatos, Luís Fernandes, mas o povo é soberano: se está bem assim, está bem assim. Fixemos antes atenções no que se passa ali internamente, pois que ontem mesmo, na reunião da assembleia de freguesia (transmitida em directo no facebook) o presidente da assembleia, Ilídio Mota (ex-presidente da junta) foi mais incómodo que qualquer oposição. Um caso a acompanhar.

Vila Cã. Finalmente o PSD respira de alívio. Ana Tenente não se recandidatou, e através de Rogério Santos, o partido recupera a Junta com maioria absoluta. Liliana Silva, a líder local do CDS, que tinha um pé na candidatura à Assembleia Municipal e outro na da Freguesia, foi a segunda mais votada. 

Redinha. Teoricamente esta é a (única) freguesia do PS (46.38% dos votos), uma vitória suada de Paulo "Silas" Duarte em 2017, por apenas 7 votos, começada em 2013. Mas pelas razões que já aqui contámos várias vezes, a vitória é dele e pronto. o PS que continue refém dele. Desta vez conseguiu maioria, o que lhe facilita a vida. E com isto, talvez Carlos Cardoso perceba, finalmente, que a água não passa duas vezes debaixo da ponte. Nem na Redinha. 

ps: uma nota digna de registo - é aqui que a abstenção é mais baixa, no universo concelhio, 38%.

União de Freguesias da Guia, Ilha e Mata Mourisca. Por um voto se ganha e por um voto se perde. No oeste, cada voto foi contado como se fora ouro garimpado. A campanha fez-se com a raiva nos dentes, como se estivéssemos em pleno PREC. No final, Gonçalo Ramos venceu as eleições por escassos 64 votos, mesmo que tenha subido a votação face à sua primeira eleição, então sob a capa de Narciso Mota. Não tem maioria, de novo, e o PS - repetindo a escolha de Hugo Silva - conseguiu ainda descer a votação. Os eleitos do CDS desta vez aliaram-se ao PSD, que também subiu. No oeste, aquilo não foi uma campanha. Foi uma guerra. E ainda há quem não tenha percebido que as eleições acabaram no dia 26. A esses, recordo aqui as palavras de Manuel Serra, em setembro de 2017, quando assumiu a derrota: "aquilo que se constrói em cima de indignações e revoltas tem sempre os dias contados, porque essas, felizmente, são passageiras". 

28 de setembro de 2021

Carta Aberta de Miguel Saavedra ao Pedro Profeta da Boa-Vontade

Caríssimo Pedro, digníssimo Profeta da Boa-Vontade e ilustre Presidente da Junta;

Estimo que te encontres com perfeita saúde na companhia da tua família e de todos os nossos companheiros e amigos, que eu, maldito escriba, desdenhado por ti – agora o vejo –, pelos teus e pelos outros, por aqui vou andando entretido com as minhas crónicas, ora desavindo ora conformado.



Desculpa-me tratar-te por tu. Bem sei que não é tratamento correcto para pessoas na tua condição – Presidente da Junta -, mas sendo nós amigos - ou julgava eu que éramos - que sempre se trataram assim, e falando tu connosco regularmente na primeira-pessoa, não será com certeza despropositado falar contigo na segunda.   

Acredita, Pedro: nunca imaginei incomodar-te nesta fase de euforia e deslumbramento que justamente estás a viver. Faço-o a desgosto, impelido pela profunda desilusão que provocaste, porventura inconscientemente, a mim e à maioria dos nossos conterrâneos.

Acreditei tanto em ti, Pedro, na tua boa-vontade, na tua bondade, e na tua ladainha agregadora que prometia abarcar todos, que nem quero imaginar que te esqueceste de mim, daquele que tudo fez para enaltecer as tuas qualidades, que tanto confiou nas tuas juras inclusivas, daquele que sabes ser um apaixonado por árvores. Bem sei, que cometi o pecado de não ter ido votar (em ti); pecado compreensível, Pedro: o dia estava lindo, precisava de espairecer e tu não precisavas do meu voto. Que me excluas desta tão valiosa medida, é ingratidão que mal ou bem hei-de curar. O que não se compreende é que um profeta da boa-vontade, da bondade e do amor exclua da sua primeira e simbólica medida a maior parte do rebanho. 

Bem sei que ainda nada está decidido, que ainda não tomaste posse, que continuas em campanha eleitoral (estás sempre em campanha), mas não há uma segunda oportunidade para deixar uma boa primeira impressão.

Diz-me, Pedro: por que é que só dás árvores aos que votaram, aos que votaram em ti - sim, os que votaram, votaram quase todos, ou todos, em ti. Por que é que castigas os outros, a maioria, os que não quiseram ou não puderam votar em ti?

Estou tão desiludido contigo, Pedro; revoltado até. É tão doloroso chegar à conclusão que D. Diogo e o Obras-tortas são mais democratas que tu. Já que eles oferecem as árvores a quem gosta delas, não aos amigos ou aos que votam neles. O teu procedimento é mais de um tirano empenhado em perseguir que de um profeta preocupado em agradar.

