20 de maio de 2019

Onde está o Wally?


Nas ruas cá do burgo, vai-se ouvindo na surdina, as estranhas ausências do nosso Presidente a (quase) tudo o que é evento no Concelho.
Os fins-de-semana têm sido assegurados pelos seus 3 vereadores. Sim, porque do vereador Brilhante, ultimamente as suas aparições têm sido poucas (nem na campanha eleitoral para as europeias se tem visto).
Mas voltando ao nosso Presidente: a ausência aos diferentes eventos, já há muito o eram “criticadas” pelas diferentes instituições/colectividades, por este se fazer representar, mas ultimamente, e desde que Diogo resolveu voltar a “estudar”, parece que a sua actividade autárquica terá ficado para segundo plano.
Senão vejamos apenas alguns exemplos mais recentes: Faltou ao “Oh da Praça”; Faltou ao “Festival da Fava” (imperdoável João Pimpão, mas como não foi ao do teu irmão... deve ter sido por isso); Faltou à Exposicó em Ansião (foi o único Presidente de Câmara ausente); Faltou ao aniversário dos Bombeiros Voluntários de Pombal (parece que está em Itália...)
Com tantas ausências, fica-nos a interrogação: mas por onde anda o nosso Presidente?
Não é que a presença nas festas seja de alta importância para a governação local! Mas tendo em conta, que há dias da semana, que o Presidente se encontra fora em virtude de um curso que o mesmo estará a frequentar, e ao fim de semana continua indisponível para Pombal, algo se passa no Largo do Cardal ...............

Nota: Mea Culpa! arranjou um tempinho para apresentar o mega cartaz das Festas do Bodo, tal qual um relações públicas famoso! Resta saber, se também não irá faltar à Festa do Bodo!

16 de maio de 2019

Vender "O Pacote"


Foi ontem anunciado o cartaz para as festas do Bodo. Após uma votação da CMP criada online para seleccionar os artistas, e sem resultados tornados públicos, ficámos todos a saber o que nos calha este ano no pacote.
As festas da cidade continuam a ser o reflexo de muitas outras espalhadas pelo país, onde os programas das festas são os mesmos apenas com mudança de um ou outro artista. Continua-se a política do pacote, da cultura instantânea, com fórmula industrializada, fácil de fazer e que engana o estômago e a alma.

A maior “novidade” este ano é o regresso da Quinta Feira com o palco preenchido unicamente por Artistas Locais, tradição que foi interrompida por vários anos mas que regressa nesta edição. Quem sabe esta mudança seja influenciada pelos vários eventos culturais que têm surgido, pensados e criados por artistas locais. Eventos com grande adesão de público e em crescimento, que provam cada vez mais que existe muito talento espalhado pelo concelho à espera de se mostrar. 

Eventos como o Oh da Praça ou as Varandas Poéticas são ecos de um Bodo passado, onde a Casa Varela se iluminou e encheu novamente de vida as suas salas e as ruas envolventes, graças á colaboração de inúmeros artistas locais. 
Infelizmente que desde há alguns anos que o background do palco do Bodo é um edificio cada vez mais degradado, que continuamos a não perceber bem qual será o seu destino final.
Voltando aos artistas pombalenses, vamos ter oportunidade de os escutar 4 bandas no primeiro dia de festa, após isso restam-nos os Djs, alguns deles locais, como já vem sendo hábito.
Porque não ter artistas locais a abrir as “estrelas” da noite? Será que esse condimento ia afetar o pacote e a receita final? Certamente não seria por falta de dinheiro para o cachet, trocos quando comparados com “os grandes”. Seria uma boa experiência para os artistas locais partilhar o palco com nomes “maiores” da indústria.

Não será o Bodo a melhor altura para mostrar o que de melhor se faz por cá?
Questiono-me várias vezes quem é esta gente que vende o pacote à CMP, que sabe quais os pacotes que o povo deseja e os apresenta em promoção no Verão.
Talvez o problema aqui seja eu, com tanta gente a vender o pacote e a fazer dinheiro por esse Portugal fora, até eu já pensei em vender o meu pacote. Mas não, existem pessoas responsáveis pela produção do evento, sinto que ao vender o meu pacote lhes estaria a tirar o trabalho. Eles foram eleitos pela maioria de nós, e todos nós lhes pagamos o salário, só lhes pedimos que façam o seu trabalho da melhor maneira possível.

Pedimos que usem a criatividade, o seu conhecimento e influência política para trazer cultura ao povo, mostrar coisas novas, diferentes, estimular as artes e apoiar os artistas locais, aumentando também assim a participação da população.

Não falo de se gastarem somas astronómicas como se fez no passado, convidando artistas internacionais, e que na realidade não tiveram o efeito desejado de se criar uma identidade própria do Bodo e se revelaram ruinosas em termos financeiros.
Pelo contrário temos festivais que surgiram no seio da população e com a participação da mesma. O melhor exemplo disso é provavelmente o festival Bons Sons, cuja génese é bem no centro da pequena aldeia de Cem Soldos em Tomar.
Todos os anos o festival arrasta multidões para ver artistas locais e nacionais de renome,  público esse que em muito ajuda á promoção e desenvolvimento da Aldeia.

Bem mais perto temos o festival Ti Milha na Ilha, que começa também a dar cartas, tendo já sido reconhecido internacionalmente pela sua qualidade  com uma nomeação de "Melhor Programa Cultural" nos Iberian Festival Awards.
Qual o segredo? Programar dá bastante trabalho, é preciso fazer pesquisa, negociar bem com os promotores, conhecer o meio a fundo. Falar com os artistas pessoalmente, ir aos eventos, ver, escutar, aprender e partilhar. Ir ao Google e Youtube ver os "Tops" não chega.

