19 de julho de 2024

Reunião da “Junta”

Na última reunião da “Junta”, ontem, quase só se discutiu o novo slogan/marca da terra. Coisa de somenos que, se não fosse tão aberrante, nem aqui - local dito de má-língua - tinha entrada.

A discussão permitiu (re)confirmar uma evidência que entra pelos olhos de qualquer cego: o dotor Pimpão & C.ª pode praticar as maiores tolices do mundo que perante aquelas duas alminhas do PS parecerá sempre um estratega e um gestor esclarecido.

Vejam, e digam se é ou não é verdade.

18 de julho de 2024

Pombal Centro Natural de Portugal – uma aberração

O dotor Pimpão resolveu torrar 55.000 € num slogan (ele chama-lhe marca) para Pombal – “Pombal Centro Natural de Portugal”. A rapaziada da ETAP fazia melhor, e muito mais barato.



“Pombal Centro Natural de Portugal” é uma aberração completa. O centro natural de Portugal é Vila de Rei, terra do Portugal profundo. Nós somos outra coisa e não somos nada, também por causa destes desvarios. Por isso, custa-nos muito perceber esta abstrusa aberração; se é a natural queda juvenil para a asneira, a impulsividade crónica, a vontade de torrar dinheiro ou a necessidade de o atribuir?

Em Pombal, a abundância de slogans promocionais do concelho é inversamente proporcional à qualidade deles. Já tivemos vários: "Pombal - do Mar à Serra"; "O meu coração bate por Pombal", “Pombal, Cinco Sentidos”, etc. O traço comum é a sua pobreza ritmo-melódica e a dissintonia com a realidade. Morreram todos de morte morrida, à nascença. Curiosamente, o mais badalado foi “Pombal, concelho charneira”, saído gratuitamente da cabeça do presidente Narciso Mota. Não "charneirou", morreu naturalmente com ele. 

"Pombal Centro Natural de Portugal" é só mais um triste episódio desta epopeia do irrisório, feita de pomposa mediocridade e vaidade pacóvia.

9 de julho de 2024

Do estado a que chegámos



Na semana passada houve eleições para os órgãos internos do PSD e do PS, os dois maiores partidos no país, e também (supostamente) em Pombal. 

Por aqui, a política partidária tornou-se desgraçadamente desinteressante - até para nós, aqui no Farpas. Mas o pior, plasmado no que aconteceu nesses actos eleitorais, é o desencanto que se instalou dentro dos próprios partidos: no PS não apareceu ninguém para se candidatar aos órgãos concelhios, no PSD o que apareceu é sintomático desse estado a que chegámos, como bem pode o leitor apreciar: quatro jotas passados do prazo, um presidente da junta que acha que pode chegar a vereador, e o inerente Pimpão. (Humberto é um senhor, e por isso não debandou, já). 

Depois da ‘folha de rosto’, aparecem os empregados da política, passados, presentes e futuros - um misto do gabinete de Diogo Mateus com o de Pedro Pimpão. Já a era de Narciso Mota ficou paradoxalmente guardada para aquele órgão denominado “Conselho Estratégico”. Tudo fresco e vivo para pensar (n)o futuro, devidamente separado do mundo rural, etiquetado de “conselho das freguesias”.

Ora, uma vez arregimentados todos, todos, todos (até o tresmalhado José Gomes Fernandes) sentimos aqui a falta de João Pimpão. Imperdoável. 

7 de julho de 2024

Coisas de cidade de província perdida no tempo

Não tinha que ser assim, mas infelizmente é: Pombal - cidade província – tem uma propensão natural para a parolagem. Mas se já nos chegava e sobrava a nossa, porquê atrair e fomentar a alheia?!


28 de junho de 2024

AM – a realidade estava guardada para o fim

A política pombalense caiu numa pasmaceira completa, pavorosamente monótona e desajeitadamente insípida, que desinteressa até aos mais interessados. Num ápice, passámos do mais maçante despotismo para o mais estéril desportivismo, protagonizado por criaturas que não nos representam, nos não conhecem nem nos querem conhecer, receosos de que os conheçamos a eles(as).

As reuniões da “Junta” - executivo municipal – tornaram-se intelectualmente insuportáveis, com figurantes protegidos por um pacto de “não-agressão” que só beneficia o fraco poder. As reuniões da Assembleia Municipal deslizam penosamente para verdadeiros exemplares de assembleias de freguesia, monopolizadas pelos presidentes de junta - coisa nunca vista nesta terra e em terra alguma. Resultado de uma maioria desinteressada e de uma minoria debilitada; de onde só sobressaem os Pimpões, mais pelos modos e tom que pelo resto. 

Mas a realidade é áspera, nomeadamente para mentes balofas. O dotor Pimpão pode continuar imerso na bolha mediática que ele próprio criou e insufla, iludido pelo efeito mágico das festas e eventos, inebriado pelos muitos milhões que sistematicamente apregoa, mas uma coisa é certa: a realidade será sempre a realidade, senão para o iludido, pelo menos para quem a sente.

No meio de tanta banalidade e obscenidade, untada com banha (bajulação) rançosa, ainda surge, de vez em quando, uma voz lúcida, que expõe a realidade, ou parte dela, como deve ser, sem cerimónia nem brandura. Foi o que fez o presidente Humberto, falando sobre o projecto ECO Freguesias, quando afirmou que o executivo prometeu muito mas “em três anos não conseguiu colocar nenhum Ecoponto na freguesia de Almagreira”, e noutras, porque o que interessa é a bandeira - um desleixo, entre muitos, com o essencial.

Sigam as festas, e os eventos.

27 de junho de 2024

Pimpão chuta com o pé que tem mais à mão


 


A primeira página do Região de Leiria desta semana aparece nas bancas travestida de caderneta de cromos. Em primeiro plano, o nosso Super Pimpão. 

Ainda embriagado pelo sucesso da Pombal Cup (que teve a proeza de colocar até um antigo adversário como Aníbal Cardona a tecer loas ao folclore 'desportivo' que gostamos de pagar aos outros), mal refeito do fogo de artifício e de mais uma festa, em que até finos tirou, o nosso autarca é a estrela maior da reportagem do RL com uma mão cheia de presidentes. Foi ele o escolhido para capa. E vejam só, a ironia: Pombal não é capa de jornal pelo inauguração de um qualquer equipamento (cultural, desportivo, turístico). Não é capa pela atração de um qualquer investimento que aqui criasse postos de trabalho e fixasse emprego. Tão pouco pela mudança de qualquer paradigma. É capa porque o presidente da câmara dá chutos na bola. Máquina. Campeão. 

