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2 de maio de 2024

Canções de Abril #32

 


 “Tanto Mar”, a célebre canção da autoria de Chico Buarque de Hollanda, teve duas versões. A primeira fora lançada logo a 26 de agosto de 1975, em pleno verão quente, e reflete a expetativa e a alegria em relação à situação portuguesa por parte do cantor brasileiro. Mas em 1978, Chico Buarque alterou alguns versos de acordo com a sua visão face aos posteriores desenvolvimentos em Portugal.
Esta música conseguiu fazer o paralelismo entre o período democrático que se tinha iniciado em Portugal  e o regime ditatorial que se vivia no Brasil, e que só terminaria uma década depois.

“Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim”

1 de maio de 2024

Canções de Abril #31

 


“Avante Camarada” é um hino de resistência antifascista e de crença num futuro melhor, e uma espécie de segundo hino do PCP. Canção com música e letra de Luís Cília, e voz de Luísa Basto, editada em 1967 para ser difundida na Rádio Portugal Livre, a partir de Budapeste.

Foi a canção da ordem no 1 de Maio de 74 e nos posteriores primeiros de Maio. Não poderia faltar neste alinhamento do Farpas, no 1.º de Maio. 

30 de abril de 2024

Canções de Abril #30


 

“Liberdade” é uma canção de Sérgio Godinho que nasceu logo após a Revolução de 74; editada no álbum “À Queima Roupa” - o mais político do Mestre de Canções -, em outubro de 74.

É uma canção claramente engajada com o espírito da época, que, pela musicalidade, mensagem política e forte refrão, entrou rapidamente no ouvido das pessoas e era entoada nas frequentes manifestações populares do período revolucionário. 

Pela sucessão de slogans que encadeia, Sérgio Godinho definiu-a como “uma espécie de graffiti em rock”, mas é, acima de tudo, uma canção claramente comprometida com os desígnios da revolução e o valor supremo da Liberdade nas suas múltiplas dimensões.

Viva Abril

Viva a Liberdade

“A paz, o pão

Habitação, saúde e educação”.


29 de abril de 2024

Canções de Abril #29

Um dos símbolos do 25 de Abril de 1974 é o slogan O Povo Unido Jamais Será Vencido”. A frase, popularizada em todo o mundo, poucos meses antes, aquando do golpe militar chileno que derrubou o governo de Salvador Allende, começou por ser o título de uma canção dos colombianos “Quilapayún”. E se, na década 1970, "O Povo Unido Jamais Será Vencido” representava um apelo à participação colectiva para a construção de um mundo melhor, hoje, quando essas ideias parecem utópicas e ultrapassadas, o slogan ainda constitui um factor de mobilização e participação, nas ruas, nas fábricas, ou mesmo nas redes sociais.

“Portugal Ressuscitado”, a primeira canção gravada em Portugal depois do 25 de Abril de 1974, aproveita a popularidade do slogan como mote para expressar os dias de grande euforia que se viviam logo após a revolução. A música é uma composição de Pedro Osório e o poema de Ary dos Santos introduz pequenas subtilezas que permitem que seja cantado de forma mais natural. Foi um enorme êxito e ganhou, por direito próprio, um lugar de destaque na música portuguesa do período revolucionário.

Na gravação, que ocorreu nos primeiros dias da revolução, participaram Tonicha, Fernando Tordo e o grupo InClave, dirigido por Pedro Osório, que contava com a participação de Herman José. É o próprio Herman que escutamos nesta versão.

28 de abril de 2024

Canções de Abril #28

 


“A Cantiga é Uma Arma” tem música e letra de José Mário Branco, foi editada primeira vez em 1975, no LP com o mesmo nome, pelo Grupo de Acção Cultural (GAC), fundado por José Mário Branco, Fausto, Afonso Dias e Tino Flores. É uma canção tipicamente panfletária, de cariz revolucionário,  politicamente comprometida e empenhada com a revolução desencadeada pelo 25 Abril de 74, que rapidamente se tornou um sucesso popular e um instrumento de mobilização popular nas designadas sessões de dinamização cultural. 

Neste raro registo vídeo ao vivo, na Golegã, em novembro de 74, está bem patente o espírito da época.