Será sempre mais fácil comprar um pacote prontinho, juntar água ou outros líquidos, passar o respectivo cheque e lançar uns morteiros no final. Esse é outro pormenor que continuo sem entender, fogo de artificio em época de incêndios? Porque não Video Mapping nas paredes exteriores do Castelo? Seria sem dúvida mais impactante e seguro.
Fica a ideia, quem quiser pode incluir e vender o conjunto, este ano já não deve dar mas ficam aqui algumas sugestões para o próximo Bodo, pode ser que alguém queira comprar o vosso pacote.

14 de maio de 2019

Merda e Cagalhão não vão à Confissão…

Que belo dizer popular!
Anda por aí muito Cagalhão com Merda na cabeça.

(…)Dizer "muita merda" é quase que um ritual para os actores, tem origem Francesa. No Século XVIII as pessoas andavam na sua charrete, tipóia, carruagem ou coche (puxado por um cavalo ou parelha de cavalos).
Quando a peça era muito concorrida e lotava, muitos seriam os cavalos que transportavam os espectadores até à praça do Teatro. Com isso, muitos montes de fezes eram encontradas no caminho.
“Muita Merda" só poderia ser um bom prenúncio e um grande sucesso de espetáculo.(…)
Agora que já sabemos mais ou menos a origem e referência dos “Monstruosos Artistas“ que ofenderam algum equinoderme (alguns animais primitivos como os celenterados e equinodermas possuem um sistema nervoso descentralizado sem cérebro),
vamos passar ao que interessa:
Já estamos em Maio e Abril já lá vai é verdade, mas será que aquele barulho todo sobre Liberdade não chegou a alguém?
Perceber o que vai na cabeça da Alminha que aceita uma Performance Artística e depois pensa um pouco mais e já fica com o registo da mesma (mas só metade), não é fácil. Eu começo a achar que foi por causa dos Direitos de Autor. Assim não pagam.
Fora isso está só mesmo a cometer um crime, não daqueles que todos repudiam porque a Alma das Pessoas não é visível a não ser em forma de Arte… e tu, seu equinoderme com aspecto de Cagalhão com Merda na Cabeça fizeste isso.
Assistimos em Pombal às consequências do desmazelo em relação aos Artistas e às Artes. 

As pessoas são fechadas
em fachadas de bem parecer 
e bem dizer 
e nem sabem como é saber fazer 
o que quer que seja de Alma e Coração 
para mandar uma mensagem de esperança e construção. 

Pombal anda a dormir;
E podia ser um Mundo a descobrir.

Àqueles que sempre fizeram e continuam a fazer para que Pombal seja uma Cidade Melhor, MUITA MERDA!!! Quanto à Merda que outros deitam fora, a Arte encarrega-se de fazer Magia.

8 de maio de 2019

Murtinho por ir à fava...ou por chegar à oposição


Com a galopante ausência do presidente Diogo Mateus nos eventos do concelho, tem sobrado um inesperado protagonismo para o vereador Pedro Murtinho. Como é bom recordar, Diogo fê-lo vice-presidente ao princípio do mandato, pois que a número 2, Ana Cabral, não estava ainda "muito à vontade" - explicou. Aos nossos olhos (e aos dos munícipes mais ou menos atentos) há muito que essa limitação está ultrapassada. Mas D. Diogo, temente a Deus, preferiu fazer-se representar por alguém que bata mais convictamente com a mão no peito.
Mas o inusitado aconteceu no Festival da Fava, no último fim-de-semana, quando Murtinho traçou (aos microfones e câmara da Leiria Tv) o retrato do concelho que nem a oposição tem sido capaz de afirmar: pouca gente, precariedade laboral, um desfalecimento triste que precisa de festas como aquela, ao menos.
E pronto, afinal Deus escreve direito por linhas tortas: é o homem certo no lugar certo. Num tom dolente, só lhe faltou absolver os arautos do desenvolvimento.

Pombal está no top 10 dos municípios da região centro?


A Bloom Consulting fez um estudo, a nível nacional, para avaliar a atratividade de cada município em 3 dimensões: negócios, visitar e viver.
Pelos resultados, Pombal não está “mal” -  porque fica em 49.° lugar do total dos 308 municípios. E a nível do centro é o 10.° num total de 100.
Este “não está mal” é das principais ratoeiras em que podemos facilmente cair, porque compara-nos com a mediocridade e faz muitas vezes baixar a ambição. 
Pode explicar, por exemplo, a parcimónia com que a coisa pública é gerida sem grande contestação pública a nível municipal, e por que razão a alternativa política é fraca e ausente de argumentos (para não falar da qualidade).
O estudo peca, no entanto, por outra razão:  porque não falou com pessoas e empresas, não lhes perguntou a opinião, e não avaliou o que pensam realmente dos municípios. Seguramente que o “ranking” seria muito diferente e não veríamos o enviesamento dos melhores resultados serem para as capitais de distrito...
Será que todos estamos contentes ou vamo-nos contentando com a mediocridade?


3 de maio de 2019

O Adelino, o processo e o socialismo na gaveta

As notícias de ontem colocaram Adelino Mendes nas bocas do mundo. Provavelmente, muitos antes, ele próprio se colocou na boca do lobo. 
Caberá aos tribunais julgar o caso e apurar a veracidade de factos, a existência de provas. Mas não deixa de ser curiosa a proliferação de abutres, prontos a condená-lo, à partida. Muitos vindos de dentro do PS. Aliás...há aqui um dado igualmente curioso: num processo com 73 arguidos, entre pessoas e empresas (pelo menos uma de Pombal), ninguém acha estranho que apenas um único nome (o dele) seja revelado?...
Este é um caso que fará correr muita tinta. Ainda que, politicamente, esteja arrumado: Adelino Mendes acabou ontem para a vida política. Sabia disso. E por isso demitiu-se na véspera.