Espreitando a Assembleia Municipal desta tarde, é muito óbvia a realidade paralela em que estamos a viver no Largo do Cardal. Pimpão disse a da altura que só lhe dá vontade de rir. Que Deus ta conserve Pedro. A nós dá-nos muitas vezes vontade de chorar. Mas depois de assistirmos ao notório ambiente de cortar à faca que perpassa da expressão das vereadoras, e sobretudo aos olhares da vereadora Isabel Marto...retiramo-nos de fininho. 

20 de junho de 2024

A bola de sabão rebentou

Ontem abordei, aqui, a formação da última bola de sabão da política pombalense. 

Hoje comunico-vos que a bola de sabão rebentou. Não como a "justificação" apresenta o patético episódio, mas como aqui foi descrito.



Os justificativos soam-nos aos ouvidos como badaladas de um dobre de finados.

Do néscio episódio não virá mal nenhum à terra.  

Enterrem-se as ilusões e as misérias. Paz às suas almas.

19 de junho de 2024

Dotor Coelho – o salvador

O dotor Coelho julga-se, há muito, imbuído do dever supremo de enfrentar e derrotar o dotor Pimpão nas urnas. Nos últimos tempos, o que fez na política pombalense resume-se a esse desígnio, que (só ele) viu escrito nas estrelas.


 

Ontem deu mais um passo para o precipício: reuniu com três almas penadas - um tarólogo e dois anões-políticos - e decidiu, logo ali, apresentar a sua candidatura à presidência do partido (PS) e da câmara municipal, e convocar uma conferência de imprensa para anunciar as “boas-novas”. Do menu faz (ou faria) parte a apresentação do cabeça de lista à Assembleia Municipal (AM). Mas antes de arrancar, dois fortes reveses ocorreram: a primeira escolha rejeitou o convite, e a segunda também. Nada que desanime o dotor Coelho, homem para quem os sonhos e as ilusões políticas são como as bolas de sabão nos lábios de uma criança – fazem-se e desfazem-se continuamente com um pequeno sopro. 

Mas convenhamos: o dotor Coelho não é um joão-ninguém qualquer; é homem decente e respeitado, de boas famílias, de qualidades incomuns e congénitas, bom falante, mas conhecido pelos seus caprichos, altivez e suspicácias. Um bom-cristão que encarna na plenitude o antigo cavaleiro andante, abnegado lutador contra moinhos de vento. Um inconseguido cheio de qualidades. Um profeta sem rebanho.

Que Deus o acompanhe neste sacrifício.

18 de junho de 2024

Revisão do PDM – uma oportunidade perdida?

Por simples curiosidade - não tenho nenhum interesse particular na coisa - fui à sessão de esclarecimento e apresentação pública da 2.ª Revisão do Plano Director Municipal (PDM) promovida pela Câmara e Junta de Freguesia de Pombal, hoje, às 19 horas, no mini-auditório do cine-teatro. Saí de lá com uma pequena surpresa, sala composta, e uma confirmação/desilusão.



O Plano Director Municipal (PDM) é, por definição, o principal instrumento de organização e gestão do território municipal. Por conseguinte, deveria estabelecer o quadro estratégico de desenvolvimento do município, nas diferentes dimensões da gestão do território.

É hoje comummente aceite que o uso do território é o principal factor de desenvolvimento de um qualquer território, porque a forma como é estabelecido e orientado gera inevitavelmente eficiência ou ineficiência. E é a eficiência ou a ineficiência geradas que trazem progresso ou retrocesso.

O primeiro PDM foi um simples proforma que não acrescentou nada ao concelho; a não ser, ser o alvará indispensável para aceder aos fundos comunitários. O segundo, que agora se inicia e entrará em vigor no 2.º semestre de 2024, seguirá as mesmas passadas e resultará no mesmo: nada potenciador o concelho. Ficou claro, na sessão, que a câmara não estabeleceu nenhum objectivo ou sequer propósito claro que enquadre o documento; mas já fez aprovar o regulamento da 2.ª alteração do PDM, documento com 133 páginas que estabelece critérios de licenciamento para tudo e mais alguma coisa. 

Por exemplo, choca quem olha para estas coisas com algum sentido crítico que os responsáveis políticos incentivem mais excepções na construção de edificado em relação ao estabelecido, e muitas vezes não cumprido, quando se sabe que o principal factor gerador de ineficiência neste  concelho (e noutros) é o povoado demasiado disperso, fomentado pelo Estado Novo e deixado correr desleixadamente pelo poder local democrático. 

Pode andar-se com a palavra estratégia todos os dias e horas na boca; quando não se tem sentido e pensamento estratégico nada feito, nesta e nas dimensões subsequentes.

13 de junho de 2024

Obras nas Meirinhas – Coisas à Pança

“A quem hás-de castigar com obras, não trates mal com palavras, pois bem basta ao desditoso a pena do suplício, sem o acrescentamento das injúrias”.

                                            - Conselho de D. Quixote ao Pança; in D. Quixote. 

Apressadamente, porque o jantar/comício da AD a tal obrigava, a junta das Meirinhas – João Pimpão – implantou às três pancadas, sem licença e sem autorização das entidades oficiais, um parque de estacionamento em Reserva Agrícola Nacional (RAN) e leito de cheia, nas traseiras do ao Pavilhão Municipal das Meirinhas. O desmando chocou muitos residentes e não residentes; e já mereceu queixa no Ministério Público.



Pelo que se sabe, neste caso a câmara foi simples criada de serviço do presidente da junta. Foi tudo feito em família. Mas perante a sujeira do caso não pode lavar as mãos, ignorar os seus contornos políticos e jurídicos, como se nada tivesse a ver com a coisa. Deve embargar imediatamente a malfeitoria, a fim de salvaguardar a sua competência e autoridade perante o caso e a comunidade. 

Há muito que política pombalense rola sobre o modus faciendi da política do facto consumado - forma ordinária e antidemocrática de administrar e fazer obra. Só assim se percebe que João Pimpão, criatura que nutre enorme desprezo pela lei e pelos modos de actuação democrática, grande inventor de esquemas, atalhos e desvios, e que existe (politicamente) para mandar e estourar dinheiro, se tornasse expoente maior da espécie. Na verdade, uma certa estupidez de espírito tornou-se atributo necessário se não para todo decisor público, ao menos para os que querem apresentar obra e gastar dinheiro sem critério.

Mas desengane-se quem pense que a construção do dito parque de estacionamento em RAN e leito de cheia é uma qualquer precipitação de percurso. Não, não é; é o modus operandi da criatura. São múltiplas as queixas que circulam de boca-em-boca e nos invadem a caixa mensagens; e não se resumem ao desditoso parque, estendem-se à forma como a criatura usa e abusa do poder - que não tem - para alargar arruamentos sem o consentimento dos proprietários afectados e outros desmandos. 