27 de abril de 2024

Canções de Abril #27

 


Depois da Revolução, Portugal assiste a uma explosão músical. O regresso dos músicos exilados inunda o país de espetáculos, nascem canções, peças de teatro, a poesia está na rua – como titulava Vieira da Silva num dos seus quadros. A Canção "Somos Livres", também conhecida como "A Gaivota” é composta em 1974, interpretada pela atriz Ermelinda Duarte.
O tema celebra a liberdade,  e é considerado um dos mais populares após o derrube da ditadura e fim da censura. A  foi Canção escrita pela própria Ermelinda Duarte, com arranjos de José Cid, e pertencia à peça de teatro "Lisboa 72/74".
Até aos anos 80, Ermelinda Duarte participa em várias peças de teatro, e ainda grava um single, em 1981, com duas marchas. Dedica-se então ao teatro infantil, e à dobragem de desenhos animados. 
Depois do 25 de Abril, a canção “somos livres” torna-se um símbolo para as gerações que cresceram nos anos 70 e 80. 

26 de abril de 2024

Canções de Abril #26

 

A marcha militar que precedia os comunicados do MFA entrou rapidamente no ouvido das pessoas por ser uma melodia alegre, cheia de energia e de fácil memorização. É uma adaptação de uma marcha militar inglesa, intitulada “A Life on the Ocean Wave”, do pianista inglês Henry Russel (1812-1900), a que José Niza agregou, sem grande sucesso, uma letra designada “Desta vez é que é de Vez”.

Na verdade, o que ficou mesmo no ouvido foi a bela marcha, por encarnar o pujante sentimento de libertação. Uma verdadeira música da Revolução.

25 de abril de 2024

Canções de Abril #25

 


No dia 25 de Abril de 1974, quando passavam pouco mais de 20 minutos do 'dia inicial, inteiro e limpo',  os passos de Francisco Fanhais (gravados em França, no exterior do castelo de Herouville) ecoaram no éter.  O Movimento das Forças Armadas (MFA) escolheu a Rádio Renascença para a transmissão da senha de confirmação da operação militar contra o regime. Ao microfone, o locutor Leite de Vasconcelos, autor do programa "Limite", anunciava primeiro os versos:

Grândola, vila morena

terra da fraternidade

o povo é quem mais ordena

dentro de ti, oh cidade 

Nessa noite, a  rádio divulgou duas senhas: a primeira era “E depois do adeus”, de Paulo de Carvalho, transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa. A segunda seria a música de José Afonso, que a Rádio Renascença tocou. O primeiro sinal destinava-se a preparar as tropas para a saída, e o segundo ao início das operações. 

A canção foi composta em 1971, depois de uma visita de Zeca Afonso à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense de Grândola, no Alentejo. A canção integrou o álbum Cantigas do Maio, dirigido por José Mário Branco, em França.

Há 50 anos, a cantiga era uma arma e a revolução estava na rua.

Viva o 25 de abril. Viva a liberdade!

23 de abril de 2024

Canções de Abril #24



A 8 de março de 1974, Paulo de Carvalho ganha o Festival da Canção com “E Depois do Adeus”, uma canção romântica com música de José Calvário e letra de José Niza. A canção ficará em penúltimo lugar no Festival da Eurovisão, mas ficará para História por outros motivos.

Sete semanas depois é escolhida para 1.ª senha do Golpe de Estado, transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa, às 22h55 de 24 de abril, por ser uma canção conhecida e sem conteúdo político, servindo, assim, para dar o sinal de alerta e prontidão sem levantar suspeitas, podendo o golpe ser cancelado se os líderes militares concluíssem que não estavam reunidas as condições para avançar. Não foi o caso. 

A bela canção de amor cumpriu a sua missão.

