30 de maio de 2023

E agora, PS?




Depois de um plenário de militantes que evidenciou o que já todos sabíamos, o presidente do PS/Pombal, Joel Gomes (Joelito, para os mais distraídos), percebeu finalmente que não tinha condições para se manter no cargo. Ontem à noite, numa reunião extraordinária da concelhia, anunciou a (in)evitável demissão em bloco do secretariado. Mas como insiste em agarrar-se ao partido como uma lapa (vá-se lá perceber porquê, sendo que não se lhe conhece interação social, muito menos política, com a terra), logo ali fez saber que cai para se levantar: recandidata-se, e desafia outros a fazer o mesmo. Estás um assomo de coragem, este rapaz. 

É chegada a hora de percebermos de que massa é feita a orla crítica de Joelito e seus/suas mentores/as. Se chegámos aqui na sequência da retirada de confiança política ao líder da bancada na AM, João Coelho, que publicamente veio dizer aos pombalenses que podem contar com ele, pois que não deixou de honrar o partido, muito menos os que o elegeram, está na altura de o mostrar. É uma obrigação moral e ética. Ou apoiar quem esteja disposto a dar a cara - e o peito às balas. Só assim nos podem convencer que ainda é possível ressuscitar o PS em Pombal. É essa "a nossa defesa", certo?

29 de maio de 2023

PSD a duas vozes

O PSD nacional retirou a confiança política ao deputado Joaquim Pinto Moreira, arguido na operação Vortex.



Mas por cá, o PSD mantém a confiança política no João Pimpão, presidente da Junta das Meirinhas, ACUSADO de peculato no exercício da função de Chefe de Gabinete do ex-presidente da câmara, Diogo Mateus, igualmente acusado de peculato e de falsificação de documentos. 

O presidente do PSD, Luís Montenegro, justificou a decisão – política - afirmando que "o PSD não se conforma, nem quer contribuir para a degradação da política”. Mas, por cá, ninguém lhe dá ouvidos. Por cá, quanto maior a degradação da política melhor… 

24 de maio de 2023

A propósito das Contas do Município de 2022

O problema das Contas do Município de 2022 não está no relatório - traduz bem a situação económico-financeira da câmara -, está no desempenho do executivo. A oposição centrou a discussão do documento nas baixas taxas de execução das GOP e do PPI (67%), mas o documento reflete bem o fraco desempenho do executivo e um concelho novamente adiado. A nota mandada publicar na página do município espelha bem a impreparação, leviandade e desfaçatez da classe dirigente.



A nota cita uns sound-bites, retirados com certeza de alguma intervenção mais inflamada do doutor Pimpão ou do doutor Antunes, como, por exemplo, uma “gestão séria, responsável e competente”, traduzida numa “posição financeira robusta” do Município, que apresenta uma “saúde financeira muito estável e recomendável”. Era difícil ser mais demagógico com tão poucas palavras, mas o doutor Pimpão conseguiu.

A câmara terminou o ano de 2022 com um Saldo Transitado de 17 milhões de euros! Este resultado não é proeza, é falhanço. Numa empresa privada seria, com certeza, um feito que mereceria reconhecimento; numa câmara municipal é um falhanço que deveria merecer forte reprovação, porque indicia incompetência e/ou irresponsabilidade/desleixo.

A esmagadora maioria dos politiqueiros que nos desgovernam e representam desconhece que os propósitos, o foco e o que se deve medir na gestão pública são diferentes dos da gestão privada. Na gestão privada o foco e os esforços estão predominantemente na receita; enquanto na gestão pública o foco e os esforços devem estar na despesa de investimento, até porque a receita está praticamente assegurada.

Assim, qualquer leigo que leia o Relatório de Gestão, ou simplesmente a nota síntese publicada na página do município, percebe que o doutor Pimpão & C.ª recebe demasiado dinheiro, e não é capaz de o aplicar. Os investimentos estruturantes não avançaram. Daí que as realizações do doutor Pimpão se limitem a arranjos, eventos e carradas de subsídios. O doutor Pimpão faz o que pode para se livrar do dinheiro, mas nem isso conseguiu! A básica oposição continua a discutir os méritos e os deméritos da gestão do município pelas taxas de execução – equações manipuláveis pelos dois lados (numerador e denominador). Como diz o povo, uma desgraça nunca vem só.

19 de maio de 2023

Eleições no Sporting de Pombal: do desinteresse colectivo à join-venture


 


De hoje a oito dias há eleições que vão ditar os próximos anos do Sporting Clube de Pombal. O futuro é outra coisa. 

É sabido que não somos dados a bairrismos e que o nosso sentimento de pertença se esvai numa estrofe do 'Ai meu Pombal', e por isso ninguém estranha que sejam meia dúzia os que vão bola ao domingo à tarde.

Acontece, porém, um fenómeno nos últimos anos. É uma espécie de quarto segredo de Fátima revelado em capítulos: as últimas vezes em que houve eleições aparecem rapazes cheios de vontade de as ganhar. E dali têm saltado para outras responsabilidades maiores, mesmo que o clube aparentemente não dedique grande importância ao trampolim. 

Ora, o que acontece desta vez está para além dessas ânsias. Há duas listas, com slogans irrepetíveis, e por isso os sócios são chamados a embarcar na evolução na continuidade (Continuar o Rumo Certo) ou partir para outra dimensão (Uma equipa sem igual). É esta última (e inovadora) proposta que propõe transformar o SCP numa coisa moderna, em registo SAD. Pois se somos uma smart city, destilamos felicidade  às colheradas e temos características de comunidade solidária...porque não havemos de dar esse passo? Isso de clube da vila é tão jurássico como as cadeiras do estádio. Vejo-me facilmente a assistir a um Cristina talks no municipal, apresentado pelo guru Pedro Roma e pela presidente da junta, Carla Longo, que decidiu marimbar-se para a independência e integrar uma das listas. É de mulher. Ou falta de noção, só. 

E anseio pelo tocante testemunho/apadrinhamento de Pedro Pimpão nas redes. Nada temas, Pedro. Isto é tudo vosso. 



16 de maio de 2023

Sai mais uma pimpalhada…

Vivemos um tempo em que toda a criatura quer ser a primeira de qualquer coisa. Nem que essa qualquer coisa seja coisa nenhuma.

Já tivemos o concurso do “Melhor Mascarado", e do “Melhor Acendedor de Isqueiros”, só para dar alguns exemplos dos mais aberrantes. Porque não ter, então, o “Concurso do Melhor Professor”, ou do “Melhor Contínuo", ou do “Melhor Cantoneiro”, ou do “Melhor Coveiro” – onde teríamos um fortíssimo candidato (o Coveiro-mor, de Albergaria, e outro em estágio acelerado, Pedro Pimpão).



Neste pátio de comédia, que é a política local, ficámos a saber que uma professora da ETAP é finalista do Global Teacher Prize Portugal. E que a “junta” logo aproveitou a coisa para um dia de festejos e bebedeira mediática. “Um dia feliz” e “um orgulho para toda a comunidade”, afirmou o doutor PimPão. Talvez seja. Para o doutor Pimpão e C.ª uma felicidade tola é, com certeza, preferível a uma infelicidade (realidade) consciente. 

Se os pais da Democracia e os arquitectos da Escola Pública vissem esta futilidade extrema e este regozijo público da mediocridade fartar-se-iam de dar voltas no túmulo. Que o doutor Pimpão e C.ª não façam nada, do mal o menos – não estragam -, mas não atrapalhem quem tem que trabalhar.   

