28 de maio de 2024

Louriçal Rico, Louriçal Pobre





A festa dos 31 anos de reelevação do Louriçal a vila foi um momento insólito: o presidente da junta está apostado em deixar o nome inscrito nas placas, agora que caminha para o final do seu último mandato, e por isso não há tempo a perder. Aproveitando a destemperada ideia desta Câmara de construir parques verdes em todas as freguesias (como se nas freguesias não bastasse manter cuidado o acesso ao verde, felizmente natural, e como se não tivéssemos ao abandono vários parques de merendas, a começar precisamente pela freguesia do Louriçal), ali se gastaram umas centenas de milhares de euros, porque o povo precisa de apreciar a paisagem. O povo, que não foi visto nem achado na "festa" de sábado, mas há-de continuar a pagar estes desvarios. O povo, que há dois anos não tem médico de família, mas pagou um Centro de Saúde de última geração. E agora paga, quando precisa, consultas numa clínica privada, lá na vila. É o conceito de progresso, que até deu nome à farmácia. 

Não vamos aqui esmiuçar os quase750 mil euros ( 747.397,84 €, acrescidos de IVA) que Câmara e Junta esbanjaram ali. Ou os 65 mil que a família Rico Sofia (afastada há décadas do Louriçal) encaixou com a venda dos terrenos, tão pouco tentar compreender o que está por trás desta inusitada ação benemérita, que se traduziu em doar uma parte de um dos terrenos. O que aqui importa é refletir sobre aquilo em que o Louriçal se tornou. Na época em que um presidente-pavão-armado-em-figurão parece letra de forma, não bate a bota com a perdigota. Como é que uma freguesia tão rica em património, culturalmente tão relevante, chega a este estado de ramo de enfeite? Ao presidente da junta colou-se o da assembleia de freguesia (lá na terra o povo acredita que o segundo se prepara para substituir o primeiro), que embora colecione cursos e "livros", entre a pose e as medalhas, não conseguiu ainda disciplinar a junta no que toca à gramática e ortografia. 

No resto, o que não tem remédio remediado está. 



10 de maio de 2024

AM – fraco rei e fraca gente

Uma imagem vale por mil palavras. Vou poupar nas palavras.

Por falta de vontade e pontos de interesse, hesitei postar sobre a última Assembleia Municipal (AM). Mas, pensando melhor, o estado da coisa é digno de nota… 



Já houve tempos em que as reuniões da AM eram o ponto alto da política pombalense: o verdadeiro palco para os representantes do povo exporem as preocupações e as aspirações do povo, com coragem e galhardia. Era ali que se fazia a verdadeira prova de vida (política), se perdia ou ganhava peso político. Ia-se para ali com gosto e alegria, com aquele brilhozinho nos olhos que denota coisa preparada. Ou com o comprimido tomado à entrada.

Actualmente, tudo é diferente… 

A imagem anexa mostra bem o desprazer, penoso e amargurado, que perpassa daquelas almas desencantadas e/ou sofridas, dispersas pelo imenso vazio sem ordem e sem sentido.

No canto de rodapé pode ver-se o que resta do destroçado PS: as 3 Marias abandonadas ao destino.