Canções de Abril #23

 


A 24 de fevereiro de 1969, Simone de Oliveira ganhava o Festival com uma canção que fintou a censura. Versos como "quem faz um filho fá-lo por gosto" foram ouvidos demasiado tarde pelos guardiões da moral e dos bons costumes. A Desfolhada, poema de José Carlos Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, chegaria à Eurovisão com todos os holofotes apontados. De melodia revigorante e lirismo aglutinador, era considerada a melhor letra pelos jornais estrangeiros”. Mas esbarrou num assumido europeísmo anti-Portugal, numa altura em que a guerra em África ia longa e sangrenta.
Na vasta carreira de Simone, a Desfolhada haveria de tornar-se um símbolo, também pelo facto de coroar a maior finta à censura, ombreando apenas com a Tourada, de Fernando Tordo, em 1973. 
Em 1968, um tema de Zeca Afonso tinha sido afastado da competição, o que aliás se tornaria prática recorrente para um leque de artistas incómodos. O título da canção de Zeca Afonso era tão só "Vejam Bem".

Poucos saberão que esta canção não foi escrita para Simone de Oliveira, mas para Elisa Lisboa, uma jovem atriz do Teatro Experimental de Cascais. A poucos dias do  festival, Elisa desistiu, apresentando razões pessoais e um atestado médico, com diagnóstico de 'laringotraqueíte'. E assim se chamou Simone de Oliveira. Depois de vencer o festival, partiu da estação de Santa Apolónia, em Lisboa, em direcção a Madrid, pela rota ferroviária de duas ditaduras, alimentando grandes expetativas.  Ao longo do percurso, milhares de pessoas acenavam, exibindo cartazes de apoio.
Mas o  enorme sucesso da "Desfolhada" em Portugal não teve o mesmo resultado no Teatro Real de Madrid, palco do Festival Eurovisão de 1969. A canção seria atirada para um penúltimo lugar, apenas com quatro pontos. Para o público nacional, de pouco importou: Simone foi recebida em apoteose, à chegada a Lisboa. Curiosamente, até o Estado Novo lavraria o seu desencanto por "tamanha injustiça à música nacional". Em protesto, Portugal não se faria representar no Festival Eurovisão da Canção do ano seguinte (1970).
A verdade é que, 55 anos volvidos, a canção ainda hoje anda nas bocas do povo.

22 de abril de 2024

Canções de Abril #22


O disco “Venham Mais Cinco” de José Afonso é uma obra prima. Gravado em 1973, todas as suas letras e músicas são da autoria de José Afonso, muitas delas escritas na prisão de Caxias. Os arranjos são de José Mário Branco e conta com a participação de músicos com origens e formações muito diversas. O tempo das baladas de Coimbra já tinha ficado, definitivamente, para trás. O que José Afonso propõe neste disco é de uma inovação e genialidade raramente vistas no Portugal de então.

O tema que dá nome ao álbum foi a primeira escolha do Capitão Santos Coelho para senha do 25 de Abril. Acontece que, já com tudo preparado, descobriu-se que essa música estava proibida pela Rádio Renascença, tendo a escolha alternativa recaído sobre "Grândola, Vila Morena". O resto é história.
 
"Venham Mais Cinco" é uma música icónica do trabalho de José Afonso. Ela expressa, de forma clara, a opção estética do autor, ao recorrer a ritmos de inspiração africana numa música de raiz portuguesa. A letra era, obviamente, muito incómoda para o regime fascista. Aparentemente, o poema refere-se a um conjunto de amigos que pedem mais cinco copos numa taberna. Acontece que, nesse ano, tinham passado cinco anos do início da "Primavera Marcelista", que prometia alterações políticas que nunca chegaram a acontecer. O famoso refrão - “Não me obriguem a vir para a rua gritar, que é já tempo d'embalar a trouxa e zarpar” - era um apelo claro à urgência revolta e um convite ao ditador para partir, o que viria a acontecer quatro meses depois, aquando do golpe militar de 25 de Abril de 1974.  
 
A versão de Ildo Lobo para "Os Tubarões", gravada no memorável concerto "Os Filhos da Madrugada", a 30 de Junho de 1994, no Estádio de Alvalade, constitui uma belíssima homenagem à obra de José Afonso e à vontade que o artista sempre manifestou de colocar em diálogo ritmos africanos e portugueses. É também uma oportunidade para lembrar os cantores africanos que tiverem um papel importante no combate à ditadura, como Ildo Lobo, Ruy Mingas, entre muitos outros.