12 de junho de 2024

Comemorar vitórias, enganar derrotas: o que dizem os resultados das eleições em Pombal




No início desta semana lá foi a Câmara para mais um passeio, desta vez na Redinha. E é curioso que a primeira saída do executivo pós eleições europeias (em que o presidente da Câmara e o PSD local tanto se empenharam) tenha acontecido precisamente ao território que menos votos deu ao partido, por mais loas que o presidente da junta lhes teça. 

Esmiuçando o escrutínio, percebemos então que há três freguesias-exemplo, onde o PSD alcança resultados acima dos 50%: Carnide, Abiul e Meirinhas. Ora, nesta última, cujo pavilhão (municipal, portanto tão nosso como lá da terra) se transformou em ninho de vitória laranja, com direito a um parque de estacionamento peculiar...  dá-se o caso paradigmático de ver o PS relegado para um quarto lugar na votação. Ao contrário, na Redinha, o partido (que continua a suportar o autarca local), consegue a sua melhor votação, num empate quase técnico com o PSD, perdão, a AD - o que já acontecera nas legislativas. 

Quanto ao resto, nada de especial a assinalar. É seguirem a comunicação social local nas suas redes sociais, e perceberem o efeito mundo ao contrário, em que os autarcas obedecem aos assessores*, como documenta a parte final deste vídeo, publicado pelo Pombal Jornal. 

*A voz é daquele assessor que, nas vésperas do 25 de abril, reproduziu graçolas sobre atirar comunistas do 7º andar. 




6 de junho de 2024

Pelouros e poleiros: da reorganização dos serviços à trapalhada geral




Eis que junho nos traz novidades, embora pouco frescas e muito menos airosas: Pedro Pimpão acaba de reforçar as suas funções, retirando um conjunto de pelouros às suas vereadoras, assumindo ele mesmo essa responsabilidade. Temos homem, temos presidente!

A partir de agora a vereadora Gina Domingues deixa de se preocupar com a Cultura e Associativismo. Assim como Isabel Marto lava as mãos da Organização Administrativa e Financeira, e Catarina Silva vê-se agora sem a Gestão de Recursos Humanos. Neste baralhar e dar de novo que o presidente experimenta a pouco mais de um ano do fim do mandato, só Pedro Navega escapa à sangria. Ou melhor, ainda sai reforçado (ganha o Trânsito, que até agora estava nas mãos da vereadora Gina). 

Estava bem de ver que aquele elenco de pelouros a metro (50, no total) esticou até não ter mais por onde. E agora, o que fazer? Sobra para quem? Para Pimpão, nosso incansável Pimpão, que entretanto arranjará maneira de distribuir mais tarefas ao vereador oficioso - Marco Ferreira - entre as sessões motivacionais do doutor Agostinho Lopes, diretor-geral, perdão, municipal. 

Aguardamos pois, com toda a expetativa, as explicações que certamente dará aos pombalenses, a propósito desta dança de cadeiras. 



4 de junho de 2024

Meirinhas – o novo cavaquistão

Realiza-se hoje nas Meirinhas o maior evento de campanha do PSD - agora "rebaptizado" AD – para as eleições europeias na região, com as suas maiores figuras do momento: S. Bugalho e L. Montenegro.



Com Narciso Mota, e depois com Diogo Mateus, Pombal conquistou o estatuto de concelho cavaquistão na região. Mas nos últimos anos perdeu o título para as Meirinhas, por mérito dessa outra grande figura local: o presidente da junta João Pimpão.

Não deve ser fácil uma pequena freguesia arcar com esta responsabilidade de realizar a enfiada de grandiosos eventos do PSD nacional na região. Por isso, este esforço e este dinamismo, que belo uso têm dado ao dispendioso pavilhão que muito nos custou, deve ser realçado, e até subsidiado. 

Força João. O PSD está contigo. E nós também.

28 de maio de 2024

Louriçal Rico, Louriçal Pobre





A festa dos 31 anos de reelevação do Louriçal a vila foi um momento insólito: o presidente da junta está apostado em deixar o nome inscrito nas placas, agora que caminha para o final do seu último mandato, e por isso não há tempo a perder. Aproveitando a destemperada ideia desta Câmara de construir parques verdes em todas as freguesias (como se nas freguesias não bastasse manter cuidado o acesso ao verde, felizmente natural, e como se não tivéssemos ao abandono vários parques de merendas, a começar precisamente pela freguesia do Louriçal), ali se gastaram umas centenas de milhares de euros, porque o povo precisa de apreciar a paisagem. O povo, que não foi visto nem achado na "festa" de sábado, mas há-de continuar a pagar estes desvarios. O povo, que há dois anos não tem médico de família, mas pagou um Centro de Saúde de última geração. E agora paga, quando precisa, consultas numa clínica privada, lá na vila. É o conceito de progresso, que até deu nome à farmácia. 

Não vamos aqui esmiuçar os quase750 mil euros ( 747.397,84 €, acrescidos de IVA) que Câmara e Junta esbanjaram ali. Ou os 65 mil que a família Rico Sofia (afastada há décadas do Louriçal) encaixou com a venda dos terrenos, tão pouco tentar compreender o que está por trás desta inusitada ação benemérita, que se traduziu em doar uma parte de um dos terrenos. O que aqui importa é refletir sobre aquilo em que o Louriçal se tornou. Na época em que um presidente-pavão-armado-em-figurão parece letra de forma, não bate a bota com a perdigota. Como é que uma freguesia tão rica em património, culturalmente tão relevante, chega a este estado de ramo de enfeite? Ao presidente da junta colou-se o da assembleia de freguesia (lá na terra o povo acredita que o segundo se prepara para substituir o primeiro), que embora colecione cursos e "livros", entre a pose e as medalhas, não conseguiu ainda disciplinar a junta no que toca à gramática e ortografia. 

No resto, o que não tem remédio remediado está. 



10 de maio de 2024

AM – fraco rei e fraca gente

Uma imagem vale por mil palavras. Vou poupar nas palavras.

Por falta de vontade e pontos de interesse, hesitei postar sobre a última Assembleia Municipal (AM). Mas, pensando melhor, o estado da coisa é digno de nota… 



Já houve tempos em que as reuniões da AM eram o ponto alto da política pombalense: o verdadeiro palco para os representantes do povo exporem as preocupações e as aspirações do povo, com coragem e galhardia. Era ali que se fazia a verdadeira prova de vida (política), se perdia ou ganhava peso político. Ia-se para ali com gosto e alegria, com aquele brilhozinho nos olhos que denota coisa preparada. Ou com o comprimido tomado à entrada.