Ainda não começaste, Pedro, e já começaste tão mal.

Um abraço amigo, deste que tanto bem te queria.

                                                                                     Miguel Saavedra

27 de setembro de 2021

A derrota da Odete



 A derrota da Odete nestas eleições era tão certa como a vitória do Pedro. Mas faltava perceber a dimensão de (mais uma) humilhação para o PS, sobretudo neste quadro bicéfalo em que apresentou a eleições. E o que temos a reter, em primeiro lugar, é que em toda a parte o eleitorado votou mais no PS para a Assembleia do que para a Câmara.

Feitas as contas, o PS elegeu dois vereadores para o executivo (Odete Alves e Luís Simões) e seis eleitos para a Assembleia Municipal: João Coelho, Aníbal Cardona, Carla Mariza Pereira, Nuno Gabriel Oliveira, Leandro Siopa e Marlene Matias. Em termos globais, Coelho consegue mais 176 votos que Odete, o que ainda assim equivale a menos de um por cento de vantagem.

Impermeável à crítica, o PS não percebeu que era preciso cavalgar o descontentamento crescente - e visível - e limitou-se a agarrar-se às cordas, sem conseguir dar corpo e rosto ao que seria uma oposição. 

Aí está o resultado.


26 de setembro de 2021

A vitória do Pedro

O Pedro ganhou. Pouco ou nada – estava (quase) tudo decidido.



O homem é ele e as suas circunstâncias. E que circunstâncias, Pedro. Os homens traçam o seu destino mais pelo que são do que pelo que fazem. E pouquíssimas pessoas são capazes de inferir o efeito das circunstâncias, e das suas escolhas, nas suas vidas.

O Pedro fez da política o seu ofício, o seu o hobby e sua a vida. A política para o Pedro é festas e abraços, campanhas e vitórias, cargos e penachos. A política seria uma felicidade, se fosse só isto; se fosse 47 meses disto e 1 mês do resto. Mas felizmente a política não é só isto, é muito mais que isto, é trabalho árduo e responsabilidade.

Nesta altura, o Pedro deve estar bem acompanhado e feliz, eufórico até. Sem grandes razões. Chegou ao trono - ao pote -, o seu grande desígnio, paixão e razão de vida. Talvez devesse estar apreensivo e angustiado. O momento de vitória é, muitas vezes, um momento de solidão. Mas, como em tudo, há boa e má solidão. A má é estar sozinho pensando que se está bem acompanhado.

O Pedro é protótipo da boa-pessoa, a quem custa prognosticar o infortúnio. Mas infelizmente é o que tem por mais certo. Fez escolhas contra todas as regras. Se tiver sucesso é um génio, se falhar é um inepto.

Que a N.ª Sr.ª do Cardal e Deus Nosso Senhor ajudem o Pedro a carregar a sua cruz até ao sacrifício.

Força Pedro.

À boca das urnas

Prestes a encerrar a votação destas autárquicas, ficam aqui os nossos votos: que no futuro se acabe com a pouca-vergonha que é aquele desfile do poder instalado junto das mesas de voto. Uma cirandice de presidentes, secretários, tesoureiros, vogais e quejandos, aspirantes a isto e àquilo, não vá o poder escapar entre a cruzinha e a urna.

É uma sede controleira que começa muito antes, nos bastidores, durante a constituição das mesas de voto. Só esse processo, dava um tratado. Por ora, deixemos a malta contar os boletins, e logo cá voltaremos, para esmiuçar o escrutínio.

24 de setembro de 2021

Os debates autárquicos – mãos cheias de nada

Os debates autárquicos, que por cá se foram realizando, roçaram a mediocridade. Salvou-se um ou outro debate para as juntas - por exemplo o de Almagreira - e o debate entre os cabeças de lista à Assembleia Municipal. A mediocridade resultou de candidatos e moderadores impreparados – quando se junta a (má) bota com a perdigota dá sempre nisto. Senhores(as) moderadores, a mesma “pergunta”, amplamente aberta – uma “deixa” –, para todos os candidatos compromete o debate.


A temática do “Desenvolvimento Económico” foi a grande bandeira que todos os candidatos quiseram ostentar, geralmente sem saberem do que estavam a falar e desconhecendo a impotência do presidente da câmara para o proporcionar. Percebeu-se que queriam falar de Crescimento Económico – coisa bem diferente. A maioria das propostas avançadas são vulgaridades ou tontices, como, por exemplo, aquela de levar a fibra-óptica a todos os lugares das freguesias.  

O último debate entre os cabeças de lista à câmara foi pobríssimo, enfastiante até. Surpreendentemente, o público enriqueceu mais o debate que os próprios candidatos, com ideias que vale a pena levar em consideração. Uma delas – a mais relevante e valorosa para a cidade/concelho – foi a que propôs abandonar a ideia de requalificar a Zona Industrial da Formiga e reconverter o espaço em área habitacional (e lúdica, acrescento eu). Decididamente, uma ideia a considerar no imediato; até porque aquilo já não é uma Zona Industrial e já está rodeada por novas urbanizações destinadas a habitação.

