Mostrar mensagens com a etiqueta Depressão Kristin. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Depressão Kristin. Mostrar todas as mensagens

25 de maio de 2026

Renascer e Avançar. Mas por onde?



Esta semana passam quatro meses da tempestade Kristin e em Pombal há locais onde parece que foi ontem. Não vamos (por ora) aqui falar do Expocentro ou dos passadiços, tão pouco das candidaturas penduradas na CCDR, ou daquelas que nem sequer chegaram a seguir. Vamos tão só falar do espaço público, como os passeios por onde circulam (ou deviam circular) crianças, idosos, pessoas com mobilidade reduzida.

A tempestade foi há quatro meses e estamos assim. Planos e planos depois, postas municipais de facebook, jargões diversos e conceitos pespegados nos mesmos planos, sob o título maior de "Renascer e Avançar". Mas para onde, senhores, e por onde? Se nem sequer nos passeios conseguimos andar?

Estes passeios circundam dois dos locais por onde passa mais gente em Pombal, todos os dias: a Escola Básica nº 1 e a Escola Secundária. Alerta CM (Câmara Municipal): onde param os heróis de capa azul e amarela? Chama-os lá, Pedro.

28 de abril de 2026

Dar tudo a todos? Não. Dar alguma coisa a alguns


*foto do fotojornalista Nelson Garrido, no Público de hoje


Passam hoje três meses ( que nos parecem uma eternidade)  da tempestade Kristin. O que nos fica da resenha feita pelas tv's é que há, ainda, muita gente a passar mal. Muita gente que mal conseguiu repôr as telhas que voaram, que ainda não tem comunicações, que não sabe quando ou se algum dia vai recuperar a vida que tinha. 

Esperei até ao fim do dia porque imaginei Pedro Pimpão a fazer um balanço (como as outras Câmaras de concelhos igualmente afectados) do estado do concelho. Não aconteceu. O povo, na sua imensa sabedoria, lá diz que "quem muitos burros toca algum tem que ficar para trás". Para nosso infortúnio, ficamos nós, munícipes deste condado. Penso no casal da Guia que continua a viver envolto no cheiro a mofo que a humidade trouxe, na célebre casa-embrulho (coberta com plástico, para não chover lá dentro). E em todos aqueles que, como eles, só queriam ter recebido uma visita do poder local, uma palavra de conforto e de ânimo. Mas já se sabe que a vida dos autarcas é uma correria, que não dão vazão a tanta pose para tanta fotografia. Se ao menos tivéssemos nascido todos nas Meirinhas...haveria visitas de ministros e presidentes, e hordas de assessores a atropelarem-se para fazer acontecer. O quê? Selfies. 

Passam hoje três meses e quase não se ouve falar de Pombal, do muito que ficou destruído. Uma excepção à hora de almoço, quando o repórter da RTP entrou em directo do Casal da Clara, a mostrar que os cabos eléctricos continuam no chão do lugar, como se fora 29 de Janeiro. O que sabemos é que a Câmara resolveu fazer de conta que está a poupar em tudo para "ajudar" a colmatar os prejuízos. Cancela-se o Bodo (como o conhecemos), programa-se uma alegoria para o Cardal. Alguém acredita que uma Câmara que passa um mandato inteiro sem apresentar contas das festas vai ser capaz de gerar assim dinheiro para repor edifícios e compor vidas? Não. Para mais, agora que o Governo anunciou resmas de milhões, ninguém pára a dinâmica do território. É por isso de louvar que freguesias como o Louriçal decidam manter as festas, o que faz mais pela saúde mental (e económica) da região que centenas de relatórios elaborados pelas senhoras técnicas. Como é de louvar que o Grupo Desportivo Guiense tenha recuperado para si a organização da FAGO, como dantes. Porque não podemos apagar o 28 de Janeiro nem esperar que carpir mágoas nos leve a algum lado. 

Devíamos esperar pelo apoio do Estado, prometido e devido, mas esse chega a conta-gotas. E quando hoje ouvimos o Primeiro-Ministro dizer que "não pode dar tudo a todos", cresce uma raiva nos dentes: vivesses tu, Luís, sem comunicações; chovesse na tua casa, visses as paredes escurecer de bolor, enfrentasses as respostas lacónicas das seguradoras, e perceberias que bastava dar alguma coisa a alguns, para remediar esta calamidade. 




10 de fevereiro de 2026

Pobres de nós

 



Passam nas próximas horas duas semanas da noite em que o vento nos atravessou, e para muitos de nós não há meio de ver o tempo e o modo a melhorar. Dos milhares que, no distrito de Leiria, continuam sem electricidade e sem comunicações, uma boa parte está no concelho de Pombal. Para maior infortúnio, a maioria não sabe sequer a dimensão da catástrofe, porque lhes falta comunicação, acesso à informação. Dei comigo estes dias quase a bendizer esse buraco negro, ao imaginar os meus pais a carregarem ainda mais esse fardo, se vissem imagens do que a tempestade provocou em muitos lugares à nossa volta. Mas por outro lado, o quanto lhes faz falta (a eles e a tantos) a companhia da TV. O quanto lhes faz falta, a eles e a tantos, a electricidade que permite o básico: ver o caminho, de noite, até à cama, encher o depósito de água, conservar alimentos, gestos que tomamos como banais até nos serem tirados. Talvez agora já dê para imaginar um pequeno laivo do que é viver na Ucrânia ou na Palestina, ou em tantos lugares do mundo. Aqui as nossas bombas são agora naturais: o vento e a água, depois do fogo.