2 de maio de 2019

A Gala do Desporto (o que ficou por dizer)

(Este post pode ser lido com a introdução 'pedimos desculpa pela interrupção no registo festivo, prometemos ser breves, para não incomodar o clima reinante. De que é que importa o desfalecimento?)

Fui à Gala do Desporto da Junta de Freguesia de Pombal e vim de lá muito contente: casa cheia (como seria de esperar, com tanta equipa, atleta e famílias), uma comissão de avaliação que contenta a todos (até a oposição), presença dos dirigentes máximos do Desporto no distrito e no país (mesmo que alguns julgassem vir a uma iniciativa da Câmara, e só aqui tenham percebido ao que vinham) e uma figura carismática do futebol para apadrinhar a iniciativa: Neno. Que ainda por cima canta e é o verdadeiro entretainer. Está perdoado Pedro Roma (ou quem lhe escreveu o texto) quando dizia que o Neno iria 'abrilhantar'a noite. Se aqui estivesse para aconselhar o filho Pedro, o 'velho' Pimpão haveria de lhe lembrar, ao ouvido: "só os bailes é que são abrilhantados". 
Mas o que importa é que foi um bom momento, cheio de positivismo, foco e fé. 
É importante reconhecer o trabalho e o talento dos nossos. Foram justamente reconhecidos os méritos de Íris Mendes (atleta feminina do ano, jogadora do NDAP, no basquetebol), Danilo Horebts e João Pedrosa (da Acropombal, na categoria atleta masculino), Tomás Conceição e Bruna Gameiro (categoria revelação, dupla da Acropombal), Nuno Marques (treinador), os juvenis masculinos do Agrupamento de Escolas de Pombal, e o Ricardo Mota (que todos conhecemos por Raikar, enquanto dirigente do ano pelo Núcleo do Sporting Clube de Portugal de Pombal).
Houve mais premiados/homenageados mas não passaram pelo crivo de uma votação online. Já lá vamos.
Logo ao princípio, o presidente da Junta, Pedro Pimpão, anunciou que a votação contou com perto de 1000 participantes. O que é muito bom, se tivermos em conta que, por exemplo, o Orçamento Participativo contou com um total de 2490 votos, e estamos a falar de um universo concelhio, enquanto aqui nos quedamos pelas fronteiras da freguesia de Pombal. 
Mas faltaram dois elementos essenciais na Gala: quantos votos teve cada um dos nomeados, e também uma referência a cada um deles, na hora de entregar o prémio a quem ganhou. É básico, isso.
Se a Junta quer tornar este processo transparente, não pode deixar de o fazer. Ou então passa a fazer aquilo para o que tem toda a legitimidade: escolhe, no seu seio, e depois entrega os prémios.
Terá sido assim que aconteceu com a segunda metade dos (justos) homenageados, para categorias de carreira, dedicação e prestígio, com destaque para duas figuras: Isabel Serra, a carismática 'roupeira' do Sporting Clube de Pombal, e António Monteiro, ex-atleta, uma dos nossos maiores vultos desportivos, que preferiu não ir ao Teatro-Cine receber a homenagem devida. Coerente, igual a ele próprio. 
O momento serviu, porém, para uns breves instantes de nostalgia: quando apareceram no ecrã as notícias, as entrevistas (que o Fernando Carolino lhe fazia para O Correio de Pombal), as reportagens, um tempo em que uma imprensa viva era o espelho da terra.
Foi uma festa bonita. Um bom momento de (re)encontro de muitos amigos, naquela noite de 30 de Abril, data em que nasceu António Gaspar Serrano (1903-2001) - noutros anos (e noutros executivos da Junta) escolhida para outra gala - evocativa do homem que se envolveu em todas as associações da terra. A quem Pombal ainda deve as justa homenagem de atribuir o seu nome a um espaço cultural, como deveria ter feito na reabertura do Teatro-Cine.
E por último, mas nem por isso menos importante: Diogo Mateus voltou a primar pela ausência. Não é notável - mas foi notório. E também não é extraordinário. É só lamentável. 

1 de maio de 2019

Pombal em desfalecimento acentuado

O INE acaba de publicar os dados do saldo natural de população (diferença entre nascimentos e óbitos) por concelho. Todos os concelhos da região do Pinhal Litoral perdem população, mas Pombal destaca-se negativamente: é, de longe, o que mais perde; até quando comparado com os concelhos do Pinhal Interior.
Não há indicadores mais fiáveis da evolução das comunidades que os demográficos.
Todos os dados mostram o desfalecimento acentuado do concelho. Só falta apurar as causas e os responsáveis. Apesar de tudo, tarefas fáceis. Assim haja vontade de o fazer.


Retratos a preto e branco

Voltei a dar uma volta pelas ruas, espaços e praças, com mais história, da minha cidade: jardim, estação, cardal, ponte, pelourinho, igreja matriz, cardal…
Tudo permanece igual: despido, parado, inexpressivo - ruas sem falantes, praças desnudadas, espaços e paredes sem expressão ou abandonadas.
Gostava de poder gritar “I Pombal”, de ser um pimpão desta terra, mas não sou capaz. O que sofre e o morre são estas praças e estes espaços abandonados.
Ai meu Pombal! Falta-te vida. E políticos que te qualifiquem, e que não te descaracterizem.   