12 de maio de 2023

PSD local sem coragem para mandar o Pimpão à fava

O PSD local reuniu, duas vezes, para tomar posição sobre a acusação de peculato, no exercício de funções políticas, feita pelo Ministério Publico, a João Pimpão e Diogo Mateus (também acusado de falsificação de docmentos). Mas, até agora, não saiu nada - nem vai sair! 



Numa terra onde (nos) falta gente capaz de espalhar lição e fundar exemplo não era no PSD local que a iríamos encontrar. Por ali vegetam, essencialmente, criaturas destras para saber distinguir o ético do legal - pimpões desta vida, mais dignos de desatenção que de aversão, à espera que tudo repouse e da sua oportunidade. Mas isto não vai repousar: no apodrecimento há fermentação.  

Nesta santa terrinha, os dirigentes partidários assistem e participam, complacentes e felizes, a esta repulsiva podridão, ao espectáculo baixo e degradante que os decisores públicos servem à comunidade. É verdade que ainda temos na política, e no PSD local, pessoas lúcidas e honestas, mas já sem o fulgor e o sentido de honra para dizer “basta”.  Assim, nesta cuspinheira onde já ninguém limpa, os pimpões desta vida gozam do pagode e ainda se vitimizam.  

Diogo Mateus e João Pimpão, em vez de sentirem vergonha e pedirem desculpa pelos actos que praticaram, procuram desvalorizar a acusação dizendo que é coisa pouca, mesmo sabendo que nós sabemos que o aproveitamento foi grande: que do fundo de maneio saíram dezenas de milhares de euros irregularmente; que as viagens particulares não foram só para o curso em Lisboa, foram centenas e centenas para todo o lado e para todo o tipo de prazeres; que a multa não foi só uma mas várias e sempre pagas pelo dobro, pelo município, por não identificarem o condutor do carro (do presidente) … Percebe-se  o alívio que ambos sentiram com a acusação - 1.467,75 € é bom "negócio" -, mas não se pode aceitar a desfaçatez pública.  

Bem pode D. Diogo dizer que está de consciência tranquila; se ainda a tem não pode estar. E a prova que não está, é ter-se remetido ao silêncio na fase de inquérito. Quem está de consciência limpa e tranquila esclarece todos os factos e todas as suspeitas na fase de inquérito e mata o processo. É isso que as pessoas verdadeiramente honestas fazem.         

O processo até pode não dar condenação. Mas, como diz o velho princípio romano, “Nem tudo o que é lícito é honesto”. Na Política, primeiro deve primar a Ética; e depois, nos casos aplicáveis, a Justiça. Em Pombal, é quase sempre ao contrário - fora de mão e em excesso de velocidade. 

11 de maio de 2023

Quem quer ficar com a Praia do Osso da Baleia?


 

No fim de semana passado o séquito municipal foi espalhar magia para o Carriço. O Pedro falou ao povo de milhões como quem fala de tostões, e o povo, que não é tolo, desconfiou de tanta esmola. 

Quando acabou  a jornada, o Pedro fez o que melhor sabe: usou o Facebook para comunicar tudo o que disse, viu e sentiu. Pelo meio daquele arrazoado, uma nota de rodapé que é demasiado importante para passar no registo enguia: A concessão da praia do Osso da Baleia a privados. Ao longo destas décadas em que a praia voltou à vida (e foi sucessivamente distinguida por uma associação ambientalista com a categoria de ouro), apenas numa ocasião foi entregue fora da Câmara, e tratou-se da Junta de Freguesia do Carriço, freguesia que tem a sorte de acolher a praia. A coisa não correu lá muito bem. 

É certo que, de acordo com o decreto-lei em vigor, "compete aos órgãos municipais, designadamente: concessionar, licenciar e autorizar infraestruturas, equipamentos, apoios de praia ou similares nas zonas balneares, bem como o fornecimento de bens e serviços e a prática de atividades desportivas e recreativas nas praias identificadas como águas balneares e criar, liquidar e cobrar as taxas e tarifas devidas pelo exercício destas competências". Mas não é suposto que sejam as mesmas a protagonizar esse apoio. Porém, em Pombal, onde (já se sabe) nem tudo é normal, a Câmara teve que voltar a assegurar este ano essa logística, pois que passou o prazo de concurso para terceiros. Por via das coisas, Pedro Pimpão anunciou já o concurso para... 2024. 

Com a época balnear à porta, também não temos notícias da praia do Urso (ou do Fausto, como lhe chamam os locais), na freguesia da Guia, cuja abertura ao lazer está prometida há anos. Estamos em crer que depois de tamanho investimento no [posto de] Turismo, isso deve estar tudo tratado, claro. 

2 de maio de 2023

Diogo Mateus acusado de vários crimes

Diogo Mateus foi acusado, pelo Ministério Público, na prática de: “um crime de peculato, em co-autoria com João Pimpão …; um crime de peculato de uso, em co-autoria com João Pimpão…; e um crime de falsificação de documento…”; crimes praticados no exercício do cargo de presidente da Câmara de Pombal; “encontrando-se, ainda, incurso nas penas acessórias de proibição de exercício de cargo político e de perda de mandato, bem como nas penas acessórias de proibição do exercício de função e de suspensão do exercício de função”.



No despacho de acusação, o Ministério Público (MP) conclui que “para execução do seu propósito, o arguido Luís Diogo Mateus conluiou-se com o arguido João Carlos dos Santos, que aderiu ao plano daquele e viabilizou, enquanto responsável pelo Fundo de Maneio do Gabinete de Apoio ao Presidente da Câmara Municipal de Pombal, o pagamento das despesas de deslocação do veículo, bem como de utilização da Via Verde em auto-estradas e parques de estacionamento por parte daquele, à custa do dinheiro do Município de Pombal”. O MP conclui que, tendo o veículo conduzido por Diogo Mateus sido controlado por radar em excesso de velocidade, na A1, ao quilómetro 4.1, em Loures, no dia em este esteve presente no curso que frequentava em Lisboa, a título particular, e tendo a ANSR notificado o município para proceder à identificação do condutor, “Sónia Pereira Casaleiro, Jurista, procedeu à elaboração da resposta a enviar à ANSR, de acordo com a informação que lhe foi prestada por Nuno Filipe Carrasqueira, segundo a qual não tinha sido possível proceder à identificação do condutor do veículo, uma vez que este, em termos excepcionais, também poderia ser conduzido por Vereadores, por motoristas afectos ao sector dos transportes, e funcionários do Gabinete de Apoio à Presidência, sendo que inexistia documento dos registos de condutores do mesmo”. Concluiu também que “elaborada a referida resposta a enviar à ANSR, esta foi remetida ao arguido Luís Diogo Mateus, na qualidade de Presidente da Câmara Municipal de Pombal para assinatura”, que “Diogo Mateus leu e entendeu o conteúdo da referida resposta”, “apesar de saber que tinha sido o próprio a conduzir o veículo com a matrícula 22-MH-02, no dia, hora e local constantes da notificação da ANSR e que da resposta deveria constar a sua própria identificação e não a informação de que o condutor era desconhecido”; e que “o arguido assinou a mesma, na qualidade de Presidente da Câmara Municipal de Pombal, para fosse posteriormente enviada à ANSR e assim não ser responsabilizado pela prática da infracção estradal que cometera”.

