"E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa: apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal."
26 de janeiro de 2026
Do negócio de porcos à porca da política
28 de maio de 2024
Louriçal Rico, Louriçal Pobre
A festa dos 31 anos de reelevação do Louriçal a vila foi um momento insólito: o presidente da junta está apostado em deixar o nome inscrito nas placas, agora que caminha para o final do seu último mandato, e por isso não há tempo a perder. Aproveitando a destemperada ideia desta Câmara de construir parques verdes em todas as freguesias (como se nas freguesias não bastasse manter cuidado o acesso ao verde, felizmente natural, e como se não tivéssemos ao abandono vários parques de merendas, a começar precisamente pela freguesia do Louriçal), ali se gastaram umas centenas de milhares de euros, porque o povo precisa de apreciar a paisagem. O povo, que não foi visto nem achado na "festa" de sábado, mas há-de continuar a pagar estes desvarios. O povo, que há dois anos não tem médico de família, mas pagou um Centro de Saúde de última geração. E agora paga, quando precisa, consultas numa clínica privada, lá na vila. É o conceito de progresso, que até deu nome à farmácia.
Não vamos aqui esmiuçar os quase750 mil euros ( 747.397,84 €, acrescidos de IVA) que Câmara e Junta esbanjaram ali. Ou os 65 mil que a família Rico Sofia (afastada há décadas do Louriçal) encaixou com a venda dos terrenos, tão pouco tentar compreender o que está por trás desta inusitada ação benemérita, que se traduziu em doar uma parte de um dos terrenos. O que aqui importa é refletir sobre aquilo em que o Louriçal se tornou. Na época em que um presidente-pavão-armado-em-figurão parece letra de forma, não bate a bota com a perdigota. Como é que uma freguesia tão rica em património, culturalmente tão relevante, chega a este estado de ramo de enfeite? Ao presidente da junta colou-se o da assembleia de freguesia (lá na terra o povo acredita que o segundo se prepara para substituir o primeiro), que embora colecione cursos e "livros", entre a pose e as medalhas, não conseguiu ainda disciplinar a junta no que toca à gramática e ortografia.
No resto, o que não tem remédio remediado está.
29 de junho de 2022
A arte(s)emrede, o Louriçal e a esperteza saloia
O Grupo de Cavaquinhos do Louriçal integrou este ano o projecto Recanto - promovido pela Artemede - uma iniciativa soberba que juntou os rappers Capicua e Nerve, e ainda um grupo Coral de Abrantes. Quem os acompanha há anos não fica espantado, pois sabe que ali está um tesouro do património cultural deste concelho.
O Grupo de Cavaquinho do Louriçal foi criado pelo Luís Miranda e pela Cristina Diniz, um casal de professores que chegou ao Instituto D. João V no início dos anos 90, como tantos, para fazer do Louriçal aquilo em que se tornou. E o Luís tornou-se louriçalense de coração. Ali construiu uma casa, ali lhe nasceu um filho, ali fundou uma escola de música, ali tocou e cantou com várias gerações. Ali ensinou, também, com o seu exemplo, que um homem não é um rato. Nem uma enguia. Tão pouco é um fantoche. E por isso, muito antes da sangria que mandou para o desemprego dezenas de famílias [de professores] quando o Estado fechou a torneira ao modelo que crescia no privado, o Luís saiu. Contou-me tudo em detalhes, por duas vezes, a última numa noite das festas de Agosto, na esplanada do Sol Dourado, antes das festas serem organizadas pelos donos-daquilo-tudo.
O Luís morreu a 29 de Agosto de 2019. Deixou um legado imenso à Cultura deste concelho. E ao Louriçal em particular. O Grupo de Cavaquinhos fez o luto, a Cristina e o João também, até que no outono passado pegaram nos instrumentos e continuaram a viagem, como tinha de ser.
O projecto Recanto integrou também uma componente de "Arte na Rua". Os alunos de Artes da Escola Secundária de Pombal foram desafiados a pintar 12 quadros/painéis, alusivos às 12 músicas que o Grupo apresenta no espectáculo. Mas eis que à última hora, essa sumidade que é o presidente da Junta local, decide "não ferir susceptilidades". E deixa de fora o quadro com a imagem do próprio Luís Miranda. Porquê? Porque o edifício onde os painéis foram afixados é um prédio devoluto, propriedade do grupo GPS, última entidade patronal do Luís, a quem ele ousou afrontar.
E lá de cima, ele deve ter rido muito: cigarro no canto da boca, abanando a cabeça, e dedilhando o cavaquinho, sem lhes passar cavaco. Porque não é qualquer zé manel que apaga a marca que aqui ficou, para sempre Luís.
Quanto ao painel...esteve onde tinha de estar, como acontece com o cavaquinho, desde a partida: em palco.