21 de abril de 2024

Canções de Abril #21


“As Balas” é uma bela e tocante balada de Adriano Correia de Oliveira, com letra de Manuel da Fonseca e arranjos e direcção musical de Fausto Bordalo Dias, do álbum ”Que nunca mais”, de 1975.

A canção tem tanto de magistral como de fraca divulgação. Aborda coisas simples e naturais da vida, colocando-as em contraste com a desgraça da guerra e da morte que marcaram a sociedade portuguesa (e das colónias) durante década e meia - mensagem bem vincada no refrão “As balas deram sangue derramado”.

19 de abril de 2024

Canções de Abril #19

 


“O que Faz Falta” é uma canção do álbum Coro dos Tribunais, com temas compostos antes do 25 Abril mas gravado no final de 1974, em Londres, já sem o aval da censura prévia. Todo o álbum corresponde a uma forte linha de intervenção e de desencanto em relação às falsas ilusões geradas pela designada primavera marcelista.

O Zeca gostava muito desta canção (mais do que do Grândola, que pelas razões conhecidas e desconhecidas se tornou celebre), talvez pela forte mensagem de mobilização popular que ela encerra. Interpretou-a pela primeira vez, antes da revolução do 25 de Abril, para um grupo de trabalhadores que se encontravam em protesto contra o lock-out promovido pelo patrão de uma fábrica. E, segundo José Jorge Letria, teria gostado de fechar o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa, a 29 de Março de 74, no Coliseu dos Recreios, onde esteve toda a geração de músicos de intervenção, com “O Que Faz Falta” ou “Venham mais Cinco” se a censura não as tivesse retalhado e cortado aos pedaços. Acabou por escolher o “Grândola Vila Morena”, que foi cantada em coro por todos os músicos e pelo público.   

Naquela época como agora,

“O que faz falta é avisar a malta

O que faz falta

O que faz falta é dar poder a malta

O que faz falta”.

18 de abril de 2024

Canções de Abril #18

Em 1971 foram publicados cinco dos mais importantes álbuns da música portuguesa: “Cantigas do Maio”, de José Afonso, “Os Sobreviventes”, de Sérgio Godinho, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades,” de José Mário Branco, gravados em França, e “Gente de Aqui e de Agora”, de Adriano Correia de Oliveira e “Movimento Perpétuo”, de Carlos Paredes, gravados em Portugal. Uma verdadeira revolução no panorama musical português. Para além disso, 1971 foi também o ano do primeiro Festival de Jazz de Cascais e do Festival de Vilar de Mouros. O ambiente era propício ao florescimento de ideias de mudança.

Por estratégia comercial da editora Sassetti, o álbum de Sérgio Godinho foi apenas lançado em 1972, evitando competir com trabalho de José Mário Branco (da mesma editora). O sucesso de “Os Sobreviventes” foi imediato, recebendo o Prémio da Imprensa, em 1972, e o Prémio Bordalo, entregue pela Casa da Imprensa, em 1973. “Que força é essa?”, a canção de abertura, é um apelo à consciencialização e à revolta dos trabalhadores injustiçados. Inspirado na situação dos emigrantes portugueses em França, Sérgio Godinho dirigia sua mensagem aos que viviam em Portugal sob o domínio da ditadura, enfrentando condições de trabalho mais adversas e com menos direitos laborais. O disco foi proibido pela Censura três dias após o lançamento.

Mais de cinquenta anos depois, esta música permanece como o hino dos que se recusam a aceitar as injustiças e se insurgem contra a submissão à ordem de obedecer e calar. A prova está nesta versão dos Clã, Filipe Sambado e Cláudia Pascoal, apresentada no Festival da Canção de 2021.

16 de abril de 2024

Canções de Abril #16


 

“Trova do Vento que Passa”, de 1963, é uma “balada”, mais no género “trova”, de António de Portugal com poema de Manuel Alegre, celebrizada na voz de Adriano Correia de Oliveira. 