Pombal precisa de ideias arrojadas que rompam com o marasmo e a ineficiência dos arranjos e das benfeitorias.     


23 de setembro de 2021

Agora vote!



Esta campanha eleitoral chegou-nos simultaneamente vazia de ideias ou projectos e marcada por tiques pseudomodernos de fazer política, visíveis nos estrangeirismos da linguagem ou na utilização abusiva de termos que o cidadão comum não sabe o que querem dizer. Nestas alturas faz falta a imprensa, a crítica, por ser parte fundamental do sistema democrático e ajudar a pensar. A parar para pensar. Não é a imprensa côr-de-rosa de que o poder laranja gosta (e que se voltasse a ser [poder]rosa também gostaria, de tal modo o PS se tem mostrado impermeável à opinião adversa). É aquela que escrutina. Mas adiante, que o tema está gasto, e o que não tem remédio remediado está. 

Uma das inovações desta campanha centra-se no apelo ao voto. No arquivo das campanhas políticas dos últimos 48 anos é possível perceber as diferenças ideológicas também a esse nível. Quem havia de imaginar que, chegados a 2021, o PS em Pombal iria tratar os eleitores por "você"? O PSD começou a fazê-lo há anos, acompanhando a metamorfose que foi ocorrendo internamente. Não, não é só a música que está desajustada...

A verdade é que não é uma questão de semântica, isto da maneira como o partido trata o eleitor. A ignorância atrevida de alguns pode apressar-se a considerar "uma questão de respeito". Não, amigos. É uma questão de igualdade, de proximidade. Ou da falta dela. 


ps: A foto regista os panfletos que chegaram à minha caixa de correio. 

22 de setembro de 2021

Guia Interpretativo dos Programas Eleitorais

Começaram a surgir, finalmente, os programas eleitorais das diferentes forças políticas concorrentes às eleições autárquicas. Este post pretende ajudar aqueles que se dão ao trabalho de ler os ditos programas a interpretá-los com algum critério.

Assim:

Primeiro critério: desconfie dos que escrevem muito - não têm noção do essencial - e dos que escrevem muito pouco ou nada - estão totalmente impreparados.

Segundo critério: exclua todas as propostas iniciadas com o verbo “Garantir”, ou seus equivalentes “Defender” / “Promover” / “Colaborar” / “Incentivar”/ “Afirmar” / “Dinamizar” / “Valorizar” / “Fomentar” / “Envolver”; são intenções, não são acções; não lhe propõem nada de concreto, que possa ser cobrado; mostram que o candidato/partido que as faz não tem noção nenhuma do que fazer na matéria em questão.



Terceiro critério: Exclua as propostas iniciadas com os verbos “Elaborar”, “Rever”, “Estudar”, “Projectar”, “Desenvolver” / “Repensar” e afins se estas não concretizam o “Que” e “Como” fazer. No “Apoiar” exclua também se não quantifica.

Quarto critério: exclua as propostas iniciadas pelo verbo “Criar” quando se trata de comissões, grupos, equipas, etc. É conversa para encher ou para dar emprego à rapaziada ou a um ou outro amigo.

Quinto critério: não acredite em propostas que incluem conceitos complexos e muito em voga, tipo “Desenvolvimento Estratégico”, “Empreendedorismo”, “Inovação”, etc.; normalmente não dizem nada.

Se restar alguma coisa, escolha essa força política/candidato.

Boas escolhas.

19 de setembro de 2021

Diz que é uma espécie de jornalismo - que aconteceu no Oeste

 

Passaram quase 14 meses desde que o Pombal Jornal publicou um suplemento sobre o oeste do concelho que era - na teoria e na prática - patrocinado pelo núcleo do PSD. Os mais distraídos podem recuperar a história aqui. Ora, quando até eu já me esquecera da façanha, eis que sou surpreendida com um e-mail da ERC - Entidade Reguladora da Comunicação Social - na semana passada, dando-me conta do que foi a deliberação do Conselho Regulador a respeito do caso. E do seu arquivamento, não obstante a advertência, ao cabo de uma (inusitada) esmiúça dos factos por parte daquela entidade, que acabou por ir além do caso do Oeste, analisando o trabalho do próprio jornal em várias edições.

 Os detalhes estão online e podem ser consultados aqui, mas importa reter alguns tópicos, sobretudo para memória futura. Porque embora às vezes não pareça, isto ainda é um país, com leis e regras. E a Lei de Imprensa - assim como o Estatuto do Jornalista, o Código Deontológico e a Constituição da República são os mesmos em Pombal, em Lisboa, na Ponta do Sol ou nas Barbas Novas. ´

É difícil fazer jornais em Pombal. Sei-o bem. É igualmente difícil fazer jornalismo. Mas há linhas vermelhas que não podemos pisar. 