8 de maio de 2024

O passeio dos alegres




Há uma marca deste executivo que já fica para a história: o passeio, em forma de roteiro pelas freguesias, disfarçado de "visita de trabalho". Pedro Pimpão foi 'beber' alguns tiques popularuchos de Narciso Mota (que intensificou uma iniciativa criada por Armindo Carolino, no século passado) e assim espalha a sua magia. É ele próprio a personificação da 'inspiração para uma vida mágica', que absorveu do mentor. 
Vista de longe, a ideia parece boa: o executivo vai ao concelho real inteirar-se dos problemas reais, mete vereadores, técnicos, presidentes de junta e quejandos num autocarro, e seguem felizes, pela estrada fora. Faça chuva ou faça sol, de mãos nos bolsos ou braços cruzados, não há semana sem passeio. Ele é Carriço, Carnide, Almagreira ou Abiul, ele é serra e é praia, é a vida a acontecer pelas freguesias, numa roda vida que pouco diz ao pacato cidadão. Se não tiver Facebook, só saberá desses movimentos se passar os olhos pelos jornais, que replicam fotos e declarações, embora não de forma tão aprimorada como a rádio, que acumula imagens nas suas redes sociais, como se de informação se tratasse. 
Os desertos de notícias (estudados ao pormenor pela Universidade da Beira Interior, em 2022) hão-de debruçar-se em breve sobre esse fenómeno: territórios que só aparentemente não estão ameaçados. Ou lembra-se o amigo leitor de alguma notícia (de verdade), incómoda para o poder, com pendor de denúncia, nos últimos anos? Ah, para 'dizer mal já há o Farpas'. 
Detive-me, porém, nas imagens divulgadas hoje, um total de 21 fotografias do passeio. No tempo em que os animais falavam, havia nas Redacções uma regra: evitar o 'Portugal sentado' - fotos de salas ou bancadas de gente acomodada. Depois vieram os gabinetes de imprensa com mais gente que qualquer Redação, nalgumas terras (e as redes sociais, esse maná inesgotável). Na nossa, não é preciso ir tão longe. 
O bom das fotos é que quase sempre falam. E as de hoje, da visita à freguesia de Almagreira, mostram que o (nosso) mundo mudou. Dizem-nos que a alegada 'Oposição' está tão empenhada nestas visitas como o poder. Houve um tempo em que o PS/Pombal organizava as suas próprias visitas. Procurava mostrar o que estava por fazer, e apontava soluções. Agora chegámos ao cúmulo do partido que (hipoteticamente)quer ser poder não só acompanhar a caravana com gosto, como até publicar a propaganda nas suas redes sociais! E ai que de quem aponte um defeito, que a cópia, por ser sempre pior que o original, copia também o pior da gestão de redes: responder a quem está descontente. Aqui chegados, concluímos que é muito mais o que os une que aquilo que os separa. Depois não adianta chegar à noite das eleições e levantar um brinde 'à estupidez humana', como aconteceu nas últimas, de má memória.
À frente nesta corrida, vai João Pimpão. Verdadeiro camisola amarela, não só os manda à fava (e eles gostam) como descreve bem a coisa numa palavra: incrível. 

*fotos do Município de Pombal e Facebook da Rádio Cardal 

3 de maio de 2024

Pior presidente

No seu último programa na SIC Notícias, José Miguel Júdice afirmou que “Marcelo Rebelo de Sousa já ganhou o campeonato de pior presidente da República”. O comentador considerou que “a indiscrição e falta de decoro representam uma falha grave do Presidente da República, minando a sua credibilidade e respeitabilidade”. Apesar de óbvia, a constatação é perturbadora pela degradação que provoca no mais alto cargo na nação. Mas já muito antes, quando Marcelo Rebelo de Sousa tinha altas taxas de popularidade, Pacheco Pereira, outro influente comentador do PSD, tinha prognosticado mau fim para o presidente Marcelo, com base na máxima “quem vive pelos media morre pelos media” - devido à sua obsessão pela aparição e opinião. 

Por cá, algo de muito semelhante está a acontecer: o presidente Pimpão tem-se esforçado e conseguirá rapidamente o título de pior presidente da CMP. O estilo e os métodos que tem usado foram plasmados da fórmula usada pelo “mestre”. Consequentemente, o resultado não poderia ser diferente.



O resultado da desvariada comédia e comedoria praticada de forma obsessiva pelo dotor Pimpão&C.ª chegou mais rápido que o esperado: contas no vermelho - 3.6 milhões de euros de prejuízo, o primeiro nas últimas décadas - e uma câmara bloqueada operacional e financeiramente, incapaz de dar resposta às solicitações mais básicas. Mas outra coisa não seria de esperar: sem exigência e priorização da acção e sem compromisso e responsabilização de dirigentes e prestadores de serviços é impossível atingir desempenho aceitável em organizações cuja capacidade de resposta tende a estar sempre aquém das solicitações, como é o caso das câmaras municipais. Mas o presidente Pimpão não tem sequer consciência disto. Inebriado pelo entusiasmo vazio e pelo alegre doudejar por festas e eventos vê méritos e contentamento alheio nas tolices que pratica. Pessoas assim não merecem compreensão nem compaixão… 

O Pedro é um rapaz divertido que gosta de diversão. Se lhe tirassem a capacidade de fazer despesa a sua governação seria inofensiva. Assim é um desastre que perdurará por muito tempo.  