29 de abril de 2019

A cultura de elite, ou o sectarismo estratégico



O fim de semana que passou foi uma pedrada no charco dada pelo festival Oh da Praça. Durante dois dias (sexta e sábado) a música, a dança, a fotografia, e todo um conjunto de arte(s) tomou conta da cidade, com maior expressão na noite de sábado, que encheu o Jardim. 
Ao longo desses dois dias a Câmara fez questão de ignorar olimpicamente o evento: não há uma única referência nem fotografia na página do Município, o que quer dizer que a presença fugaz dos vereadores Pedro Brilhante (na noite de sexta) e Ana Cabral (no sábado à tarde) foi-o, muito provavelmente, a título pessoal. Não há notícia da presença da vereadora da Cultura em nenhum dos momentos.
Mas ontem, Ana Gonçalves integrou a "delegação do Município de Pombal" - como lhe chamou o deputado do PSD, eleito pela Europa, Carlos Gonçalves - que foi à capital apadrinhar o lançamento do livro de uma ilustre desconhecida (Maria Lourenço, natural de Almagreira), pela Chiado editora. Não sei se os leitores sabem como é fácil editar um livro por ali: basta pagá-lo.
A "escritora" em causa é emigrante na Suíça, e o lançamento decorreu em Lisboa. Foi confrangedor assistir à presença em peso da Câmara, por comparação à estratégica ausência num festival artístico que decorreu aqui na terra, e que - sabe-se agora - poderia ter sido a comemoração do 25 de Abril. Mas a Câmara não quis.
De que tem medo Diogo Mateus? De que foge a vereadora da Cultura? De Pombal? 
Por último, não deixa de ser interessante este súbito interesse pelos livros e pelos autores. Em Novembro deste ano, quando entrevistei a escritora desta terra de maior vulto e obra publicada, enviei pessoalmente uma mensagem ao presidente da Câmara, dando-lhe conta da vontade que ela tem em doar a uma entidade pública (ao município, por exemplo) toda a sua vasta biblioteca. O silêncio do edil foi ensurdecedor. Tanto quanto estridente foi a presença dos três vereadores na apresentação daquela obra, ontem. Está comprovada a questão de prioridades por parte do poder autárquico aqui na terra; resta ao povo - que ainda vota - dar-lhe resposta adequada quando for chamado a pronunciar-se. Oxalá tenha por onde escolher. 

28 de abril de 2019

Incúria total

A CMP construiu, ou mandou construir, e pagou, um parque infantil, na periferia de Albergaria dos Doze, que deixou ao total abandono (e talvez nunca tenha sido verdadeiramente usado), junto a uma suposta ETAR que nunca funcionou.
Ao lado, pagou a construção de um suposto parque de aventura e lazer que foi deixado ao abandono e tomado pelas silvas.
Entretanto, decidiu derreter mais 179.973 € naqueles equipamentos, que, pelos vistos, ninguém deseja nem reclama.
Este caso é, só por si, grave, pelo que demonstra do nível da incapacidade de gestão desta câmara. Mas o problema maior é que este caso não é excepção, é a regra.
Bem pode a câmara apregoar prémios, bandeiras e lugares de destaque nos anuários de investimento das autarquias; a realidade, por cá, fala mais alto.
Bem podem os vendedores de banha-da-cobra, os charlatões, os narcisos desta terra, apregoar que as câmaras com 1% geram 30% da riqueza nacional. A realidade é o que é.


27 de abril de 2019

A liberdade está a passar por aqui?

A realidade é sempre mais criativa do que podemos supor. Mostrou-o mais uma vez ontem à noite, no Celeiro do Marquês - um dos lugares a que o Festival Oh Da Praça também dá vida.
Um dos convidados - Luís Travassos - acabou por trazer a Pombal a comemoração de Abril que o poder autárquico insiste em camuflar: o presidente da Câmara cumpre os mínimos, preferencialmente sem cravos, o presidente da Junta aproveitou a proximidade com o deputado da nação e levou todos os funcionários a Lisboa, para assistirem a uma sessão como deve ser. 
De modo que foi uma felicidade assistir àquele final do espectáculo de Luís Travassos, que escolheu Zeca Afonso e Carlos Puebla para encerrar, lembrando Abril. Não sei se o rapaz saberia a terra em que estava. Mas foi bonito de ver os nossos autarcas a entoar "hasta siempre, comandante", em memória de Che Guevara. Ainda tenho dúvidas se o perceberam, o que torna tudo muito mais divertido...
Afunilando a questão, como se fosse o megafone que Vasco Faleiro usa para anunciar os espectáculos, é importante reter estes dias do festival Oh da Praça, cuja organização é assinada pela Junta de Freguesia. Era escusado. Bastava que entregasse o evento aos artistas Leonel Mendrix, Calika e Faleiro, que se esmeraram por programar dois dias de festival que bem poderiam ser, em si, a comemoração do 25 de Abril. A Junta não tem que ser uma comissão de festas, basta que cumpra o papel de as apoiar e incentivar. E com isso talvez a Câmara acedesse a fazer alguma divulgação do evento (que diz que apoia, pelo menos no cartaz), como faz de tudo o que é festival de sopas, mas a música...ainda por cima se tiver a chancela da junta...é concorrência.
O festival é uma excelente iniciativa, um palco para muitos artistas locais. Merece todo o apoio, e terá tanto mais valor quanto mais independente. Já parávamos com esta mania de 'institucionalizar' tudo, não?
Agora vamos lá para a rua, que o tempo promete e a música chama!