A acusação minimalista veio confirmar aquilo que o Farpas já tinha divulgado e os mais atentos à coisa pública já tinham percebido: o uso e abuso dos cargos políticos para benefício particular, prejudicando o erário público. Dela consta unicamente as despesas indevidas descontadas no fundo de maneio referentes às deslocações de Diogo Mateus ao curso em Lisboa e a falsificação de documento para ocultar identidade do condutor do veículo multado por excesso de velocidade. O MP deixou cair as centenas e centenas de viagens injustificáveis que o veículo atribuído a Diogo Mateus fez fora de horas e os milhares de euros descontados no fundo maneio sem a devida fundamentação e contra todas as regras do controlo dos dinheiros públicos.   Deixou também cair as outras (muitas) multas por excesso de velocidade do veículo atribuído a Diogo Mateus.

Consequentemente, Diogo Mateus e João Pimpão foram o acusados de vários crimes, cometidos no exercício de cargo político. Todavia, vários políticos e dirigentes safaram-se da acusação do crime de falsificação de documentos… Mas não se safam da vergonha pública.

1 de maio de 2023

Sai mais um subsídio para as Meirinhas…

A câmara – a “junta” – está transformada num distribuidor de subsídios: é fácil (não dá trabalho) e compra vontades. O João Pimpão sabe mamar à conta - usa aquilo como fundo de maneio – fez “escola” na agilização dos fundos de maneio. Está-se nas tintas para os procedimentos e para a lei: saca o que quer e como quer. 

Há Pimpão!


30 de abril de 2023

APRAP – a subsídio-dependência extrema

No ano passado, o doutor Pimpão deu um subsídio à APRAP – Associação de Pensionistas Reformados e Aposentados Pombal para esta pagar as dívidas!

Na reunião da “junta” da passada semana, o doutor Pimpão fez aprovar um subsídio, camuflado na forma de protocolo, para a APRAP contratar um(a) administrativo(a).


O subsídio-dependência já chegou a este ponto - a este descaramento. É altura de chamar a "polícia". 

28 de abril de 2023

Os elefantes na sala

A reunião da Assembleia Municipal, de ontem, teve dois elefantes na sala. Um frágil, enfraquecido e envergonhado; outro bufão, convencido e desavergonhado. Como a política é uma selva, ganhou o elefante selvagem e perdeu, por KO, o elefante enfraquecido. Na luta entre elefantes ganha sempre o mais forte. Mas se naquela “selva” política estivessem verdadeiros políticos teria perdido o elefante bufão. Mas a história é como é e não como deveria ser.

Os animais selvagens sabem pisar o terreno - a sua sobrevivência depende da forma como o pisam. Os elefantes (ou os leões) conhecem e têm consciência do seu destino depois da derrota. Os humanos nem por isso.

PS: O árbitro, isento e rigoroso, ainda procurou equilibrar a refrega removendo as armadilhas e os truques baixos da maioria, mas o destino estava definitivamente traçado depois da péssima escolha do terreno de combate e da enorme desproporção de forças.


27 de abril de 2023

Renuncia João

João Pimpão, presidente da junta das Meirinhas e ex-chefe de gabinete do ex-presidente da câmara Diogo Mateus, foi acusado, pelo Ministério Público, de ter cometido crimes no uso indevido de dinheiros públicos, enquanto responsável pela gestão do fundo de maneio do Gabinete de Apoio à Presidência (GAP).



Tais irregularidades foram amplamente apontadas e discutidas nas reuniões da câmara, pelo ex-vereador Pedro Brilhante, e amplamente divulgadas pelo Farpas.

Sabia-se que o(s) caso(s) tinha(m) seguido para o Ministério Público; aguardavam-se, a todo o momento, decisões sobre o(s) processo(s). Diz-se que há mais acusados, o que é normal – este tipo de irregularidade não envolve uma única pessoa.

João Pimpão comunicou o delicado caso ao partido e informou os seus dirigentes que comunicaria o caso, hoje, à Assembleia Municipal. Mas perante a gravidade dos factos não basta comunicar o caso, é preciso retirar consequências. E a consequência óbvia é a renúncia - João Pimpão não tem condições nenhumas para se manter presidente de junta.

Pensamento do dia

 

26 de abril de 2023

Por que morrem os jornais em Pombal?


créditos: Município de Pombal 



 O Alfredo Faustino - Jornalista de excelência, com quem tive a sorte de trabalhar uma parte da minha vida - publicou neste 25 de Abril uma retrospectiva da Imprensa no Concelho de Pombal, que compreende os últimos 150 anos. A obra foi editada pelo Município de Pombal e deveria fazer parte do espólio de todas as escolas deste concelho, das Bibliotecas, das Colectividades. Mas para isso era preciso que os pelouros da Educação e Cultura pensassem sobre a causa das coisas e quisessem, de facto, inverter o sentido. Que se olhasse para os jornais, rádios e outras plataformas como um instrumento de desenvolvimento, pensamento e Liberdade, e não apenas de propaganda, daquela que "divulga o território". Adiante. 

Durante a apresentação, a ex-jornalista Dina Sebastião (actualmente investigadora da Universidade de Coimbra) deixou a pista que ninguém quer seguir: como é que uma terra que há 150 anos começou por ser berço de um "jornalismo de militância"  chegou ao fim do século XX reduzida à luta pela sobrevivência. O autor, Alfredo Faustino, traça um retrato nu e cru do que foi a ascensão e queda da imprensa local em Pombal, que ainda no final dos anos 90 acolhia quatro semanários, em simultâneo. E que hoje está reduzida a um quinzenário.

Por decoro, talvez, ou uma réstia do desencanto que a fez abandonar o jornalismo, a Dina foi cautelosa nas palavras, no diagnóstico e no retrato actual. 

Aqui no Farpas - que ao pé do 'Cão de Fila', o jornal burlesco publicado no século XIX, é um menino - já por diversas vezes o dissemos (e até fizemos um debate sobre o tema): a imprensa em Pombal sucumbiu às mãos do poder político, numa agonia amparada pelo poder económico. 

Enche-nos o peito ler este "da Imprensa do Concelho de Pombal", mas fica aquele nó pelo actual estado da arte. E não, não é igual em todo o lado. Há territórios que entendem bem a imprensa como um investimento e não como uma esmola de onde ainda se pode tirar algum consolo. Aqui, a causa das coisas chama-se declínio: social, económico e político. 

PS: chega a ser comovente o olhar paternalista de Luís Marques (antigo jornalista que terminou a carreira como administrador, lá na capital) sobre a imprensa regional, expresso no final da sessão de apresentação do livro. É contra essa moralidade benevolente que ando aqui há lutar há anos, porque acredito que o jornalista tem os mesmos direitos e deveres aqui, como em qualquer lugar. Foi uma das coisas que me ensinou o Alfredo A. Faustino, que fazia com a mesma determinação a notícia da rua ou a notícia do mundo. Auguramos, pois, tudo de bom para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, de que Luís Marques é comissário...

21 de abril de 2023

Pombal - do concelho charneira ao concelho desfavorecido

O diretor do Centro Distrital de Leiria da Segurança Social, João Paulo Pedrosa, não sai de Pombal. Compreende-se: uma terra desfavorecida precisa de muito apoio. 

Já houve um tempo em que esta terra viveu a ilusão da grandeza; agora vive da pecanez do assistencialismo do Estado e da caridade da cistandade. Pelo meio sonha com a felicidade; mas caminha para a calamidade. 



