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18 de março de 2026

Onde se dá conta dos preparativos para a apresentação do livro que narra as façanhas e as desventuras do Pança contra as rajadas e os estragos da tempestade

- Dai-me licença, Excelência – pediu o Pança; e acrescentou, com invulgar cortesia: - mui agradecido por me receber, e por me conceder um pouco do vosso precioso tempo. 

- Que queredes? Dizei-o rápido – ordenou o Príncipe.



- Venho endereçar-vos um modesto convite. Mas antes que Vossa Mercê mo relembre, confesso o meu profundo desgosto pelos nossos recentes desencontros. Mas queira acreditar-me: em nada diminuíram a estima e consideração que este sempre fiel escudeiro continuará a sentir pelo Senhor.

- Adiantai, Pança, que nesta fase da minha vida dispenso esses colóquios – observou o Príncipe já meio agastado.

- Que assim seja…. Vossemecê já deve saber que vou apresentar o meu livro, onde narro as minhas façanhas contra a tempestade – anunciou o Pança.

- Como…?! Repete-me, Pança, escreveste um livro? Mas vós não sabeis escrever! – Retorquiu o Príncipe, deveras surpreso.

- Mas quem disse a Vossa Excelência que é preciso saber escrever para fazer um livro?! – Perguntou o Pança agastado. E logo acrescentou: - que eu saiba, para se fazer um livro, um livro que as pessoas leiam com gosto, só é preciso ter uma boa história na cabeça e saber narrá-la ao escriba, que isso de desenhar letras e palavras e de colocar as vírgulas e os pontos nos locais devidos, é coisa que qualquer escriba faz. 

- Para que te metes tu nessas andanças, Pança? 

- Para quê? Meto-me, porque me posso meter, porque sou um escudeiro que aprendeu e tomou o gosto das artes do poder e quer deixar rasto – afiançou o Pança, determinado. 

- Continuais igual, Pança, com pouco siso e muita vaidade. 

- Ouça vossemecê — proferiu o Pança: isto da governação não pode ser só dar ao cabedal e fazer obra. Como o Senhor bem sabe, se não a registarmos em livro as nossas conquistas todas as esquecem, e uma pessoa passa a esquecido. Pratiquei tamanhas façanhas que não poderia deixá-las em silêncio.

- E quem escolhestes para escrever essas tuas façanhas? – Perguntou o Príncipe.

- Um Senhor das Letras… Mas não um poeta, que canta as coisas não como foram, mas como deviam ser; mas sim um historiador, para escrevê-las, não como deviam ser, mas como foram, sem acrescentar nem tirar à verdade a mínima coisa – afiançou o Pança com orgulho.

- Mas quem? Dize-me… - insistiu o Príncipe.

- É segredo até à apresentação, mas ao Senhor digo: a mais ilustre figura das Letras do Reino - bacharel Sanção Carrasco.

- Muito bem… E que reacções tendes tido ao manuscrito? – Perguntou o Príncipe, curioso.

- O bacharel Carrasco considerou a história grandiloquente, magnífica, mui sentida e verdadeira. Narrei-lha com esta voz de trovão e de tambor; mas também o avisei: não ponha a troche e moche quanto me vem à cabeça, mas só o que é o mais saboroso e menos prejudicial ao entretenimento.

- E das pessoas que já o leram? – insistiu o Príncipe.

- Dizem que é uma história mui clara e divertida, que não oferece dificuldades, onde se não encontra nem por sombras uma palavra desonesta, ou um pensamento menos católico. E acredite-me, meu Amo e farol, muito ficou por dizer de mim.

- Jeito para a gabarolice não te falta, Pança – sentenciou o Príncipe.

- Mas dizei-me: posso contar com Vossa Excelência na apresentação? – Perguntou, inquieto, o Pança.

- Vou pensar… Tenho de pensar se tão modesto cerimonial justifica a quebra do meu afastamento.

- Até à vista.

- Deus vos guarde.

                                                                                Miguel Saavedra

                                                                                        (Ficção)

14 de novembro de 2022

Onde se dá conta dos festejos do dia do reino

Sabíeis que ao décimo primeiro dia do mês de novembro se celebrava o dia do reino; mas este ano, com o profeta ao leme, ficastes sabendo que a efeméride se estende por uma semana. E mais: sabe este bem informado escriba, que o profeta deseja alargar a coisa até a ligar aos festejos do Natal, e depois aos do Ano Novo, e de seguida ao Carnaval.

Na véspera do dia do reino aconteceram coisas mui importantes e de grande interesse, que serão aqui ignoradas por troca com outras ainda mais importantes e grandiosas.



No dia do reino, o profeta, acompanhado pelo prelado, as mais altas autoridades civis e militares, o oficial-mor das cortes, os seus discípulos, senhores e outras pessoas mui principais, de sangue-azul, mui galantes e ricamente ataviados, recebeu, nos Paços do Concelho, logo pela manhã, os convidados, os servidores do reino e outra muita e limpa gente que se quis ajuntar à mais alta e mais pomposa celebração, que principiou com o muito solene Hastear das Bandeiras, ao toque da fanfarra, a seu tempo formada para o efeito.

De seguida, caminharam todos para Igreja da Nossa Senhora do Cardal, já de vésperas mui bem ornamentada, com velas, tochas, mirra e incenso, e vastos ornamentos florais, tudo em muito boa ordem e perfeição, para assistirem à Eucaristia em Honra de São Martinho, em boa hora introduzida no programa antes da Sessão Solene, para que a glorificação dos homenageados se fizesse na Graça do Senhor, como manda a doutrina.

O cura Vaz presidiu à Eucaristia, mui bem acompanhado por dois missionários africanos que deram cor e sentido ecuménico à celebração, com grande perfeição, ordem e solenidade, com orações e preces a Deus e ao nosso santo padroeiro, ora na língua do povo ora no latim dos senhores mui principais, sempre mui bem acompanhado pelo Coro, pelo Grupo de Louvor e pelo devoto povo, nos cânticos e nas preces, numa comunhão, fé e entusiasmo cristão como nunca se havia visto, que até parecia coisa milagrosa.

Tomada a comunhão, o profeta e o seu séquito seguiram para o Teatro do Reino, onde cada qual foi arrumado conforme a sua precedência. Como é da praxe, o profeta proferiu um sermão mui laudatório, tanto ao povo como os senhores principais. Depois, desfilou a catrefa de medalhados: gentis-homens, gentis-senhoras, mui importantes entidades e servidores do reino, e até alguns pecadores, hereges e maus cristãos, mas idem… - tudo com muita pompa mundana.

De seguida, o nosso profeta mandou servir mui abastado banquete, com infinitas e diversas iguarias, às principais pessoas do reino, aos homenageados e aos convidados; tendo faltado algumas pessoas secundárias do reino, mui desagradecidas.

A vasta ementa de festejos foi-se desenrolando p`la capital e por muitas vilas, praças e ruas, com diversas iniciativas, grandes novidades e muitas invenções, tudo com muita alegria e grande folia, para grande divertimento e distração do povo e dos nossos soberanos.