O que disse Inês Gonçalves no jantar do Farpas

“Era uma vez um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tornavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: É meu o inferno, é meu o paraíso. E não devemos malquerer as mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom”.
Estas palavras não são minhas. Quem me dera que assim fosse. São do poeta Herberto Helder e podem encontrá-las no livro “Os passos em volta”.
E escolhi começar com estas palavras porque elas nos remetem diretamente para uma componente que por desleixo, habituação ou interesses acaba por ser deixada de lado na política: falo das pessoas.
Eu não sou poeta e por isso não sei descrever de forma tão bonita o quotidiano das pessoas. Por isso, quando me convidaram para vir aqui falar eu avisei imediatamente que neste momento podia apenas falar no papel que tenho desempenhado nos últimos anos: o papel de desertora. Nasci e cresci em Pombal mas há 6 anos que não vivo aqui. Não penso voltar porque acho que o mundo é grande e eu ainda vi tão pouco. Mas ao mesmo tempo tenho visto muito e também por isso me dói mais,  cada vez que volto.
Dói-me vir à cidade e ver as ruas vazias.
Ver que os únicos lugares que ainda têm movimento são frequentados principalmente por população envelhecida.
Dói-me falar com gente da minha idade que resolveu regressar ou nunca ir embora e ouvi-los dizer que “Não esta cá ninguém”.
Entre a crise, a emigração e busca de melhores oportunidades em outras cidades do país fomos ficando sem gente. Mas como resposta política não vimos nem medidas que procurem fazer regressar essa gente à terra, nem medidas que melhorem a vida dos que cá escolhem ficar. Bem sei que iniciativas microescópicas têm sido lançadas para freguês ver. O dia disto, o evento daquilo, vai foto no Facebook e mais uma capa do Jornal cá da terra.
Floreamos, floreamos e fugimos ao cerne da questão: o concelho precisa urgentemente de investimento de maior escala. É certo que esse tipo de investimento não se encontra debaixo das pedras. No entanto, tenho trabalhado muito na área e se há coisa que sei é que em muitos raros casos nos vem bater a porta a perguntar “É neste concelho que querem que instale o meu negócio?”. E nisto já vamos tarde. Que muitos concelhos, até mesmo com a mesma cor política que o nosso,  já se adiantaram e já andam por aí a mostrar os seus diferenciadores.
Há pacotes de medidas que devem ser criados mas mais que isso devem ser publicitados nos locais corretos.
O problema é que para isso acontecer tem que existir uma estratégia de crescimento económico para o concelho. E para isso há algumas perguntas que tem que ser feitas:
O quê: Em que áreas queremos e temos potencial de crescimento?
Qual é o nosso diferenciador?
Como? Apoiando as empresas que já existem? Procurando novo investimento? Temos que qualificar a mão de obra existente dando mais bolsas de estudo para o ensino superior, e profissional? Temos que buscar nova mão de obra qualificada? Temos que alinhar a criação de cursos profissionais nas escolas a essa nova oferta?
 Quem?: temos que determinar que actores serão parte da estratégia para garantir uma implementação rápida e eficaz.
Onde?: a mim não me incomodaria nada que a comitiva internacional que recentemente andou a distribuir a selfie e o beijinho por terras francesas, aproveitasse por exemplo este tipo de viagens para fins de maior impacto para o concelho.

Temos que definir urgentemente onde queremos ir e como queremos chegar.
Porque o que eu vejo cada vez que venho a cidade é um concelho sem rumo para as suas gentes: líderes e oposição que vão lançando uns projectos, mais umas obras, mais umas requalificações, mais betão. Mas pouco pensamento estratégico que faça com o que o concelho cresça efectivamente. A falta de uma estratégia de gestão é para mim o maior problema dos executivos que têm passado pela câmara nos últimos anos e denota-se de forma transversal em tudo o que metem a mão.
Vejamos alguns pequenos exemplos: considero que temos um concelho bem dotado de infraestruturas - todos nos recordamos da febre dos campos de futebol e associações em tudo quanto é aldeia durante os tempos de Narciso Mota, que hoje pouco são utilizadas pela população. Há escolas primárias fechadas sem destino. Mas vamos ao mais pequeno exemplo: temos uma cafeteria no ponto de maior atração turística do concelho que aos domingos fecha às 6 da tarde.
Um Sistema de transporte que não está desenhado para a população activa e que por isso é ineficiente. É preciso pensar se as rotas estão bem desenhadas, se a determinadas horas deveriam existir conexões diretas de determinados pontos da cidade ao centro. 
Há eventos que se fazem para cumprir calendário: continuamos a festejar o Bodo da mesma maneira há não sei quantos anos, temos aqui bem perto o exemplo de Cantanhede que tem claramente uma estratégia de crescimento para as suas festas, e que todos os anos se bate por fazer melhor que no ano anterior.
Em Pombal, quando há um evento ja nem precisamos de ir porque já sabemos como vai ser: seja bodo, comemoração ao do 25 de abril, feira medieval, inauguração da primavera ou feira de natal: vai ser igual ao ano anterior ou pior. Nunca melhor. E é esse desleixo, essa falta de interesse, esse para quem e’ isto e’ suficiente” que me enerva. Esse desrespeito pelos que vão lutando para ficar por aqui.
E os que ficaram por aqui não estão só no centro da cidade. O concelho vai da serra ao mar como tanto gostam de anunciar e os que ficaram, velhos e novos, estão espalhados pelos 620 km2 de área que temos. Essa gente não precisa só que lhe alcatroem as estradas, depois de muito chorarem.  Precisa de medidas que não os deixem esquecidos.
 Principalmente os mais idosos que são população mais vulnerável e que muitas vezes não tem cá ninguém que os cuide porque os filhos foram embora.
Por último eu queria deixar uma mensagem à população: eu não acredito naquele ditado de cada um tem o que merece porque levamos tantos anos habituados a esta dinâmica que a verdade é que não conhecemos melhor. Mas hoje em dia há lugar para ser mais curioso, para ser mais exigente, para pedir que nos prestem contas, tanto o executivo como a oposição.  Felizmente e fruto do dia que se celebra amanhã,  se foram criando espaços como este, do Farpas. O farpas é um blog mas cada vez mais  também é o único meio de comunicação fiável e também a única oposição sólida que o poder vai encontrando, e que vai sendo uma lufada de ar fresco na comunidade.
 e criando lugar para um debate mais formal e exigente que de outra forma se vai perdendo em lamentos de café, que fazem pouco mais que alimentar o ego de uns quantos.
Herberto dizia que uns vêem o paraíso e os outros o inferno. Sei que chegar ao paraíso de que fala talvez seja uma utopia mas neste momento já me contentava com que fossemos planeando sair do purgatório.
Inês Gonçalves, natural da Ponte de Assamaça,  especialista em marketing digital