2 de maio de 2024

Canções de Abril #32

 


 “Tanto Mar”, a célebre canção da autoria de Chico Buarque de Hollanda, teve duas versões. A primeira fora lançada logo a 26 de agosto de 1975, em pleno verão quente, e reflete a expetativa e a alegria em relação à situação portuguesa por parte do cantor brasileiro. Mas em 1978, Chico Buarque alterou alguns versos de acordo com a sua visão face aos posteriores desenvolvimentos em Portugal.
Esta música conseguiu fazer o paralelismo entre o período democrático que se tinha iniciado em Portugal  e o regime ditatorial que se vivia no Brasil, e que só terminaria uma década depois.

“Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim”

1 de maio de 2024

Canções de Abril #31

 


“Avante Camarada” é um hino de resistência antifascista e de crença num futuro melhor, e uma espécie de segundo hino do PCP. Canção com música e letra de Luís Cília, e voz de Luísa Basto, editada em 1967 para ser difundida na Rádio Portugal Livre, a partir de Budapeste.

Foi a canção da ordem no 1 de Maio de 74 e nos posteriores primeiros de Maio. Não poderia faltar neste alinhamento do Farpas, no 1.º de Maio. 

30 de abril de 2024

Canções de Abril #30


 

“Liberdade” é uma canção de Sérgio Godinho que nasceu logo após a Revolução de 74; editada no álbum “À Queima Roupa” - o mais político do Mestre de Canções -, em outubro de 74.

É uma canção claramente engajada com o espírito da época, que, pela musicalidade, mensagem política e forte refrão, entrou rapidamente no ouvido das pessoas e era entoada nas frequentes manifestações populares do período revolucionário. 

Pela sucessão de slogans que encadeia, Sérgio Godinho definiu-a como “uma espécie de graffiti em rock”, mas é, acima de tudo, uma canção claramente comprometida com os desígnios da revolução e o valor supremo da Liberdade nas suas múltiplas dimensões.

Viva Abril

Viva a Liberdade

“A paz, o pão

Habitação, saúde e educação”.


29 de abril de 2024

Canções de Abril #29

Um dos símbolos do 25 de Abril de 1974 é o slogan O Povo Unido Jamais Será Vencido”. A frase, popularizada em todo o mundo, poucos meses antes, aquando do golpe militar chileno que derrubou o governo de Salvador Allende, começou por ser o título de uma canção dos colombianos “Quilapayún”. E se, na década 1970, "O Povo Unido Jamais Será Vencido” representava um apelo à participação colectiva para a construção de um mundo melhor, hoje, quando essas ideias parecem utópicas e ultrapassadas, o slogan ainda constitui um factor de mobilização e participação, nas ruas, nas fábricas, ou mesmo nas redes sociais.

“Portugal Ressuscitado”, a primeira canção gravada em Portugal depois do 25 de Abril de 1974, aproveita a popularidade do slogan como mote para expressar os dias de grande euforia que se viviam logo após a revolução. A música é uma composição de Pedro Osório e o poema de Ary dos Santos introduz pequenas subtilezas que permitem que seja cantado de forma mais natural. Foi um enorme êxito e ganhou, por direito próprio, um lugar de destaque na música portuguesa do período revolucionário.

Na gravação, que ocorreu nos primeiros dias da revolução, participaram Tonicha, Fernando Tordo e o grupo InClave, dirigido por Pedro Osório, que contava com a participação de Herman José. É o próprio Herman que escutamos nesta versão.

28 de abril de 2024

Canções de Abril #28

 


“A Cantiga é Uma Arma” tem música e letra de José Mário Branco, foi editada primeira vez em 1975, no LP com o mesmo nome, pelo Grupo de Acção Cultural (GAC), fundado por José Mário Branco, Fausto, Afonso Dias e Tino Flores. É uma canção tipicamente panfletária, de cariz revolucionário,  politicamente comprometida e empenhada com a revolução desencadeada pelo 25 Abril de 74, que rapidamente se tornou um sucesso popular e um instrumento de mobilização popular nas designadas sessões de dinamização cultural. 

Neste raro registo vídeo ao vivo, na Golegã, em novembro de 74, está bem patente o espírito da época.