Cada um escolhe o seu caminho e o percorre como quer, mas quando está em causa o espaço público, a coisa extravasa um bocadinho o negócio familiar. E por isso faço votos para que a advertência da ERC não caia em saco roto, nomeadamente no que toca ao pluralismo partidário e do respeito pelo estatuto editorial definido pelo próprio jornal. De resto, ide ler, que sempre se aprende alguma coisa sobre publicações, suplementos, informação e publicidade.

Agradecimento

Eu, Miguel Saavedra, mui apreciado e desdenhado escriba, venho por este meio agradecer ao Joelito, el Raspador, a sua mui generosa e útil oferenda, que muito préstimo terá.  



                                                                                            Miguel Saavedra

17 de setembro de 2021

A felicidade e o absurdo

Camus (e outros filósofos da mesma linha) escreveu que “A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra”. Esta terra, e estas eleições, confirmam-no.

De um lado, temos o profecta (e os/as apóstolos) da felicidade, do amor, do superlativo, do notável e do extraordinário, do optimismo vazio, da vida mágica; temos um hipocondríaco da empatia e da lisonja, um coração juvenil com espírito velho, ridiculamente superficial, sem essência própria, consequentemente sem valor, com uma pregação pomposa nas palavras mais infantil que adulta, dissimulada e desconexa, mendaz até, que tudo subordina à propaganda e ao charlatanismo.

Do outro temos um anão com duas cabeças, a bipolaridade, o nada e os absurdos, a moleza e o excesso, o estupor apático e o egocentrismo, a falta de tesão e a procura de guerrilha, o mutismo e a retórica opinativa oca, num corpo frágil, amorfo, doentio até, tolhido pelos seus medos e pelas suas contradições, consumido pela intriga e pela desconfiança, onde coexistem almas perdidas e rufiões do espírito incapazes de se fazerem ouvir por crentes e por não-crentes. Uma desgraça completa, que só não será maior porque do outro lado está o que está – outro filho da mesma terra, do mesmo sangue, da mesma massa.


Decididamente ainda não é desta que sairemos do marasmo.  

Siga a festa, que a ressaca pode esperar.

15 de setembro de 2021

Juntas, um mundo obscuro

Anteontem, depois de ouvir e postar sobre o debate entre os cabeças de lista à Junta de Almagreira, prometi aos leitores do Farpas um estudo comparativo sobre o desempenho das diferentes juntas do concelho de Pombal, se obtivesse os dados indispensáveis a uma boa análise. Apesar de crítico do poder local, ainda acreditava – agora menos – na rectidão dos políticos locais, mas a realidade continua a surpreender-me(nos) pela negativa.

Decerto que muitos cidadãos continuam a achar que as juntas são os parentes pobres da administração local, que não têm recursos nem obrigações a cumprir para além de passar uns atestados, de limpar uma valetas e de cuidar do cemitério lá da terra; mas realidade actual é muito diferente da imagem difundida ao longo de várias décadas. As juntas têm hoje atribuições e responsabilidades mais relevantes e orçamentos de muitas centenas de milhares de euros, que usam vezes demais sem critério nem controlo ou de forma irregular ou ilegítima, como temos tido conhecimento. Porquê? Porque não são sujeitas a qualquer fiscalização, nem da oposição, que não a sabe fazer ou debanda após a derrota, nem do quarto poder. Por isso, a esmagadora maioria não presta contas a ninguém.

Em Pombal, neste mandato, só a Junta das Meirinhas divulgou sistematicamente as contas aos seus fregueses (e à comunidade); as juntas de Carnide, Carriço, Louriçal, Pombal, Redinha e UFIGMM divulgaram em parte; as juntas de Abiul, Almagreira, Pelariga, Vermoil, Vila Cã não divulgaram nada (nenhum Relatório de Gestão); e as Juntas de Vila Cã e UFSSSLAD mostram, nos seus sites, que nunca pensaram sequer nisso – o que dá corpo aos rumores que correm na comunidade sobre o tipo de gestão que praticam. 


Esta matéria – Prestação de Contas e o que lhe está subjacente – tem estado totalmente ausente do debate autárquico. O que diz muito, ou tudo, sobre a (im)preparação dos políticos locais que por aqui gravitam. O país pode ter melhorado muito os níveis de instrução da população, a percentagem de doutores, e a percentagem de doutores que exercem cargos autárquicos ou que se candidatam a eles, mas a nossa cultura gestionária, a capacidade de distinguir o essencial do acessório e a capacidade de utilizar bem os recursos no essencial, melhorou muito pouco; continuamos muito atrasados, e, com este quadro, uma coisa é certa: nunca sairemos da cepa-torta. 

Prestar contas aos fregueses é uma obrigação legal e um dever ético do administrador de recursos públicos. Quem não percebe isto não percebe nada do que é o exercício de um cargo público. Quem não cumpre este dever legal e ético deveria ser demitido, e, no caso de incumpridor recorrente, impedido de se candidatar a cargos públicos – devia ser considerado pessoa não-idónea.  

