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29 de dezembro de 2023

Assobia para o lado


 

As redes sociais andam agitadas com a última novidade da Base.gov, onde a câmara de Pombal é obrigada a revelar tudo o que não consegue esconder, em matéria do que é gastar o nosso dinheiro. Sem rei, mas com muito rock. 

Depois de amanhã há passagem de ano - tão reclamada durante tantos anos - e claro que a grupeta de Pedro Pimpão não fazia por menos: Carlão, um nome sonante da cena musical, é cabeça de cartaz. E mesmo que a atuação aconteça às 22h30 (hora a que a maioria dos pombalenses estará a jantar, em casa ou num restaurante), é noite de reveillon e é caro atuar na província: 34 mil euros é quanto nos vai custar. Depois, quando finalmente a malta sair de casa para fazer a festa no Jardim do Cardal, sobrarão umas migalhas para o Dj Nuno Fernandez e os Bagunçada, dois miúdos simpáticos que já estão habituados a levar com os fins de festa (quem não se lembra de Agosto nas Meirinhas?)

Entretanto, o nosso presidente regressou às redes (depois de mais umas férias) para embandeirar em arco com as notícias sobre o prémio com que a API o distinguiu: Promoção da Imprensa. Se eu não conhecesse tão bem o que está na génese destes prémios (e de quem os idealiza), quase pensava que houve ali um engano no artigo (in)definido, pois que para Pedro Pimpão o prémio faria sentido se fosse Promoção NA Imprensa. 

E eu, que o conheço desde os tempos em que ele andava "lá pelos corredores do jornal" (como gosta de lembrar) não percebo como pode um autarca fazer alarde de um prémio destes, quando a imprensa e a rádio na sua terra chegaram ao que se sabe. Há quanto tempo não se lembra o leitor de uma reportagem, de uma entrevista (a sério, sem ser um guião com deixas para autarcas brilharem), de uma notícia que belisque a beleza da realidade perfeita? Há quanto tempo despareceu a imprensa incómoda, de que foram percussores o pai e o tio do nosso autarca-modelo?

Bem vistas as coisas, é fazer como canta o Carlão: assobia para o lado. 

26 de abril de 2023

Por que morrem os jornais em Pombal?


créditos: Município de Pombal 



 O Alfredo Faustino - Jornalista de excelência, com quem tive a sorte de trabalhar uma parte da minha vida - publicou neste 25 de Abril uma retrospectiva da Imprensa no Concelho de Pombal, que compreende os últimos 150 anos. A obra foi editada pelo Município de Pombal e deveria fazer parte do espólio de todas as escolas deste concelho, das Bibliotecas, das Colectividades. Mas para isso era preciso que os pelouros da Educação e Cultura pensassem sobre a causa das coisas e quisessem, de facto, inverter o sentido. Que se olhasse para os jornais, rádios e outras plataformas como um instrumento de desenvolvimento, pensamento e Liberdade, e não apenas de propaganda, daquela que "divulga o território". Adiante. 

Durante a apresentação, a ex-jornalista Dina Sebastião (actualmente investigadora da Universidade de Coimbra) deixou a pista que ninguém quer seguir: como é que uma terra que há 150 anos começou por ser berço de um "jornalismo de militância"  chegou ao fim do século XX reduzida à luta pela sobrevivência. O autor, Alfredo Faustino, traça um retrato nu e cru do que foi a ascensão e queda da imprensa local em Pombal, que ainda no final dos anos 90 acolhia quatro semanários, em simultâneo. E que hoje está reduzida a um quinzenário.

Por decoro, talvez, ou uma réstia do desencanto que a fez abandonar o jornalismo, a Dina foi cautelosa nas palavras, no diagnóstico e no retrato actual. 

Aqui no Farpas - que ao pé do 'Cão de Fila', o jornal burlesco publicado no século XIX, é um menino - já por diversas vezes o dissemos (e até fizemos um debate sobre o tema): a imprensa em Pombal sucumbiu às mãos do poder político, numa agonia amparada pelo poder económico. 

Enche-nos o peito ler este "da Imprensa do Concelho de Pombal", mas fica aquele nó pelo actual estado da arte. E não, não é igual em todo o lado. Há territórios que entendem bem a imprensa como um investimento e não como uma esmola de onde ainda se pode tirar algum consolo. Aqui, a causa das coisas chama-se declínio: social, económico e político. 