Para o último dia, o nosso profeta mimoseou o povo com a mui espampanante Floribela e o mui pimba Emanuel, que percorreram as vilas e as praças do reino cantarolando “Não tenho nada e tenho, tenho tudo / Sou rico em sonhos e pobre, pobre em ouro”, e “Nós pimba / nós pimba”, para delícia da criançada, dos crescidos e dos enfraquecidos.

Como é costume, tão extensos e extenuantes festejos deixaram o nosso profeta coxo dos sentidos, derreado do corpo e enfraquecido da moina, sem ânimo para retornar ao fadário que é para ele a governação, e a precisar de férias.

Viva o Reino.

Viva o Profeta.

                                                                          Miguel Saavedra 

5 de novembro de 2022

Onde se dá conta da mui singela cerimónia que o Pança fez ao busto

Aos três dias do corrente mês, o Pança, governador do mui laborioso, endinheirado e imodesto condado das Meirinhas, cerimoniou a colocação, no mais mal-parecido espaço do seu condado, de um busto  a um ilustre meirinhense, ainda vivo, de muita valia e de muita renda, obtida na exploração e no açambarcamento de barro. 



Para a cerimónia, o Pança convidou a governadora da mui rica região da Estremadura e províncias adjacentes, mulher de boas letras e mui nobre geração, caída em desgraça pela sua fraca aceitação popular mas em mui boa hora recuperada para estas lides pelo Primeiro do Reino; convidou o profeta do Pedro, criatura da linhagem dos Panças, cordato, bom animador de festas mas de fraca presença; convidou, como era obrigatório, o homenageado, que assistiu desconsolado à cerimónia; e convidou, também, o mestre-de-artes que moldou o busto, e meia dúzia de outros senhores e outras pessoas mui principais que por amizade ou obrigação marcaram presença. 

O Pança foi mui descuidado e infeliz na solenidade, na ordem e no regimento da cerimónia, que, no lugar de homenagear, desmereceu a honra e os propósitos devidos a tão ilustre e grandessíssima figura. Deixou a todos admirados com cousa tão singela e tão mal ajambrada, sem mestre-de-cerimónias e sem mordomo que ordenasse as praxes da cortesia e do cerimonial. O nosso Reverendíssimo Bispo não esteve presente, nem outro capelão, no seu lugar, celebrou missa ou abençoou o busto; ninguém tocou "A Portuguesa" ou o "Hino da Carta"; a nossa Guarda não desfilou nem marcou presença; os nossos Bombeiros e os nossos Escuteiros foram ignorados; e até as altas figuras do protocolo (D. Diogo, o Comendador, os Procuradores, etc.) foram dispensadas. 

Houve discursos mas era melhor que não tivesse havido. O descomedido Pança discorreu, com a pompa que se lhe conhece, uma enfiada de preâmbulos, agradecimentos, sentenças e pedidos; engasgou-se nos verbos e derrapou nas vírgulas, mas acabou inchado. O profeta Pedro aproveitou o momento para estender e afinar a ladainha bajuladora – nem o busto lhe prestou atenção. Só a Governadora, pessoa de boas letras, boa condição e bom conselho, falou de forma serena e apropriada. 

A cerimónia terminou como começou: deslaçada; sem tocares e sem danças, nem cousa alguma que desse prazer. Consta que no final o busto derramou uma ou duas lágrimas ao sentir que ficava ali abandonado, às escuras, à chuva, ao pó e à farta poluição, sem uma campânula que o protegesse de tanta moléstia. O homenageado, homem de bom coração e de bem (se tal título se pode dar a um açambarcador), ainda pensou levá-lo consigo…

“mas em casa não me eterniza”, pensou e desistiu!

Miguel Saavedra

14 de dezembro de 2021

Obrigado, Pedro!



Uma pessoa pensa que a realidade não pode superar a ficção mas...é Pombal, é Natal, o Pedro é presidente e está a cumprir o seu destino. Dias depois da chegada  dos contos de Lili Carrol ao Farpas, inspirada no clássico de "Alice no país das Maravilhas", eis que a Câmara faz sair para a rua esta pérola. Obrigado, Pedro. Prometemos trazer mais episódios do teu folhetim a público, nos próximos dias. 

10 de dezembro de 2021

O Filho da Alice no Reino das Maravilhas

Aventuras no Bosque Encantado e o Engenhoso Resgate

Quando o rato Camundongo saiu da sua toca, para caçar mais queijo no Bosque Encantado, já o seu amigo Pedro choramingava no maldito buraco. Chegado ao Bosque, estranhou o chilrear da passarada, àquela hora. Percebeu, depois, que galhofava com o sucedido.  Deu uma volta, e outra, pelo Bosque Encantado; mexericou por um lado e por outro, até lhe chegar aos ouvidos coisa estranha – gemidos humanos. Arrebitou as orelhas, resguardou-se, pôs-se à escuta, até perceber de onde vinham; e, passo-ante-passo, aproximou-se do local de onde vinham. Desceu ao buraco para ouvir melhor, e depois perguntou:


- Quem está aí?

- Sou eu, o Pedro, o Filho da Alice, acudam-me, tirem-me daqui...

- Eu sou o rato Camundongo, também conhecido pelo rato Verde, caro amigo; colocas-me um grande desafio: como poderei resgatar-te sem dar azo à chacota?

- Tira-me daqui grande amigo. Eu só quero sair daqui… - suplicava o Pedro.

- Vou ver o que se pode fazer… - prometeu o rato Camundongo.

O rato quis descer até junto do amigo, mas logo concluiu que de lá não poderia fazer nada por ele. Pensou melhor …, “se juntar as cordas que usei nos enfeites do Bosque…”

Enquanto o rato se atarefava na atadura das cortas ouviu passos. Era o Anão de Jardim que regressava da sua rotina das Boas Noites ao Marquês. Chamou-o e contou-lhe o sucedido. E ele quis logo assumir o comando das operações e activar o socorro. Mas o rato Camundongo, mais manhoso, desaconselhou-o.

Nisto, viram passar ao lado, vagarosamente, olhando para o chão como se tivesse perdido algo, o Coelho-Branco-de-Olhos-Rosa, com braçado de papéis, que o Anão de Jardim adivinhou ser outra catrefa de requerimentos para os chatear. O rato Camundongo ainda sugeriu pedirem-lhe ajuda, mas o Anão de Jardim recusou. 

De seguida, passou por lá o Cura Vaz, pregador e cantador, que resolveu passar pelo Bosque depois das rotinas de sacristia. Informado do sucedido, benzeu e rogou por milagre ao Santíssimo e dirigiu-se para o Altar onde suplicou ao Santo Padre Amaro que intercedesse junto da Nossa Senhora do Cardal pelo Filho da Alice. 

Paralelamente, o rato atou a corda à tília mais próxima do buraco e fê-la descer gritando “já chegou?”; “já chegou?”…; respondido, do fundo, com “ainda não”; “ainda não”… 

Quando chegou a informação “já chegou, amigo”, “obrigado, amigo”; o rato Camundongo ordenou: “sobe amigo”.  

