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13 de janeiro de 2026

No adeus a Artur Carreira




Há homens que passam pela vida predestinados a resistir, mesmo que isso implique sofrer todas as dores. Artur Carreira era um deles. Vai hoje a sepultar na Guia esse homem que foi guardião das memórias da terra na idade adulta, depois de uma juventude dedicada a construir um futuro de liberdade para todos. Logo ele, que era um privilegiado, que nascera numa família de posses, que podia gozar das benesses, escolheu desde miúdo o outro lado, da resistência, desde logo na campanha de Humberto Delgado. Haveria de conviver com Salgueiro Maia, ao tempo do liceu, em Leiria, e pela vida fora emprestar à terra que amava todos os valores do socialismo democrático.

O Artur Carreira foi meu professor no antigo Externato da Guia, precisamente no ano em que passou a chamar-se C+S, assumida pelo Estado. Pouco depois haveria de ser encaminhado para o antigo SASE (serviços de acção social escolar). Um acontecimento trágico haveria de ligar para sempre as nossas famílias: perdeu a mulher num acidente de viação, precisamente no mesmo dia em que também o meu tio Amadeu foi vítima de um desastre. Muitos anos mais tarde, quando o reencontrei nas lides dos jornais (era um colaborador assíduo do Voz do Arunca, mas viria a colaborar também com O Eco, enquanto o dirigi), percebi que era dono de um espólio impressionante. Era preciso contar a história da FAGO? Ele tinha documentos e fotos. Era preciso falar do GD Guiense? Ele sabia tudo. E da cantina, e da feira dos 10, e do salão José Maria Duarte, e da Acurede. E das marchas, e das matinés, e dos bailes. O Artur Carreira sabia de tudo. Olhando à distância, facilmente percebemos que era um cidadão inteiro, mesmo que tantas vezes desfeito em pedaços. Foi assim que criou, na Guia, a Associação de Pensionistas, Aposentados e Reformados do Oeste (APARO). 

Talvez a memória seja o nosso bem mais precioso. Porque nos permite eternizar momentos, porque é uma forma de homenagearmos sem alarde mas com sentimento aqueles e aquelas que nos ajudam a erguer o mesmo chão, a nossa história. Por isso estranhei que os diversos poderes, sempre tão solícitos em obituários, tenham feito tábua-rasa do desaparecimento de Artur Carreira. Como ontem, no meio do velório do pai de uma grande amiga, me dizia um antigo presidente da Câmara, "é só ignorância". E como sabemos, a ignorância é muito atrevida. 

Em memória de toda a sabedoria que Artur Carreira carregou consigo, ao longo de 80 anos, que a terra lhe seja leve. 


*fotografia que lhe fiz na tertúlia "0 25 de Abril nas tabernas", no café Lanheiro, na Ilha, no âmbito das comemorações dos 50 anos da revolução. Artur Carreira ia então usar da palavra.


31 de outubro de 2025

Até sempre, Rocha Quaresma


Da esquerda para a direita: Vaz de Morais, A. Rocha Quaresma, Manuel Pimentel, Álvaro da Silva, Orlando Cordeiro e Jorge Dinis, durante a inauguração ao monumento aos heróis do Ultramar.


Houve um tempo em que sonhámos muito, neste país, e neste concelho. Um tempo em que a luta política era a sério, em que cada um sabia bem os valores que defendia, o lado a que pertencia, sem que isso beliscasse o essencial: a construção de uma terra melhor para todos, mais justa e solidária.

António Rocha Quaresma fez parte desse tempo. Atravessou a ditadura a caminho da revolução, ajudou a fazê-la, e até a documentá-la, nos dias claros de Abril.

Quando o conheci, no início da década de 90, ainda se emocionava, amiúde, quando se aproximava o aniversário da Revolução. Naqueles idos de 92/93, coube-lhe a responsabilidade de voltar a presidir à Assembleia Municipal (já acontecera antes), quando Menezes Falcão bateu com a porta, no mandato de Armindo Carolino. 