Deixei passar este tempo para poder olhar com discernimento para o quadro que temos à frente. Apesar da nossa parca presença na TV (acabaram-se aqui os directos mal os rios e as cheias nos ganharam, em mediatismo), as imagens que nos chegaram (aos privilegiados que por estes dias têm luz, água e comunicações) mostram a pobreza em que vive tanta gente. Talvez este temporal tenha destapado definitivamente o que andamos a mascarar há demasiado tempo. Na semana passada, um grupo de bombeiros de Oeiras que encontrei numa pastelaria da cidade confirmava isso mesmo. Logo a eles, de carros novos e bem equipados, calhou a reposição de telhados entre Vermoil e Albergaria dos Doze. “O problema é que muitos telhados estão todos podres”, diziam. Por isso o problema não vai resolver-se com telhas ou lonas, será muito mais complexo.

No meio da desgraça, em Pombal também esta não veio só. Tivemos o azar de não ter presidente da Câmara nesta altura. E por mais diligente que a vice Isabel Marto tenha parecido, percebe-se que foi talhada para números e gabinetes, nada para comunicar e liderar. O que aqueles briefings nos mostraram foi uma “equipa” deslaçada, cada um para seu lado, sem qualquer coesão muito menos liderança. Só assim se compreende que o chefe da Unidade de Turismo tenha vindo a público prestar declarações, como se ainda fosse chefe de gabinete do presidente da Câmara.

Nas Juntas, foi mais ou menos “a cada cor seu paladar”. Houve de tudo: a falta de noção e de empatia com quem estava sem luz, a comer o que calhava e de chapéu aberto dentro de casa, enquanto decorriam jantaradas ao som do acordeão com bombeiros e demais voluntários. Chama-se decoro, e também se aprende. Houve o empenho e rapidez em reparar telhados de igrejas enquanto chovia na cama de fregueses, ou tão só o acto de ignorar as pessoas. Sobram porém alguns bons exemplos. A saber: na Redinha, a Junta distribuiu panfletos quando percebeu que só acede às redes sociais quem tem electricidade ou comunicações; no Louriçal, o presidente Célio Dias tem posto a sua experiência militar e formação em psicologia ao de cima. A procura da população para lhe explicar de viva voz o que está a acontecer é fundamental, e deveria fazer parte do manual de procedimentos em catástrofe. Assim como um cidadão deve ter um rádio de pilhas e uma lanterna, as autarquias deveriam ter um megafone para falar às pessoas, quando não há outra comunicação. E imprimir panfletos físicos, com informação. Impressiona como é que o PSD é capaz de imprimir jornais de campanha num estalar de dedos e agora não replicou o modelo.

[Já que falamos em jornais e em campanha(s), sentiu-se como nunca a falta das rádios locais. Da básica reportagem, de dar voz às pessoas. Temos um problema sério aqui, que é confundir jornalismo com comunicação, servindo de pé de microfone aos autarcas ou replicar comunicados da Câmara, esquecendo (ou desconhecendo) que são apenas uma parte das fontes. Em contraponto, boa cobertura por parte do Pombal Jornal, que já está nas bancas.]

Numa breve pesquisa pelo que disseram e fizeram estes dias os vários presidentes de Junta, não é possível passar ao lado de João Pimpão. No seu estilo próprio, agora numa cruzada contra a E-Redes, tornou-se (para o bem e para o mal) a figura desta depressão. No meio do barulho (que às vezes é preciso fazer, como aconteceu em São Simão de Litém, com a brava Isabel Costa), mobilizou tudo o que podia. E uma coisa é certa: na tarde de 30 de Janeiro,  quando fui às Meirinhas em reportagem, havia mais equipas de limpeza naquela freguesia do que nalgumas sedes de concelho onde estive.

Não conheço Ricardo Grilo, do Carriço, mas o que vi, através da web rádio Onda Certa, deu para perceber a lucidez e clareza do presidente do Carriço. Mas conheço outros, de quem esperava mais, no meio de uma catástrofe.

E antes de tudo, esperava mais, esperava alguma coisa do Governo do meu país. A sensação de abandono e desamparo não nos vai largar, durante muito tempo. É o Estado que tem obrigação de responder, a montante e a juzante. Falhou em tudo, a começar pela Protecção Civil, que cada vez mais nos parece uma falácia.

Passaram 14 dias e há milhares de familiares, amigos, vizinhos e conhecidos nossos que não têm luz, que não têm televisão, que às vezes não têm água. Que ainda não viram o grau de destruição nas aldeias e cidades à sua volta. Mas que estão, muitos deles, destruídos. Desde logo os idosos, cuja saúde mental está francamente debilitada depois do trauma. A esses, era preciso, primeiro que tudo, olhar nos olhos e dar uma palavra. Não eram precisos cabazes alimentares, nem podemos estar à espera que vejam as publicações da Câmara no Facebook.

O que nos valeu, afinal? Nós mesmos, uns e outros, a entreajuda por vezes comovente que chegou de longe, amiúde. Mas vai acabar. E vai ser precisa muita energia para reconstruir esta região. Para já, dava jeito a elétrica. A outra pode vir depois.