O Pedro agarrou a corda e subiu alguns metros a muito custo, mas desfalecido tombou novamente no amontoado de gravetos e folhas secas. 

Ouviu-se, cá em cima, o estrondo e o grito da queda. E logo de seguida  o Anão de Jardim resmungou: 

- Eu bem te avisei que isso não resultava; em bem te avisei; eu bem….

- Hum-hum! — pigarreou o Camundongo com ar zangado.

Ainda mal refeitos da desilusão, ouviram um sapateado suave. Era a Lebre-de-perna-curta na sua corrida, agora fora de horas, que logo os reconheceu.

- Pôxa, amigos, por aqui?! Estão tristes no Bosque Encantado! Porquê? 

- Aconteceu uma desgraça: o Pedro caiu num buraco fundo. Lançámos-lhe uma corda, mas não consegue subir porque está muito enfraquecido – respondeu o Anão de Jardim.

- Tenho a solução, amigos! – afirmou, efusiva, a Lebre-da-perna-curta. E dirigiu-se ao Pedro: - Toma a minha poção mágica, amigo. Bebe-a, que logo ficarás forte.

Quando o Pedro agarrou na garrafa viu no rótulo “Sumo de laranja, proteína power e vitamina da felicidade”. Bebeu sôfrego. Passados alguns segundos exclamou: 

- Já me sinto forte e confiante, amigos. E acrescentou: - Vou subir, amigos! Dentro de minutos estarei aí convosco para retomarmos a Nova Ambição.

Eis como o Filho da Alice regressou,  de uma forma simples e engenhosa, ao Reino das Maravilhas.

                                                                                               Lili Carrol

7 de dezembro de 2021

O Filho da Alice no Reino das Maravilhas

Aventuras no Bosque Encantado (I)

Os últimos dias têm sido maravilhosos para o Filho da Alice… O Pedro acredita mesmo que o céu estrelado gira em torno do destino do Homem.

Ontem, o Céu estava estrelado e a Lua irradiava uma luminosidade misteriosa. Quando o Pedro veio à varanda, depois de jantar, transbordava felicidade; sentia que os astros estavam alinhados com o seu destino. Estava irrequieto, saiu, encaminhou-se para o centro, para o Bosque Encantado no Jardim das Tílias, o seu lugar de deleite. Cumprimentou os anões, quis saber com se sentiam com tanta garotada; agradeceu-lhes a dedicação e a simpatia, o notável serviço à comunidade. Depois, quis divertir-se: visitou a Casa do Pai Natal, entrou na Bota Botilde, passou pela neve e deslizou pelo escorrega.


Mais eis que, quando tocou no solo, um buraco se lhe abriu e engoliu-o. Tombou por ali abaixo, tão bruscamente que não foi sequer capaz de se frear. Desceu sem saber se o poço era demasiado fundo ou se era ele que estava caindo devagarinho.

Naquela escuridão, o Filho da Alice limitava-se a pensar no que aconteceria depois. “Depois deste tombo, não me vou mais importar com os trambolhões que me esperam!”

E caía, caía, caía. “Será que esta queda não acabará nunca?”, pensava ele; “Quantos quilómetros eu já despenquei? Já me devo estar aproximando do centro da Terra”. 

O Filho da Alice aprendeu muitas coisas na escola, fez muitos cursos, mas não tinha ideia do que era latitude ou longitude; no entanto, considerava essas palavras monumentais, e gostava de as dizer em voz alta - gosta muito de se ouvir. No tombo, entretinha-se a falar: “- Será que vou atravessar a Terra? Vai ser muito engraçado sair do outro lado, no meio das pessoas que andam de cabeça para baixo: os antipáticos!” Riu-se.

Caía, caía, caía e, como não tinha mais nada para fazer, continuava a tagarelar. Até que, de repente: plunct! Aterrou num amontoado de gravetos e folhas secas. A queda tinha chegado ao fim.

Pôs-se a pedir ajuda: “Socorro; socorro; socorro; …, tirem-me daqui”. Mas aquela hora, ninguém o ouvia, e ninguém lhe podia valer. Perante tamanha aflição, responderam-lhe os pássaros que pernoitavam nas frondosas tílias.

- Estás sozinho, passarão; não tens ninguém que te apoie nem que te ampare na desgraça...

- Acudam-me, pardais amigos.

- Um bom pardal nos saíste tu; invadiste o nosso poiso sem nos dizeres nada e agora queres apoio… E chamam-nos, a nós, pardais!

                                                                                   Lili Carrol 

19 de setembro de 2021

Agradecimento

Eu, Miguel Saavedra, mui apreciado e desdenhado escriba, venho por este meio agradecer ao Joelito, el Raspador, a sua mui generosa e útil oferenda, que muito préstimo terá.  



                                                                                            Miguel Saavedra

28 de agosto de 2021

Folhetim mexicano: Joelito, el Raspador

III – De como um sacrifício individual se transformou num desafio colectivo

Quando a estecticista Rosa entrou na sede rosa, para entregar o terceiro fornecimento, encontrou Joelito extenuado, de tanto raspar. Meteu conversa.

- O senhor está muito cansado. Por que não descansa um pouco? Tem-se alimentado? E dormido?

- Nem me diga nada, colega; não vejo o dia disto terminar…

- Por que não pede ajuda aos seus camaradas de partido? 

- Tenho medo de os incomodar; eles podem ficar chateados – eles trabalham.

- Mas o senhor precisa de ajuda; uma pessoa, por muito serviçal que seja, não raspa catorze mil canetas de enfiada!

- Mas sabe: eu voluntariei-me…

- Pois; mas sabe qual é o maior problema desta casa?

- Não, diga lá.

- Muita caneta e pouca gente que saiba escrever.

- Não diga isso, colega; temos muita gente que sabe escrever.

- Não me percebeu ou eu não me expliquei bem. Saber escrever, sabem; não sabem é escrever o que deve ser escrito; sabe: para escrever o que deve ser escrito é preciso pensar, querer pensar, saber pensar.

- Não diga isso, colega.

- Digo-lhe mais: se o meu salão fosse gerido como gerem isto, há muito que já tinha fechado portas. Vou falar com a doutora… 

E assim fez a resoluta estecticista.

No dia seguinte, apareceu uma ajuda, depois outra, e depois mais outra… Passados uns dias a sede estava cheia de raspadores de canetas e foi preciso montar um sistema de alertas de capacidade esgotada. É neste fadário, que roça o absurdo colectivo, que estas alminhas sem alma nem pensamento consomem o seu tempo e as suas fracas energias.

Joelito, el Raspador, um chico que tem mais alma de cântaro do que de político, é a figura maior destas cenas de tragédia cómica. Mas não é o culpado desta desgraça colectiva. Porque deixa de haver culpados onde erram todos. 

Miguel Saavedra

26 de agosto de 2021

Folhetim mexicano: Joelito, el Raspador

II – A empreitada das canetas

A poucos dias do início da campanha, um partido de gente laboriosa, desta terra de gente trabalhadeira, viu-se sem brindes para distribuir, e sem dinheiro para os comprar. Depois de muito matutarem, na forma de resolver o problema, eis que alguém se lembra que tinham sobrado carradas de canetas da campanha anterior. O problema parecia resolvido com este achado, mas eis que alguém repara que as canetas tinham gravado “JC 2017” e já estávamos em 2021. 

