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27 de abril de 2025

Quem se mete com o Pimpão, leva


Ficou claro na última reunião da Assembleia Municipal que Pedro Pimpão já escolheu o seu adversário para as próximas eleições autárquicas. Pelo tom crispado com que respondeu a Luís Couto, candidato à Câmara pelo movimento Pombal Independentes, percebeu-se também – de novo – que o sentido democrático deste presidente vai buscar o seu quê de inspirador a Narciso Mota: também ele acenava com “os prints” das publicações que lhe desagradavam. Também ele considerava que as notícias “negativas” prejudicavam a boa imagem da Câmara. Em rigor, toda a resposta de Pimpão a Couto (vale a pena recorrer ao vídeo da AM para esse deleite) denota um registo da criatura à imagem do criador – que de resto recuperou para a sua permanente campanha.

Mas centremo-nos na questão que mais importa: a tão almejada (por ele) vinda do IPL para Pombal, sobre a qual parece que “quase ninguém” é contra, segundo Pimpão. E se for, está a contas.

Ora há aqui vários equívocos nesta forma atabalhoada como o Pedro vê o desempenho do cargo institucional que ocupa. Mas o crucial é este de considerar que não vai explicar os benefícios do ensino superior em Pombal a quem não acredita, porque seria “como falar de Deus a um não crente”.

Errado, Pedro. O presidente da Câmara não tem só obrigação de responder, em sede da AM ou noutra, sobre os custos hipotéticos ou reais -  que serão avultados, ninguém tenha ilusões. Tem obrigação de os justificar.

 

Depois há o lado incongruente destes números, bem diferentes dos que Pimpão gosta de passar nas redes sociais, ora na rua, ora na festa, ora na missa, ora à mesa do café, mas sempre com a aura de bom cristão – que acumulou minutos de silêncio por estes dias, em memória do Papa, para compensar este ruído, talvez.

Um presidente para todos, todos, todos, menos os que o contrariam.

20 de novembro de 2022

Em defesa do não

No passado dia 7 de Novembro, no Café-Concerto, o Farpas promoveu o debate “Ensino Superior em Pombal: sim ou não?”. A defesa do sim esteve a cargo de Ricardo Vieira (os seus argumentos podem ser vistos aqui). Eu defendo que a instalação de uma escola de ensino superior em Pombal não é, de maneira nenhuma, uma prioridade para o desenvolvimento do nosso concelho. Passo a explicar.

No final do século XX, o ensino superior em Portugal registou um período de enorme expansão. Entre 1990 e 2020, o número de alunos a frequentar o ensino superior público aumentou 137%, sendo que nos institutos politécnicos a percentagem foi ainda maior: 276%. Como era previsível, o crescimento abrandou substancialmente nos anos seguintes e, durante as primeiras duas décadas do século XXI, o número de alunos a estudar nas nossas universidades e politécnicos praticamente estabilizou. 

As instituições do ensino superior perceberam rapidamente que tinham que inverter a política expansionista que vinham a praticar. No final da primeira década do século XXI, a tónica do seu discurso e o enfoque dos seus planos estratégicos passou a incidir na consolidação da rede existente e na melhoria da qualidade do ensino e da investigação praticados. A sistemática diminuição do número de alunos a frequentar o básico e secundário, aliada ao forte desinvestimento do estado no ensino superior público, obrigou as instituições a uma lógica de sobrevivência de curto prazo, baseada na procura de receitas próprias, nas propinas dos alunos e na prestação de serviços diversos. Muitas optaram por criar cursos a granel, de péssima qualidade, captando alunos com fraquíssimas competências académicas. As mais dinâmicas, também criaram centros de desenvolvimento tecnológico com vista a captar dinheiro das empresas e, sobretudo, de projetos europeus.