O que disse Rui Correia no jantar do Farpas

*convidados do Farpas Pombalinas no jantar-debate do nosso 11º aniversário, sob o tema "Tudo o que se passa no onde vivemos, é em nós que se passa"
"Paul Auster conta-nos em "The invention of solitude" (1982), como foi que sentiu a morte do seu pai. Durante toda a vida, o pai tinha vivido uma vida inteira de ausência e foi mesmo isso o que mais surpreendeu e feriu o escritor; mais do que propriamente aquele inesperado desaparecimento físico:
“Aquilo que me perturbou foi algo diferente, algo que nem se relacionava com a morte ou a minha reacção a ela: foi a consciência de que o meu pai não deixara quaisquer vestígios. Não tinha mulher, nenhuma família dependia dele, ninguém cuja vida fosse alterada pela sua ausência. Um breve momento de choque, talvez, por parte de alguns amigos dispersos, moderada tanto pelo carácter caprichoso da morte como pela morte de um amigo, seguida de um curto período de tristeza, e depois nada.
Eventualmente, seria como se ele nem tivesse vivido alguma vez. Ainda antes da sua morte ele tinha estado ausente, e já há muitos anos que as pessoas que lhe eram mais próximas haviam aceitado esta ausência, considerando-a uma qualidade fundamental da sua existência.”
O escritor decide então recuperar a vida do homem que era o seu pai, uma vida sem vestígios e sem futuro.
Sem mais elaboração, esta imposição de um desaparecimento sem memória, resultou da leitura lenta e repetida deste parágrafo, numa restaurada Ribeira do Porto em frente a um Douro fresco e nocturno, no intervalo de um colóquio científico sobre património, sua conservação e valorização. Nele, muito se falou de "memória" como uma moeda sem valor facial, falou-se da "conservação" como se se tratasse de uma nova e repudiável forma de embalsamamento, peritos chamaram "parques temáticos" às recuperações de centros históricos, defendeu-se a construção em altura, apelidando a outra de "predatória", disse-se o pior do conceito de património imaterial, enfim, um viveiro bem nutrido de gente realmente competente e interessada em pensar.
De um recanto da Universidade do Porto apareceu um professor de filosofia que, do que eu lhe percebi, enquadrou rapidamente o fenómeno do desaparecimento, da supressão ou brevidade da memória, como um elemento inseparável da evolução humana. Depois de todos os desacordos, apenas a ideia de "morte" conseguia unir os patrimonialistas presentes.
Numa época em que tudo parece ser património a preservar, dali resultava, ao menos em efígie, esta perspectiva inesperada de ser necessário rever toda a matéria aprendida nos bancos de escola, para realmente saber o que significa hoje a palavra "património".
A escassez que resulta da amnésia histórica é já hoje por todos sentida, mesmo sem o sabermos. No ofício de historiador a que, por vezes, me entrego, pude já testemunhar que uma única mão incauta, algures numa década passada, pode anular a presença de centenas de vidas; como se não tivessem existido. É quase sempre um livro velho que se destrói, umas caixas velhas com papéis que se queimam, uns arquivos mortos de humidade que vão para o lixo, quase sempre por falta de espaço; gestos anónimos que têm depois poderosa repercussão. Apagam-se registos. Por falta de espaço. Se não temos espaço para todos os registos e tudo é registo, o que deve conservar-se, então? E, sobretudo, conservar para quê, para quem? Definir o que é de conservar não corresponde a uma representação privativa, ou pior ainda: culta, do que deve ser memorável e honorável? E o que resta, tudo o mais, morre?
A morte equivale a um risco de espaço em falta. Nada habita mais uma comunidade do que o seu passado e o assombro da sua precariedade. Todo o futuro, individual e colectivo, depende da relação que se preserve com a memória. Mas qual é a jurisdição da memória?
Quando visitei o hotel da Serreta na ilha Terceira, fi-lo clandestinamente. Uma velha corrente, timidamente proíbe, hoje, a entrada aos menos metediços. O hotel é pequeno, mas robusto. O seu interior encontra-se totalmente vandalizado. Cada passo se faz sobre um mar de vidro espalhado no chão. Já nada resta de mobiliário, a não ser vagas reminiscências de reposteiros aveludados, uns furtivos elevadores enferrujados para içar a comida ao salão e uma enorme lareira de granito altivo. Do edifício, do seu fulgor de anos setenta, sobrevive ainda a sua arquitectura, (moderna e vencida pelo estupro), bem como
uma vista resplandecente sobre o mar, um mar oceânico, atlântico, autêntico. Toda esta decadência não abateu a soberania que ressuma daquelas paredes. Elas escondem histórias. Aqui se reuniram em 15 de Dezembro de 1971, os presidentes Nixon e Georges Pompidou, tendo por anfitrião Marcelo Caetano. Por estes corredores caminhou, acelerada, uma liça presidencial e a voz rouca e arrastada de Henry Kissinger. A visita à ilha marcou também a primeira viagem presidencial do Concorde número 001. Altaneiro, Pompidou organizou uma visita surpresa à sua reluzente e orgulhosa aeronave. Nixon lamentou que os Estados Unidos não integrassem o programa Concorde. “”It’s a big success””, aplaudiu, então. De tudo isto restam notícias e uma fotografia. O hotel vai morrendo, desde então. É uma história por inteirar.
