Cardal etc. e Tal – 6
1. Tenho e mantenho por
norma existencial não ir aos figos com altarrões nem à merda com anões. Nem
perdão Vos peço pelo vernáculo: a Língua só faz mal a quem a mal trata. Começo
assim por necessidade de aviso: não voltarei a comentar os meus próprios textos
aqui vindos a lume. Se e quando tiver algo de pertinente e crítico-construtivo
a propósito de publicações das outras pessoas que por aqui “farpeiam”, muito bem, comentarei. Mas os meus, não. Que eles,
textos, se comentem a si mesmos, imperfeitos e ínvios que sejam. Aviso feito,
passemos à lembrança de certa ocasião interjornalística minha com o já
fisicamente desaparecido senhor Menezes Falcão.
2. Nos idos da década de 90
do século passado, há já coisa de uns quinze anos, mantive, nas páginas do
saudoso semanário pombalense O Eco,
uma polémica opinativo-cronística com uma das mais notórias e notáveis figuras
do sinédrio pombalense: o senhor Menezes Falcão. Assunto da polémica: a entrega
de Macau por Portugal à China em 1999. O senhor Menezes Falcão era toda uma
figura: fisicamente afranzinado por mor dos seus já muitos anos, seguia porém
sendo um peso-pesado da cena cardalense. Tínhamos, ele e eu, posições
diametralmente opostas em relação àquilo de Macau. Ele era todo contra, eu era
mas-que-remédio. Tratava-se, no fundo, de um duplo coice da nostalgia: para
ele, era o derradeiro desfiar das pérolas do Império; para mim, que fiz a 4.ª
classe no exacto ano do 25 de Abril, era a minha última oportunidade de ser
português com Macau, à imagem e
semelhança do grande poeta Camilo Pessanha, que por lá nos representou e
cumpriu a dura solidão de sonetista ímpar.
Nada mais natural, sermos de opostas divisões e
mundivisões. O senhor Menezes Falcão era um homem que se tinha dado bem na
Ditadura, tendo chegado a edil nomeado a dedo, como nesses tempos cinzentos se
praticava sem remorso nem justificação. Em democracia, todavia, o senhor
Menezes Falcão seguiu as regras do jogo. Muitas vezes o senti enojado perante
certas avantesmas parolas que lhe sucederam (e sucedem ainda, aliás). Mas foi
uma figura digna, merecendo ser recordado – por uns com saudade, por outros com
respeito.
A polémica foi breve. Foi breve – e foi isto
também: de uma subida amabilidade de argumentos pró-pessoais entre um senhor (e
um Império…) que se finava e um Zé-Ninguém que assinava, como ainda hoje
assina, com o nome que meu Pai me deu. Não é que tenhamos ficado amigos. Não.
Décadas de mais nos separavam (e educações; e percursos; e credos; e
expectativas; e, vá lá, filosofias). Mas também nenhuma baixeza mútua nos
inimizou. Sou amigo dos filhos dele, o Zé e o Henrique. E Macau é dos Chineses,
pois-que-remédio: como nós por cá também não tarda muito vamos ser, senhor
Menezes Falcão.
Sit tibi
terra levis,
enfim, locução que o senhor padre João Paulo Vaz me fará o favor de explicar
aos morangos-sem-açúcar que, dia 15
de Agosto passado, foram bandeirar tangerinamente a um sítio mal escolhido (por
eles): a Charneca. Mas, e só porque lá não estive, não desenvolvo para além
disto: a Charneca não é a China.
Só a merda é que nunca deixa de ser o que é.
Daniel
AbrunheiroSó a merda é que nunca deixa de ser o que é.














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