Quando entrei no Café Concerto, na última terça-feira, um rol de gente enchia o espaço. Estavam em círculo, como nas reuniões ou grupos de auto-ajuda, enquanto o mastro Paulo Lameiro explicava ao que vinha: a candidatura de Leria a capital europeia da cultura em 2027, a importância dos municípios se envolverem em trabalharem em rede (lá está), num trabalho que deve começar pela base, entre os diversos 'agentes culturais'. E bom, chegamos então ao cerne da questão: aquilo era uma reunião de agentes culturais - como horas antes me avisara o responsável da PMU, sabendo-me parte do Gang da Malha, que ali se reúne precisamente às terças, desde há cinco anos. Não raras vezes, as tricotadeiras são a única clientela do espaço, para mal dos resultados financeiros do CC.
Espantei-me com o cenário: não conhecia uma boa parte das pessoas que ali estavam, não reconhecia ali a cena cultural dominante. Faltava ali muita gente, a começar pelos rapazes do Ti Milha (o festival que é mesmo uma Ilha), o pessoal da ADAC, e tantos agentes culturais individuais e colectivos que vão fazendo coisas, teimando em dar à terra aquilo que ela nem sempre merece.
A certa altura, o Paulo quis perceber melhor o que somos e quem somos, culturalmente falando. E foi aí que o circulo se abriu, desaguando entre um muro de lamentações e um bailado de graxa à Câmara, que ali estava representada pela vereadora da Cultura, Ana Gonçalves.
Foi uma cena bizarra, aquela: ranchos e filarmónicas, grupos de música popular e barroca, músicos vários, professores, assalariados e assessores, dirigentes e afins, num espaço público sem público. A maioria não se conhece.
E no meio da discussão, a lembrança da casa Varela. Aquela que foi comprada para ser berço das artes, em Pombal, que assim se mostrou ao público num Bodo, e que agoniza, sem rei nem roque. Que motivou certa vez uma reunião de outros agentes culturais, ao estilo pretensioso de D. Diogo, com muita parra e pouca uva. Pior: chegou a pedir trabalho a um grupo mais restrito desse naipe, para nada.
De modo que a intenção do Paulo Lameiro é boa (mesmo que Pombal não tenha sido seleccionada para os prelúdios que aconteceram noutros pontos do distrito), mas faria muito mais sentido se esta casa estivesse arrumada: se os nossos agentes culturais (seja lá isso o que for) se conhecessem, pelo menos. Se isto não fosse um saco de gatos em que o rancho inveja o subsídio da banda, em que há filhos e enteados para o poder, em que isso se traduz na importância maior ou menor que cada um assume. Porque nos falta, também na cultura, o de sempre: sociedade civil. Que não fique à espera das migalhas que hão-de ser aprovadas por quem não distingue uma clave de sol de uma roda de bicicleta, uma noite de fados de um projecto musical, um artista de um chico-esperto.
Para nossa felicidade, temos alguns (bons) exemplos. Mas a maioria não estava ali. Fica-me a dúvida: não foram porque não quiseram ou porque simplesmente não foram convidados? Tenho para mim que isto de ser agente cultural aqui na terra é mais ou menos como a mulher de César, mas de forma mais apurada: mais do que ser, é preciso parecer.