PS: parabéns ao presidente da Junta das Meirinhas (Manuel Virgílio Lopes – PSD), que não conheço. Chegámos a um ponto que até o básico merece ser enaltecido.  

Adenda: pelas informações divulgadas após a publicação do post, sinto-me obrigado a retirar o elogio ao presidente da Junta das Meirinhas. A realidade está sempre a surpreender-nos, pela negativa!     

14 de setembro de 2021

Descubra as diferenças

Diz-se que uma imagem vale mais que mil palavras. Não será bem assim mas não andará lá muito longe. E são os pormenores que fazem ressaltar os por maiores.


Nestas eleições – no Pombal - está quase tudo decidido. Mas há uma pequena disputa, que apesar de ser totalmente irrelevante para a comunidade, vale a pena acompanhar – até por que eles querem que seja acompanhada. É a disputa entre os dois PS`s!

De um lado, temos o grupo da doutora Odete, que protagoniza a candidatura à câmara; do outro, temos o grupo do doutor Coelho que protagoniza a candidatura à Assembleia Municipal.

A doutora Odete e o seu grupo representam a não-política, o vazio, o NADA. O doutor Coelho e o seu grupo representam outra coisa (que por agora me abstenho de caracterizar).

No final, se o Nada “ganhar” à “Outra-coisa” talvez muita gente fique surpreendida. Eu não. Por que em Política – tal como na vida - a sensatez continua a ser um atributo valioso. A doutora Odete pode não ter mais nada (politicamente), mas é sensata. 

Siga a festa, que a ressaca pode esperar. 

13 de setembro de 2021

A excepção que confirma a regra

Os debates entre os candidatos às juntas de freguesia têm sido de arrepiar e abandonar. Alguns candidatos, nomeadamente de partidos com responsabilidade acrescida, não sabem ao que vão, parece que se atiraram ou os atiraram para dentro dum poço; não têm nada minimamente estruturado ou relevante para dizer, não são sequer capazes de encher o tempo de antena, e alguns chegam ao ponto de afirmar, em directo, que não sabem nada daquilo e estão ali porque foram empurrados.

Mas, por mero acaso, apanhei no telemóvel o debate entre os dois cabeças de lista à freguesia de Almagreira – Humberto Lopes (PSD) e Marlene Matias (PS). Ouvi o debate até ao fim (no telemóvel); mesmo até ao fim, até às intervenções finais de apelo ao voto, e até nessa os candidatos mostraram elevação. 

Em Almagreira só concorrem duas listas. E surpreendentemente é da menor quantidade que emerge a melhor qualidade (até agora). Os eleitores de Almagreira têm a sorte de poder escolher entre dois candidatos bem preparados, profundos conhecedores da sua terra e com grande sentido de serviço publico. 

Muitos – a esmagadora maioria – dirão que estes debates não decidem nada. Têm razão; e não têm. A política é alta competição. O atleta de alta competição sabe que pouco se decide na corrida das medalhas, que tudo se conquista ao longo de quatro anos de trabalho, esforço, dedicação e perseverança; suportados por muito planeamento, monitorização, ajustes e correcções. Se na corrida das medalhas, onde a diferença entre atletas é mínima, os medalhados estão praticamente definidos antes da corrida; na corrida aos votos, onde a diferença entre candidatos é grande (às vezes abissal) o resultado só pode ser um. 

PS1: aconselho vivamente os candidatos à câmara a verem o debate entre os candidatos à junta de Almagreira. Talvez aprendam alguma coisa sobre a forma de passar uma mensagem séria e apelativa. 

PS2: o debate motivou-me a fazer uma análise comparativa do desempenho das diferentes freguesias. Se conseguir obter os dados indispensáveis a uma boa análise trá-la-ei a este blog.  

12 de setembro de 2021

Rei morto, rei posto

A última reunião da Assembleia Municipal deste mandato foi (quase) aquilo que se esperava: uma bajulação colectiva a Diogo Mateus, que soa a falso na maioria dos casos. Toda a agente sabe que Diogo foi empurrado borda-fora, que Pedro Pimpão faz de conta que o (seu) PSD não está no poder há três décadas, e pior, que D. Diogo nunca existiu. Por isso chegou a ser degradante vê-lo(s) dizer em público o contrário do que dizem em privado, destilando ao microfone a teoria do agradecimento que a prática não acompanha. 

Diogo sabe disso. E não o esquecerá. 

Mas a mais hilariante intervenção coube a José Gomes Fernandes - já na fila da frente, já a preparar-se para novo regresso a porta-voz da bancada do PSD, pois que do seu arqui-inimigo João Coucelo espera-se que esteja sempre pronto a substituir o professor, na presidência da próxima Assembleia Municipal. O partido deu um duplo tiro no pé ao incumbi-lo de fazer aquele papel. Primeiro porque toda a gente sabe que JGF (outrora conhecido como enfant terrible ou taliban do PSD local) tem o mesmo jeito para o elogio que um elefante a movimentar-se numa loja de porcelana. Depois porque não resistiu a deixar ali a sua velada farpa ao Pedro, apontando a Diogo as qualidades que sabe serem  defeitos do sucessor. A coragem, sempre a coragem, a preparação e o conhecimento.