Actualmente, tudo é diferente… 

A imagem anexa mostra bem o desprazer, penoso e amargurado, que perpassa daquelas almas desencantadas e/ou sofridas, dispersas pelo imenso vazio sem ordem e sem sentido.

No canto de rodapé pode ver-se o que resta do destroçado PS: as 3 Marias abandonadas ao destino.

8 de maio de 2024

O passeio dos alegres




Há uma marca deste executivo que já fica para a história: o passeio, em forma de roteiro pelas freguesias, disfarçado de "visita de trabalho". Pedro Pimpão foi 'beber' alguns tiques popularuchos de Narciso Mota (que intensificou uma iniciativa criada por Armindo Carolino, no século passado) e assim espalha a sua magia. É ele próprio a personificação da 'inspiração para uma vida mágica', que absorveu do mentor. 
Vista de longe, a ideia parece boa: o executivo vai ao concelho real inteirar-se dos problemas reais, mete vereadores, técnicos, presidentes de junta e quejandos num autocarro, e seguem felizes, pela estrada fora. Faça chuva ou faça sol, de mãos nos bolsos ou braços cruzados, não há semana sem passeio. Ele é Carriço, Carnide, Almagreira ou Abiul, ele é serra e é praia, é a vida a acontecer pelas freguesias, numa roda vida que pouco diz ao pacato cidadão. Se não tiver Facebook, só saberá desses movimentos se passar os olhos pelos jornais, que replicam fotos e declarações, embora não de forma tão aprimorada como a rádio, que acumula imagens nas suas redes sociais, como se de informação se tratasse. 
Os desertos de notícias (estudados ao pormenor pela Universidade da Beira Interior, em 2022) hão-de debruçar-se em breve sobre esse fenómeno: territórios que só aparentemente não estão ameaçados. Ou lembra-se o amigo leitor de alguma notícia (de verdade), incómoda para o poder, com pendor de denúncia, nos últimos anos? Ah, para 'dizer mal já há o Farpas'. 
Detive-me, porém, nas imagens divulgadas hoje, um total de 21 fotografias do passeio. No tempo em que os animais falavam, havia nas Redacções uma regra: evitar o 'Portugal sentado' - fotos de salas ou bancadas de gente acomodada. Depois vieram os gabinetes de imprensa com mais gente que qualquer Redação, nalgumas terras (e as redes sociais, esse maná inesgotável). Na nossa, não é preciso ir tão longe. 
O bom das fotos é que quase sempre falam. E as de hoje, da visita à freguesia de Almagreira, mostram que o (nosso) mundo mudou. Dizem-nos que a alegada 'Oposição' está tão empenhada nestas visitas como o poder. Houve um tempo em que o PS/Pombal organizava as suas próprias visitas. Procurava mostrar o que estava por fazer, e apontava soluções. Agora chegámos ao cúmulo do partido que (hipoteticamente)quer ser poder não só acompanhar a caravana com gosto, como até publicar a propaganda nas suas redes sociais! E ai que de quem aponte um defeito, que a cópia, por ser sempre pior que o original, copia também o pior da gestão de redes: responder a quem está descontente. Aqui chegados, concluímos que é muito mais o que os une que aquilo que os separa. Depois não adianta chegar à noite das eleições e levantar um brinde 'à estupidez humana', como aconteceu nas últimas, de má memória.
À frente nesta corrida, vai João Pimpão. Verdadeiro camisola amarela, não só os manda à fava (e eles gostam) como descreve bem a coisa numa palavra: incrível. 

*fotos do Município de Pombal e Facebook da Rádio Cardal 

3 de maio de 2024

Pior presidente

No seu último programa na SIC Notícias, José Miguel Júdice afirmou que “Marcelo Rebelo de Sousa já ganhou o campeonato de pior presidente da República”. O comentador considerou que “a indiscrição e falta de decoro representam uma falha grave do Presidente da República, minando a sua credibilidade e respeitabilidade”. Apesar de óbvia, a constatação é perturbadora pela degradação que provoca no mais alto cargo na nação. Mas já muito antes, quando Marcelo Rebelo de Sousa tinha altas taxas de popularidade, Pacheco Pereira, outro influente comentador do PSD, tinha prognosticado mau fim para o presidente Marcelo, com base na máxima “quem vive pelos media morre pelos media” - devido à sua obsessão pela aparição e opinião. 

Por cá, algo de muito semelhante está a acontecer: o presidente Pimpão tem-se esforçado e conseguirá rapidamente o título de pior presidente da CMP. O estilo e os métodos que tem usado foram plasmados da fórmula usada pelo “mestre”. Consequentemente, o resultado não poderia ser diferente.



O resultado da desvariada comédia e comedoria praticada de forma obsessiva pelo dotor Pimpão&C.ª chegou mais rápido que o esperado: contas no vermelho - 3.6 milhões de euros de prejuízo, o primeiro nas últimas décadas - e uma câmara bloqueada operacional e financeiramente, incapaz de dar resposta às solicitações mais básicas. Mas outra coisa não seria de esperar: sem exigência e priorização da acção e sem compromisso e responsabilização de dirigentes e prestadores de serviços é impossível atingir desempenho aceitável em organizações cuja capacidade de resposta tende a estar sempre aquém das solicitações, como é o caso das câmaras municipais. Mas o presidente Pimpão não tem sequer consciência disto. Inebriado pelo entusiasmo vazio e pelo alegre doudejar por festas e eventos vê méritos e contentamento alheio nas tolices que pratica. Pessoas assim não merecem compreensão nem compaixão… 

O Pedro é um rapaz divertido que gosta de diversão. Se lhe tirassem a capacidade de fazer despesa a sua governação seria inofensiva. Assim é um desastre que perdurará por muito tempo.  

2 de maio de 2024

Canções de Abril #32

 


 “Tanto Mar”, a célebre canção da autoria de Chico Buarque de Hollanda, teve duas versões. A primeira fora lançada logo a 26 de agosto de 1975, em pleno verão quente, e reflete a expetativa e a alegria em relação à situação portuguesa por parte do cantor brasileiro. Mas em 1978, Chico Buarque alterou alguns versos de acordo com a sua visão face aos posteriores desenvolvimentos em Portugal.
Esta música conseguiu fazer o paralelismo entre o período democrático que se tinha iniciado em Portugal  e o regime ditatorial que se vivia no Brasil, e que só terminaria uma década depois.

“Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim”

1 de maio de 2024

Canções de Abril #31

 


“Avante Camarada” é um hino de resistência antifascista e de crença num futuro melhor, e uma espécie de segundo hino do PCP. Canção com música e letra de Luís Cília, e voz de Luísa Basto, editada em 1967 para ser difundida na Rádio Portugal Livre, a partir de Budapeste.