É a ele que os jornalistas desta terra devem um dos poucos passos que o poder político deu em prol da valorização do trabalho da imprensa. Naquele tempo éramos quase sempre uma meia dúzia a assistir às reuniões da Assembleia (duas rádios, dois ou três jornais, por vezes camaradas de Leiria ou Coimbra), num salão nobre novo. Lá do alto, da mesa, Rocha Quaresma percebeu a falta de condições em que trabalhávamos. E foi por sua iniciativa que a sala passou a contar com duas bancadas laterais, destinadas à comunicação social. Devemos-lhe isso, os dos da minha geração. Mais tarde aboliram-nas, de forma condizente com o que sucedeu à imprensa.


Percebi que se foi afastando, progressivamente, nos anos que se seguiram à derrota do PS. Como tantos, num misto de desencanto e aceitação.  


Partiu esta sexta-feira, 31 de Outubro, sem nos avisar. Que a terra lhe seja leve. 

6 de dezembro de 2023

Obrigado Sérgio.


 *foto no jantar do 10º aniversário do Farpas, 25 de Abril de 2018

O Sérgio Medeiros foi-se embora ontem, subitamente, com a mesma discrição com que passou pela vida, contrastando com o impacto da sua existência na terra. Na terra que o viu nascer, crescer (e morrer), onde deixa a sua marca tão vincada. Na terra que queria compreender, descendo-lhe às entranhas. Foi por isso que há tantos anos criou, com alguns amigos, o Grupo Protecção Sicó. O Sérgio fez de tudo para proteger a serra, sempre. E a terra também. 

Numa noite fria de Janeiro de 2018, ele o o Hugo Neves sentaram-se connosco a explicar tudo o que não sabíamos, ajudando a preparar o debate mais participado de toda a série "um café e uma farpa", sobre o CIMU Sicó. O Sérgio era de uma generosidade intelectual acima da média, mesmo que travada pela timidez. Pela vida fora, foi a ele que recorri quando precisava de juntar uma opinião conhecedora em artigos que envolvessem a terra e a serra. Porque ele era um cavaleiro andante da natureza. Que vagueava silenciosamente, sem se fazer notar. 

Obrigada Sérgio, pela marca que nos deixas. 

Um abraço à Cláudia, ao Afonso e ao Miguel, e também à Manuela e ao Arlindo Medeiros, ao Gustavo, e a todos os que lhe sentirão para sempre a falta. 

1 de março de 2023

Obrigada, Maria Luís Brites

                                                                        Foto de Rui Miguel Pedrosa, para o Diário de Notícias




A escritora Maria Luís Brites partiu ontem. Contava 88 anos de uma vida demasiado intensa para se retratar em linhas de obituário. Em Pombal, foi - sem dúvida - a mulher que mais admirei. Pela riqueza intelectual, pela coragem. 

Respigo um texto de junho de 2013, escrito num tempo em que tivemos as mais demoradas conversas, e originalmente publicado num blogue pessoal (https://luzdepombal.wordpress.com/2013/06/).  E deixo o link de uma entrevista que insisti fazer-lhe, em 2018, depois de ter vencido um cancro da mama. "Antes aos 84 que aos 48", dizia ela. 

Ao tempo d'O Eco, viveu comigo uma das fases mais duras dos anos difíceis da década de 2000, quando o poder tentava silenciar tudo o que era crítica. 

Perdemos essa guerra, Maria Luís, mesmo tendo ganho aquela batalha. Obrigada por tudo, minha querida Maria Luís. Que Pombal a lembre sempre de for no cabelo e batom vermelho, como numa tarde de junho, o mês em que nasceu, como este sol de fevereiro, que a levou num raio. 


Retrato de uma Senhora

Subia as escadas daquele primeiro andar da Heróis do Ultramar com passo firme e sapatos altos. Vestia um saia-casaco azul petróleo e uma blusa de seda bege, com lenços a condizer. O sotaque, nortenho, fazia-se ouvir à entrada do jornal. Naquele tempo a cidade tinha por onde escolher e por isso, uma vez zangada com o director de um quinzenário, encontrou naquele semanário o sítio certo para escrever “apontamentos do nosso quotidiano”. Nós éramos muito novos e ficávamos divididos entre a admiração por tamanha mulher e os risos incontidos, quando às vezes nos parecia quase louca.