Diogo sabe disso. E por isso lhe devolveu com a mesma moeda, agradeceu as palavras, sabendo que eram simpáticas, embora "nem todas verdadeiras". Afinal, foram muitos anos lado a lado a espezinhar os adversários, a maquinar estratégias - como aquela de fazer cair Luís Garcia, presidente da AM - a mexer as peças. Porque são raras as que tombam sozinhas. Aqui ou em qualquer lugar, Diogo não o esquecerá.

5 de setembro de 2021

Sobre a apresentação do Professor

O PSD apresentou, ontem, o seu cabeça de lista, e a lista, à AM. No discurso de apresentação, o Professor Mota Pinto prometeu colaboração activa com o Pedro – com o presidente da junta – e avançou duas ou três ideias (dois ou três palpites) que, disse, ainda não saber como serão implementadas. 

Chega, Professor. O senhor, pelo menos, sabe ao que vai, que cargo vai exercer; e isso, nesta terra, na província, onde a esmagadora maioria não sabe ao que vai, para além de se prestar a tristes figuras, é um factor diferenciador. O senhor sabe ao que vai e será sempre o Professor; não se preocupe nem se esforce muito, que pior (do que está e do que foi) não fica; e tenha sempre presente que dar amêndoas a porcos é um desperdício. 

O senhor daqui, deste pobre escriba, nada terá a temer - terá sempre o destaque e o reconhecimento que merece. 

Siga a romaria.

3 de setembro de 2021

Mundo ao contrário ou novo normal?

Como já aqui realçámos, no último ano ocorreu um terramoto político em Pombal que não deixou pedra sobre pedra, nem no poder nem na oposição (se se pode chamar oposição ao que por cá tivemos). 

O presidente da câmara não foi reconduzido – coisa nunca vista -; nenhum dos vereadores com pelouros foi reconduzido – coisa também nunca vista -; os vereadores da oposição - da força política que disputou o poder (NMPH) – também não vislumbraram condições para se recandidatarem - coisa também nunca vista. 

Onde está, então, o ilógico? Perguntará o leitor. Está numa figura e num partido que gira ao contrário e não se dá conta disso. Essa figura é Odete Alves, representante única do PS no executivo; esmagada, tal como o partido, nas últimas eleições não conseguindo sequer ser eleita; mas, mesmo assim, e com desempenho político no mínimo sofrível, foi reconduzida - fez-se reconduzir.    

Há explicação para isto? Há! E as razões desta aparente anormalidade estão presentes tanto num lado como no outro da equação política local, igualam-se, mas dão resultado único.

Em tempos de abatimento, como os que agora vivemos, os fracos tornam-se fortes, porque a pusilanimidade dos fracos valoriza-os, porque ser-se fraco, ser-se humilde, ser-se sonso - ou parecer sê-lo - é uma grande vantagem. Em tempos de decadência quem anda às arrecuas marcha de acordo com o sentido do tempo. 

E os outros? Perguntará o leitor mais esperançoso. Dos outros nem vale a pena falar: não contam, não têm responsabilidades.


1 de setembro de 2021

Sete questões que devem ser respondidas

A campanha eleitoral decorre com uma pobreza ideológica e de pensamento preocupantes - deprimentes até. A pobreza, em si, não é vergonha; excepto se for pobreza de espírito. Mas quando num político se junta a pobreza de espírito com o saber precário o caminho para o desastre fica traçado.

Por isso, convém atalhar caminho, barrar opções, forçar compromissos. Deixo aqui sete questões que os candidatos à câmara e à assembleia municipal devem responder – a bem da Política, a bem da nossa terra.

1. CIMU-SICÓ – demolir ou terminar o projecto?

2. Ponte sobre a Linha Férrea no Cardal: cancelar ou realizar a obra?

3. Encosta do Castelo: urbanizar a zona - com construção de habitação, parque de estacionamento, etc. – ou construir um parque verde até à Mata da Rola?

4. Jardim da Várzea – avançar com o projecto aprovado ou revê-lo mantendo a traça e os elementos figurativos?

5. Unidade da Lusiaves na Guia: se tiver matadouro de aves – vai ter - licenciar ou rejeitar o projecto devido aos impactos ambientais?