Mas quando tudo parecia perdido, alguém, não se sabe quem, teve lembrança mui bem lembrada: raspar as canetas. Há quem diga que a ideia veio do Joelito; mas, por respeito à verdade, e por não pretender valorar em demasia o protagonista, o autor abdica deste pormenor não relevante para a história. Por que, relevante, relevante, é a forma como a lembrança foi, de imediato, tornada andança. E que andança. Tenha este pobre escriba arte e talento para a registar condignamente em palavras.

A questão que logo se colocou foi “quem poderia - e saberia - meter mãos à obra?” Olharam uns para os outros, e alguns disseram logo que não podiam. Foi nesse momento, no momento que todos deram um passo atrás, que Joelito, deputado da nação, sem nada para fazer e sem saber fazer nada (que valha a pena se feito), deu um passo em frente, e se fez dono desta honrosa e valorosa tarefa. E logo a sua conterrânea, colega na lista à câmara, estecticista de profissão, se voluntariou para dar apoio técnico e fornecer os materiais. Estava lançada a grandiosa empreitada.

Foi mui comovente ver como Joelito, chico mui abnegado ao trabalho partidário, se atirou à empreitada, noite e dia, fechado dentro daquelas quatro pequenas paredes, sem ver a luz do dia.  Muito haveria para contar sobre tão grandiosa tarefa; mas, por respeito ao mui degradado estatuto do Deputado da Nação, o autor escusa-se a pormenorizar mais. 

Ao segundo ou terceiro dia, Joelito pediu mais acetona à estecticista, que logo correspondeu com mais um carregamento. Chegada à sede, exclamou:

- Uff; estou cansada… Mas que trabalheira que o senhor me dá! 

- … É pelo partido, camarada.

- Mas diga-me, sff,  o que quer o senhor atingir com tanto empenho?

- Votos. Brindes dão votos e votos dão cargos.

- Ai, senhor deputado, eu também gostava de ser eleita, e ter um cargo importante, como o senhor.

Acompanhe as desventuras de Joelito, o Raspador, nos próximos capítulos.

                                                                                                Miguel Saavedra

25 de agosto de 2021

Folhetim mexicano: Joelito, el Raspador

I – O Personagem
Começo este folhetim com a apresentação do Personagem – Joelito –, figura vulgar, vulgaríssima, que o destino, e a malandrice dos seus, transformaram na figura principal deste folclore eleitoral, quando fizeram chegar a este maldito escriba a sua inverosímil história.

A história deste folhetim é história dele, sem tirar nem pôr. Mas se assim é, perguntará o leitor, não valeria mais contar logo a história, e deixar o juízo para o leitor? Talvez. Mas desta forma, o leitor poderá não encaixa bem uma coisa na outra. E é nesse encaixe que, acredita o autor, está a riqueza da coisa. Estamos - como se verá mais adiante - perante um personagem inverosímil, cuja originalidade pode comprometer a atenção do leitor, principalmente quando se confronta o protagonista e o absurdo coletivo.
Joelito, el Raspador, surgiu na política do nada, ou do acaso, ou por geração espontânea, como têm surgido os seus antecessores na juventude rosa. Mas eis que se torna conhecido; e a sua história é uma coisa digna e merecedora de ser contada. Começou a carreira política como líder da jota rosa, sem dirigir nada, porque nada havia para dirigir, tanto na juventude rosa local como na regional. Quando chegou a hora de apresentar listas para o parlamento da nação, Joelito ocupou o lugar destinado à juventude. Depois, com a renúncia de alguns à frente, converteu-se, sem saber ler nem escrever (nada que valha a pena ser lido), em deputado da nação. E aqui, fez-se candidato ao executivo municipal.
Joelito conseguiu tudo isso sem ser conhecido por nenhum talento ou atributo, não fala nem se mostra. Diz-se que nasceu de boca fechada, com a língua amarrada, com muito pouco sal na moeleira e pouco sangue nas veias. Chegou-se a pensar que o rapaz era surdo-mudo, mas quando alguém lhe perguntou, quando era chefe da jota, por que não falava, respondeu: ′′ temos medo deles..., eles são muitos...".
Hoje sabe-se que Joelito é um rapaz do qual não se pode esperar espírito nem vivacidade, mas é muito abnegado e trabalhador, muito hábil de braços, mãos e dedos, e sempre muito comprometido e dedicado ao chamado ′′trabalho partidário", feito no molde para o ofício de raspador e colador de cartazes. É um muchacho com tanta vontade de servir o partido que se esquece ou não entende as suas atribuições e seu suposto papel, nem percebe a triste figura a que se presta - um verdadeiro Cavaleiro da Triste Figura, tão útil para a política quanto as muletas para o defunto.
Acompanhe as desventuras de Joelito, o Raspador, nos próximos capítulos.

                                                                                                Miguel Saavedra

21 de agosto de 2021

Anúncio: folhetim mexicano

O Farpas tem o privilégio e honra de apresentar aos seus estimados leitores, nos próximos diasum folhetim hilariante e rocambolesco, denominado “Joelito, el Raspador”, assinado por Miguel Saavedra, prestigiado escriba de ascendência castelhana.

O enredo situa-se, como não podia deixar de ser, nesta invulgar terra e será narrado, predominantemente, na língua de Cervantes. Estamos certos que fará o deleite de novos e velhos, de gente de muito e de pouco entendimento.

Não perca as peripécias da inverosímil personagem. Mantenha-se atento. Até breve. 

6 de julho de 2021

Onde se dá conta da mui digna cerimónia da conquista da ensinança inferior e da eminente conquista do Pança

Aos dois dias do mês de julho do ano de mil seiscentos e vinte e um, o nosso mui alto, magnânimo e esforçado Príncipe conquistava para o reino uma extensão da Escola Superior do reino vizinho, que aqui virá ministrar ensinança dita de inferior, mas mui necessária para este atardado reino. 


A mercê foi concedida pelo mui digno e singular ministro da ensinança superior do reino de Portucale, grande criador e defensor da ensinança inferior, que foi recebido, com grande solenidade, ordem e regimento, no mui bem engalanado auditório da biblioteca do reino, para a concretização do acto. Para a dita cerimónia foram igualmente convidados a regedora da região centro e o mui distinto reitor da dita escola superior, agora dedicada ao inferior. O Príncipe fez-se acompanhar pela bibliotecária-mor, promovida a educadora do reino, pelo ministro das obras-tortas e pelos principais senhores e senhoras do reino que muito embelezaram o rito. A doutora das mouriscas completou discretamente o enfeite.

Na hora de falar, o Príncipe fez uma arenga mui bem-feita e bem conforme aos ditos cursos, esqueceu por momentos as críticas à política de ensino do reino, e meteu palavras e sentenças tão notáveis que pareciam de prudente príncipe. No final, agraciou as ditas figuras com medalhas (de latão) e cabazes de comedura.

