A descentralização em curso foi desenhada para ser ao gosto
de cada um, como convém a quem gosta de mexer nas coisas para que tudo fique na
mesma. É uma “não-reforma”: não acrescenta nada de relevante, entretém; não é a
reestruturação de que o país necessita; nem agradará à maioria das autarquias –
para umas é uma mão cheia de nada, para outras é uma mão de problemas. No final,
a esmagadora maioria acabará por aceitá-la, com mais ou menos dificuldade, porque
acrescentará mais uns euros aos orçamentos municipais e adocicará a partidarite
com mais uns tachos para distribuir. Pelo meio, anuncia-se a próxima reforma: regionalização.
Coitado do doente.
O processo de descentralização do Estado para as autarquias
não tem obedecido a uma estratégia, a um plano, ou uma lógica sequer, que permita dotar o
país de um modelo administrativo coerente, consistente e adequado à sua realidade
socioeconómica. Cada governo faz as suas experiências, ao sabor de impulsos supostamente
reformadores que têm resultado em mais entidades, mais assimetrias, mais
entropia.
Portugal consolidou o seu território no final da reconquista
e, logo de seguida, D. Dinis desenvolveu um modelo de administração assente no
municipalismo, que se manteve até aos nossos dias. O municipalismo faz parte do
código genético do país; logo, deve ser aprofundado e adaptado à realidade socioeconómica.
Não faz sentido existirem freguesias com mais de 25.000 habitantes e concelhos
com menos de 2.500. Logo, indispensável é a reformulação do mapa de concelhos
de forma a dar massa crítica ao municipalismo dotando-os de capacidade para
proporcionar condições de vida idênticas, nomeadamente ao nível dos serviços do
Estado, mas nisto ninguém quer mexer; mexe-se no resto e estraga-se o que está
enraizado e funciona.
O país não tem nenhuma tradição ou cultura regionalista -
nem os distritos vingaram - e as nossas regiões sempre foram unicamente similaridades
geográficas, nunca tiveram identidade ou autonomia política.
A estrutura administrativa do país não pode estar sempre em
reformas e nunca reformada. Por isso comungo de Pessoa quando diz: “Se alguma
coisa odeio, é um reformador. Um reformador é um homem que vê os males
superficiais do mundo e se propõe curá-los agravando os fundamentais”. É o que
se tem passado com as reformas da estrutura administrativa do país desde a
Revolução Liberal – pelo menos!

