- Dai-me licença, Excelência – pediu o Pança; e acrescentou, com invulgar cortesia: - mui agradecido por me receber, e por me conceder um pouco do vosso precioso tempo.
- Que queredes? Dizei-o rápido – ordenou o Príncipe.
- Venho endereçar-vos um modesto convite. Mas antes que Vossa Mercê mo relembre, confesso o meu profundo desgosto pelos nossos recentes desencontros. Mas queira acreditar-me: em nada a diminuíram a estima e consideração que este sempre fiel escudeiro continuará a ter pelo Senhor.
- Adiantai, Pança, que nesta fase da minha vida dispenso esses colóquios – observou o Príncipe já meio agastado.
- Que assim seja…. Vossemecê já deve saber que vou apresentar o meu livro, onde narro as minhas façanhas contra a tempestade – anunciou o Pança.
- Como…?! Repete-me, Pança, escreveste um livro? Mas vós não sabeis escrever! – Retorquiu o Príncipe, deveras surpreso.
- Mas quem disse a Vossa Excelência que é preciso saber escrever para fazer um livro?! – Perguntou o Pança agastado. E logo acrescentou: - que eu saiba, para se fazer um livro, um livro que as pessoas leiam com gosto, só é preciso ter uma boa história na cabeça e saber narrá-la ao escriba, que isso de desenhar letras e palavras e de colocar as vírgulas e os pontos nos locais devidos, é coisa que qualquer escriba faz.
- Para que te metes tu nessas andanças, Pança?
- Para quê? Meto-me, porque me posso meter, porque sou um escudeiro que aprendeu e tomou o gosto das artes do poder e quer deixar rasto – afiançou o Pança, determinado.
- Continuais igual, Pança, com pouco siso e muita vaidade.
- Ouça vossemecê — proferiu o Pança: isto da governação não pode ser só dar ao cabedal e fazer obra. Como o Senhor bem sabe, se não a registarmos em livro as nossas conquistas todas as esquecem, e uma pessoa passa a esquecido. Pratiquei tamanhas façanhas que não poderia deixá-las em silêncio.
- E quem escolhestes para escrever essas tuas façanhas? – Perguntou o Príncipe.
- Um Senhor das Letras… Mas não um poeta, que canta as coisas não como foram, mas como deviam ser; mas sim um historiador, para escrevê-las, não como deviam ser, mas como foram, sem acrescentar nem tirar à verdade a mínima coisa – afiançou o Pança com orgulho.
- Mas quem? Dize-me… - insistiu o Príncipe.
- É segredo até à apresentação, mas ao Senhor digo: a mais ilustre figura das Letras do Reino - bacharel Sanção Carrasco.
- Muito bem… E que reacções tendes tido ao manuscrito? – Perguntou o Príncipe, curioso.
- O bacharel Carrasco considerou a história grandiloquente, magnífica, mui sentida e verdadeira. Narrei-lha com esta voz de trovão e de tambor; mas também o avisei: não ponha a troche e moche quanto me vem à cabeça, mas só o que é o mais saboroso e menos prejudicial ao entretenimento.
- E das pessoas que já o leram? – insistiu o Príncipe.
- Dizem que é uma história mui clara e divertida, que não oferece dificuldades, onde se não encontra nem por sombras uma palavra desonesta, ou um pensamento menos católico. E acredite-me, meu Amo e farol, muito ficou por dizer de mim.
- Jeito para a gabarolice não te falta, Pança – sentenciou o Príncipe.
- Mas dizei-me: posso contar com Vossa Excelência na apresentação? – Perguntou, inquieto, o Pança.
- Vou pensar… Tenho de pensar se tão modesto cerimonial justifica a quebra do meu afastamento.
- Até à vista.
- Deus vos guarde.
Miguel Saavedra
(Ficção)

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