27 de abril de 2024

Canções de Abril #27

 


Depois da Revolução, Portugal assiste a uma explosão músical. O regresso dos músicos exilados inunda o país de espetáculos, nascem canções, peças de teatro, a poesia está na rua – como titulava Vieira da Silva num dos seus quadros. A Canção "Somos Livres", também conhecida como "A Gaivota” é composta em 1974, interpretada pela atriz Ermelinda Duarte.
O tema celebra a liberdade,  e é considerado um dos mais populares após o derrube da ditadura e fim da censura. A  foi Canção escrita pela própria Ermelinda Duarte, com arranjos de José Cid, e pertencia à peça de teatro "Lisboa 72/74".
Até aos anos 80, Ermelinda Duarte participa em várias peças de teatro, e ainda grava um single, em 1981, com duas marchas. Dedica-se então ao teatro infantil, e à dobragem de desenhos animados. 
Depois do 25 de Abril, a canção “somos livres” torna-se um símbolo para as gerações que cresceram nos anos 70 e 80. 

26 de abril de 2024

Canções de Abril #26

 

A marcha militar que precedia os comunicados do MFA entrou rapidamente no ouvido das pessoas por ser uma melodia alegre, cheia de energia e de fácil memorização. É uma adaptação de uma marcha militar inglesa, intitulada “A Life on the Ocean Wave”, do pianista inglês Henry Russel (1812-1900), a que José Niza agregou, sem grande sucesso, uma letra designada “Desta vez é que é de Vez”.

Na verdade, o que ficou mesmo no ouvido foi a bela marcha, por encarnar o pujante sentimento de libertação. Uma verdadeira música da Revolução.

25 de abril de 2024

Canções de Abril #25

 


No dia 25 de Abril de 1974, quando passavam pouco mais de 20 minutos do 'dia inicial, inteiro e limpo',  os passos de Francisco Fanhais (gravados em França, no exterior do castelo de Herouville) ecoaram no éter.  O Movimento das Forças Armadas (MFA) escolheu a Rádio Renascença para a transmissão da senha de confirmação da operação militar contra o regime. Ao microfone, o locutor Leite de Vasconcelos, autor do programa "Limite", anunciava primeiro os versos:

Grândola, vila morena

terra da fraternidade

o povo é quem mais ordena

dentro de ti, oh cidade 

Nessa noite, a  rádio divulgou duas senhas: a primeira era “E depois do adeus”, de Paulo de Carvalho, transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa. A segunda seria a música de José Afonso, que a Rádio Renascença tocou. O primeiro sinal destinava-se a preparar as tropas para a saída, e o segundo ao início das operações. 

A canção foi composta em 1971, depois de uma visita de Zeca Afonso à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense de Grândola, no Alentejo. A canção integrou o álbum Cantigas do Maio, dirigido por José Mário Branco, em França.

Há 50 anos, a cantiga era uma arma e a revolução estava na rua.

Viva o 25 de abril. Viva a liberdade!

23 de abril de 2024

Canções de Abril #24



A 8 de março de 1974, Paulo de Carvalho ganha o Festival da Canção com “E Depois do Adeus”, uma canção romântica com música de José Calvário e letra de José Niza. A canção ficará em penúltimo lugar no Festival da Eurovisão, mas ficará para História por outros motivos.

Sete semanas depois é escolhida para 1.ª senha do Golpe de Estado, transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa, às 22h55 de 24 de abril, por ser uma canção conhecida e sem conteúdo político, servindo, assim, para dar o sinal de alerta e prontidão sem levantar suspeitas, podendo o golpe ser cancelado se os líderes militares concluíssem que não estavam reunidas as condições para avançar. Não foi o caso. 

A bela canção de amor cumpriu a sua missão.

Intervenções da “oposição” na reunião da “junta” (II)

As intervenções da dita oposição na reunião da “junta”, ontem, roçaram a indigência mental. É difícil dizer qual dos dois esteve pior. Na nulidade não há distinção.  



O dotor Luís, na ausência de melhor assunto, agarrou-se a uma discreta indirecta do dotor Pimpão sobre um assunto do PS, falta de médicos, para retorquir não ao assunto em si, mas para expressar azedume pela suposta limitação da liberdade de expressão manifestada pelo dotor Pimpão. E perguntou pelo estado de uma rotunda prometida. Não vem mal nenhum ao mundo que o dotor Simões não saiba distinguir liberdade de expressão de direito ao contraditório e à crítica – expressão maior da liberdade expressão. Mas é um ultraje à política que um político os perverta. 