O Pança esteve, desta vez, diligente e discreto, mostrou muita prestança, trato e proficiência na disposição e assento das distintas figuras segundo as suas precedências. No final, intercedeu, junto do Amo, por uma reunião como ministro do reino, que o meteu logo no lugar, sussurrando-lhe que “reuniões com ministros do reino não são coisa para criaturas da tua condição”. 

No mesmo dia, depois de tudo feito e acabado, o Príncipe alardeava grande contentamento pelo número, mas o Pança não disfarçava o azedume.

- Estais chateado, Pança, depois de tão grandiosa jornada?  

O Pança puxou o pé direito para junto do esquerdo, endireitou-se, hirto, levantou os calcanhares, encolheu a barriga, franziu a testa e encheu as bochechas.

- Estou, e tenho que estar, porque o Senhor é muito desagradecido – replicou o Pança. Agora que me proponho conquistar um condado, só para mim, e quando precisava muito da Vossa ajuda e amparo, Vossa Mercê nem se digna mexer uma palha por este tão leal e esforçado servidor.

- Apoio, sim, se o merecerdes…

- Claro que mereço, uma extensão desta dita escola no meu condado, e até merecia mais. 

- E tendes, nesse teu condado, necessidades de ensinamento que justifiquem a dita escola?

- Claro, Alteza… 

- Então dize-me, quais…?

- Técnico de semeadura da fava; técnico de apanha e descasca da fava; técnico de cozedura da fava; técnico tirador de finos; técnico virador de frangos; etc.

- Tendes ideias, e necessidades... Mas dize-me outra cousa, Pança: sois vós, que não sois doutor, que ireis administrar a dita escola? 

- Bem sei que para isso, que o Senhor refere, é preciso um canudo, e bem sei que ainda o não tenho - vou adquiri-lo na dita escola -, mas já sou reconhecido como tal, e até já dou ordens a doutores, doutoras e até a ministros deste reino, bem dadas e melhor obedecidas. 

- Então, quem tendes para a reitoria da escola? 

- Tenho tudo alinhavado; já falei com uma doutora, com dois cursos, minha conterrânea, que aceitou logo o cargo…

- Não me digas que é a Flor?! 

- Essa mesmo… - confirmou o Pança; e completou: - é pessoa de muito mando e palavreado, que muito nos tem ajudado nas refregas. Veja só, Alteza, como ela meteu o conde do Oeste na ordem e se atirou aos nossos traidores.

- Não haja dúvida, Pança; sois um homem apaixonado por poder, e por favas… Apesar do pouco siso, entendimento boto e ânimo temerário, foste-me leal. Conceder-te-ei a mercê que tanto suplicas – extensão da escola de ensinança inferior no teu condado.

- Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo; Ámen. (Deve estar algum Santo para cair do Altar, pensou mas não o disse). Obrigado, Alteza. Deixai-me beijar as reais mãos e jurar-Vos lealdade eterna.

- Vai com Deus, Pança, e sempre na Graça de Deus, e não abuses da sorte nem do cargo, que por tão estreita senda vai o conde, ou o príncipe, como o jornaleiro.

                                                                                    Miguel Saavedra


17 de março de 2021

De como o Pança se quis montar em dois cavalos (burros) e acabou apeado


“Traidores. Traidores. Traidores do Oeste. Traidores. Traidores. Traidores do Oeste…”; gritava ele, sobressaltado, e sempre em crescendo até à aflição; parecia que acordava no final da agitação, mas logo caia num sono profundo; de onde saia, passados uns instantes, noutra e noutra agitação, noites a fio, há muitas noites… 

Lá em casa já se tinham apercebido, e compreendido, que tamanho abalo se devia ao afastamento do Amo; a quem nunca se fartara de servir, sem olhar a maus dias e a piores noites, sempre atrás do aspirado e prometido título de cavaleiro, e depois a Conde ou a Marquês de uma província qualquer; que depois, dizia ele, “saberei torná-la independente, e reiná-la a meu belo prazer, e fazer do meu conchego rainha e dos meus rebentos infantes”. 

Nos últimos tempos, acordava sempre com o fígado aziado e a mioleira inchada de tanto magicar, e não acreditar, que usança de agradecido, entre Amo e escudeiro, fosse quebrada de modos tão nunca vistos nem pensados, por um Amo tão poderoso. E pior ficou quando percebeu que o desafiador era da sua linhagem, e não lhe dera cavaco nem abrigo, por estar comprometido com os fidalgos do Oeste.

Na passada semana, murmurou o seu plano com o lacaio, que lhe franziu o cenho untoso, como se falasse consigo próprio: “veio-me, Deus sabe a razão, o desejo de me vingar daqueles velhacos”. 

Dito e feito, escrevinhou meia dúzia de afrontas e fê-las chegar ao governador do Oeste, arqui-inimigo dos seus inimigos. Tinha aprendido com o seu Amo que, nisto da canalhice (política), inimigo do nosso inimigo é nosso amigo. Mas logo a coisa chegou ao Farpas, que a fez correr.

Quando o aspirante a príncipe - o Profecta da Boa-Vontade - deste reino demonizado foi alertado para a canalhice, por um seu mancebo, dissimulou à sua maneira desconhecimento da traição, e mandou chamar o Pança.

O Pança chegou calado e fez-se quedo. 

- Diz-me, irmão, se o que se diz nos mentideiros, sobre a tua afronta aos nossos companheiros e amigos do Oeste é mentira ou verdade? – perguntou o Profecta da Boa-Vontade

- É verdade – respondeu o Pança.

- Endoidaste, irmão, ou andais fora de conta! – exclamou, de repente, o Profecta da Boa-Vontade; e acrescentou: - Não te deixes cair em desgraça, como o teu Amo.

- Na desgraça já eu estou - caí de um cavalo e não me deixam montar no que julgava certo – retrocou o Pança.

- Se o estás é por tua sandice. Agora, que te poderia dar estado, esbardalhas-te todo…!   

- Sei bem que às vezes me desmando, digo e faço coisas que não vêm a pelo, mas as minhas intenções sempre as dirijo para bons fins, e até Deus e o Diabo já escreverem direito por linhas tortas – retorquiu o Pança.

- Esta rixa, irmão, não é uma rixazinha; é uma rixa que poderá desgraçar-nos num momento – alertou o Profecta da Boa-Vontade.

- Desgraçado já eu estou – retrocou o Pança -; perdi o meu Amo e a confiança dos da minha linhagem. Mas digo, e juro-o, e podeis crê-lo ou não, que é tão certo como Deus ser Santo e Cristo ser Deus: farei campanha contra todos os causadores da minha desgraça.

- Irmão, não há motivo para te vingares de ninguém, nem isso é de bom-cristão e de bom-escudeiro. Bem sabeis que é feio agir por ódio e tomar cabal vingança – profetizou o Profecta da Boa-Vontade.

- Sei bem por que assim falais, mano; estais mui comprometido com o conde e os fidalgos do Oeste, esses traidores, que conspiraram a teu favor, e muito demandaram contra o seu Senhor natural e a Pátria … - retrocou Pança.