PS: chega a ser comovente o olhar paternalista de Luís Marques (antigo jornalista que terminou a carreira como administrador, lá na capital) sobre a imprensa regional, expresso no final da sessão de apresentação do livro. É contra essa moralidade benevolente que ando aqui há lutar há anos, porque acredito que o jornalista tem os mesmos direitos e deveres aqui, como em qualquer lugar. Foi uma das coisas que me ensinou o Alfredo A. Faustino, que fazia com a mesma determinação a notícia da rua ou a notícia do mundo. Auguramos, pois, tudo de bom para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, de que Luís Marques é comissário...

17 de março de 2022

A excursão a Lisboa

 



Nunca, mas nunca por nunca mais venham a este blogue dizer que Pombal não liga ao turismo, ou que não fazemos nada por ele. Quando toca a fazer turismo, somos muito fortes! Ontem, por exemplo, o executivo foi em barda para a BTL. Presidente, vereadores (da maioria e da 'oposição'), assessores e afins, encheram um autocarro de amor e rumaram à capital do império. Não sabemos muito bem o que foram lá fazer, pois que Pombal  não está sequer representando com qualquer stand do município. Só com uma empresa privada. Das duas uma: ou foram passear, ou marcar passeios. A uns e outros, desejamos uma boa estadia nas terras vizinhas.

O Farpas lamenta profundamente não ter podido corresponder ao convite que (certamente por lapso) terá ficado esquecido entre a horda de assessores, mas não quis deixar de dar nota de tão importante visita de estudo, mui dignamente acompanhada pela nossa dinâmica imprensa local. 

10 de novembro de 2021

Última hora - ou o jornalismo de paróquia


Sabemos que baixámos ao nível zero - ou abaixo dele - quando os órgãos de informação chamam 'última hora' e fazem directos nas redes sociais com o regresso de uma estatueta a um lago - ou um charco, para sermos mais rigorosos. O 'menino do peixe', uma espécie de Manneken Pis dos pobres, regressou esta manhã ao Jardim do Cardal, depois de "desaparecido" nas obras do mesmo. É claro que há temas que não interessam aos media locais. Por exemplo: a mega operação policial que decorreu durante a madrugada de domingo numa rua do centro da cidade (e levou à detenção de várias pessoas); o clima de insegurança que assola as imediações da Escola Secundária de Pombal e tem obrigado à intervenção policial quase diária; a situação periclitante do Centro Escolar de Pombal (corta, não convém alarmar os pais nem a comunidade e aquilo era uma parede exterior); a medalha que afinal Diogo Mateus não vai receber porque não aceitou  o convite ou nem sequer o recebeu - depois de aprovada a comenda e tornada pública aqui no Farpas (voltaremos ao caso mais mais logo, com detalhes). Este sim, revela-se muito mais fracturante.

Em resumo, #seguimos juntos e felizes, lado a lado, poder político e aquele que em tempos foi chamado de quarto poder. Lembrem-se: não há almoços grátis

19 de setembro de 2021

Diz que é uma espécie de jornalismo - que aconteceu no Oeste

 

Passaram quase 14 meses desde que o Pombal Jornal publicou um suplemento sobre o oeste do concelho que era - na teoria e na prática - patrocinado pelo núcleo do PSD. Os mais distraídos podem recuperar a história aqui. Ora, quando até eu já me esquecera da façanha, eis que sou surpreendida com um e-mail da ERC - Entidade Reguladora da Comunicação Social - na semana passada, dando-me conta do que foi a deliberação do Conselho Regulador a respeito do caso. E do seu arquivamento, não obstante a advertência, ao cabo de uma (inusitada) esmiúça dos factos por parte daquela entidade, que acabou por ir além do caso do Oeste, analisando o trabalho do próprio jornal em várias edições.

 Os detalhes estão online e podem ser consultados aqui, mas importa reter alguns tópicos, sobretudo para memória futura. Porque embora às vezes não pareça, isto ainda é um país, com leis e regras. E a Lei de Imprensa - assim como o Estatuto do Jornalista, o Código Deontológico e a Constituição da República são os mesmos em Pombal, em Lisboa, na Ponta do Sol ou nas Barbas Novas. ´

É difícil fazer jornais em Pombal. Sei-o bem. É igualmente difícil fazer jornalismo. Mas há linhas vermelhas que não podemos pisar. 

Cada um escolhe o seu caminho e o percorre como quer, mas quando está em causa o espaço público, a coisa extravasa um bocadinho o negócio familiar. E por isso faço votos para que a advertência da ERC não caia em saco roto, nomeadamente no que toca ao pluralismo partidário e do respeito pelo estatuto editorial definido pelo próprio jornal. De resto, ide ler, que sempre se aprende alguma coisa sobre publicações, suplementos, informação e publicidade.