Há uns anos o meu amigo Mário Tavares publicou um livro que, neste contexto gostaria de invocar. É um livro sobre os nove fuzilamentos napoleónicos que tiveram lugar nas Caldas da Rainha em 1808. Mário Tavares é um historiador muito peculiar. É um velho rato de biblioteca, que conhece os cantos à casa, acessíveis apenas a um dono de uma erudição discreta e potente como a sua. O seu livro colocou-me um desafio enternecedor. Gostaria de partilhar alguns dos duelos que este seu livro me colocou. Trata-se de um pequeno livro que representa, em meu entender, tudo o que a grande história deve ser: um resgate e um desconforto.
Em primeiro lugar ele fala-nos de morte. E não me refiro aos fuzilamentos. Refiro-me ao facto muito trivial de se tratar de um testemunho que regressa ao mundo. Este livro é um testemunho ressuscitado. Resgatado da amnésia colectiva. Fora publicado algures no início do século XX e depois desapareceu alhures entre as páginas de um alfarrábio. Um esquife de papel. De nada serve um texto se não houver quem o leia. De nada serve um livro se ninguém o abre. Nesse caso, o autor, vida e obra, morrem. Com a morte de um texto, morre também um testemunho. Com a morte de um testemunho, morrem pessoas, morrem vidas inteiras. Manoel de Sá Mattos, cirurgião é a vida extraviada que Mário Tavares reencarnou. Este livro é, pois, um acto de resgate. O que o conquistou das sombras foi a cirurgia luminosa do Dr. Mário Tavares.
E resgatou-o porque este testemunho merece ser relido. Regressa assim ao nosso convívio depois de uma hibernação, interrompida por mão humana.
O livro é, também, um exercício de desconforto. E talvez seja este o factor que mais alvoroçou a curiosidade do Dr. Mário Tavares. Estamos em 1808. Portugal é traumaticamente invadido. A Corte ausentara-se para o Brasil em Novembro e 1807, carreada em oito naus, três fragatas, três brigues e duas escunas. Tudo a abarrotar de pessoas, bens, medos e lágrimas. E, no entanto, este furor militar que se abate sobre Portugal representa para muitos uma oportunidade civilizacional. Com essa invasão chegam a Portugal os grandíloquos princípios do liberalismo, nesta época ainda eivados de uma natural limpidez teórica. Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Rousseau, Voltaire, Montaigne, Diderot. Textos animados por uma convicção pela qual o mundo poderia ser construído, com base jurídica, numa ordem justa; transformando o direito num objecto de beleza, uma beleza responsável por definir postulados que se afirmem guardiões dessa ordem justa.
Habitando um universo de intoleráveis desigualdades sociais, de desprezo absoluto pelos mais elementares direitos do Homem, aqueles que a Declaração de 26 de Agosto de 1789 proclamara. Um reino onde o nepotismo e a corrupção depravavam a sanidade do sistema social; um país aonde os ecos das revoluções liberais chegavam como luzes de progresso que tardavam em se acender.
A presença em solo português de tropas que transportavam nas suas mochilas um novo quadro de valores civilizacionais, valores que haveriam de mudar a face de toda a existência humana, era aguardada por muitos portugueses com uma impaciência quase imaculada.
Mas... Seria essa impaciência patriótica? O futuro do país dependente de uma turba de arruaceiros violentos e desordeiros, liderados por um escol elitista de oficiais conscientes da sua missão histórica, mas sem o menor rebuço em tolerar entre as suas fileiras as mais temíveis infâmias?
Quem nesta sala estaria hoje disposto a aceitar uma coisa dessas? Quem, apenas para que as suas ideias vingassem, aceitaria ver o seu país invadido por estranhos rufias, de armas em punho? Quem os apoiaria?
Como chamar patriota a quem aceite ver os seus compatriotas violentados por tropas estrangeiras?
Como poderiam os mais informados, justamente os mais informados dos cidadãos, ignorar que chegara a oportunidade excepcional de acabar com a secular e infamante barreira de sangue que discriminava um cidadão de outro?
O livro fala-nos de um português que tomou partido; tomou partido pelas forças invasoras do seu país. O seu depoimento é o de alguém que ininterruptamente se sente escrutinado pela história. Em cada página ele nos convida a perceber porque tomou este partido. Será má consciência ou um indefectível proselitismo liberal?
Pouco importa, na verdade. Em história, tudo é contexto. Mas na vida real, o contexto impõe que se tome partido. Este livro fala-nos de um homem que tomou partido. Um homem que tenta explicar o inexplicável. Aceitar o inaceitável. Defender o indefensável. E, concordando ou não, nós compreendemo-lo. Conhecemos o seu segredo. Partilhamos a sua aflição.
Cinco dias depois dos fuzilamentos das Caldas, Junot escrevia a Napoleão o seguinte:
“Lisboa 14 de Fevereiro de 1808
A Sua Majestade