Tinha voltado para ficar. Ponto final num casamento de 36 anos, duas filhas na vida delas, muita prosa para escrever. Publicou um livro. Nesse dia o salão nobre da Câmara encheu-se para ouvir falar de uma história de amor e famílias portuguesas contada naquele romance apoiado pela Civilização. “Um triângulo no Litoral”. A mesma editora que lhe encomendara obras didáticas – “até um dicionário!” – porque a licenciatura em Germânicas lhe permitiu ensinar tudo o que aprendeu. E aprendeu muito, desde muito cedo.

A Lili nasceu afinal em berço de ouro: filha única de uma doméstica e de um advogado, comunista ainda por cima. Era 1934 e havia guerra pelo mundo. Os pais não quiseram arriscar e ficaram-se por ela. Depois veio a juventude e cresceu a vontade de engolir o mundo, de o perceber, de o contrariar.

– Vou estudar para Coimbra,

disse à mãe, apoiada pelo pai. Foi quando a senhora se tornou de repente religiosa. Tão religiosa que se pôs a oferecer promessas à Srª de Fátima para que a filha reprovasse no exame de acesso. Mas a razão levou a melhor e formou a rapariga, em Coimbra. Depois, o casamento. Uma fotografia desse dia publicada muitos anos depois num jornal local mostra-a em todo o seu esplendor, linda como não havia outra na vila de então. Vira as costas à terra e só cá há-de voltar 36 anos depois, para ficar. Aos poucos despe o saia-casaco azul, arruma os saltos e liberta-se, outra vez. Escreve muito, fala na igual medida, casa-se com um pintor alemão. Faz programas de rádio pelo concelho fora, ouve e conta como vive o poder local. É um tempo participado, esse. Um dia, por brincadeira, aproveitamos o 1º de Abril no Jornal e fazemos a manchete que nos dá gozo: “Candidata-se à Câmara pela CDU”. Nesse ano é mentira, noutro será verdade. E noutros que se vão seguir nas próximas duas décadas há-se ser candidata na sede do concelho e na sede do distrito, sempre à esquerda. Tão às avessas que faz campanhas eleitorais sozinha, pinta paredes e muros à moda antiga. Os anos passam, esbate-se a cor, mas ainda lá mora o símbolo do BE. Nas entrelinhas desse tempo escreve poesia, também, que lhe traz arrelias (a ela e ao jornal que a publica). São os versos de Joe of Arunca, sarna para o presidente. E depois um discurso em Abril em que dobra o papel, se volta para trás e lhe diz, de voz trémula e peito feito:

– a imprensa é para respeitar. É o símbolo da liberdade!

E era.

Ontem voltei lá a casa. Entre o sabor do açafrão na paella e meio copo de vinho falámos de nós, dos nossos, do tempo perigoso que atravessamos. A Maria Luís vai fazer 80 anos daqui a meses. A vida não é nada do que julgamos. Não é nossa, para sempre, quando a idealizamos na melhor das fases, ou quando a projectamos por imitação deste ou daquele. Na volta, a vida é uma enguia. Que se nos escapa entre os dedos e deixa apenas o rabo preso, para mostrar que ainda existe. E que vale a pena, por nos dar o privilégio de a viver, de conhecer gente tão inteira.

Continua linda, ela.

https://www.dn.pt/pais/maria-luis-brites-a-viragem-ao-populismo-e-muito-preocupante-10354198.html


3 de dezembro de 2022

No adeus (definitivo) a Infante da Costa



António Infante da Costa morreu ontem, ao cabo de vários anos doente, e afastado da vida pública. Pombal e o ensino profissional devem-lhe a instalação (e direcção, durante 17 anos, fazendo fé no comunicado divulgado pela ETAP) da primeira Escola Tecnológica e Profisional do País. E por isso fez sentido instalar aqui também a sede nacional da ANESPO, a associação nacional de escolas profissionais. Houve um tempo assim, aqui na terra, em que ganhávamos importância paulatinamente. E o nome de Infante da Costa fica para sempre ligado a ele. Depois veio outro tempo. A par da doença, que já o debilitava - mas não o incapacitava - a fase final do dr. Infante na ETAP não é de boa memória, sobretudo pela forma como foi tratado pelo poder político. 