Foi a canção da ordem no 1 de Maio de 74 e nos posteriores primeiros de Maio. Não poderia faltar neste alinhamento do Farpas, no 1.º de Maio. 

30 de abril de 2024

Canções de Abril #30


 

“Liberdade” é uma canção de Sérgio Godinho que nasceu logo após a Revolução de 74; editada no álbum “À Queima Roupa” - o mais político do Mestre de Canções -, em outubro de 74.

É uma canção claramente engajada com o espírito da época, que, pela musicalidade, mensagem política e forte refrão, entrou rapidamente no ouvido das pessoas e era entoada nas frequentes manifestações populares do período revolucionário. 

Pela sucessão de slogans que encadeia, Sérgio Godinho definiu-a como “uma espécie de graffiti em rock”, mas é, acima de tudo, uma canção claramente comprometida com os desígnios da revolução e o valor supremo da Liberdade nas suas múltiplas dimensões.

Viva Abril

Viva a Liberdade

“A paz, o pão

Habitação, saúde e educação”.


29 de abril de 2024

Canções de Abril #29

Um dos símbolos do 25 de Abril de 1974 é o slogan O Povo Unido Jamais Será Vencido”. A frase, popularizada em todo o mundo, poucos meses antes, aquando do golpe militar chileno que derrubou o governo de Salvador Allende, começou por ser o título de uma canção dos colombianos “Quilapayún”. E se, na década 1970, "O Povo Unido Jamais Será Vencido” representava um apelo à participação colectiva para a construção de um mundo melhor, hoje, quando essas ideias parecem utópicas e ultrapassadas, o slogan ainda constitui um factor de mobilização e participação, nas ruas, nas fábricas, ou mesmo nas redes sociais.

“Portugal Ressuscitado”, a primeira canção gravada em Portugal depois do 25 de Abril de 1974, aproveita a popularidade do slogan como mote para expressar os dias de grande euforia que se viviam logo após a revolução. A música é uma composição de Pedro Osório e o poema de Ary dos Santos introduz pequenas subtilezas que permitem que seja cantado de forma mais natural. Foi um enorme êxito e ganhou, por direito próprio, um lugar de destaque na música portuguesa do período revolucionário.

Na gravação, que ocorreu nos primeiros dias da revolução, participaram Tonicha, Fernando Tordo e o grupo InClave, dirigido por Pedro Osório, que contava com a participação de Herman José. É o próprio Herman que escutamos nesta versão.

28 de abril de 2024

Canções de Abril #28

 


“A Cantiga é Uma Arma” tem música e letra de José Mário Branco, foi editada primeira vez em 1975, no LP com o mesmo nome, pelo Grupo de Acção Cultural (GAC), fundado por José Mário Branco, Fausto, Afonso Dias e Tino Flores. É uma canção tipicamente panfletária, de cariz revolucionário,  politicamente comprometida e empenhada com a revolução desencadeada pelo 25 Abril de 74, que rapidamente se tornou um sucesso popular e um instrumento de mobilização popular nas designadas sessões de dinamização cultural. 

Neste raro registo vídeo ao vivo, na Golegã, em novembro de 74, está bem patente o espírito da época.

27 de abril de 2024

Canções de Abril #27

 


Depois da Revolução, Portugal assiste a uma explosão músical. O regresso dos músicos exilados inunda o país de espetáculos, nascem canções, peças de teatro, a poesia está na rua – como titulava Vieira da Silva num dos seus quadros. A Canção "Somos Livres", também conhecida como "A Gaivota” é composta em 1974, interpretada pela atriz Ermelinda Duarte.
O tema celebra a liberdade,  e é considerado um dos mais populares após o derrube da ditadura e fim da censura. A  foi Canção escrita pela própria Ermelinda Duarte, com arranjos de José Cid, e pertencia à peça de teatro "Lisboa 72/74".
Até aos anos 80, Ermelinda Duarte participa em várias peças de teatro, e ainda grava um single, em 1981, com duas marchas. Dedica-se então ao teatro infantil, e à dobragem de desenhos animados. 
Depois do 25 de Abril, a canção “somos livres” torna-se um símbolo para as gerações que cresceram nos anos 70 e 80. 

26 de abril de 2024

Canções de Abril #26

 

A marcha militar que precedia os comunicados do MFA entrou rapidamente no ouvido das pessoas por ser uma melodia alegre, cheia de energia e de fácil memorização. É uma adaptação de uma marcha militar inglesa, intitulada “A Life on the Ocean Wave”, do pianista inglês Henry Russel (1812-1900), a que José Niza agregou, sem grande sucesso, uma letra designada “Desta vez é que é de Vez”.

Na verdade, o que ficou mesmo no ouvido foi a bela marcha, por encarnar o pujante sentimento de libertação. Uma verdadeira música da Revolução.

25 de abril de 2024

Canções de Abril #25

 


No dia 25 de Abril de 1974, quando passavam pouco mais de 20 minutos do 'dia inicial, inteiro e limpo',  os passos de Francisco Fanhais (gravados em França, no exterior do castelo de Herouville) ecoaram no éter.  O Movimento das Forças Armadas (MFA) escolheu a Rádio Renascença para a transmissão da senha de confirmação da operação militar contra o regime. Ao microfone, o locutor Leite de Vasconcelos, autor do programa "Limite", anunciava primeiro os versos:

Grândola, vila morena

terra da fraternidade

o povo é quem mais ordena

dentro de ti, oh cidade 

Nessa noite, a  rádio divulgou duas senhas: a primeira era “E depois do adeus”, de Paulo de Carvalho, transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa. A segunda seria a música de José Afonso, que a Rádio Renascença tocou. O primeiro sinal destinava-se a preparar as tropas para a saída, e o segundo ao início das operações. 

A canção foi composta em 1971, depois de uma visita de Zeca Afonso à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense de Grândola, no Alentejo. A canção integrou o álbum Cantigas do Maio, dirigido por José Mário Branco, em França.

Há 50 anos, a cantiga era uma arma e a revolução estava na rua.

Viva o 25 de abril. Viva a liberdade!

23 de abril de 2024

Canções de Abril #24



A 8 de março de 1974, Paulo de Carvalho ganha o Festival da Canção com “E Depois do Adeus”, uma canção romântica com música de José Calvário e letra de José Niza. A canção ficará em penúltimo lugar no Festival da Eurovisão, mas ficará para História por outros motivos.