Tenho a honra de comunicar a V. M. que nos primeiros dias de Fevereiro, 100 soldados franceses doentes que se dirigiam ao hospital das Caldas foram insultados por alguns portugueses aos quais se juntou o Regimento de Infantaria de linha do Porto; não houve mortos, apenas alguns feridos. Enviei imediatamente ao local o General Loison com ordens para cumprir o decreto que segue em anexo, depois de apurar com exactidão a verdade dos factos; este General comunicou-me hoje que o regimento foi licenciado e os seus oficiais e soldados mandados para suas casas sob a vigilância das autoridades civis e militares e que a comissão militar nomeada ad hoc condenou à morte 15 indivíduos dos quais foram executados 9, pois os outros andam fugidos.
Este terrível exemplo ensinará aos portugueses o que devem recear quando ousarem insultar os soldados franceses.”
A utilidade do historiador resume-se a tentar perceber. Idealmente nem a história devia servir para criar pontes para o presente ou preparar o futuro. A história foi. Tentar perceber o que foi sem outras demandas é, contudo, tarefa impossível. Atingir aquilo que os gregos designavam por epochê - a suspensão dos juízos. Será isso possível em história? Creio que não é. Existe história séria sem o tentar? Creio que não há. A participação do historiador no objecto narrado é irrefreável. Mas a consciência dessa insidiosa perversão do objecto histórico permite-nos, ao menos minimizar, os riscos de ingerência, os danos colaterais da deturpação.
Aquilo que mais me seduz nos estudos de história é a afirmação de todas as ambiguidades e incongruências do ser humano e das sociedades. Cada vez pressinto simpatizar mais com o que os melhores estudos de história vêm expondo acerca da vacuidade dos grandes sistemas organizadores e para tudo quanto representa a autenticidade falível de um evento, uma biografia ou de uma qualquer necropsia historiográfica. No mínimo, trata-se de argumentações de crescente efemeridade. Neste sentido, conceitos tradicionais como escola, contexto, conjuntura, marco, causa, efeito, estrutura, e muitos outros ainda em uso, são representações que vacilam e vêm acusando o toque. Num momento em que as ideologias assumem a precariedade como elemento, este sim, constituinte da sua formulação, não é espantoso que esta consciência se nos vulgarize.
O livro do Dr. Mário Tavares fala-nos deste desconforto. O de sabermos que o dilema impossível que se colocou a Manoel de Sá Mattos em 1808 pode muito bem ser o nosso, a cada dia que passa. Amanhã de manhã. Tomar partido. Todos compreendemos agora o que desejava um ardente liberal num mundo absolutista. Todos conjecturamos o que poderia significar ver o nosso país, amanhã de manhã, ocupado por tropas violentas estrangeiras. E, ao perceber o dilema, abandonamos o caminho fácil do julgamento. O historiador não é um árbitro. É, antes de tudo o mais, um escritor. O seu leitor acompanha de longe um enredo. O historiador desenrola novelos com o poder de intimar a memória.
O livro do Dr. Mário Tavares fala-nos da iminência da morte como uma inerência da memória. Somos apenas aquilo que outrem lembrará de nós. O futuro de tudo quanto dizemos e fazemos permanece apenas numa jurisdição que nos escapa. Somos, nesse sentido, a memória dos outros. Este estudo, mais do que comemorar uma efeméride, comemora uma efemeridade.
A intervenção cívica implica a reflexão sobre estas efemeridades. De que serve participar civicamente na nossa comunidade? O que significa este “onde” que todos somos a que se refere o grande Pessoa? Contexto? Tomar partido? A resposta encontra-se na decisão anti-patriótica ou fundamente consciente, legítima e corajosa de Manoel de Sá Mattos. Não há forma digna de viver sem viver com dignidade. E a dignidade constrói-se pela afirmação do que realmente pensamos e fazemos. Do que somos, enfim.
Só conheço três coisas por que vale a pena viver: ter a oportunidade de amar, ser merecedor da graça de ser amado por alguém e procurar não fazer mal a ninguém. Nada mais justifica esta exaustão permanente que é a vida.
O Farpas Pombalinas, ou melhor, as pessoas que são o Farpas, que o lêem, que o combatem, que o contrariam, que se irritam e que o defendem com unhas e dentes, representa esta pulsão pela vida e pela indomável imprescindibilidade de assumir uma causa, com e contra este ou aquele partido, com e contra o que esta ou aquela pessoa representam. Estar presente e ser presente feito.
A memória, essa cínica e hipócrita memória que em duas ou três gerações se encarregará de dissipar toda a nossa existência, a existência toda de todos quantos aqui estamos, obriga-nos ao dever de lutar por garantir que essas futuras pessoas, essas mesmas que de nós se não lembrarão, têm vida melhor por causa daquilo que por elas fazemos hoje. Nesse sentido, o combate pela memória é o que torna a nossa passagem pela terra tão virtuosa e indispensável. É a nossa função. Tentar perceber e, só depois, participar.
O que menos se suporta na morte é a sua completa falta de pudor. O franzino e quebradiço pudor é também o que nos impede de matar tanto quanto a morte o faz. Toda a memória é obra do pudor. Sem ele, sem ela, tudo é, todos somos, como o pai de um escritor: um mar de vidro espalhado no chão".
Rui Correia (professor, historiador, músico e ex-autarca nas Caldas da Rainha)