15 de julho de 2021

Vão para dentro, que se constipam


 

O presidente da Câmara e a vereadora da Cultura chamaram a imprensa esta semana para anunciar o programa que assinala as festas do Bodo - ainda congeladas pela pandemia.

Além do Arunca com água e das farturas em três ou quatro pontos da cidade, o Município elaborou um programa com vários apontamentos musicais e exposições, chamando-lhe na mesma "em dias de Bodo", tal como fizera no ano passado. Só que desta vez o palco não será a Praça Marquês de Pombal. Julgávamos (muitos de nós) que seria o 'jardim' do Cardal, travestido de praça desde as obras, pois que ali decorreu recentemente o primeiro espetáculo do Festival Sete Sóis Sete Luas, bem como o 'Crianças ao palco', organizado pela Junta.

Mas eis que Diogo Mateus e Ana Cabral anunciaram a surpresa: os espetáculos não são ao ar livre, mas antes no Teatro Cine e no (ressuscitado) auditório da biblioteca. Escudaram-se nas indicações das autoridades de saúde. Ora, como todos sabemos, todos os especialistas à escala nacional e mundial apontam as atividades ao ar livre como mais seguras no que respeita à transmissão do vírus e propagação da covid-19. Mas no concelho de Pombal é diferente. Não deixa de ser estranho que a mesma autoridade de saúde autorize animação de rua nas praias do mesmo distrito de Leiria, por exemplo. 

Pombal será um caso de estudo, também nesta matéria. Além dos dias de Bodo, também o ATL da Junta de Freguesia de Pombal viu chumbadas as idas à praia com as crianças. Não vá o vírus esconder-se no parque do Osso da Baleia. Mas podem ir ao aquaparque, ok?

Por último, percebemos que está tudo bem quando não há perguntas sobre nada disto. 

5 de agosto de 2020

O Bodo na imprensa local: quem o viu e quem o vê!

A propósito de um texto que escrevi, a pedido do Jornal de Leiria, sobre o Bodo, dei por mim a consultar os jornais locais no Arquivo Municipal de Pombal. Estava à procura de notícias do início do século XX, para saber se a gripe Espanhola tinha conseguido impedir a realização das Festas. Pelos visto, tal não aconteceu.

Dessas leituras respigo algumas pérolas que evidenciam claramente o seguinte: em Pombal, o jornalismo do início do século XX dá 10 a 0 ao do início do século XXI. A coragem que havia na imprensa local, contrasta com o tom frouxo e servil dos jornalistas que agora (não) temos. Este facto também me leva a concluir que os pombalenses de então eram bem mais exigentes do que a maioria de nós face ao poder instituído. 



Festa do Bodo
Contra o que parecia depreender-se da leitura do edital mandado afixar pela Exma Câmara Municipal para a arrematação das festas do Bodo, foram apresentadas diferentes propostas para cada um dos diversos serviços a executar. Fez-se o que sempre nos pareceu razoável. O que não é razoável, é que indicando o edital que as propostas deveriam entrar na Secretaria da Câmara até ao dia 10, se recebessem propostas ainda no dia 11. O que também nos não parece razoável é que essas propostas, que até à sua abertura em sessão deviam constituir segredo, fossem contra todas as praxes estabelecidas abertas antes de apreciadas e talvez discutidas e até antecipadamente patrocinadas! (...)

Pondo de parte a proposta de Júlio Severino, temos de reconhecer que das restantes propostas a mais vantajosa era a do Sr. Baptista, porque além de ter mais lumes fazia uma diferença de 10$000 réis. Pois contra toda a expectativa, a proposta do Sr Baptista foi rejeitada, entregando-se a ornamentação e iluminação ao Sr Martins!! Porquê? O que levaria os ilustres edis a inclinar-se para esta proposta, quando é certo que o Sr. Baptista se comprometia a fazer precisamente a mesma coisa ou ainda mais por menos 10$000 réis do que a proposta do Sr. Martins? 

Francamente não compreendemos! Mas também não merece a pena estar a matutar nestas manigâncias. Pois se já o tal má língua nos dizia outro dia: - mais vale cair em graça do que ser engraçado!



As Festas do Bodo
Nos próximos dias 29, 30 e 31, devem realizar-se nesta vila as costumadas e tradicionais festas em honra da Senhora do Cardal. O programa é o mesmo dos anos anteriores. Em Pombal, triste é dizê-lo, não há inovações. A festa é este anos a expensas do nosso estimado amigo e assinante Joaquim António dos Santos Júnior. 