Com a criação dos Cursos de Especialização Tecnológica (CET) e, posteriormente, dos Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP), cujo interesse, em teoria, reconheço, os institutos politécnicos descobriram uma forma fácil e barata de captar alunos e de os fidelizar às suas licenciaturas, sobretudo aquelas que vinham a perder atractividade. Para isso, contaram com dois aliados de peso. Por um lado, o governo, que encontrou uma forma de se vangloriar do cumprimento das metas de jovens a estudar no ensino superior sem que, para isso, faça um grande investimento. Por outro, a vaidade bacoca de muitos autarcas, que estão dispostos a pagar para ter uma chafarica na sua terra onde possam colocar uma placa a com o seu nome por baixo de uma referência ao ensino superior. No meio disto tudo, os alunos vão sendo enganados com discursos redondos e promessas de uma formação de qualidade que nunca vão ter.

É precisamente isso que escolhemos para Pombal. O protocolo de cooperação entre o Instituto Politécnico de Leiria (IPL) e o Município de Pombal conduziu à criação de um Núcleo de Formação para ministrar seis cursos TeSP, que são ofertas formativas não conferentes de grau académico, cuja conclusão, com aproveitamento, conduz à atribuição do diploma de técnico superior profissional. Mas será isto o que realmente queremos para Pombal? 

Numa entrevista recente, Pedro Pimpão disse estar convicto de que Pombal virá a ser “um pólo diferenciador de inovação ao nível do conhecimento”. Este discurso vazio, muito ao gosto do nosso edil, apenas deixa transparecer que o é apregoado não tem qualquer relação com o que existe na realidade. 

Os seus antecessores, apesar de tudo, eram mais esclarecidos. Narciso Mota, quando estava bem-disposto, defendia para Pombal uma Escola de Superior de Ciências Agrárias e Florestais, baseando a sua argumentação num estudo da autoria do Centro de Estudos Inovação e Dinâmicas Empresariais e Territoriais do Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro, de Abril de 2000 (ver aqui). A criação dessa escola era também defendida pelo IPL, tendo a proposta chegado à Assembleia da República, a 29 de Abril de 2000, pela voz das deputadas Ofélia Moleiro (do PSD) e Celeste Cardona (do CDS-PP). A verdade é que a escola nunca chegou a ver a luz do dia. O IPL deixou cair a ideia e, em 2007, admitiu de redefinir “as competências centrais de cada uma das suas Escolas para nelas incluir novas ofertas formativas de que a região e o país comprovadamente careciam, em vez de criar novas unidades orgânicas. (...) da mesma forma que os cursos da “Escola Superior de Ciências Agrárias e Florestais”, de Pombal, foram incluídos na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar de Peniche”. Foi o ponto final do IPL nesta discussão.

Mas Pombal nunca deixou de sonhar e os autarcas locais continuaram iludidos e a iludir os pombalenses. A sua obsessão pelo ensino superior, a sua incapacidade para pensar fora desse espartilho, fez com que Pombal passasse totalmente ao lado da dinâmica dos Laboratórios Colaborativos, onde muitas instituições de ensino superior, empresas e autarquias viram uma possibilidade de colaborar e gerar o tal “polo diferenciador de inovação ao nível do conhecimento”. Em 2018, onze anos depois do IPL ter desistido da ideia, Diogo Mateus afirmou que tinha a “intenção política” de “desenvolver um novo estudo para a criação da Escola Superior de Ciências Agroindustriais e Florestais no concelho” e que a criação dessa escola vinha no seguimento de “um trabalho alargado” em Pombal, com “mais de uma década”, que propunha a olhar para a importância da floresta. Não sei se é este o projecto diferenciador de Pedro Pimpão (nem ele sabe, coitado) mas, segundo Diogo Mateus, esse seria “um projecto moderno, versátil, aberto a alunos de todo o mundo, exigente, jovem, ambicioso e com uma participação activa das empresas e dos investidores agroindustriais e florestais, da madeira, resina e investigação”. Devia ter em mente o curso TeSP em Inovação e Tecnologia Alimentar que captou para Pombal três anos depois. 

