23 de julho de 2026

Estará o castelo a ruir?

 



A política tem uma característica curiosa: por vezes, a perceção torna-se tão importante como a própria realidade. 

Até podem os números contar uma história, mas aquilo que os cidadãos veem, vivem e sentem todos os dias, conta outra.

Quando era diretor nacional da Polícia Judiciária, o actual ministro da Administração Interna chamava frequentemente a atenção para a diferença entre a criminalidade real e a perceção de insegurança. Agora, enquanto ministro, confronta-se precisamente com o outro lado dessa realidade. 

Quando se acumulam acontecimentos, polémicas ou falhas na resposta pública, a perceção deixa de ser apenas uma opinião e passa a influenciar a confiança dos cidadãos.

Em Pombal parece estar a acontecer algo semelhante. Não está em causa a capacidade do nosso tecido empresarial, a solidez financeira do Município ou o enorme potencial do concelho, que são evidências difíceis de rebater. O que parece estar a mudar é a forma como muitos pombalenses olham para a sua terra.

As críticas já não se centram num episódio isolado como 20 anos à espera de um IC2 e repetem-se em áreas muito diferentes: passeios degradados, espaço público menos cuidado, falta de manutenção, higiene urbana e recolha de resíduos frequentemente apontadas como insuficientes, restos da tempestade Kristin que continuam visíveis em caminhos e bermas, dúvidas sobre o futuro do Hospital Distrital, declínio do Mercado dos Agricultores, excesso de eventos quando comparado com o investimento na manutenção do património público e aquela sensação de que a comunicação institucional não representa a realidade do quotidiano.

Quando o discurso oficial insiste que tudo está bem, apesar dos problemas evidentes, deixa de haver debate político e passa a haver negação da realidade.

A democracia vive do confronto de ideias, não do confronto entre versões incompatíveis dos factos.

Será tudo verdade? Provavelmente não. Haverá exageros? Também. 

Mas seria um erro desvalorizar estes sinais apenas porque nem todas as críticas são totalmente justas. 

A confiança não se conquista com slogans, comunicados ou com a desvalorização sistemática das críticas, conquista-se quando os cidadãos veem problemas resolvidos. 

Mede-se pelos passeios onde caminhamos, pelos jardins que frequentamos, pela limpeza das ruas, pelos serviços públicos que conseguimos preservar e pela capacidade de responder, com eficácia, aos pequenos problemas que fazem parte da vida de todos.

Em democracia, é normal e faz parte do debate político haver divergências sobre prioridades, soluções ou interpretações. 

Outra coisa é quando se entra na negação de factos.

Se um passeio está degradado, está degradado.

Se uma árvore caiu e continua meses no chão, isso é verificável.

Se um mercado perde atividade, pode ser medido.

Se há lixo acumulado ou património degradado, qualquer um pode ver.

Depois podemos discutir porque aconteceu, quem é responsável ou qual a melhor solução,  mas negar que o problema existe é diferente de discutir o problema.

Depois da chapada de realidade que a Kristin nos deu, este é um bom momento para uma reflexão colectiva.

A quem governa exige-se humildade para reconhecer o que falta fazer, capacidade para definir prioridades e determinação para cuidar melhor do que já existe. 

À oposição exige-se muito mais do que crítica. Exige-se estudo, propostas, visão e a capacidade de convencer os cidadãos de que existe um caminho alternativo.

Porque talvez o maior problema político de Pombal nem seja quem governa. Uma democracia não se mede apenas pela força de quem vence eleições; mede-se também pela qualidade do debate, pela capacidade de escrutínio e pela existência de alternativas credíveis. 

Uma oposição forte não existe para bloquear quem governa, mas para obrigar quem governa a ser melhor.

Pombal sempre foi um concelho ambicioso e não pode acomodar-se à ideia de que o suficiente chega. Governar tem de ser muito mais do que inaugurar obras ou organizar eventos. Tem de garantir garantir que a cidade funciona todos os dias, que os equipamentos públicos têm vida e que os cidadãos sentem orgulho no lugar onde vivem.

Ainda vamos a tempo de corrigir o rumo, mas a política não devia exigir que escolhêssemos entre a lealdade e a realidade, até porque os concelhos não ficam para trás de um dia para o outro...

Emanuel Rocha

(farpa convidada)

2 comentários:

  1. Concordo inteiramente com o conteúdo do texto. O grande problema de Pombal é que desde 1993 foi-se construindo um polvo em que os seus tentáculos controlam tudo o que mexe em Pombal. A oposição tem tido muitas dificuldades em progredir, porque esse polvo controla nas Freguesias tudo o que é elemento válido. Conheço muitos manifestamente Socialistas que recusam ir nas listas do PS e depois vão nas listas do PSD, só porque lhe foi prometido umas obras lá para a terrinha e uns subsidios para a Associação onde joga cartas e convive com os amigos ao Domingo.

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    1. Curiosa teoria: quem oferece é o culpado; quem aceita é apenas figurante. Assim fica mais fácil explicar porque é que o PS nunca tem responsabilidade em nada.

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