Embora fosse natural de Tábua, foi a Pombal que entregou a maior parte das suas quase oito décadas de vida. 

Descanse em paz, dr. Infante.



15 de agosto de 2022

No adeus ao Pimpão dos Santos



Faleceu o José Ferreira Pimpão dos Santos. Muitos já sabem da notícia (porque era pai do presidente da Câmara e o anúncio de falecimento foi divulgado). Mas a maioria não sabe quem foi para Pombal Pimpão dos Santos - e importa saber. 

Ontem morreu o Pimpão. O homem que entre o final dos anos 80 e princípio dos anos 90 deixou uma marca importante na rádio e na imprensa desta terra, primeiro no departamento de informação do Rádio Clube de Pombal, depois quando fundou O Correio de Pombal. Quem chegou há poucos anos ao espaço público talvez não imagine o que foi essa revolução feita por ele, e da qual tive a sorte de participar. O Pimpão dos Santos rompeu com décadas de quinzenários em tom morno e arriscou criar um semanário, que ainda por cima confrontava o poder - o que até então nunca acontecera. Fez o melhor que sabia, foi muitas vezes além do que podia, com (muito) prejuízo da sua vida pessoal. Desentendemo-nos algumas vezes, como acontecia nas Redacções. Mas saldámos sempre todas as nossas contas. 

O Rodrigues Marques costumava dizer que ele vivia a meio metro do chão. Sei hoje que foi esse lado sonhador que lhe permitiu oferecer à terra um jornal livre, durante uns anos. Guardo um milhão de histórias vividas com ele a partir do 3º andar da Rua de Ansião, primeiro, e do 1º andar da avenida Heróis do Ultramar. Das reportagens que eram quase sempre aventuras. Da amizade que ficou para sempre. Percebi que já cá não estava há semanas, quando o vi, depois dos incêndios, e não me reconheceu. Para mim, será inesquecível. 

Obrigada por tudo, Pimpão.

Ao João, ao Pedro e ao Nando, um sentido abraço.

14 de junho de 2022

Um adeus pombalense


foto: NDAP

 

Partiu esta semana o senhor João. Há pessoas assim, como ele, cuja vida e dedicação a uma causa bastam para que se vão da lei dos apelidos libertando. Muitos de nós certamente desconheciam o apelido do presidente do NDAP - talvez só o tenham descoberto quando o viram no anúncio da necrologia, por estes dias. Não era preciso. Porque quando alguém se referia ao senhor João do Núcleo toda a gente sabia ser dele que se tratava: o homem discreto, cordial, educado, com todo aquele registo bonacheirão que trouxe de Elvas para uma terra que sentia sua, e que era dele, sabemo-lo.

Sucessivas gerações de várias modalidades sentem esta perda -  de um homem que fez sempre parte daqueles que preferem estar na segunda fila, sem holofotes, essenciais à vida e funcionamento das instituições. Os mais próximos sabiam-no doente, mas não deixou de ser inesperada  - e sobretudo prematura a sua partida. 

Um abraço solidário à família de João Gonçalves, envolto nas palavras de Alexandre O'Neill:

"Não tu és da cidade aventureira

da cidade onde o amor encontra as suas ruas

e o cemitério ardente

da sua morte

tu és da cidade onde vives por um fio

de puro acaso

onde morres ou vives não de asfixia

mas às mãos de uma aventura de um comércio puro

sem a moeda falsa do bem e do mal"