A canção rompe com o romantismo e o lirismo associado ao fado de Coimbra ao privilegiar o conteúdo poético em detrimento da instrumentação e ao versar a luta contra a ditadura e contra a guerra. Tornou-se rapidamente a primeira canção de clara contestação ao regime e uma espécie de hino da resistência estudantil, nomeadamente em Coimbra. Foi pela primeira vez apresentada ao público na festa de recepção aos primeiro-anistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, realizada no Hospital de Santa Maria. Nesse concerto, Adriano Correia de Oliveira é acompanhado por Rui Pato, José Afonso e António Portugal, cantando o tema que segundo Manuel Reis, autor do livro “Adriano Presente”, teve de ser repetido seis vezes, após o qual os estudantes saíram para a rua a cantar em coro.

O poema reflecte a condição de isolamento e resignação de quem era obrigado a emigrar, terminando com uma nota de indignação face a essa condição. A quadra final 

“Mesmo na noite mais triste 

em tempo de servidão 

há sempre alguém que resiste 

há sempre alguém que diz não”

tornou-se a mais evocativa. Manuel Alegre afirmou que se inspirou num episódio revoltante quando viu Adriano Correia de Oliveira a ser perseguido por agentes da PIDE.

Numa entrevista concedida em 1980, Adriano Correia de Oliveira afirmou que “Foi a partir do acolhimento de uma canção como a “Trova do Vento que Passa” que comecei a sentir o verdadeiro gosto por cantar, por fazer música e, sobretudo, por sentir que estava ao lado do justo, do lado antifascista”.

Uma canção imperdível para reviver e comemorar Abril.


15 de abril de 2024

Canções de Abril #15

 

No dia 6 de Maio de 1975, um ano depois da revolução, uma mulher fez parar o trânsito no cruzamento da avenida Miguel Bombarda com a 5 de Outubro. Chamava-se Teresa Torga, tinha 41 anos, fora corista e atriz do teatro de revista. Mas os ventos de liberdade e criação que sopravam no país não a arrastaram para o sucesso. Atirada para uma depressão, saiu para a rua despida.

 

“No centro a da Avenida

no cruzamento da rua

Às quatro em ponto perdida

Dançava uma mulher nua”

 

Por ali passava o repórter fotográfico António Capela, que registou todo o episódio: "Que aproveitando a barbuda/ Só pensa em fotografá-a/ Mulher na democracia não é biombo de sala".

O caso foi notícia nos diários da capital. E Zeca Afonso imortalizou-o, contando ao detalhe toda a história de Teresa Torga, num registo ímpar de humanidade. Há uma versão imperdível de Lúcia Moniz e Diogo Leite, em 2017, numa homenagem da Sociedade Portuguesa de Autores a Zeca Afonso. E nestes 50 anos do 25 de Abril, Mariza LiZ e Júlio Pereira oferecem-nos uma nova interpretação. 

14 de abril de 2024

Canções de Abril #14

 

 José Barata Moura ficou mais conhecido pela sua produção discográfica infantil do que como cantor de intervenção. O maior sucesso deste cantautor (que também é filósofo e professor catedrático) foi mesmo o "Fungagá da Bicharada", embora do seu trabalho se tenha destacado, logo em 1970, a canção "Olha a Bola, Manel".

Mas houve muitas outras músicas na obra de José Barata Moura, e sobretudo canções de intervenção e de combate ao regime. Exilado em França, Barata Moura gravou inicialmente em francês, também em 1970, o EP "Bidonville". Ainda antes do 25 de Abril grava em português.

O álbum "Caridadezinha" foi editado em 1973, com 12 canções. "Vamos Brincar à Caridadezinha" revelava-se uma crítica mordaz aos que praticavam, à época, a caridadezinha, num país profundamente desigual. 

13 de abril de 2024

Canções de Abril #13

“Queixa das Almas Jovens Censuraras” é uma das canções do álbum “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, de José Mário Branco, gravado em Paris em 1971, e conta com um belíssimo poema de Natália Correia.  O título sugere um lamento dos jovens a quem impedem de ser livres. O poema é altamente metafórico e denuncia um regime que perpetua uma educação castradora e sufocante. 