6. Casa Mota Pinto: avançar com o dito museu ou abandonar a ideia?

7. Vereadores a tempo inteiro: só os que a lei recomenda ou todos os que a lei permite?


30 de agosto de 2021

Jornal de Campanha #3 - Pimpão Resolve e...aconteceu no Oeste

1. É inédito o que está a acontecer a oeste do concelho de Pombal, na freguesia da Guia, Ilha e Mata Mourisca: não é só a (única) candidatura independente à Junta de Freguesia. Desta vez há uma candidatura à Assembleia Municipal. Talvez tenha sido preciso que o órgão caísse na lama - como aconteceu no último mandato - para se perceber que é importante resgatá-lo. Não é preciso cair no despropósito de o confundir com a Câmara, como às vezes parece acontecer. Mas a candidatura encabeçada pelo Luís Couto tem o condão de nos fazer olhar para lá dos partidos, e de nos reposicionar em relação às terras, às despovoadas terras deste concelho. Bem pode a candidatura de Pedro Pimpão tapar o sol com a peneira, ou a de Odete Alves fazer de conta que não se passada nada: se nas últimas três décadas este concelho definhou desta maneira, o poder local tem culpas no cartório. De que valem as acessibilidades e a centralidade, se as vias de comunicação só servem para levar e não para trazer gente?

Na zona oeste concentra-se 30% da população que nos resta. E é em nome desses que um grupo de cidadãos - na sua maioria politizados - se levanta para dizer que está ali e quer ter representação na Assembleia Municipal. Não me admirava nada se nas próximas eleições ali nascer uma candidatura à Câmara. A apresentação, porém, não aconteceu no Oeste. Aconteceu no Cardal, que afinal é de todos. 

2. Super-Pimpão (que agora já fala na terceira pessoa) está a dar tudo nas apresentações intra-listas, sobretudo naquelas duas freguesias que escaparam ao PSD nas últimas autárquicas. E por isso até manda emissárias paras as sessões de esclarecimento do oeste. Não se faz, Pedro. Não se atira às feras quem não é lobo e tão-pouco lhe veste a pele.

A cereja do bolo deste fim de semana foi, porém, a Redinha, em que o dinossauro Carlos Cardoso insiste... Foi lá que Pimpão se superou, com menos pinças do que aquelas que usou no oeste, mas como se estivesse a falar com o subconsciente, ao enaltecer os séniores, porque - disse ele - a experiência é muito importante. Também achamos, Pedro. É por isso que vamos ter problemas sérios a partir do dia 26. Mas até lá...siga a festa! 

29 de agosto de 2021

Curiosidades eleitorais

O doutor Pimpão veio-nos dizer que a sua candidatura era muito feminina. É mais do que feminina, é efeminada.

A doutora Odete já nos tinha dito que a sua equipa era composta por gente comum - demasiado comum. Mas se o principal critério era ser comum, vulgar, porque é que tiveram que repetir candidatos por mais que um cargo? Não havia mais comuns?

Venha o diabo e escolha.

28 de agosto de 2021

Folhetim mexicano: Joelito, el Raspador

III – De como um sacrifício individual se transformou num desafio colectivo

Quando a estecticista Rosa entrou na sede rosa, para entregar o terceiro fornecimento, encontrou Joelito extenuado, de tanto raspar. Meteu conversa.

- O senhor está muito cansado. Por que não descansa um pouco? Tem-se alimentado? E dormido?

- Nem me diga nada, colega; não vejo o dia disto terminar…

- Por que não pede ajuda aos seus camaradas de partido? 

- Tenho medo de os incomodar; eles podem ficar chateados – eles trabalham.

- Mas o senhor precisa de ajuda; uma pessoa, por muito serviçal que seja, não raspa catorze mil canetas de enfiada!

- Mas sabe: eu voluntariei-me…

- Pois; mas sabe qual é o maior problema desta casa?

- Não, diga lá.

- Muita caneta e pouca gente que saiba escrever.

- Não diga isso, colega; temos muita gente que sabe escrever.

- Não me percebeu ou eu não me expliquei bem. Saber escrever, sabem; não sabem é escrever o que deve ser escrito; sabe: para escrever o que deve ser escrito é preciso pensar, querer pensar, saber pensar.

- Não diga isso, colega.

- Digo-lhe mais: se o meu salão fosse gerido como gerem isto, há muito que já tinha fechado portas. Vou falar com a doutora… 

E assim fez a resoluta estecticista.

No dia seguinte, apareceu uma ajuda, depois outra, e depois mais outra… Passados uns dias a sede estava cheia de raspadores de canetas e foi preciso montar um sistema de alertas de capacidade esgotada. É neste fadário, que roça o absurdo colectivo, que estas alminhas sem alma nem pensamento consomem o seu tempo e as suas fracas energias.

Joelito, el Raspador, um chico que tem mais alma de cântaro do que de político, é a figura maior destas cenas de tragédia cómica. Mas não é o culpado desta desgraça colectiva. Porque deixa de haver culpados onde erram todos. 

Miguel Saavedra

26 de agosto de 2021

Folhetim mexicano: Joelito, el Raspador

II – A empreitada das canetas

A poucos dias do início da campanha, um partido de gente laboriosa, desta terra de gente trabalhadeira, viu-se sem brindes para distribuir, e sem dinheiro para os comprar. Depois de muito matutarem, na forma de resolver o problema, eis que alguém se lembra que tinham sobrado carradas de canetas da campanha anterior. O problema parecia resolvido com este achado, mas eis que alguém repara que as canetas tinham gravado “JC 2017” e já estávamos em 2021. 