24 de junho de 2020

Obrigado, Gentil



O Gentil Guedes partiu ontem, ao cabo de dias de sofrimento. Era um sonhador, o Gentil, e deixou fios vários desse legado a Pombal. Devemos-lhe para sempre a Feira do Livro, a animação inédita que aqui trouxe, a Feira Nacional de Artesanato, sempre envolto em bonomia, galanteio, o gosto pela boa mesa - que nos últimos anos exercitou na Taberna À Cautela. Acho que ali era feliz, ao lado da Sara.
Fui recuperar a última mensagem que trocámos, já lá vai tempo, a propósito de uma novidade que eu sabia que lhe agradaria tanto: o tema "Olha a noiva se vai linda", agora cantado pelos fabulosos Tais Quais, que o ouvi cantar várias vezes, por causa daquela avassaladora paixão pelo Alentejo. 
A Câmara decretou dois dias de luto municipal. Gentil Guedes foi vereador do primeiro mandato de Narciso Mota (1994-1997). Dizia-me hoje o João Alvim que nunca esquecerá "a pedrada no charco" que foi a passagem dele pelo pelouro da Cultura. Afinal, como pode um homem deixar tanta marca apenas num mandato? Basta gostar da terra, vivê-la, querer o melhor para ela, o desejo de trazer aos que nunca daqui saíram as mesmas oportunidades que outros afortunadamente tiveram, fora de portas. 
Há outra marca que fica para sempre, à época contestada, mas que perdura: a toponímia original das ruas, com os nomes dos livros. 
Imagino essas tertúlias aí em cima com o Nelson (Lobo Rocha), Gentil. 

Já não temos O Eco para escrever o obituário que tu merecias, embora tão prematuro. Fica a lembrança da notícia que tu foste: "No dia 5 de Novembro, a D. Palmira Guedes deu à luz uma robusta criança do sexo masculino". Passaram 61 anos. 
Se houver justiça, a terra há-de ensinar/sempre a honrar/o nome teu.


19 de fevereiro de 2018

Joaquim Mota (1937-2018) - ele é que foi o presidente da Junta


A notícia da morte de Joaquim Mota, que hoje partiu, à beira dos 81 anos, não dirá nada aos que entraram na vida política nos anos recentes, mas calará fundo a todos os que o conheceram, da esquerda à direita - e sobretudo aos que assistiram às suas intervenções na Assembleia Municipal. Houve um tempo em que os presidentes de junta tinham pouco dinheiro, algum poder, mas muito respeito por parte da população que representavam. E nesse tempo a Assembleia Municipal de Pombal era palco, amiúde, das mais inflamadas intervenções.  Como havia 4 ou 5 órgãos de informação, mais a presença constante dos jornais de Leiria e Coimbra, aquela bancada de imprensa que António Rocha Quaresma mandou colocar, no início dos anos 90, nos topos laterais do salão nobre - rapidamente se tornou pequena para todos os que acompanhavam as sessões. Por isso foi uma chatice, quando já no tempo de Narciso Mota (e de Menezes Falcão na AM, seguido de Luís Garcia e de José Grilo) os jornalistas deixaram de estar dentro do salão nobre, recambiados para a sala anexa, com telhado de vidro. Ironia do destino, hoje há dias em que sobra todo o espaço. 
Mas nesse que era o primeiro mandato de Joaquim Mota como presidente da Junta de Carnide (1989-2001, sempre pelo PSD) e eu me estreava nas páginas do Correio de Pombal, em 1993 (mesmo a tempo das eleições mais disputadas da história local) sabíamos que aquelas suas intervenções  eram um deleite. Começávamos todos a gargalhar - tal era a falta de filtro que fazia questão de aplicar, no jeito humilde, de orgulhoso camponês - e terminávamos a engolir o riso, pois que Joaquim Mota levava à AM as suas dores mais fundas. Naquele tempo Carnide era uma espécie de parente pobre das freguesias.
- Falta-nos tudo, menina!
...disse-me ele, daquela vez em que o entrevistei à mesa da cozinha da sua casa, para um suplemento que haveria de desvendar uma terra sem abastecimento de água, sem saneamento básico, más estradas, apenas uma placa a anunciar a construção de uma Centro Social, nem sinais de centro escolar ou pavilhão, equipamentos que nos últimos anos mudaram a vida da freguesia e dos que lá moram.
- Sabe...eu sou PSD mas nem sempre voto PSD...
Fizemos título com a frase, que só espantou os que não o conheciam. Joaquim Mota foi o expoente máximo do presidente de junta, sem peneiras mas preocupado com a sua gente, num tempo em que a delegação de competências ainda estava por vir. No meio daquela desconcertante simplicidade granjeava um enorme respeito entre os pares, fossem ou não da mesma cor política.
Lá em cima terá muita conversa para pôr em dia com velhos amigos autarcas. Lembranças nossas a todos, senhor Joaquim.