Sete semanas depois é escolhida para 1.ª senha do Golpe de Estado, transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa, às 22h55 de 24 de abril, por ser uma canção conhecida e sem conteúdo político, servindo, assim, para dar o sinal de alerta e prontidão sem levantar suspeitas, podendo o golpe ser cancelado se os líderes militares concluíssem que não estavam reunidas as condições para avançar. Não foi o caso. 

A bela canção de amor cumpriu a sua missão.

Intervenções da “oposição” na reunião da “junta” (II)

As intervenções da dita oposição na reunião da “junta”, ontem, roçaram a indigência mental. É difícil dizer qual dos dois esteve pior. Na nulidade não há distinção.  



O dotor Luís, na ausência de melhor assunto, agarrou-se a uma discreta indirecta do dotor Pimpão sobre um assunto do PS, falta de médicos, para retorquir não ao assunto em si, mas para expressar azedume pela suposta limitação da liberdade de expressão manifestada pelo dotor Pimpão. E perguntou pelo estado de uma rotunda prometida. Não vem mal nenhum ao mundo que o dotor Simões não saiba distinguir liberdade de expressão de direito ao contraditório e à crítica – expressão maior da liberdade expressão. Mas é um ultraje à política que um político os perverta. 

A doutora Odete quis conhecer o orçamento das próximas festas do bodo. Falou da coisa com a dotora Gina como duas adolescentes falariam no intervalo para recreio. Pelo que se ouviu (e tem ouvido) nem uma nem outra tem noção nenhuma do que é e para que serve um orçamento. 

Qualquer pessoa com dois neurónios a funcionar, que oiça aquilo, percebe que o dotor Simões não tem noção nenhuma do que é e de como se faz política. E a dotora Odete é um caso ainda pior: em duas décadas de actividade política não aprendeu nada.

Ao pé destes imberbes políticos o dotor Pimpão até parece político. Como gosta muito de festas e eventos e detesta actividades executivas, poderia entregar as reuniões da “junta” à dotora Gina. Ou dispensar, sem perda de senha, os vereadores da oposição; evitando-lhes, assim, a sistemática má-figura. 

Intervenções da "oposição" na reunião da "junta"

 


Canções de Abril #23

 


A 24 de fevereiro de 1969, Simone de Oliveira ganhava o Festival com uma canção que fintou a censura. Versos como "quem faz um filho fá-lo por gosto" foram ouvidos demasiado tarde pelos guardiões da moral e dos bons costumes. A Desfolhada, poema de José Carlos Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, chegaria à Eurovisão com todos os holofotes apontados. De melodia revigorante e lirismo aglutinador, era considerada a melhor letra pelos jornais estrangeiros”. Mas esbarrou num assumido europeísmo anti-Portugal, numa altura em que a guerra em África ia longa e sangrenta.
Na vasta carreira de Simone, a Desfolhada haveria de tornar-se um símbolo, também pelo facto de coroar a maior finta à censura, ombreando apenas com a Tourada, de Fernando Tordo, em 1973. 
Em 1968, um tema de Zeca Afonso tinha sido afastado da competição, o que aliás se tornaria prática recorrente para um leque de artistas incómodos. O título da canção de Zeca Afonso era tão só "Vejam Bem".

Poucos saberão que esta canção não foi escrita para Simone de Oliveira, mas para Elisa Lisboa, uma jovem atriz do Teatro Experimental de Cascais. A poucos dias do  festival, Elisa desistiu, apresentando razões pessoais e um atestado médico, com diagnóstico de 'laringotraqueíte'. E assim se chamou Simone de Oliveira. Depois de vencer o festival, partiu da estação de Santa Apolónia, em Lisboa, em direcção a Madrid, pela rota ferroviária de duas ditaduras, alimentando grandes expetativas.  Ao longo do percurso, milhares de pessoas acenavam, exibindo cartazes de apoio.
Mas o  enorme sucesso da "Desfolhada" em Portugal não teve o mesmo resultado no Teatro Real de Madrid, palco do Festival Eurovisão de 1969. A canção seria atirada para um penúltimo lugar, apenas com quatro pontos. Para o público nacional, de pouco importou: Simone foi recebida em apoteose, à chegada a Lisboa. Curiosamente, até o Estado Novo lavraria o seu desencanto por "tamanha injustiça à música nacional". Em protesto, Portugal não se faria representar no Festival Eurovisão da Canção do ano seguinte (1970).
A verdade é que, 55 anos volvidos, a canção ainda hoje anda nas bocas do povo.

22 de abril de 2024

Canções de Abril #22


O disco “Venham Mais Cinco” de José Afonso é uma obra prima. Gravado em 1973, todas as suas letras e músicas são da autoria de José Afonso, muitas delas escritas na prisão de Caxias. Os arranjos são de José Mário Branco e conta com a participação de músicos com origens e formações muito diversas. O tempo das baladas de Coimbra já tinha ficado, definitivamente, para trás. O que José Afonso propõe neste disco é de uma inovação e genialidade raramente vistas no Portugal de então.

O tema que dá nome ao álbum foi a primeira escolha do Capitão Santos Coelho para senha do 25 de Abril. Acontece que, já com tudo preparado, descobriu-se que essa música estava proibida pela Rádio Renascença, tendo a escolha alternativa recaído sobre "Grândola, Vila Morena". O resto é história.
 
"Venham Mais Cinco" é uma música icónica do trabalho de José Afonso. Ela expressa, de forma clara, a opção estética do autor, ao recorrer a ritmos de inspiração africana numa música de raiz portuguesa. A letra era, obviamente, muito incómoda para o regime fascista. Aparentemente, o poema refere-se a um conjunto de amigos que pedem mais cinco copos numa taberna. Acontece que, nesse ano, tinham passado cinco anos do início da "Primavera Marcelista", que prometia alterações políticas que nunca chegaram a acontecer. O famoso refrão - “Não me obriguem a vir para a rua gritar, que é já tempo d'embalar a trouxa e zarpar” - era um apelo claro à urgência revolta e um convite ao ditador para partir, o que viria a acontecer quatro meses depois, aquando do golpe militar de 25 de Abril de 1974.  
 
A versão de Ildo Lobo para "Os Tubarões", gravada no memorável concerto "Os Filhos da Madrugada", a 30 de Junho de 1994, no Estádio de Alvalade, constitui uma belíssima homenagem à obra de José Afonso e à vontade que o artista sempre manifestou de colocar em diálogo ritmos africanos e portugueses. É também uma oportunidade para lembrar os cantores africanos que tiverem um papel importante no combate à ditadura, como Ildo Lobo, Ruy Mingas, entre muitos outros.

21 de abril de 2024

Canções de Abril #21


“As Balas” é uma bela e tocante balada de Adriano Correia de Oliveira, com letra de Manuel da Fonseca e arranjos e direcção musical de Fausto Bordalo Dias, do álbum ”Que nunca mais”, de 1975.