A doutora Odete quis conhecer o orçamento das próximas festas do bodo. Falou da coisa com a dotora Gina como duas adolescentes falariam no intervalo para recreio. Pelo que se ouviu (e tem ouvido) nem uma nem outra tem noção nenhuma do que é e para que serve um orçamento. 

Qualquer pessoa com dois neurónios a funcionar, que oiça aquilo, percebe que o dotor Simões não tem noção nenhuma do que é e de como se faz política. E a dotora Odete é um caso ainda pior: em duas décadas de actividade política não aprendeu nada.

Ao pé destes imberbes políticos o dotor Pimpão até parece político. Como gosta muito de festas e eventos e detesta actividades executivas, poderia entregar as reuniões da “junta” à dotora Gina. Ou dispensar, sem perda de senha, os vereadores da oposição; evitando-lhes, assim, a sistemática má-figura. 

Intervenções da "oposição" na reunião da "junta"

 


Canções de Abril #23

 


A 24 de fevereiro de 1969, Simone de Oliveira ganhava o Festival com uma canção que fintou a censura. Versos como "quem faz um filho fá-lo por gosto" foram ouvidos demasiado tarde pelos guardiões da moral e dos bons costumes. A Desfolhada, poema de José Carlos Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, chegaria à Eurovisão com todos os holofotes apontados. De melodia revigorante e lirismo aglutinador, era considerada a melhor letra pelos jornais estrangeiros”. Mas esbarrou num assumido europeísmo anti-Portugal, numa altura em que a guerra em África ia longa e sangrenta.
Na vasta carreira de Simone, a Desfolhada haveria de tornar-se um símbolo, também pelo facto de coroar a maior finta à censura, ombreando apenas com a Tourada, de Fernando Tordo, em 1973. 
Em 1968, um tema de Zeca Afonso tinha sido afastado da competição, o que aliás se tornaria prática recorrente para um leque de artistas incómodos. O título da canção de Zeca Afonso era tão só "Vejam Bem".

Poucos saberão que esta canção não foi escrita para Simone de Oliveira, mas para Elisa Lisboa, uma jovem atriz do Teatro Experimental de Cascais. A poucos dias do  festival, Elisa desistiu, apresentando razões pessoais e um atestado médico, com diagnóstico de 'laringotraqueíte'. E assim se chamou Simone de Oliveira. Depois de vencer o festival, partiu da estação de Santa Apolónia, em Lisboa, em direcção a Madrid, pela rota ferroviária de duas ditaduras, alimentando grandes expetativas.  Ao longo do percurso, milhares de pessoas acenavam, exibindo cartazes de apoio.
Mas o  enorme sucesso da "Desfolhada" em Portugal não teve o mesmo resultado no Teatro Real de Madrid, palco do Festival Eurovisão de 1969. A canção seria atirada para um penúltimo lugar, apenas com quatro pontos. Para o público nacional, de pouco importou: Simone foi recebida em apoteose, à chegada a Lisboa. Curiosamente, até o Estado Novo lavraria o seu desencanto por "tamanha injustiça à música nacional". Em protesto, Portugal não se faria representar no Festival Eurovisão da Canção do ano seguinte (1970).
A verdade é que, 55 anos volvidos, a canção ainda hoje anda nas bocas do povo.

22 de abril de 2024

Canções de Abril #22


O disco “Venham Mais Cinco” de José Afonso é uma obra prima. Gravado em 1973, todas as suas letras e músicas são da autoria de José Afonso, muitas delas escritas na prisão de Caxias. Os arranjos são de José Mário Branco e conta com a participação de músicos com origens e formações muito diversas. O tempo das baladas de Coimbra já tinha ficado, definitivamente, para trás. O que José Afonso propõe neste disco é de uma inovação e genialidade raramente vistas no Portugal de então.

O tema que dá nome ao álbum foi a primeira escolha do Capitão Santos Coelho para senha do 25 de Abril. Acontece que, já com tudo preparado, descobriu-se que essa música estava proibida pela Rádio Renascença, tendo a escolha alternativa recaído sobre "Grândola, Vila Morena". O resto é história.
 