Este evangelho dos fracos, este culto da esmola e da compaixão, não é a favor dos desfavorecidos, é a favor do(s) profeta(s). 

Desgraçada terra que derrete o que tem e o que não tem em “capelinhas”. 

16 de abril de 2023

Operação resgate da decência (III)

Toda a gente sabe a razão que leva ao penoso(?) acto de pedir a insolvência pessoal: livrar-se definitivamente do pesado fardo de dívidas que não se consegue pagar. Também toda a gente conhece as consequências do subterfúgio para os vigaristas que a ele recorrem: perda de credibiliade e de reputação.

Em 2015 (outubro), o doutor Agostinho Lopes e a esposa requereram ao Tribunal de Comércio de Leiria a insolvência pessoal. E a 22-04-2016, o tribunal proferiu sentença sobre o consequente Processo Especial de Revitalização dos devedores: homologou o acordo de revitalização e mandou citar os credores e outros interessados nos autos. Da lista de credores constava o Município de Pombal.



Com o veredicto da insolvência pessoal, o tribunal retirou ao doutor Agostinho os poderes de administração do seu património (massa insolvente) passando tais poderes para o administrador da insolvência. E determinou que, durante os três anos subsequentes ao encerramento do processo de insolvência (período da cessão), o rendimento disponível que o devedor viesse a auferir fosse cedido ao fiduciário, excepto o que fosse razoavelmente necessário para o sustento minimamente digno do devedor e do seu agregado familiar. Durante o período da cessão, o doutor Agostinho ficou ainda obrigado a: 

(i) “Não ocultar ou dissimular quaisquer rendimentos que aufira…; 

(ii) “Exercer uma profissão remunerada…; 

(iii) Entregar imediatamente ao fiduciário, quando por si recebida, a parte dos seus rendimentos objeto de cessão; 

(iv) Informar o tribunal e o fiduciário de qualquer mudança de domicílio ou de condições de emprego…; 

(v) Não fazer quaisquer pagamentos aos credores da insolvência a não ser através do fiduciário…”.

Percebe-se agora melhor as razões por detrás dos pagamentos indevidos ordenados pelo doutor Agostinho a si próprio quando foi director administrativo no Município de Pombal. Mas não se percebe que alguém já manifestamente ou declarado insolvente pague dívidas a uma entidade pública(!) quando recorreu ao expediente da insolvência pessoal para se libertar delas! Assim, perante tão estranha situação, temos direito a saber se a dívida ao município foi paga à socapa - como parece - ou de forma legal e transparente (com conhecimento e autorização do tribunal). Temos direito a saber até onde pode ir o topete e a boa ou a má-fé da câmara (dos seus responsáveis).

Explique-se doutor Agostinho. Explique-se doutor Pimpão. Os deveres da transparência e da legalidade assim obrigam. E os da decência também.  

14 de abril de 2023

O turistaa acidental



Foi inaugurado esta manhã o (novo) posto de turismo cá do burgo, que volta a funcionar dentro da Câmara, como no tempo da maria cachucha. Que um secretário de Estado se preste ao papel, até percebemos: os últimos dias mostraram-nos que podemos esperar tudo da função. 

Mas o insólito está sempre à espreita. Quem foi que se apressou a fazer propaganda do acto, todo contente? Joelito, o presidente do PS local. Não lhe bastava ser ramo de enfeite, ainda precisou de exibir a proeza. 

Já sabíamos que tentava disputar a categoria de inepto com o Pedro. Mas como em tudo na vida, lá diz o povo que é preciso ter corpinho para a mania. Nesta publicação do PS local é tudo mau, a começar pela ideia de o fazer e a acabar nos atropelos ao português, pobre língua...

O pior de tudo? A mensagem. A sério que o PS defende isto? Alguém diga a este candidato a boy que foi um presidente socialista que percebeu a importância de retirar o posto de turismo de dentro da Câmara. E que recentemente o PS, nomeadamente na AM, clamou contra esta asneira. Ah, espera...ele quis demarcar-se desse PS. O resto não lhe interessa. Ou simplesmente não sabe, qual turista acidental.

5 de abril de 2023

A longa marcha para a Igualdade

 Pombal, 05 de Abril de 2023

 

Meu caro pombalense, espero-te bem. Escrevo hoje para ti que nos acompanhas do outro lado do mundo e do outro lado da rua. Para ti que emigraste nos anos 60 ou 70 para França, para a Alemanha ou para o Luxemburgo; nos anos 80 para a Suíça ou para o Canadá, e nos anos 2000 para toda a parte. Sabes que depois das camionetas passarem para o outro lado, junto ao rio, o Cardal mudou muito. Ainda lhe chamam jardim  mas já é uma praça. As lojas da rua Direita fecharam, as da zona histórica também, ali junto à praça das galinhas que ajudava a movimentar o comércio à volta. À medida que fomos definhando, fecharam-se as portas. Até das casas. O que talvez não saibas é que muitas delas voltaram a abrir-se, por estes dias, arrendadas agora a cidadãos que chegam em catadupa do Brasil, mas também da Índia ou do Paquistão, da Colômbia. Muitas já não estão em condições de habitabilidade mas olha, foi o que se pôde arranjar.  Vê tu a ironia: Pombal, este concelho que sempre foi porta-estandarte da emigração, conhece agora o outro lado da moeda, a imigração. E é o que nos tem valido, acredita. Nos restaurantes são eles e elas que nos servem, nos supermercados carregam as caixas, nos lares dão banho aos nossos pais e avós, e até nas escolas amparam as quedas dos nossos filhos e dos deles, limpam o recreio, levam a comida. Vou falar-te de uma dessas mulheres, que vi na rua um dia destes. Era sábado, o dia da semana em que ela aproveita para fazer limpezas em casa das vizinhas. Ia com uma delas, entre a Rua Professor Gonçalves Figueira e a avenida. Do lado de lá, uma colega da escola chamou-a, alto e bom som, até se ouvir no Mercado.

 

 - Ó Brasileira!

 

A rapariga é discreta. Ficou incomodada. Ao lado, uma das “patroas” indignou-se. Chamou à atenção. Lembrou que também é emigrante, noutro país. Que o filho também é. Que isto é descriminação. Xenofia e Racismo estrutural. Que, como tu, ninguém gosta de ser apontado. Contava-me uma prima que, nos anos 80, numa escola dos arredores de Paris, sofreu muito por ser apontada como “a portuguesa”, “a bacalhau”, mais tarde “a tuga”.  Como agora fazemos aos “zucas”.

 

Tu sabes como isso magoa, diminui, apouca. Mesmo que quem tem golpe-de-asa brinque com a piada. Que não tem piada.

 

O último relatório do SEF mostra que Portugal registou, no final do ano passado, 757.252 estrangeiros com residência, um aumento verificado pelo sétimo ano consecutivo, correspondendo amais 58.365 (8,3%) do que em 2021. Ao mesmo tempo, parece que perdemos a memória. Esquecemo-nos de quem somos, de onde viemos. Como os teus pais, que viviam num quarto primeiro, depois naquela minúscula casinha, quando a tua mãe conseguiu um emprego de concierge. E que agora no café da aldeia clamam contra “essa raça”. Que devíamos era “ajudar os nossos”. Por falar nos nossos, olha só o que aconteceu esta semana. O Moisés, cigano nascido e criado em Pombal, foi deitado borda-fora de um trabalho como segurança no Pombal Fashion. Ia começar, através de uma empresa de trabalho temporário (lembras-te quando a malta dizia que eles não queriam trabalhar?), mas o administrador não quer cá misturas.