A canção tem tanto de magistral como de fraca divulgação. Aborda coisas simples e naturais da vida, colocando-as em contraste com a desgraça da guerra e da morte que marcaram a sociedade portuguesa (e das colónias) durante década e meia - mensagem bem vincada no refrão “As balas deram sangue derramado”.

20 de abril de 2024

Canções de Abril #20

 



Um poema de Sophia de Melo Breyner ganhou vida na voz do então padre Francisco Fanhais, integrando o único álbum que gravou: “Canções da Cidade Nova”, publicado em 1970 com o selo do programa Zip-Zip, da RTP.

Um ano antes, saíra o primeiro registo de Fanhais, um EP editado pela Orfeu com músicas suas a partir de poemas de Sebastião da Gama ou de João Apolinário e ainda um texto bíblico musicado por Pedro Lobo Antunes.

 

Em 1971, impedido de exercer o sacerdócio, Fanhais parte para França, onde participa nesse ano nas gravações do álbum “Cantigas do Maio”, de José Afonso. São também seus os passos que ouvimos em “Grândola, Vila Morena”, captados no exterior dos estúdios do Castelo de Hérouville, onde Zeca grava esse que era já o seu quinto álbum de estúdio. Fora algumas colaborações posteriores, desde logo ao lado de Zeca,  Francisco Fanhais não mais voltaria a gravar em nome próprio. Através da música tornou-se uma das mais ativas vozes dos chamados católicos progressistas que combateram a ditadura de Salazar.

19 de abril de 2024

PS - casa desgraçada, casa gozada

O PS1 e o PS2 finalmente juntaram-se. Para quê, perguntará o caro leitor? Para a diversão, para irem passear em Bruxelas.



A diversão é sempre uma boa ocupação, quando se pode fazê-la. Mas quando se faz a expensas de outros exige-se alguma parcimónia e algum decoro. Coisas que camaradas com aspirações burguesas ignoram e dispensam; porque o que verdadeiramente lhes interessa é aproveitar as mordomias concedidas pelo regime. A coisa tolerava-se, até por caído em rotina, se não tivessem o desplante parodiar o Zé e a Maria – os pagantes da coisa. Mas o que é se pode fazer, há muito que o juízo abandonou aquela casa.

Quando era alvo de interpelações chochas, D. Diogo costumava dizer, com desagrado e até algum desgosto, que a oposição não trabalhava, não pensava, era preguiçosa. Mal nem ele sabia (ou sabia!) que o pior estava a caminho: actualmente ninguém trabalha, e ninguém pensa, tanto na oposição como no poder (apesar de este ser pago para tal).

Os desvarios conduzem sempre à desgraça. Esta espécie de oposição já é uma desgraça. Mas terá vida curta. Falta pouco para o Zé e a Maria dizerem chega. É a vida!

Há vidas piores. Pois há…! 

Canções de Abril #19

 


“O que Faz Falta” é uma canção do álbum Coro dos Tribunais, com temas compostos antes do 25 Abril mas gravado no final de 1974, em Londres, já sem o aval da censura prévia. Todo o álbum corresponde a uma forte linha de intervenção e de desencanto em relação às falsas ilusões geradas pela designada primavera marcelista.

O Zeca gostava muito desta canção (mais do que do Grândola, que pelas razões conhecidas e desconhecidas se tornou celebre), talvez pela forte mensagem de mobilização popular que ela encerra. Interpretou-a pela primeira vez, antes da revolução do 25 de Abril, para um grupo de trabalhadores que se encontravam em protesto contra o lock-out promovido pelo patrão de uma fábrica. E, segundo José Jorge Letria, teria gostado de fechar o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa, a 29 de Março de 74, no Coliseu dos Recreios, onde esteve toda a geração de músicos de intervenção, com “O Que Faz Falta” ou “Venham mais Cinco” se a censura não as tivesse retalhado e cortado aos pedaços. Acabou por escolher o “Grândola Vila Morena”, que foi cantada em coro por todos os músicos e pelo público.   

Naquela época como agora,

“O que faz falta é avisar a malta

O que faz falta

O que faz falta é dar poder a malta

O que faz falta”.

18 de abril de 2024

Canções de Abril #18

Em 1971 foram publicados cinco dos mais importantes álbuns da música portuguesa: “Cantigas do Maio”, de José Afonso, “Os Sobreviventes”, de Sérgio Godinho, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades,” de José Mário Branco, gravados em França, e “Gente de Aqui e de Agora”, de Adriano Correia de Oliveira e “Movimento Perpétuo”, de Carlos Paredes, gravados em Portugal. Uma verdadeira revolução no panorama musical português. Para além disso, 1971 foi também o ano do primeiro Festival de Jazz de Cascais e do Festival de Vilar de Mouros. O ambiente era propício ao florescimento de ideias de mudança.

Por estratégia comercial da editora Sassetti, o álbum de Sérgio Godinho foi apenas lançado em 1972, evitando competir com trabalho de José Mário Branco (da mesma editora). O sucesso de “Os Sobreviventes” foi imediato, recebendo o Prémio da Imprensa, em 1972, e o Prémio Bordalo, entregue pela Casa da Imprensa, em 1973. “Que força é essa?”, a canção de abertura, é um apelo à consciencialização e à revolta dos trabalhadores injustiçados. Inspirado na situação dos emigrantes portugueses em França, Sérgio Godinho dirigia sua mensagem aos que viviam em Portugal sob o domínio da ditadura, enfrentando condições de trabalho mais adversas e com menos direitos laborais. O disco foi proibido pela Censura três dias após o lançamento.

Mais de cinquenta anos depois, esta música permanece como o hino dos que se recusam a aceitar as injustiças e se insurgem contra a submissão à ordem de obedecer e calar. A prova está nesta versão dos Clã, Filipe Sambado e Cláudia Pascoal, apresentada no Festival da Canção de 2021.

17 de abril de 2024

Canções de Abril #17

 


Pedra Filosofal, porventura por ser a mais ternurenta das canções de intervenção, tornou-se rapidamente uma espécie de hino de resistência contra a ditadura. Manuel Freire aproveitou a musicalidade do poema com o mesmo nome, de António Gedeão, publicado no livro Movimento Perpétuo, em 1956, para criar, em 1970, uma canção que entrou definitivamente na memória auditiva das pessoas e o catapultou para a fama depois da sua participação no popular programa de variedades Zip-Zip. 

O poema de António Gedeão é uma ode ao sonho como força de transformação pessoal e da realidade. A repetição dos versos 

“Eles não sabem nem sonham 
Que o sonho comanda a vida.”

reforça a ideia de que muitos não reconhecem o poder dos sonhos. No entanto, a música celebra aqueles que compreendem 

“que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança, 
como bola colorida 
entre as mãos de uma criança”.