23 de novembro de 2021
O monumento do soldado conhecido
Quando o meu pai tinha a idade do meu filho, cruzava os rios de Angola numa guerra que não era dele. Que não escolheu, que nunca quis, mas como não era livre de escolher, foi lá parar. Ainda assim, teve sorte. Calhou-lhe a Marinha, a parte menos má. Lá em casa dos meus pais os álbuns são feitos de recordações boas desse tempo: o meu pai a sorrir, sempre, ao lado de um amigo da terra, dos amigos que fez a bordo da fragata, dos nativos que posavam para a foto sem expressão, ao lado de um exército que lhes ocupava a terra deles.
Depois há apenas uma foto do meu tio Germano, de que já aqui falei. Não teve a mesma sorte. Foi parar à Guiné. E de lá nunca regressou, verdadeiramente. Muitos voltaram numa caixa de chumbo. Outros, como ele, em frangalhos. Nunca saberemos o que pensaria da estátua mal-amanhada que a Junta do Louriçal plantou agora na vila, adornada com uma frase: "que a memória não se apague". Como se alguma vez ela se pudesse apagar. Como se fosse possível apagar o dia em que a GNR irrompeu pela Moita do Boi com um batalhão de guardas e cães à procura do meu tio, feito agente da autoridade depois da guerra, em permanente luta com os seus fantasmas, que afogou no fundo de um poço no quintal da minha avó. Andámos dias à procura dele, sem sabermos que era impossível encontrar quem nunca voltara. O rapaz bonito que partiu para a guerra não era o mesmo. Como ele, tantos outros. A Liga dos Combatentes sabe disso muito bem. Muitos psiquiatras também.
Eu percebo que o presidente da Junta do Louriçal tenha uma certa obsessão em dar continuidade ao plano traçado por Diogo Mateus, de que era o maior discípulo, e por isso tenha planeado uma cerimónia próxima do 25 de Novembro (que este ano ameaça ser menos vigoroso, até que enfim). Mas se quer fazer alguma coisa pelos ex-combatentes, comece por dentro. Por perceber como é que estão estes homens e as famílias deles. Saberá que há ainda feridas abertas que tentam sarar com ansiolíticos e outros solutos? E fazer um protocolo com a Liga? Ou levar um Núcleo para o Louriçal? A não ser que... isto que isto da estátua seja uma ideia peregrina do presidente da Assembleia de Freguesia, Célio Dias, experiente numa guerra que nos tem ceifado muitas vidas, como atesta o cemitério do Louriçal: os acidentes rodoviários. Foi ele, de resto, que veio ao facebook fazer a defesa da estatueta, com toda a autoridade - diga-se. Afinal, ele não é só presidente da Assembleia, nem um louriçalense que gosta muito da terra para ir ao domingo e para reunir. É também um ilustre membro do Conselho Municipal de Segurança, acabado de designar pela Assembleia Municipal. Célio não gostou das críticas que surgiram à volta de tão nobre soldado de pedra, feito à dimensão do biscoito que marca estes mandatos da Junta. E retorquiu. É justo. Eu acho que a coisa merecia um livro. É só uma ideia...
13 de agosto de 2020
Democracia à moda do Louriçal
9 de dezembro de 2019
A pecuária da Mata Mourisca, o 'modus operandi' e o carro-vassoura
15 de outubro de 2019
Isto cheira mal, senhores
1 de julho de 2019
Socialista mas pouco
28 de junho de 2019
Causas que valem ouro
29 de agosto de 2018
Feitos num 8
13 de agosto de 2018
O biscoito e a festa do Louriçal
14 de setembro de 2017
Um comício para (lhes) tratar da saúde
13 de agosto de 2017
A privatização das festas do Louriçal
13 de abril de 2017
O último apaga a luz
Louriçal, às 14h30 do dia 11 de Abril, deste ano da graça de 2017...
e...hoje, 13 de Abril, às 10 da manhã. Fotos do João Pedro Domingues, que quer ser presidente da junta dessa bela localidade. E há coisas que não é preciso ser iluminado para ver.
17 de agosto de 2016
Hey, DJ, falta saber o preço das Festas do Louriçal
19 de agosto de 2015
Não há festa como esta...
Parece que afinal a organização esteve a cargo de uma nova colectividade, o que diz bem da pujança cultural que o Louriçal vive, por estes dias. Chama-se "Critérios e Tradições - Associação Recreativa" , foi criada no mês passado e tem sede no...edifício da Junta de Freguesia. Assim poupa-se espaço.
*o único valor publicamente conhecido. A não ser que os espectáculos estejam a preço de liquidação total.
6 de maio de 2015
Louriçal: quem quer festa sua-lhe a testa...
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