Imagino que tudo isto te espante e faça confusão. Afinal, tu recebeste aí o jornal da terra e leste no facebook as publicações do Município de Pombal a falar de integração, de um plano municipal para a Igualdade. Viste as fotos dos concertos no Cardal? Do presidente e vereadoras em selfies com a comunidade? Pois, parece que não passou daí.  

E viste as imagens da Feira de Nanterre? Somos nós, ali, a comprar ‘beijinhos’ (como os do João das Cavacas), a matar saudades. Como essas que te afogam o peito tantas vezes, porque tudo o que querias era uma bica, um abraço da avó, uma sopa da mãe.

 

Recebe um abraço pombalense, desta que tanto vos quer, mas às vezes tem vergonha alheia

 

Paula Sofia Luz 


* Foto da inauguração do CLAIM (Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes),  Janeiro de 2023


4 de abril de 2023

Operação resgate da decência (II)

Porque a nomeação de titulares de altos cargos públicos deve respeitar rigorosos critérios legais e éticos, e porque a suposta oposição não se preocupa com estas coisas – prefere o devaneio dos muros de pedra e afins -, resolvi requerer à câmara documentos que respondessem a um conjunto de perguntas que permitissem, por um lado, avaliar se o recém-nomeado Director Municipal tem condições ético-legais para exercer o cargo; e, por outro, clarificar os critérios ético-políticos que norteiam a conduta do presidente Pimpão.



Recebi documentos que permitem responder com segurança às perguntas colocadas. Assim, eis as respostas e os factos:

Pergunta 1: Em que data e por quem foi detectada e comunicada a irregularidade (pagamentos indevidos)?

Resposta 1: A irregularidade foi detectada pela DRH e comunicada superiormente a 8 de novembro de 2010. 

Pergunta 2: Qual o fundamento da irregularidade que deu origem ao processo?

Resposta 2: O fundamento da irregularidade foi o (auto)-pagamento indevido de emolumentos notariais.

Pergunta 3: Que montante de pagamento indevido foi apurado?

Resposta 3: Foi apurado o montante indevido de 26.505, 39 €; a que, erradamente, não foram imputados juros.

Pergunta 4: Em que data o devedor foi notificado da dívida e da obrigação de saldar?

Resposta 4: O devedor (Agostinho Lopes) foi notificado a 1 de fevereiro de 2011 da obrigação de reposição dos valores cobrados. 

Pergunta 5: Qual foi a resposta do devedor à notificação?

Resposta 5: A 15 fevereiro de 2011, o devedor contestou o valor da dívida (alegou a contabilização pela categoria final e a contagem dos emolumentos de 2009 – ambos rejeitados) e o pagamento do montante residual numa única tranche. 

Pergunta 6: A dívida foi saldada ou não?

Resposta 6: A dívida foi saldada. 

Pergunta 7: Se foi saldada, foi-o de uma só vez ou em prestações?

Resposta 7: A dívida foi saldada em 53 prestações.

Pergunta 8: Se foi paga em prestações, qual o montante e a frequência das prestações, bem assim a data da primeira prestação e a data da última prestação?

Resposta 8: Prestações de 500 € mensais, com alguma irregularidade, com início a 30-4-2014 e término a 30-1-2019.

Pergunta 9: Qual a forma de pagamento (cheque, transferência bancária, numerário ou outra)? 

Resposta 9: A forma de pagamento foi por transferência bancária. 

Perante estes factos, que para os mortais alinhados com poder são normais, mas encerram muita anormalidade, novas questões se levantam…

29 de março de 2023

A malta é jovem. Não pensa?


 
O feed mostrou-me fotos várias do Pedro e sua tropa: Pimpão cumprimenta bombeiros, Pimpão sorri para o exército, Pimpão faz piadas com a GNR, Pimpão entusiasma-se com os escuteiros, a sua gente, e dá ânimo à Jornada Mundial da Juventude - que também está plantada no Cardal, por estes dias. É a Semana da Juventude e a malta está a divertir-se bué, como documentam as fotos e o vídeo municipais. 

Da escola chega-me uma comunicação a anunciar visitas ao Jardim e parece-me bem: tudo o que mostre a rua às crianças e adolescentes é bom, já se sabe. 

Mas depois uma pessoa fala com os jovens. E pergunta-lhe o que acham deste programa. E percebe que foi "feito por boomer's", que das duas uma: ou não têm filhos ou não falam com eles. 

Vai-se a ver isto está bom para a JS, que em vez de mostrar o outro lado da realidade, se apressa a fazer de ramo de enfeite na propapanda. Em tempos de estio na JSD, é o que sobra. 


*A foto é um apontamento de "reportagem" da Rádio Cardal. 

28 de março de 2023

Câmara, Orçamento Participativo, PARA & C.ª (II)

Para além da irregularidade grave de a câmara, em parceria com o PARA, prestar cuidados de saúde sem estar licenciado para o efeito, a ERS emitiu, a 22 de dezembro de 2022, uma Instrução obrigando o Município de Pombal a:



(i) “Respeitar o direito de pleno acesso dos utentes aos respectivos processos clínicos e informação de saúde, seja por consulta ou reprodução, nos termos previstos legislação em vigor; 

(ii) Assegurar que todos os profissionais ao seu serviço respeitam as regras de acesso dos utentes aos respeitos processos clínicos e informação de saúde; 

 (iii) Proceder à criação de um procedimento interno escrito que regule o acesso dos utentes ao processo clínico e informação de saúde, em conformidade com a legislação em vigor;

(iv) Proceder à revisão, da secção dedicada à área da Psicologia, do “Programa Municipal de Potenciação do Sucesso Escolar – Intervenção da Equipa Multidisciplinar”, de modo a prever que, sempre que o processo do utente termine por algum dos motivos aí elencados, fique assegurado um plano de transição de cuidados de saúde para os utentes; 

(v) Dar cumprimento imediato à presente instrução e deve dar conhecimento à ERS, no prazo máximo de 30 (trinta) dias úteis após a notificação da deliberação final, dos procedimentos adotados para cumprimento da mesma.”

Refere, ainda, que “a Instrução configura como contraordenação punível, in casu com coima de 1000,00 € a 44 891,81 €. 

Nesta santa terrinha, onde é tudo por Deus e pelo Venha-a-Nós, usa-se e abusa-se do dinheiro público para estes arranjinhos irregulares. 

PS: se nesta terra existisse oposição, há muito tinha sido pedida uma inspecção à aplicação dos Orçamentos Participativos, nomeadamente o do PARA.

27 de março de 2023

O Melodrama Socialista

Acto XXV – Sai & Fica

Enquanto o Pedro se diverte feliz no Reino das Maravilhas, qual borboleta saltitante de flor em flor, os (des)Socialistas representam, daqui a pouco, numa adega da terra, o próximo acto do seu melodrama intitulado “Sai & Fica”.



Este requentado melodrama é um folhetim de cenas da vida real que entrelaça intrigas e zangas de comadres num registo angustiante sem fim à vista; que há muito deixou de ser político (não interessava a ninguém a não ser aos próprios intérpretes), mas parece psicótico (com perda de ligação à realidade e alguns delírios). 

Daí se perceba a escolha de uma adega para a representação do próximo acto: é sempre melhor afogar as mágoas com bom vinho que a seco no divã do psiquiatra. Mas para que a coisa saia menos risível recomendo que bebam metade antes da representação e a outra metade depois.  