Este magnífico álbum foi o responsável por revelar José Mário Branco, na época um ilustre desconhecido no país. Já a autora da letra era uma figura de grande destaque na cultura portuguesa. Açoriana, poeta, antifascista, Natália Correia afrontou Salazar ao honrar a tradição erótica e satírica portuguesa. A sua “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”, de 1966, foi censurada pelo fascismo e valeu à autora uma condenação por "consciente e pública ofensa do pudor, da decência e da moralidade pública". Natália é a responsável pela publicação da obra “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (as “três Marias”), em 1972. O livro é proibido pelo regime três dias após o lançamento, que o considerou “pornográfico e contrário à moral e aos bons costumes”. O adultério, a violação, o aborto e a subordinação da mulher, eram temas proibidos pelo Estado Novo, que via as mulheres como cidadãos de segunda, não lhes concedendo o direito de votar ou a possibilidade de sair do país, abrir conta bancária ou tomar contraceptivos sem a autorização do marido. Um livro urgente nos dias de hoje, onde muitos parecem ter saudades de um tempo em que a "família tradicional" era sinónimo de discriminação da mulher.

12 de abril de 2024

Canções de Abril #12

 


Em 1970 o jovem Hugo Maia Loureiro destacou-se no VII Grande Prémio TV da Canção Portuguesa. Nesse ano a RTP decidiu não participar no Festival da  Eurovisão, ainda mal refeita das expetativas goradas do ano anterior, com a Desfolhada de Simone de Oliveira.

“Canção de Madrugar” ficou classificada em segundo lugar, num concurso em que se sagrou vencedor Sérgio Borges, com o tema “Onde Vais Rio que eu canto”. Mas ficou no ouvido de todos o tema cantado por Hugo Maia Loureiro, um poema de Ary dos Santos, com música de Nuno Nazareth Fernandes.

Esta canção é uma obra poética, dividida em duas partes quase antagónicas. Na primeira, a alusão ao linho e aos nardos sugerem a preparar para algo sagrado. A segunda parte é marcada por uma entrega dolorosa, numa cadência de elementos negativos: nem 'choros', nem 'medos', nem 'uivos', nem 'gritos', ‘nem farpas nem farsas’…

A “canção de madrugar” termina sem a realização desse amor, mas com a persistência do desejo. O que à época foi um arrojo, e um desafio à censura. Ao longo dos anos muitas foram as versões que conheceu: Carlos do Carmo, Sérgio Borges, Conjunto Académico João Paulo, e mais recentemente Susana Félix, no projeto “Rua da Saudade”.

Foi banda sonora da série “E depois do Adeus”, da RTP, dedicada ao drama dos “retornados”.

Hugo Maia Loureiro morreu em fevereiro deste ano, afastado dos palcos. Canção de madrugar foi o seu maior sucesso. 

11 de abril de 2024

Canções de Abril #11


Canta, canta, amigo, canta
Vem cantar a nossa canção
Tu, sozinho, não és nada
Juntos temos o mundo na mão
 
Cinco mil pessoas, em coro, entoaram o refrão de “Erguer a Voz e Cantar” no I Encontro da Canção Portuguesa, que decorreu no Coliseu dos Recreios em Lisboa no dia 29 de Março de 1974. Na presença de um forte aparato policial, o público manifestava, dessa forma, a sua impaciência para ouvir os artistas que raramente tinha possibilidade de escutar: José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, José Jorge Letria, José Carlos Ary dos Santos entre outros. A canção tinha sido gravada quatro anos antes por António Macedo e, de imediato, se tornou um hino de resistência, adoptado por milhares de jovens em todo o país. O público que, nesse dia, enchia por completo o Coliseu era sensível à mensagem da canção, que apelava à solidariedade e à participação cívica activa.  
 
A singeleza musical e a mensagem simples e directa fizeram desta canção património da geração dos “filhos da madrugada”, ficando no imaginário popular de todos quantos viveram a Revolução dos Cravos. E se antes do 25 de Abril de 1974 a canção era cantada em festas privadas, reuniões estudantis e partidárias, depois da revolução passou também a fazer parte do cancioneiro litúrgico, cantada por muitos jovens em inúmeras igrejas do país. Na verdade, de todas as músicas de intervenção, “Erguer a Voz e Cantar” ou “Canta, Amigo, Canta”, como ficou conhecida, é talvez aquela que se pode dizer que se tornou verdadeiramente popular.