Aqui temos que ser rigorosos. O estudo elaborado pela Universidade de Aveiro previa, para a viabilidade da Escola de Superior de Ciências Agrárias e Florestais, um número de 1600 alunos, 900 dos quais seriam de fora da nossa região. Olhando para a situação atual, onde na primeira fase do concurso de acesso ao ensino superior ficaram por ocupar 608 vagas em cursos relacionados com as ciências agrárias e alimentares, pergunto, tal como fez o Secretário de Estado José Reis no debate parlamentar de Abril de 2000: não será um excesso de optimismo imaginar que, com a oferta que temos, numa rede suficientemente desequilibrada e dispersa pelo país, existirá uma multidão de 900 estudantes a dirigirem-se para Pombal? A resposta é óbvia!

Termino da mesma forma que o fiz aqui, em 2021. Pombal é um concelho muito empreendedor, mas a sua vocação não é o ensino superior. Para além disso, os recursos não são ilimitados e, como tal, há que perceber quais as nossas potencialidades e estabelecer prioridades. O dinheiro que se gasta com este capricho dos TeSP poderia servir para a criação de uma incubadora de empresas de base tecnológica, de um cluster de indústrias criativas - etc, ideias não faltam -, que aproveitasse a proximidade com o Politécnico de Leiria, por um lado, e com a Universidade de Coimbra, por outro. Aí sim, estaríamos a potenciar a criatividade dos nossos jovens e poderíamos dizer que Pombal promove a criação de emprego científico. Caso contrário, são fake news. 

4 de julho de 2021

Importa-se de repetir?


A Câmara Municipal de Pombal anunciou, com grande alarido que, a partir do próximo Ano Letivo, Pombal passará a disponibilizar na região de uma oferta formativa de Cursos Técnicos Superiores Profissionais (TeSP) e Pós-Graduações, no sentido de responder às necessidades de qualificação do tecido empresarial e criação de emprego científico. 

Criação de emprego científico? Importa-se de repetir?

Para que conste, sempre considerei que a vinda de um pólo de ensino superior para Pombal não é, de maneira nenhuma uma prioridade para o desenvolvimento concelhio. Ao contrário do que muitos autarcas pensam, um estabelecimento de ensino superior não é um barracão onde alguém coloca uma placa a dizer “Universidade inaugurada pelo Senhor Fulano de Tal...”  Uma instituição de ensino superior de qualidade necessita de professores altamente qualificados, alunos motivados, infra-estruturas adequadas, bibliotecas, e muito, muito mais.

Convém clarificar que o que agora se propõe para Pombal é tudo menos um pólo de ensino superior. O protocolo de cooperação entre o Politécnico de Leiria e o Município de Pombal prevê a criação de um Núcleo de Formação para ministrar seis cursos TeSP, que são ofertas formativas não conferentes de grau académico, cuja conclusão, com aproveitamento, conduz à atribuição do diploma de técnico superior profissional. 

Vou abster-me de emitir opinião sobre estes cursos e a forma como têm sido usados para servir os propósitos tanto do governo como dos politécnicos. O que não posso deixar passar em claro, no entanto, é que se afirme que estes cursos visam a criação de emprego científico. Para além de ser insultuoso para quem tem procurado uma formação que corresponda a esse perfil, essa afirmação pretende dar a ideia (falsa!) que, de facto, se está a criar um pólo de ensino superior em Pombal. 

Pombal é um concelho muito empreendedor mas a sua vocação não é o ensino superior. Para além disso, os recursos não são ilimitados e, como tal, há que perceber quais as nossas potencialidades e estabelecer prioridades. O dinheiro que se gasta com este capricho dos TeSP poderia servir para a criação de uma incubadora de empresas de base tecnológica, de um cluster de indústrias criativas - etc, ideias não faltam -, que aproveitasse a proximidade com o Politécnico de Leiria, por um lado, e com a Universidade de Coimbra, por outro. Aí sim, estaríamos a potenciar a criatividade dos nossos jovens e poderíamos dizer que Pombal promove a criação de emprego científico. Caso contrário, são fake news