A Política é alta competição - mesmo a amadora. Não há papel mais tonto que (tentar) jogar um jogo de que se desconhece as regras. Quando criaturas com fome de celebridade se atiram para a arena pública sem saber quando avançar e quando parar, confundindo derrotas com vitórias (morais), ou afrontando regras sem poder para tal, o caminho para o desastre fica traçado. Uns merecem-no; outros nem tanto.

23 de março de 2023

Câmara, Orçamento Participativo, PARA & C.ª

A 6 de Março de 2019, publicámos um pequeno post que divulgava os titulares dos órgãos sociais da recém-criada associação PARA – Projecto de Apoio e Recursos para o Autismo. A ousadia de expor as figuras, do bem-fazer e do bem-aproveitar, valeu-me um processo judicial – morreu à nascença, com custos para a/o queixosa/o.



A oportunista associação cresceu ligada umbilicalmente à câmara, com os vícios e as fragilidades amplamente reconhecidas pelo ex-executivo. Com o amigo Pedro no poder a esperança, de futuro radioso, renasceu…

Mas bastou uma simples queixa, junto da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), apresentada pela mãe de uma criança a quem foi recusada a entrega do processo clínico do filho, para a subsequente averiguação mostrar um rol de irregularidades e de promiscuidades que merecem averiguações por outro tipo de entidades (IGF, Tribunal de Contas, Ministério Público, ...).

Por agora, ficámos a saber que o “consórcio” Câmara – PARA prestava cuidados de saúde sem estar licenciado para o efeito junto da ERS. E que por esta irregularidade a ERS condenou, a 29 de setembro de obrigou 2022, a Câmara de Pombal na coima de 1.500,00 EUR, e não só - o resto fica para depois.

PS: a coima foi aplicada à câmara, e não ao PARA (!), porque a psicóloga que prestava a terapêutica estava vinculada à câmara e não ao PARA.

22 de março de 2023

A felicidade e o luto

Enquanto a câmara celebra a felicidade, a junta está de luto. São as duas faces da mesma teologia.



Nesta terra, onde o que mais conta é saber fazer figura, passámos num ápice do mais irritante despotismo para o mais estéril desportivismo dos regozijos e comoções públicas. Pelo meio, perdeu-se decência e respeitabilidade: a simples distinção entre o institucional e o pessoal; e a discrição que o verdadeiro exercício do poder exige.

Esta pomposa mediocridade, que confunde agitação com acção, fez da felicidade um propósito e da política um assunto ordinário, uma comédia e uma comedoria, feita para vaidade e contentamento olímpico dos eleitos, que nos vai sair cara. 

Era difícil imaginar uma alegoria mais deplorável, mais banal, mais inepta e insípida do que a que é exibida, todos os dias, nesta santa terrinha. Já nem se pode antecipar o fracasso, que exige arrojo e grandeza de espírito, atributos que manifestamente não existem, mas tão-somente a vacuidade e a banalização da acção política. Mas o pior deste mandato - que só pode ser curto – serão os estragos que perdurarão por muito tempo… 

15 de março de 2023

A Casa que é de todos e não é de ninguém



A nova imagem (gráfica) da Casa Varela foi apresentada no sábado. Era suposto que a revelação da "nova identidade" - como lhe chama a Câmara - fosse acompanhada do anúncio da/das/do/dos responsáveis por este Centro de Experimentação Artística, que tanto tem dado à Cultura da terra, enriquecendo-a cá dentro e projectando-a para fora. Mas a sessão foi aquilo que se viu: um público maioritariamente constituído pelos artistas que frequentam a Casa (em residências artísticas), em que pouco ou nada se disse sobre quem fez a nova imagem e por que a fez. 

Depois da saída de Filipe Eusébio, a Casa tem estado a ser dirigida oficiosamente por Diana Figueiredo, de quem a única coisa que se sabe é que assume a curadoria de algumas exposições. O presidente Pimpão não a nomeou directora, atirando a responsabilidade maior para a Unidade Cultura, dirigida por Sónia Fernandes. E para compor o ramalhete, entregou à vereadora Gina a tarefa de apresentadora da sessão, pois que leu um guião sobre o que aconteceu e o que vai acontecer, à laia de agenda. De permeio, Pimpão focou-se em responder a recados do Facebook. Foi quando disse que a Casa é de todos, e que - pasme-se - não é preciso ser artista para fazer ali alguma coisa. "Apresentem propostas, venham ter connosco com ideias", repetiu até à exaustão, não vá alguma voz dissonante acusar a autarquia de promover ali uma cultura de elite. Lembrei-me então da conversa que tive ali à porta com o Filipe Eusébio, em plena pandemia, e da exigência que queria imprimir. 

A nova imagem é contemporânea, funcional, e tem tudo para ser eficaz em matéria de comunicação visual. Um bom telhado, portanto, por onde se começou. Falta a outra, que é tão importante. E que poderia evitar 'pregos' tão ao lado como denominar uma "sala Sr. Varela". Qual deles?


7 de março de 2023

Sobre a noite das facas longas no PS

 

O resultado foi aquele que se esperava: Na reunião [extraordinária] a concelhia do PS local retirou a confiança política ao líder do grupo municipal, João Coelho. O motivo é aquele que já aqui avancei na semana passada, por mais improvável que possa parecer ao cidadão comum - o voto de censura às declarações do presidente da junta de Meirinhas, João Pimpão. 

E foi o que se esperava porque já era previsível que um dia a corda partisse, na relação tóxica  do PS1 com o PS2, o mesmo é dizer entre o grupo de doutora Odete (é disso que se trata) - aqui personalizado por Joelito, esse ponta de lança do partido, e apoiado pelo grupo da JS, liderado pela sua edição de bolso - e o grupo de João Coelho.  

O que daí se retira é uma frase batida: vai-se a ver e nada. Ou melhor, o PS consegue com isto enfraquecer-se, afastar mais gente, aumentar o sentimento de descrença no partido que deveria ser a alternativa cá na terra. 

Sobre as verdadeiras razões que levaram a esta inusitada tomada de posição por parte de um bocado do partido, elas poderão ser mais profundas. E ter por base qualquer coisa que os dirigentes do PS normalmente desconhecem: a solidariedade. Atentemos, pois, na coincidência dos slogans usados nas últimas eleições, como as fotos documentam. Mesmo que nem todos contem  no PS, Joelito contou com João Pimpão durante a campanha: foi o então chefe de gabinete de Diogo Mateus que aconselhou o jovem Joel a usar luvas de pelica com o Farpas, oferecendo uma caneta por si raspada, ao autor do post que contava a saga de "Joelito, el raspador". 

E em política, tudo se paga. 




6 de março de 2023

PS local - zanga de rúfias e comadres desavindas

Daqui a pouco, o PS local cumpre mais um auto de fé, onde procurará expiar os pecados e afastar os infiéis. Não conseguirá nem uma coisa nem outra. 



O problema do PS local não é de fé nem de confiança. É mais profundo: é de vazio identitário e programático. O partido padece de suas fraquezas terríveis: infertilidade programática e histerismo dissociativo. Esta nova crise, que logo à noite terá o seu clímax com a discussão e votação da retirada da confiança política a João Coelho (líder da bancada na AM), nada resolve… É mais um episódio da luta de rúfias e da abespinhada zanga de comadres desavindas, há muito instalada. O que há de novo, agora, é o amadorismo, a imaturidade e a histeria reinante na concelhia e, pasme-se, na federação... 