- São nossos companheiros e irmãos, irmão; acalma-te e pede perdão – suplicou o Profecta da Boa-Vontade.

- São hereges, maus cristãos e maus companheiros… – retrocou o Pança. O pior deles é o dito conde, que uns valentes açoites merecia, ou prendê-lo e fazer-lhe justiça segundo as culpas dele.

- Irmão!; na empreitada que temos pela frente, todos contam, todos são importantes…

- Contam, mas não são de confiança nem da tua linhagem; e se traíram os da sua linhagem mais depressa trairão um filisteu, que bem diz o rifão: cada ovelha com a sua parelha – asseverou o Pança, já irritado.

- O poder fez-te mal, irmão; ainda não foste apeado e já trazeis cara de desgovernado. Toma um pouco de ruibarbo; purga essa cólera; talvez, assim, reencontres as energias positivas - aconselhou o Profecta da Boa-Vontade.

- Tenho que me vingar dos traidores à Pátria e à nossa Majestade – sentenciou o Pança.

- Diz-me, irmão, como bom-cristão e bom-escuteiro, conheceis os Mandamentos do Evangelho e a Lei da Alcateia?

- Conheço… – respondeu o Pança. 

- E qual a é tua divisa, que juraste cumprir?

- Servir “(me)”.

                                                                                                Miguel Saavedra

20 de agosto de 2020

Onde se dá conta das dores do Pança com a investida do rufia

Com o Príncipe a-banhos, há muito que o Pança não se sentia tão feliz e importante, liberto dos mandos e das manias do Amo, e com todo o tempo para se dedicar ao seu condado e às festas da sua paróquia. Foi lindo vê-lo, feliz e contente, junto da sua gente, em grande devoção à N.ª Senhora das Dores (e que dores aí vêm!), nas celebrações eucarísticas, no arraial, nos festejos, junto do pároco, do povo e da fanfarra, sempre com grande solenidade, comunhão e entusiasmo cristão, derramando e recebendo lágrimas de prazer, com tão boa vontade e tão grande contentamento geral que parecia coisa milagrosa, tal era a ordem e a perfeição dos festejos. 

Mas enquanto o Pança celebrava junto dos seus; o rufia, que não nasceu para a forca, mas que o Pança e seu Amo quiserem enforcar, da corda do seu destino armava-lhes o laço com o engodo que os tem alimentado…

No dia seguinte, o Pança apresentou-se no Convento de Santo António, pelo romper da manhã, para mais uma semana de obediência ao Amo e de mando e desmando, inchado com tamanhos sucessos. Estava radiante, e nem o crocitar de um ou outro corvo nos beirais o afligiu, mas veio-lhe à memória, sem mais quê nem para quê, as preces do sacerdote na véspera, "Dai-nos a paz, dai-nos a paz, Senhor, vossa paz!" Sentou-se. Ligou a máquina.

– Foxx-se!, gritou logo de seguida, ou melhor, ganiu.
Depois, exclamou iracundo, de repente, dando sobre a mesa um soco com toda a força. E desabafou, “filho da mãe…”. Com isto, acordou o Príncipe, que logo o chamou:
- Dizei-me, Pança; tendes boas ou más novas?
- …só velhas e más, Alteza.
- Como…?
- O rufia, o ministro Jota, que jurou verdadeira lealdade, companheirismo e obediência, voltou a atacar, a atacar-me, com uma dúzia de perguntas sobre o fundo maneio; e quer que eu, este simples escudeiro, lhe vá responder na reunião em directo – afirmou, revoltado, o Pança.
- Esse peralta veio ao mundo com um certo descoco… - observou o Príncipe.
- Mas revela na traição grande mestria! – retrocou o Pança.
- Que quer ele saber? – perguntou o Príncipe.
- A história das facturas que entram e como sai o dinheiro do fundo… - respondeu o Pança.
- Então…?!, Isso é fácil de explicar...
- É?! … Olhe que não, olhe que não, ...porque pelo meio fazemos muitos truques…, e há muitas coisas em que não bate a bota com a perdigota – aclarou o Pança.
- Eu já tinha reparado que fazíeis algumas cousas mais solto do que devíeis, mas sois vós que tendes a responsabilidade pelo fundo… - lembrou, em tom de aviso, o Príncipe.
- Vossa Mercê pensa que é fácil justificar tanta saída de dinheiro, com coisas mui pouco honestas – afirmou o Pança, meio desolado.
- Sois mui cobiçoso, Pança; já devíeis saber que a cobiça é a raiz de todo o mal… - lembrou o Príncipe.
- Fala assim, o Senhor, porque está nesse pedestal, e ainda pensa que ninguém o derruba – retrocou o Pança, e acrescentou: - infelizmente, muitas vezes paga o justo pelo pecador.
- Neste caso, como bem ensina o versículo do salmista, “o pecador abriu um fosso e caiu no fosso que ele cavou!» - afirmou o Príncipe, com o seu sorrisozinho.
- O Senhor é muito desagradecido…Mas se Deus com sua infinita misericórdia nos não socorre… - observou o Pança.
- Desterra o medo, Pança; e faze das fraquezas forças, que a coisa vai como há-de ir, e nós por cá a gozar…
- Como, Alteza, se o peralta me afronta por todos os lados, com mil suspeitas? – perguntou o Pança.
- De cem coelhos, nunca se faz um cavalo; de cem suspeitas, nunca se faz uma prova – afiançou o Príncipe.
- Deus o ouça e o diabo seja surdo! Mas que eu estou muito receoso, estou..., para o nosso fim estar próximo só falta o rufia meter os malditos papeis nas mãos dos farpeiros.

                                                                                 Miguel Saavedra

18 de junho de 2020

Onde se dá conta das angústias do Pança com o eminente enjaulamento do Amo

Hum! Hum! – pigarreou o Pança, quando recebeu o estranho decreto assinado p`los opositores.  “Co`os diabos!” Soltou ele, para os seus entretidos tarefeiros, como se se sentisse culpado diante de citação de tão ruim presságio. Depois, exclamou para quem o quis ouvir, como se o seu Amo ali estivesse: “Real senhor, Deus o proteja destes fariseus”.
Com o semblante acabrunhado, dirigiu-se à doutora de leis, a nova cúmplice do Príncipe, para perceber o alcance da investida. Os corvos, já pousados no telhado do convento, ao sentiram os seus passos pesados, começaram a crocitar anunciando desgraça. Entrou apreensivo no poiso da doutora de leis, mas saiu de lá com os miolos ainda mais enturvados. Não queria acreditar no que tinha ouvido, mas percebia que abalo era forte. 
Hesitou interromper o repouso do Amo. Mas soube fazê-lo com o dramatismo que o momento merecia:

- Desculpai-me o incómodo, Alteza; mas tenho má novidade a dar-vos...
- Dize-me, dize-me, Pança; que agora só me fazeis maus anúncios…
- A armadilha está armada, e bem armada. Entrou decreto, assinado p`los falsos conselheiros, que ata Vossa Mercê de pés e mãos.
- Safados…
- Que será de nós, Senhor Meu Amo, rodeados de cobras venenosas por todos os lados, com Vossa Mercê enjaulado, e a Justiça à perna?
- Não necessito de lágrimas, Pança, mas de sangue… - lembrou o Príncipe. E acrescentou: - Reuni as tropas, e colocai-as em prontidão de combate.
- Às suas ordens, Alteza – retorquiu o Pança, sem o ânimo que sempre evidenciara quando era preciso sujar as mãos.