Mas quando tudo parecia perdido, alguém, não se sabe quem, teve lembrança mui bem lembrada: raspar as canetas. Há quem diga que a ideia veio do Joelito; mas, por respeito à verdade, e por não pretender valorar em demasia o protagonista, o autor abdica deste pormenor não relevante para a história. Por que, relevante, relevante, é a forma como a lembrança foi, de imediato, tornada andança. E que andança. Tenha este pobre escriba arte e talento para a registar condignamente em palavras.

A questão que logo se colocou foi “quem poderia - e saberia - meter mãos à obra?” Olharam uns para os outros, e alguns disseram logo que não podiam. Foi nesse momento, no momento que todos deram um passo atrás, que Joelito, deputado da nação, sem nada para fazer e sem saber fazer nada (que valha a pena se feito), deu um passo em frente, e se fez dono desta honrosa e valorosa tarefa. E logo a sua conterrânea, colega na lista à câmara, estecticista de profissão, se voluntariou para dar apoio técnico e fornecer os materiais. Estava lançada a grandiosa empreitada.

Foi mui comovente ver como Joelito, chico mui abnegado ao trabalho partidário, se atirou à empreitada, noite e dia, fechado dentro daquelas quatro pequenas paredes, sem ver a luz do dia.  Muito haveria para contar sobre tão grandiosa tarefa; mas, por respeito ao mui degradado estatuto do Deputado da Nação, o autor escusa-se a pormenorizar mais. 

Ao segundo ou terceiro dia, Joelito pediu mais acetona à estecticista, que logo correspondeu com mais um carregamento. Chegada à sede, exclamou:

- Uff; estou cansada… Mas que trabalheira que o senhor me dá! 

- … É pelo partido, camarada.

- Mas diga-me, sff,  o que quer o senhor atingir com tanto empenho?

- Votos. Brindes dão votos e votos dão cargos.

- Ai, senhor deputado, eu também gostava de ser eleita, e ter um cargo importante, como o senhor.

Acompanhe as desventuras de Joelito, o Raspador, nos próximos capítulos.

                                                                                                Miguel Saavedra

25 de agosto de 2021

Folhetim mexicano: Joelito, el Raspador

I – O Personagem
Começo este folhetim com a apresentação do Personagem – Joelito –, figura vulgar, vulgaríssima, que o destino, e a malandrice dos seus, transformaram na figura principal deste folclore eleitoral, quando fizeram chegar a este maldito escriba a sua inverosímil história.

A história deste folhetim é história dele, sem tirar nem pôr. Mas se assim é, perguntará o leitor, não valeria mais contar logo a história, e deixar o juízo para o leitor? Talvez. Mas desta forma, o leitor poderá não encaixa bem uma coisa na outra. E é nesse encaixe que, acredita o autor, está a riqueza da coisa. Estamos - como se verá mais adiante - perante um personagem inverosímil, cuja originalidade pode comprometer a atenção do leitor, principalmente quando se confronta o protagonista e o absurdo coletivo.
Joelito, el Raspador, surgiu na política do nada, ou do acaso, ou por geração espontânea, como têm surgido os seus antecessores na juventude rosa. Mas eis que se torna conhecido; e a sua história é uma coisa digna e merecedora de ser contada. Começou a carreira política como líder da jota rosa, sem dirigir nada, porque nada havia para dirigir, tanto na juventude rosa local como na regional. Quando chegou a hora de apresentar listas para o parlamento da nação, Joelito ocupou o lugar destinado à juventude. Depois, com a renúncia de alguns à frente, converteu-se, sem saber ler nem escrever (nada que valha a pena ser lido), em deputado da nação. E aqui, fez-se candidato ao executivo municipal.
Joelito conseguiu tudo isso sem ser conhecido por nenhum talento ou atributo, não fala nem se mostra. Diz-se que nasceu de boca fechada, com a língua amarrada, com muito pouco sal na moeleira e pouco sangue nas veias. Chegou-se a pensar que o rapaz era surdo-mudo, mas quando alguém lhe perguntou, quando era chefe da jota, por que não falava, respondeu: ′′ temos medo deles..., eles são muitos...".
Hoje sabe-se que Joelito é um rapaz do qual não se pode esperar espírito nem vivacidade, mas é muito abnegado e trabalhador, muito hábil de braços, mãos e dedos, e sempre muito comprometido e dedicado ao chamado ′′trabalho partidário", feito no molde para o ofício de raspador e colador de cartazes. É um muchacho com tanta vontade de servir o partido que se esquece ou não entende as suas atribuições e seu suposto papel, nem percebe a triste figura a que se presta - um verdadeiro Cavaleiro da Triste Figura, tão útil para a política quanto as muletas para o defunto.
Acompanhe as desventuras de Joelito, o Raspador, nos próximos capítulos.

                                                                                                Miguel Saavedra