Se ali houvesse ainda alguma lucidez perceberiam que vale mais morrer de vez do que se estiolar aos poucos persistindo em intermináveis e inúteis rixas. Mas de um partido sem memória e de dirigentes e protagonistas toldadas por estados de espírito iriçados não se pode esperar nada de bom.  

3 de março de 2023

PMUGest respondeu ao Farpas

Depois do árduo e nada consensual “trabalhinho” do despedimento do engenheiro Carreira, a doutora Gonçalves partiu de férias para a neve – precisava, com certeza, de arrefecer os calores. Mas alguém a deve ter alertado, lá nos picos nevados, que o escândalo tinha sido colocado na praça pública, e gerado estupefação. Porventura, sentindo que o terreno lhe estava a fugir debaixo dos pés, agiu mas escondeu-se: mandou uma carta para a AM, assinada pelo presidente não-executivo, a justificar a trapalhada. A ladainha, para além de não esclarecer nada, reforça as dúvidas e expõe as sucessivas trapalhadas e as contínuas irregularidades.



Alega, na carta, que “o engenheiro Carreira foi contratado para Director Executivo da PMU (chamava-se assim na altura) em 2001, sendo que à data os acionistas decidiram não nomear um Administrador Executivo remunerado; e, mais tarde, em 2004, Manuel Carreira foi nomeado Administrador Executivo”. Depreende-se, destes dizeres, que o engenheiro Carreira foi contratado para Director Executivo e de imediato promovido a Administrador Executivo não remunerado, auferindo a remuneração do contrato como Director Executivo. Tudo coisas à moda da terra. E informa, também, que "em 2004, passa a ser remunerado como Administrador Executivo até Janeiro de 2022” – até à entrada da doutora Gonçalves para a sua função.

Perante todas estas trapalhadas e irregularidades, pergunto:

1 – O engenheiro Carreira alguma vez exerceu a função para que foi contratado? 

2 – Quando o engenheiro Carreira assumiu o cargo de Administrador Executivo não remunerado manteve o contrato de Director Executivo? E acumulava as duas funções?

3 – Quando o engenheiro Carreira passou a Administrador Executivo remunerado manteve as condições do contrato inicial ou foi-lhe fixada nova remuneração?

4 – Entre Janeiro de 2022, altura de cessação de funções como Administrador Executivo remunerado, e a presente data, por que condições contratuais o engenheiro Carreira foi remunerado, como Administrador Executivo ou como Director Executivo?

5 – O organograma do PMUGest contempla o cargo de Director Operacional. Quem exerce este cargo actualmente? Não foi este o único cargo que o engenheiro Carreira efectivamente exerceu?

Lendo a lei e conhecendo minimamente a realidade da PMUGest e o trabalho exercido pelo engenheiro Carreira no dia-a-dia percebe-se que, tendo ele mantido o Contrato de Trabalho como Director Executivo, este despedimento, por extinção do posto de trabalho, não tem condições para vingar em tribunal. Por conseguinte, pergunto:

1 – O presidente da câmara foi informado e deu aval a esta malvadez que só desprestigia as instituições públicas e onera o erário público?

2 – Se o processo terminar com acordo, como se prevê e o presidente da câmara já deu a entender, quem é que vai fazer o trabalho que o engenheiro Carreira efectivamete fazia? É a doutora Gonçalves, que o “substtituiu”? Ou vão contratar mais um quadro dirigente?  

Chega de trapalhadas, irregularidades e canalhices. A doutora Gonçalves está mais irregular e acrescenta menos à empresa que o engenheiro Carreira. 

2 de março de 2023

A diversão segue na BTL

Enquanto no PS se afiam as facas, para a noite das facas-longas, o Pedro diverte-se na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL). A vida é ingrata: enquanto uns vivem os azedumes da desgraça colectiva; outros usufruem dos prazeres da boa-vai-ela. 



Como o divertimento é a felicidade do Pedro & C.ª, a roda tem que rolar e nós temos que a pagar. No ano passado, criticámos o Pedro por ele ter levado à BTL um autocarro cheio de gente, em passeio. Incomodado com a crítica, este ano carregou o burro (o orçamento): mandou fazer um stand, com a imagem do castelo, pagou terrado, contratou figurantes, à civil e disfarçados de marqueses e condessas, mandou servir petiscos e bebidas, para consolo dos convidados do costume e dos veraniantes, e assim, entre brindes e futilidades, fez a festa. 

Há gente que aprova este folclore; e outra, até mais fútil e instruída, que julga que isto traz algum retorno para o concelho. Este ano, muitos já recusaram o convite, já houve dificuldade em encher o autocarro, sinal que a mensagem vai passando… Mas há uma dúvida que me intriga: será que o Pedro acredita que está a fazer alguma coisa de útil para o concelho, ou isto é tudo aldrabice para enganar papalvo? Custa-me a acreditar que executivos municipais, sobrecarregados com atribuições e problemas, a que não conseguem dar resposta, desbaratem tempo e dinheiro julgando que se pode retirar algum retorno deste tipo de eventos. Mas quando oiço o Pedro defender que o turismo é vector estratégico para o desenvolvimento do concelho, e que o turismo associado às ditas figuras históricas - Marquês e afins – tem grande potencial, fico perplexo.

Quem age desta forma, continuará a apregoar a falácia da aposta no potencial turístico do concelho e a desbaratar rios de dinheiro público, necessário para ajudar a solucionar carências graves do concelho, em coisas tão desastrosas como CIMU-SICÓ, Quinta de Sant` Ana, Casa da Guarda Norte, etc.

Siga a festa.

O canto do cisne no PS

 


Os membros da comissão política concelhia do PS receberam ontem à tarde uma convocatória do indigitado presidente, Joel Gomes, para uma reunião extraordinária com um ponto único: retirar a confiança política ao líder da bancada do partido na Assembleia Municipal, João Coelho. Ao mesmo tempo, o jovem-promessa do aparelho socialista desfez-se em contactos com as bases, com o topo e com o que resta da estrutura, numa tentativa de justificar a insane intenção: em causa está a iniciativa de João Coelho (e sua bancada) levar à AM o voto de censura às declarações de João Pimpão, presidente da Junta de Meirinhas, a propósito da violenta agressão ocorrida recentemente dentro do Colégio João de Barros, atirando um aluno de 12 anos para o hospital. 

Ora, à hora em que decorria a AM, já Joelito (que, recorde-se, tem como única soft skill conhecida a arte de raspar canetas) anuía às ordens da mini-Odete que é a presidente da JS, e tentava acalmar os ânimos dos vereadores, apanhados de surpresa pelo voto de censura.

Não contente com  a inépcia perante este e outros casos da vida da terra, Joel faz aqui bem o papel de pau-mandado. Intriga-nos, porém, esta súbita manifestação de coragem, pois que o PS arrasta há anos um caso que há muito merecia - esse sim - a retirada da confiança política: Paulo Duarte, da Redinha,  único presidente da Junta eleito pelo PS, que sistematicamente vota contra o partido na AM, ignorando-o em toda a linha, à excepção de quando voltou a precisar dele, nas últimas eleições.

