Entre 1999 e 2008 vivi mais tempo no centro histórico de Pombal do que na minha rua. Já então se anunciava um certo declínio daquelas artérias, mas ainda abriam alguns negócios, dando continuidade a uma época em que o comércio - e serviços - passavam por ali.
Quando Narciso Mota apostou tudo no parque subterrâneo e empedrou por completo a Praça Marquês de Pombal, despindo-a de árvores, só se aproveitou a retirada dos carros. Na altura, que havia jornais e crítica, que ainda não estávamos tomados por esta unanimidade bacoca, por esta letargia (sim, nós tivemos uma Associação de Defesa do Património Cultural, por exemplo) muito se desancou naquelas obras. Viriam outras piores, quando se substituiu a calçada das ruas por estas lajes, por exemplo.
Cometeram-se muitos erros no centro histórico, nos últimos 30 anos - que afastaram dali as pessoas, os habitantes e o comércio. Não mais me esquecerei do dia em que, tão contentes por estarmos a ocupar um espaço numa zona nobre e promissora (as zonas históricas despontavam para a animação, por todo o país) instalando ali a redacção do d’O Eco, entretanto renascido, vim à rua perceber que placa era aquela que uns trabalhadores da Câmara estavam a colocar na Igreja do Carmo.
Era a nova casa mortuária.
Poucos anos antes, o então vereador da Cultura, Gentil Guedes, redescobrira a praça. Foi ali que os Silence4 deram um memorável concerto. Era ali que ele sonhava esplanadas e bares.
Ainda hoje, nos espectáculos do festival Sete Sois Sete Luas, não há quem não se impressione com a acústica daquela praça.
Nesse tempo já tinham fechado bares como o Missa das 9 ou o Palumbar, ou a hamburgueria no primeiro andar da rua Miguel Bombarda, de cujo nome não me lembro. Mas aquela viragem de década trazia um novo alento: o jornal, no Largo do Carmo, o Projecto Jazz (antigo bar do Cais), na Rua do Cais, a cafetaria da K de Livro, a livraria que ficou na memória colectiva, junto àPraça. Permanecia o sapateiro, a mercearia da Natália, e as históricas lojas como a sapataria Mónaco ou a Pereira, a da Singer, a do Cacho, a Ourivesaria e Óptica Ramos, entre outras. A porta sempre aberta do senhor João das Farturas, o senhor António Serrano à varanda (que dor aquilo que os novos donos fizeram à casa, transformando-a em apartamentos), a D. Natália a puxar pelo carrinho de compras com todos os ingredientes para os rissóis, o cheiro aos ‘russos’ da D. Clotilde. E ainda os serviços do IEFP, a Junta de Freguesia, mas também o primeiro franchising de roupa de criança, onde mais tarde se instalou o único negócio que resta do programa Porta Aberta: a Mercearia da Praça. O Celeiro do Marquês (então chamado Centro Cultural, onde até funcionou uma delegação do Instituto Português de Arqueologia), a cadeia a virar museu, nesse patológico fascínio pelo Marquês. Menos mal, ainda assim.
Não foi por falta de dinheiro que o Centro Histórico definhou. A Câmara comprou edifícios, fez obras, gastou, como é hábito, mundos e fundos. Foi mesmo por falta de estratégia, de uma ideia, de um pensamento para aquela zona - e para a terra. Depois de Narciso veio Diogo, e depois dele veio Pimpão. Ninguém foi capaz de virar o jogo.
A presidente da Junta de Freguesia, Carla Longo, sabe disso. Vai-se esforçando para fazer ali alguma coisa, mas tem consciência de que os eventos esporádicos (como a comemoração do Dia Nacional dos Centros Históricos, no fim de semana passado) mais não são do que um penso rápido para tapar uma doença crónica. Na tertúlia que organizou, ao final do dia de quinta-feira, para debater o assunto, ficou bem patente uma parte do problema: a crónica falta de interesse e participação do público, que explica a inexistência de uma sociedade civil em Pombal, e o desfasamento da realidade por parte dos dirigentes associativos. Quando o presidente da Associação de Comerciantes ainda acha, em 2025, que a falta de pessoas se resolvia com uma loja da Zara ou um MC Donald...estamos conversados.
Mas o que é verdadeiramente triste é a falta de horizonte. A poucos meses das eleições autárquicas, o debate não suscitou interesse nem para a classe política que quer ocupar cargos públicos. Assim como não põem os pés em qualquer iniciativa que ali aconteça, a não ser os do poder, que são “obrigados”, para discursar ou entregar lembranças.
Enquanto acharmos que está tudo bem, que somos os maiores (e os melhores!), com medo de encarar a realidade de frente, não passaremos do concelho que consegue ombrear com os do interior profundo na perda de população. As lojas continuarão a deixar as ruas da zona histórica, afunilando a cidade até ao Cardal, fugindo para a avenida, correndo atrás de quem ainda passa. De porta fechada ao sábado e domingo, mesmo que seja um fim de semana de eventos, como era o último.
E sem pessoas, nem massa crítica, seremos cada vez mais a terra de passagem.