"Venham Mais Cinco" é uma música icónica do trabalho de José Afonso. Ela expressa, de forma clara, a opção estética do autor, ao recorrer a ritmos de inspiração africana numa música de raiz portuguesa. A letra era, obviamente, muito incómoda para o regime fascista. Aparentemente, o poema refere-se a um conjunto de amigos que pedem mais cinco copos numa taberna. Acontece que, nesse ano, tinham passado cinco anos do início da "Primavera Marcelista", que prometia alterações políticas que nunca chegaram a acontecer. O famoso refrão - “Não me obriguem a vir para a rua gritar, que é já tempo d'embalar a trouxa e zarpar” - era um apelo claro à urgência revolta e um convite ao ditador para partir, o que viria a acontecer quatro meses depois, aquando do golpe militar de 25 de Abril de 1974.  
 
A versão de Ildo Lobo para "Os Tubarões", gravada no memorável concerto "Os Filhos da Madrugada", a 30 de Junho de 1994, no Estádio de Alvalade, constitui uma belíssima homenagem à obra de José Afonso e à vontade que o artista sempre manifestou de colocar em diálogo ritmos africanos e portugueses. É também uma oportunidade para lembrar os cantores africanos que tiverem um papel importante no combate à ditadura, como Ildo Lobo, Ruy Mingas, entre muitos outros.

21 de abril de 2024

Canções de Abril #21


“As Balas” é uma bela e tocante balada de Adriano Correia de Oliveira, com letra de Manuel da Fonseca e arranjos e direcção musical de Fausto Bordalo Dias, do álbum ”Que nunca mais”, de 1975.

A canção tem tanto de magistral como de fraca divulgação. Aborda coisas simples e naturais da vida, colocando-as em contraste com a desgraça da guerra e da morte que marcaram a sociedade portuguesa (e das colónias) durante década e meia - mensagem bem vincada no refrão “As balas deram sangue derramado”.

20 de abril de 2024

Canções de Abril #20

 



Um poema de Sophia de Melo Breyner ganhou vida na voz do então padre Francisco Fanhais, integrando o único álbum que gravou: “Canções da Cidade Nova”, publicado em 1970 com o selo do programa Zip-Zip, da RTP.

Um ano antes, saíra o primeiro registo de Fanhais, um EP editado pela Orfeu com músicas suas a partir de poemas de Sebastião da Gama ou de João Apolinário e ainda um texto bíblico musicado por Pedro Lobo Antunes.

 

Em 1971, impedido de exercer o sacerdócio, Fanhais parte para França, onde participa nesse ano nas gravações do álbum “Cantigas do Maio”, de José Afonso. São também seus os passos que ouvimos em “Grândola, Vila Morena”, captados no exterior dos estúdios do Castelo de Hérouville, onde Zeca grava esse que era já o seu quinto álbum de estúdio. Fora algumas colaborações posteriores, desde logo ao lado de Zeca,  Francisco Fanhais não mais voltaria a gravar em nome próprio. Através da música tornou-se uma das mais ativas vozes dos chamados católicos progressistas que combateram a ditadura de Salazar.

19 de abril de 2024

PS - casa desgraçada, casa gozada

O PS1 e o PS2 finalmente juntaram-se. Para quê, perguntará o caro leitor? Para a diversão, para irem passear em Bruxelas.



A diversão é sempre uma boa ocupação, quando se pode fazê-la. Mas quando se faz a expensas de outros exige-se alguma parcimónia e algum decoro. Coisas que camaradas com aspirações burguesas ignoram e dispensam; porque o que verdadeiramente lhes interessa é aproveitar as mordomias concedidas pelo regime. A coisa tolerava-se, até por caído em rotina, se não tivessem o desplante parodiar o Zé e a Maria – os pagantes da coisa. Mas o que é se pode fazer, há muito que o juízo abandonou aquela casa.

Quando era alvo de interpelações chochas, D. Diogo costumava dizer, com desagrado e até algum desgosto, que a oposição não trabalhava, não pensava, era preguiçosa. Mal nem ele sabia (ou sabia!) que o pior estava a caminho: actualmente ninguém trabalha, e ninguém pensa, tanto na oposição como no poder (apesar de este ser pago para tal).

Os desvarios conduzem sempre à desgraça. Esta espécie de oposição já é uma desgraça. Mas terá vida curta. Falta pouco para o Zé e a Maria dizerem chega. É a vida!

Há vidas piores. Pois há…!