Os ditadores não gostam de sonhos, mas para desgosto seu não os conseguem proibir. Manuel Freire, com a sua voz profunda e timbrada, acompanhado pela melódica sonoridade da viola, deu corpo e força ao sonho de mudança - coloco-o na mente das pessoas. 

16 de abril de 2024

Canções de Abril #16


 

“Trova do Vento que Passa”, de 1963, é uma “balada”, mais no género “trova”, de António de Portugal com poema de Manuel Alegre, celebrizada na voz de Adriano Correia de Oliveira. 

A canção rompe com o romantismo e o lirismo associado ao fado de Coimbra ao privilegiar o conteúdo poético em detrimento da instrumentação e ao versar a luta contra a ditadura e contra a guerra. Tornou-se rapidamente a primeira canção de clara contestação ao regime e uma espécie de hino da resistência estudantil, nomeadamente em Coimbra. Foi pela primeira vez apresentada ao público na festa de recepção aos primeiro-anistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, realizada no Hospital de Santa Maria. Nesse concerto, Adriano Correia de Oliveira é acompanhado por Rui Pato, José Afonso e António Portugal, cantando o tema que segundo Manuel Reis, autor do livro “Adriano Presente”, teve de ser repetido seis vezes, após o qual os estudantes saíram para a rua a cantar em coro.

O poema reflecte a condição de isolamento e resignação de quem era obrigado a emigrar, terminando com uma nota de indignação face a essa condição. A quadra final 

“Mesmo na noite mais triste 

em tempo de servidão 

há sempre alguém que resiste 

há sempre alguém que diz não”

tornou-se a mais evocativa. Manuel Alegre afirmou que se inspirou num episódio revoltante quando viu Adriano Correia de Oliveira a ser perseguido por agentes da PIDE.

Numa entrevista concedida em 1980, Adriano Correia de Oliveira afirmou que “Foi a partir do acolhimento de uma canção como a “Trova do Vento que Passa” que comecei a sentir o verdadeiro gosto por cantar, por fazer música e, sobretudo, por sentir que estava ao lado do justo, do lado antifascista”.

Uma canção imperdível para reviver e comemorar Abril.


15 de abril de 2024

Comemorar Abril - o corriqueiro não engrandece

O dotor Pimpão - a “junta” - decidiu atribuir a medalha de honra do município ao capitão Salgueiro Maia, a título póstumo. 

Quando se comemora os 50 Anos da Revolução de Abril de 74 - iniciada com o Golpe do MFA - todas as homenagens aos “capitães” de Abril são justificáveis e merecidas. Mas existindo tanto capitão de Abril ainda vivo, a merecer um gesto de gratidão, porquê a repetida insistência na homenagem ao Salgueiro Maia? 



Convém recordar, para que tudo não seja ainda mais desvirtuado, que o Golpe Militar de Abril de 74 não foi um golpe conduzido por um militar aureolado, como foi, por exemplo, o Golpe de Maio de 1926, protagonizado pelo general Gomes da Costa; foi um golpe planeado e conduzido por um vasto conjunto de oficiais intermédios (capitães, majores e tenentes-coronéis), com liderança partilhada (Operacional; Estratégico-política e Comunicação), onde uns tiveram papel liderante e/ou relevante, e outros papel operacional e/ou secundário.

Cumprir Abril 74, nomeadamente quando se comemora oficialmente a data, deveria compelir os decisores políticos a respeitarem o espírito do momento e o papel dos diferentes protagonistas, não engalanando uns ignorando outros. Reparando, por exemplo, a profunda ingratidão do país com Melo Antunes. Mais isso talvez seja pedir muito… 

É verdade que para muitos Salgueiro Maia é herói do golpe - o herói romântico. O que se compreende: foi o elemento mais mediatizado e foi protagonista de um momento crítico que o fez passar de mártir a “herói” num ápice - por acções e razões que pouco dependeram dele. Mas não foi o herói nem elemento decisivo do golpe, nem poderia sê-lo… Por circunstâncias várias, Pombal adoptou-o como o seu herói de Abril (assinalando uma ligação à terra que não existiu) para tornar corriqueiro homenageá-lo. Mas o corriqueiro não engrandece os distintos, só dá protagonismo ao culto do inerte.

Canções de Abril #15

 

No dia 6 de Maio de 1975, um ano depois da revolução, uma mulher fez parar o trânsito no cruzamento da avenida Miguel Bombarda com a 5 de Outubro. Chamava-se Teresa Torga, tinha 41 anos, fora corista e atriz do teatro de revista. Mas os ventos de liberdade e criação que sopravam no país não a arrastaram para o sucesso. Atirada para uma depressão, saiu para a rua despida.

 

“No centro a da Avenida

no cruzamento da rua

Às quatro em ponto perdida

Dançava uma mulher nua”

 

Por ali passava o repórter fotográfico António Capela, que registou todo o episódio: "Que aproveitando a barbuda/ Só pensa em fotografá-a/ Mulher na democracia não é biombo de sala".

O caso foi notícia nos diários da capital. E Zeca Afonso imortalizou-o, contando ao detalhe toda a história de Teresa Torga, num registo ímpar de humanidade. Há uma versão imperdível de Lúcia Moniz e Diogo Leite, em 2017, numa homenagem da Sociedade Portuguesa de Autores a Zeca Afonso. E nestes 50 anos do 25 de Abril, Mariza LiZ e Júlio Pereira oferecem-nos uma nova interpretação. 

14 de abril de 2024

Canções de Abril #14

 

 José Barata Moura ficou mais conhecido pela sua produção discográfica infantil do que como cantor de intervenção. O maior sucesso deste cantautor (que também é filósofo e professor catedrático) foi mesmo o "Fungagá da Bicharada", embora do seu trabalho se tenha destacado, logo em 1970, a canção "Olha a Bola, Manel".

Mas houve muitas outras músicas na obra de José Barata Moura, e sobretudo canções de intervenção e de combate ao regime. Exilado em França, Barata Moura gravou inicialmente em francês, também em 1970, o EP "Bidonville". Ainda antes do 25 de Abril grava em português.

O álbum "Caridadezinha" foi editado em 1973, com 12 canções. "Vamos Brincar à Caridadezinha" revelava-se uma crítica mordaz aos que praticavam, à época, a caridadezinha, num país profundamente desigual. 

13 de abril de 2024

Farpa Oferecida – Poema ao 25 de Abril de 1974


            De Rodrigues Marques - comentador proscrito, mas seguidor e leitor assíduo. 

            Cumprir Abril