Estava desolado; tinha percebido, finalmente, que a ameaça era forte, e as desgraças corriam tanto e tão depressa, que se enleivavam no encalço umas das outras. Intrigava-o que a tropa fandanga se tivesse conseguido juntar, e reunido tino para tirar tal coelho da cartola. 
Perguntava-se, e voltava a perguntar, mas não sabia responder: “como é que o feitiço se tinha virado contra o feiticeiro?”; “como é que o seu Amo, Príncipe mui douto e temido, se tinha deixado cair nas suas armadilhas? O que seria dele, agora, com o seu Amo enjaulado e sem os reforços para o fundo de maneio?"

Mas, no fundo, reconhecia que não era preciso buscar a explicação num oráculo para tamanho e tão eminente malogro. A prática já lhe tinha mostrado que o mal reforça a acção mal começada, que o odioso gera odioso, e que os conselhos sempre chegam retardados se se acham desacordes à nossa vontade.

Pensava para si e consigo, “Ai, meu Amo, meu Amo, acabou-se o fadário! Ah! Fostes tão poderoso, e tão temido; mas, se Deus Nosso Senhor vos não valer, ides acabar tão promissor reinado manietado, sem poder. E que será de mim, da minha sorte e do meu destino, nas mãos destes traidores? Só poderei contar com o cura Vaz, para me limpar os pecados da alma, e com a protecção da N.ª Senhora do Cardal, minha devota Santa. Amém.”

                                                                                              Miguel Saavedra

12 de maio de 2020

Onde se dá conta dos preparativos do Pança para o retiro

O último dia da semana despertou triste e molhado, propício à reclusão, à acomodação de mágoas e à digestão de ressentimentos. Mas quando o Pança chegou ofegante ao cimo da escadaria central, do Convento de Santo António, reparou que o Príncipe já estava no seu posto. Nesse instante, tremeu diante de ruim presságio. Lá fora, o céu alternava entre aguaceiros fortes e boas abertas; e do marasmo geral ressoava o cucar dos cucos na mata da rola, e o crocitar dos corvos, por cima do convento, que em seu grasnar anunciavam vingança.

O Pança, sabendo que o Príncipe ficaria ocupado, o dia todo, a fazer e a desfazer armadilhas, a reunir e a desagrupar rufias, a forjar e a desforjar agendas, resolveu ocupar o tempo em auscultações. Almoçou mal, porque o nó na garganta, que se tinha enrolado na véspera, obstruía-lhe o apetite. Durante a tarde, sentou-se para meditar um pouco – o que não fazia há anos. Veio-lhe à cabeça os companheiros que perdeu, os ódios e inimigos que gerou, as ameaças e os desgostos que se anunciam. E a meio da tarde começou a esvaziar o poiso – estava decidido a mudar de vida. Eis senão quando, é apanhado pelo Príncipe nos estranhos afazeres.

- Que estais fazendo, Pança?
- Estou a desaquartelar; a retirar os meus pertences…- afirmou o Pança
- Não tendes aqui nada, Pança, nem vontades – sentenciou o Príncipe.
- Ai tenho, tenho, Alteza. E preciso delas para as lides no meu condado - retorquiu o Pança.
- Oh! que vontade fraca – Exclamou o Príncipe. E acrescentou: - Sabeis bem que estamos os dois no mesmo barco.
- Pois,…; mas o navio abriu. Estamos naufragando! Prefiro morte seca que naufrágio sem velório – retorquiu o Pança.
- Por que sois tão temeroso? E tão desagradecido, Pança? Ou já vos aliastes aos desavindos para apressar o meu fim?
- Eu cá não sou temeroso, nem desagradecido. Tanto sei espedaçar um rufia como dar a camisa a um amigo - tenho na alma quatro dedos de enxúndia de cristão velho – afirmou o Pança. 
- Mas pensais com um quarto de bom senso e três quartos de cobardia – tornou o Príncipe.
- Não é cobardia, Alteza; não quero servir-vos de empecilho ou de bode-expiatório … - afirmou o Pança.
- Para que é essa pressa tanta, Pança? Para que é essa pressa tanta, Pança? – perguntou o Príncipe.
- Estou farto de desaforos, e de ameaças dos nossos, dos que o Senhor escorraçou. Com tanto odioso no ar, as coisas não estão para graças, e agora é que vamos para o caraças – afiançou o Pança. 
- Ouve-me com atenção, Pança amigo: estais enfeitiçado, caístes no encantamento de algum maltrapilho que te colocou na cabeça visão má. Precisais de voltar à Graça do Senhor. Tereis que tratar esse feitiço rapidamente – ordenou o Príncipe.
- Da alma sei eu tratar, Alteza; do que não sei tratar, e tenho medo, é da justiça – retorquiu o Pança.
- Deixai com quem sabe - comigo – as coisas de leis; e tratai da alma que bem precisais – tornou o Príncipe.
- A justiça é cega, Alteza; tão cega que meteu atrás das grades uma criatura muito mais poderosa que o Senhor. Desculpai-me! mas eu não confio em Vossa Mercê  - afirmou o Pança. (E pensou mas não disse: - naquela maldita reunião disseram que o Senhor não é douto em leis) 
- Sois mesmo vilão. Que tem isso com o que se passa aqui? – perguntou o Príncipe.
- Se Vossa Mercê se enfada, eu calo-me e deixo de dizer aquilo a que sou obrigado como leal escudeiro – afirmou o Pança.
- Dize o que quiseres — tornou o Príncipe — conquanto as tuas palavras se não dirijam a assustar-me.
- Digo que me parece que a minha estada neste castelo já é sem proveito. Que é meu cuidado livrar-me, enquanto é tempo, de cuidados maiores…- afirmou o Pança.
- És miserável e traidor, de origem simples para seres isso, e ruim demais para viveres – retornou o Príncipe.
- Para nós todos, Meu Senhor, o tempo ficou ruim demais, muito nublado – asseverou o Pança. 
- Não me anunciais senão perdas, nada mais. Dize, pois: perdi a coroa? – perguntou o Príncipe.
- Não sei, Alteza; vassalo não sabe nem pode julgar seu Rei – retorquiu o Pança.
- Alma despiedosa…- mimoseou o Príncipe.
- Agora o Senhor terá que por à prova os amigos que tanto o adulavam antes – afirmou o Pança.
- E vós me desampareis? – interpelou o Príncipe.
- Faltam-me forças para lutar contra os nossos – afirmou o Pança. Vai pelo nosso reino uma divisão desastrosa, como jamais se viu... E acrescentou: - Renego meus privilégios, abdico da pompa régia, e retiro-me para o meu condado…
- É o que fazeis, agora, Pança; quando mais preciso de ti? – perguntou o Príncipe. E acrescentou: - dei-vos tudo: boa renda, boa tensa, benefícios e privilégios, estatuto e pompa. E tive piedade de ti, não me poupei canseiras para ensinar-te bons modos, mas a tua raça não comporta nobres modos.
- Deu-me muita coisa, sim, Alteza; mas não fez de mim cavaleiro, e ministro, como prometido. E já não o fará - se alguma vez pensou fazê-lo – retorquiu o Pança.
- Sois muito desagradecido, Pança; e causa da minha desventura, também – afirmou o Príncipe.
- Vossa Mercê é que tem sido muito desagradecido comigo e com os seus, e mui amigo dos desumanos. Persistiu no enforcamento do rufia; enganou-se! O rufia não nasceu para a forca; e da corda do seu destino fez o nosso laço. Depois, cometeu o mesmo erro com a marquesa – afirmou o Pança.
- Sois fraco e traidor, Pança – afiançou o Príncipe. E acrescentou: - Grande é quem luta até por uma palha quando a honra está em jogo.
- Não consigo, Alteza. Tenho a alma atormentada e cheia de pecados – afirmou o Pança.
- Revesti-vos de coragem, Pança, vos peço. Estais desvairado, pressagiando desgraça? – Perguntou o Príncipe.
- Sinto que a nossa situação é pouco firme, mas enquanto for possível lavar nossas honras na corrente aduladora e as feições como a mascara do coração bondoso… - retorquiu o Pança.
- Receais que seremos ceifados antes do tempo? – Perguntou Príncipe. 
- É muito grande o meu medo… - afirmou o Pança.
- Temos que usar o medo religioso e o santo poder da salvação. Se está tudo perdido! Vamos rezar! Se está tudo perdido! Vamos rezar! – Rematou o Príncipe.
                                                                                           Miguel Saavedra

