Pombal etc e Tal

1. Gostei de ver (e de ler)
tantos comentários à nova candente questão da política à pombalense,
nomeadamente Vila Cã. Eu não voto nem em Vila Cã nem em qualquer das outras
freguesias do Concelho, por isso estou à vontadinha para achar mal que a dita
freguesia possa vir a ser encarada como uma creche: uma questão de garotos, à
imagem do que os partidos nacionais mostram e apontam. Se o anterior presidente
“anda lá fora a lutar pela vida”,
pois muito bem, não deve ser ele o presidente. Mas, pergunto eu, por alma de
quem é que se lembraram disto? Não conheço o rapazinho, mas custa-me a hipótese
de os próximos quatro anos serem uma imitaçãozita da tripa-forra que foi,
lembram-se?, a Pombal Viva-Vila Verde. Tipo coisa assim: elege-se o miúdo e
pronto, mini-queima-das-fitas no adro da Igreja Paroquial de São Bartolomeu,
festival de “deejays” no meio dos carros-de-bois e das máquinas de sulfatar do
Pocilgão, encontro de motards de mola nas calças na Garriapa, festival de tunas
universitárias-tipo-Relvas na eira do ti’ Manel de Trás os Matos etc. etc. etc.
etc.
Não
acho bem. Acho que cada freguesia deveria merecer dos merceeiros do P(h)oder
Local outra consideração. Acho que brincar com as pessoas não pode dar coisa
boa – porque nunca deu. Sobretudo quando as pessoas não dispõem de, digamos,
cabeça minimamente instruída para se não deixarem levar por cachopos. Aquilo
bíblico do “Deixai vir a Mim as
criancinhas” é para outro contexto. Vila Cã não é a Galileia, porra.
2. Jantei no passado dia 1
do corrente Agosto em sítio agradabilíssimo: nos Netos, Almagreira, em casa do
há muitos anos emigrado Ernesto Andrade. Para além do gentilíssimo anfitrião,
foram circunstante companhia o Zé Gomes Fernandes, o Adelino Malho e o Zé
Guardado (candidato à Câmara pelo CDS). Só queria que vós fôsseis moscas para
assistir à cena. A pombalidade foi, naturalmente, o mais recorrente assunto. As
costeletas de vaca, largas como as raquetes do Luís Faria no tempo do Clube de Ténis
de Pombal, pingaram suco. A pinga era boa, toda ela de marca não barata. O
melão era daquele espanhol de Almeirim, mas entrou que nem mimo. Para acta de
tal assembleia, fica este ponto 2. Com, naturalmente, um especial agradecimento
ao Ernesto Andrade, esperando que para o ano haja mais.
3. À guisa de rodapé,
deixo-vos de seguida com a crónica que publiquei hoje em Santarém (semanário O Ribatejo). Porquê? Porque me parece
que o assunto dela, sendo de mais lato objectivo, pode bem ser que vos
interesse:
Lembrando
Manuel Dias
A vida não me deu muito tempo para deixar
crescer a flor-do-sal que era a minha amizade com um homem bom chamado Manuel
Dias. Deu-se ele ao trabalho de morrer sem aviso, aqui há umas temporadas. Era
um exímio cultor da Língua Portuguesa, que toda a vida foi o instrumento de
trabalho dele. Jornalista, escritor, exímio narrador oral de episódios da vida,
graves uns, hilariantes outros. Um destes últimos é o que me traz hoje a esta
coluna.
Contou-me o Man’el que, de certa vez que um
clube português da bola se deslocou à Grécia para um desafio uefeiro, um muito
conhecido figurão dessa arte do coice e da cabeça que integrava a comitiva foi
a uma “casa-de-tia”, como se diz no
Norte. Era em Atenas. O referido figurão tinha consigo uma apreciável maquia,
como parece ser costume entre os futeboleiros a partir de determinado nível.
Acudindo-lhe ao faro venéreo certa senhora profissional circunstante, chamou o
empregado e perguntou-lhe quanto é que em dólares lhe ficaria o gasto pela
companhia e o doce usufruto da referida. O empregado foi e veio.
“ – Ela
diz que são cem dólares”, informou.
O cliente nosso protagonista disse assim então
ao rapaz:
“ –
Diz-lhe que está bem, mas avisa-a de que eu gosto de bater um bocadito!”
O empregado foi e veio.
“ – Ela
quer saber se o bocadito é muito ou pouco.”
E o figurão:
“ –
Diz-lhe que é só até ela largar os cem dólares.”
Como o nosso jornal vai parar duas semanas para
o mais que merecido descanso do pessoal, resolvi cronicar este episódio hílare
em alternativa às coisas algo macambúzias que aqui costumo plasmar. Mas desde
já aviso que há rabo mal escondido de gato irónico nesta minha prática. Por
outras palavras: vou ser mauzinho. Noutros termos: vou figurar bitaite azedo. De
outros modos: vou-me às canelas da Merkelzita local, aquela que mente que não
mente.
A culpa é do meu saudoso Manuel Dias. Fosse ele
vivo, que a história ateniense acima exposta seria rebuçado narrativo de bem
melhor embrulho linguístico. Paciência, hei que ser eu a fazer-lhe as vezes.
Ora, que poderá ter Maria Luís Albuquerque que ver com a anedota helénica? Pelo
lado figurado (e, note-se, devidamente separadas as águas contextuais do
prostíbulo de luxo que deu cenário ao episódio pícaro e caricato dos cem
dólares), tem ela, não muito, mas tudo que ver.
Porque, tal como a mim, já várias vezes terá
apetecido ao meu Leitor bater na agora ministra. Mas, claro, não muito.
Só até ela largar os “swaps”.
Daniel Abrunheiro