Não deixa de ser irónico o destino do PS, e este canto do cisne da concelhia do partido, pois que essa jogada da bancada foi, de longe, a melhor e com mais resultados políticos dos últimos tempos. Ninguém quer saber das propostazinhas da JS, das achegazinhas dos vereadores, fatias esboroadas desse bolo que é a "oposição colaborante", que não se opõe a nada e vive para ser ramo de enfeite. 

Se ainda houver uma réstia de respeito pelos eleitores que votaram em João Coelho e a sua equipa (recordo que foram mais do que aqueles que votaram na candidata à Câmara), e sobretudo se ainda houver socialistas dentro do PS, este terá sido um tiro nos pés de vários aspirantes a protagonistas. Mas a ver vamos o que nos revela a noite das facas longas na próxima segunda-feira. 

1 de março de 2023

A autodestruição do PS local em directo

A câmara decidiu entregar o Café-Concerto a privados.

O PS1 (do executivo municipal) enalteceu a medida, prestou ajuda na redacção do contrato e fez reparos à renda exigida – logo corrigida pelo poder. 

O PS2 (da Assembleia Municipal) rejeitou a concessão do espaço à exploração privada, com uma ladainha primária que só visava demarcação do PS1. 

O PS0 (da concelhia) calou-se - não se fez ouvir. Não existe nem pode existir neste contexto de guerrilha interna. 

Estas criaturas perderam, há muito, o respeito pelo partido. Agora, desceram mais um degrau: perderam o respeito por elas próprias.



                                                                ------- xxxxx -------

A autodestruição do PS local é um processo que vem de longe, mas acentua-se a cada passo e com cada novo protagonista. É uma espécie de doença degenerativa irreversível. 

É verdade que ainda ali há meia dúzia de criaturas sensatas e com alguma capacidade política. E outra meia dúzia com vontade de fazer alguma coisa pelo partido. Mas naquele ambiente doentio, de intriga e divisionismo constante, tudo putrifica e nada frutifica. Um partido não é, nem deve ser, um grupo de meninos e meninas de coro; mas não pode viver num clima de guerrilha constante. Há momentos para fazer a guerra e momentos para usufruir da paz. A pior guerra é a que não se faz abertamente – nunca gera paz.

O partido entrou na mais deliberada paródia do ridículo e da autoflagelação; precisa de quebrar a cadeia de autodestruição, de fechar para balanço, e de se sentar no divã para umas sessões de psicoterapia.

Obrigada, Maria Luís Brites

                                                                        Foto de Rui Miguel Pedrosa, para o Diário de Notícias




A escritora Maria Luís Brites partiu ontem. Contava 88 anos de uma vida demasiado intensa para se retratar em linhas de obituário. Em Pombal, foi - sem dúvida - a mulher que mais admirei. Pela riqueza intelectual, pela coragem. 

Respigo um texto de junho de 2013, escrito num tempo em que tivemos as mais demoradas conversas, e originalmente publicado num blogue pessoal (https://luzdepombal.wordpress.com/2013/06/).  E deixo o link de uma entrevista que insisti fazer-lhe, em 2018, depois de ter vencido um cancro da mama. "Antes aos 84 que aos 48", dizia ela. 

Ao tempo d'O Eco, viveu comigo uma das fases mais duras dos anos difíceis da década de 2000, quando o poder tentava silenciar tudo o que era crítica. 

Perdemos essa guerra, Maria Luís, mesmo tendo ganho aquela batalha. Obrigada por tudo, minha querida Maria Luís. Que Pombal a lembre sempre de for no cabelo e batom vermelho, como numa tarde de junho, o mês em que nasceu, como este sol de fevereiro, que a levou num raio. 


Retrato de uma Senhora

Subia as escadas daquele primeiro andar da Heróis do Ultramar com passo firme e sapatos altos. Vestia um saia-casaco azul petróleo e uma blusa de seda bege, com lenços a condizer. O sotaque, nortenho, fazia-se ouvir à entrada do jornal. Naquele tempo a cidade tinha por onde escolher e por isso, uma vez zangada com o director de um quinzenário, encontrou naquele semanário o sítio certo para escrever “apontamentos do nosso quotidiano”. Nós éramos muito novos e ficávamos divididos entre a admiração por tamanha mulher e os risos incontidos, quando às vezes nos parecia quase louca.

Tinha voltado para ficar. Ponto final num casamento de 36 anos, duas filhas na vida delas, muita prosa para escrever. Publicou um livro. Nesse dia o salão nobre da Câmara encheu-se para ouvir falar de uma história de amor e famílias portuguesas contada naquele romance apoiado pela Civilização. “Um triângulo no Litoral”. A mesma editora que lhe encomendara obras didáticas – “até um dicionário!” – porque a licenciatura em Germânicas lhe permitiu ensinar tudo o que aprendeu. E aprendeu muito, desde muito cedo.

A Lili nasceu afinal em berço de ouro: filha única de uma doméstica e de um advogado, comunista ainda por cima. Era 1934 e havia guerra pelo mundo. Os pais não quiseram arriscar e ficaram-se por ela. Depois veio a juventude e cresceu a vontade de engolir o mundo, de o perceber, de o contrariar.

– Vou estudar para Coimbra,

disse à mãe, apoiada pelo pai. Foi quando a senhora se tornou de repente religiosa. Tão religiosa que se pôs a oferecer promessas à Srª de Fátima para que a filha reprovasse no exame de acesso. Mas a razão levou a melhor e formou a rapariga, em Coimbra. Depois, o casamento. Uma fotografia desse dia publicada muitos anos depois num jornal local mostra-a em todo o seu esplendor, linda como não havia outra na vila de então. Vira as costas à terra e só cá há-de voltar 36 anos depois, para ficar. Aos poucos despe o saia-casaco azul, arruma os saltos e liberta-se, outra vez. Escreve muito, fala na igual medida, casa-se com um pintor alemão. Faz programas de rádio pelo concelho fora, ouve e conta como vive o poder local. É um tempo participado, esse. Um dia, por brincadeira, aproveitamos o 1º de Abril no Jornal e fazemos a manchete que nos dá gozo: “Candidata-se à Câmara pela CDU”. Nesse ano é mentira, noutro será verdade. E noutros que se vão seguir nas próximas duas décadas há-se ser candidata na sede do concelho e na sede do distrito, sempre à esquerda. Tão às avessas que faz campanhas eleitorais sozinha, pinta paredes e muros à moda antiga. Os anos passam, esbate-se a cor, mas ainda lá mora o símbolo do BE. Nas entrelinhas desse tempo escreve poesia, também, que lhe traz arrelias (a ela e ao jornal que a publica). São os versos de Joe of Arunca, sarna para o presidente. E depois um discurso em Abril em que dobra o papel, se volta para trás e lhe diz, de voz trémula e peito feito:

– a imprensa é para respeitar. É o símbolo da liberdade!

E era.

Ontem voltei lá a casa. Entre o sabor do açafrão na paella e meio copo de vinho falámos de nós, dos nossos, do tempo perigoso que atravessamos. A Maria Luís vai fazer 80 anos daqui a meses. A vida não é nada do que julgamos. Não é nossa, para sempre, quando a idealizamos na melhor das fases, ou quando a projectamos por imitação deste ou daquele. Na volta, a vida é uma enguia. Que se nos escapa entre os dedos e deixa apenas o rabo preso, para mostrar que ainda existe. E que vale a pena, por nos dar o privilégio de a viver, de conhecer gente tão inteira.

Continua linda, ela.

https://www.dn.pt/pais/maria-luis-brites-a-viragem-ao-populismo-e-muito-preocupante-10354198.html