2 de abril de 2020

Onde se dá conta da conversa da almeida com jardineiros sobre o derrube da marquesa

- Bons dias, colegas – atirou a almeida, ao passar pelos dois jardineiros que tiravam as ervas daninhas dos malfeitos canteiros da praça principal.
- Bom-dia – respondeu a jardineira.
- Bom dia – respondeu o chefe-jardineiro. 
- Já sabeis do novo escândalo que rebentou na corte? – perguntou a almeida.
- Ouvimos dizer qualquer coisa mas nem queremos acreditar – respondeu a jardineira. E prosseguiu: - eram tão próximos…; mas dizem que ela andava feita com o escrivão-mor para tramar o príncipe; e ele, vendo que tudo lhe ia de través, zás.
- Já vi que já emprenhastes pelos ouvidos com versão do escudeiro-mor – afirmou a almeida.
- Então,..? – atirou a jardineira.
- Se sabeis a verdade contai-a – instou o chefe-jardineiro. 
- Andais muito mal informados… Não sabeis do longo enredo de saias e ciúmes que se instalou há muito na corte? – perguntou a almeida.
- Isso é novidade velha – retrocou a jardineira.
- É velha mas só agora deu sentença – afirmou a almeida.
- Pensava que essa novela já não fazia peçonha a ninguém – afirmou a jardineira.
- Mas fazia! E fez tanta que a legítima, que faz da vergonha recreio, passou-se e exigiu a saída da marquesa - afiançou a almeida.
- E o Príncipe teve esse descoco? – perguntou a jardineira.
- Foi obrigado, colega; bem sabeis que ciúme na cabeça de mulher é drama que dá ruptura ou tragédia – afiançou a almeida. 
- Foi obrigado porque quis, porque não sabe temperar a ruindade – retornou a jardineira.
- Não te adiantes na língua que eu não quero cá problemas. Se correram com o escrivão-mor, melhor correm connosco. Se espírito travesso do escudeiro-mor passa por aqui, ou ouve alguns zunzuns, estamos despachados – afirmou o chefe-jardineiro. 
- Descansai, colegas; o escudeiro anda entretido a testar o vírus – assegurou a almeida.
- O nosso Soberano anda sempre metido em brigas. Ora numa brincadeira de garotos, ora num folhetim de rabo-de-saia – afirmou a jardineira.
- É verdade, colega; nunca vi uma criatura sob a forma de homem que revelasse tão feroz interesse em desgraçar vida doutrem – anuiu a almeida.
- Mas digo-vos, porque já o ouvi a muita gente, a devassidão é tirania que já ocasionou a queda de muitos reis – afirmou o chefe-jardineiro.
- Não sou letrada, mas sempre vos digo: o Príncipe não devia dar ouvidos à legitima – é uma desbocada que só traz desordem ao reino – afirmou a jardineira. 
- Mas deu, colega – afiançou a almeida.
- Mas desculpai-me, colega; ainda me custa acreditar nessa escusa. Se a novela era longa e conhecida, e se os reis e os príncipes sempre tiveram amantes - damas da rainha, cantoras líricas, senhoras da alta burguesia e até mulheres do povo -, porquê agora? E desta forma? - Perguntou a jardineira.
- Pois…, mas eram outros tempos... – retrocou a almeida.
- Eram outros tempos mas também o é nestes tempos – retrocou a jardineira. E acrescentou: - - sabeis bem o que se passa na corte dos nossos vizinhos…
- Sei, pois… - confirmou a almeida.
- Então, sabeis que o rei sempre teve amantes, e ainda as tem, mesmo com os pés a cova (Deus lhe dê juizinho). Mas a rainha Sofia deixou-o andar, e sempre se comportou como uma grande Senhora - afirmou a jardineira.
- É outra nobreza, colega – disse a almeida.
- É uma nobreza a sério, quereis dizer - retrocou a jardineira -; onde a rainha sabe ser Rainha. Sabe, como o caracol, carregar a coroa e a corte às costas, para poder esconder a cabeça e os cornos.
- Ai colega, não sei como sois tão liberal; eu não tinha estômago para tal… – retorquiu a almeida.
- Se a coisa não é recente já se devia ter habituado – afirmou a jardineira. 
- Mas parece que nunca se habituou – retrocou a almeida.
- Uma mulher ou é capaz de dar assistência ao homem ou não é; se não é… - afirmou a jardineira.
- Ai mulher! Estais tão liberal…- exclamou a almeida.
- Olha, colega, tomara eu que o meu homem, em vez de me estar sempre a procurar me desse descanso, que é o que o corpo me pede quando chego a casa moída, e desquadrilhada dos ossos, depois de um dia inteiro derreada a cavar e a sachar.
- Pois, colega, mas cada uma é como cada qual – afirmou a almeida.
- A fornicação é muito bonita mas é para quem não cansa o corpo, não é para mim, que já não tenho apetite de dar ao rabo – retrocou a jardineira.
- Bem sabeis, colega, que Deus deu chifres curtos à vaca maldosa; mas deixou sem chifres a muito maldosa – afirmou a almeida.
- Olha, juízo e vergonha é o que faz falta  a muita gente – rematou a jardineira.

                                                                                          Miguel Saavedra