O Marquês e as festas do Bodo
Pasmai ó gentes! Recortamos do programa das festas que aí vão realizar-se este bocadinho precioso: "Durante os dias da festa estará exposto ao público na sala das sessões da Câmara Municipal o caixão onde estiveram os restos mortais do Marquês de Pombal" Isto é supinamente ridículo! Mais do que isso - totalmente estúpido e degradante! O caixão do grande Marquês de Pombal em exposição numas festas puramente reacionárias? 

Digno de ver-se
Continua exalando um fétido repugnantíssimo, oferendo a quem por ali passa um triste e nauseante espectáculo e a quem por ali vive um verdadeiro perigo para a saúde, o Ribeiro da Ponte Pedrinha. Se há por aí alguma alma que sinta amor pela terra e que não queira mostrar a nossa pouca dedicação pela limpeza aos forasteiros, trate-se daquilo quanto antes, para que em ar de troça, aqueles que nos visitem não nos venham perguntar se o ribeiro assim também faz parte das nossas belezas naturais e artificiais, como o castelo, o forno, o caixão do Marquês, o parque, etc, etc.



O Bodo de Pombal
Lá se passaram aqueles tradicionais dias de festa, que este ano foram dias de festa... pobre, tendo custado dinheiro de festa rica. Missas e sermões; sermões e procissões; novenas e foguetões; fracas iluminações e que nos conste com fartura nada mais nestes dias de tantas expansões.  

O Bodo de Pombal! Quem o viu e quem o vê! Quem o viu nos tempos em que havia gosto e se primava por em tudo o demonstrar. Quem o viu nos tempos em que havia amos à terra, superior ao mercantilismo, e o vê agora! Que diferença! (....) 

Cremos que é esta a opinião geral e registamo-la fazendo eco com o nosso protesto dos protestos dos outros. Pombal exige que melhor o honrem e que tanto não o aviltrem.

29 de junho de 2020

Pés-de-micro


Todos sabemos que a imprensa regional é muito vulnerável face ao poder político. O facto das Câmaras Municipais serem os principais anunciantes locais tem favorecido relações de subserviência que em nada prestigiam jornalistas e políticos. No caso de Pombal, esta situação é particularmente grave e o Farpas, em 2012, colocou à discussão o tema “Imprensa de Pombal: morreu ou mataram-na?” num dos seus primeiros debates públicos. 

Não vou repetir o que já dissemos aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui. É triste constatar que, com o passar dos anos, nada se tenha aprendido. Mas, depois da recente entrevista de Diogo Mateus à Rádio Cardal, não posso deixar de voltar ao tema. Por muito respeito que me mereçam os profissionais da rádio, aquilo a que assistimos não foi a uma peça jornalística; foi um exercício de auto-promoção do presidente da Câmara com a conivência do seu entrevistador. 

Um presidente da Câmara que use a comunicação social a seu bel-prazer,  fazendo uso da sua posição dominante para aniquilar o jornalismo livre, não respeita a democracia. É um déspota. Um jornalista subserviente, que não confronte os seus entrevistados, permitindo sistematicamente que eles digam o que bem lhes apetece, não cumpre o seu papel. É um pé-de-micro. 

1 de abril de 2019

O estatuto de arrependido

1. Esta nova versão do vereador Micael António na vida política casa muito bem com a era das fake news em que vivemos. Como diz o povo, 'Quem o ouve falar não o leva preso'.
Mas esta última intervenção sobre o financiamento municipal ao que resta dos jornais e das rádios seria cómica, se não fosse trágica. O vereador pediu a lista dos dinheiros (públicos) despendidos com a comunicação social local, regional e nacional, e fixou-se nos 56 mil euros (a fatia de um bolo de 218 mil) que o Município pagou, nos últimos cinco anos, à sociedade unipessoal Crónicas Mágicas, proprietária do Pombal Jornal.
Micael António está em pleno gozo do estatuto de arrependido: foi ele um dos fiéis sectários de Narciso Mota a encaminhar toda a publicidade para o Correio de Pombal (onde os protagonistas eram os mesmos que agora dão corpo ao Pombal Jornal). A relação era tão próxima, nesse tempo, que o vereador se sentava ao lado de quem paginava os anúncios, nas instalações do jornal.
 Foi o que aconteceu quando o Tribunal ordenou que fizesse um pedido de desculpas público à directora d'O Eco (que era esta que vos escreve) por causa de umas mensagens indecorosas que enviara do seu telemóvel, perdão, do telemóvel da Câmara. Depois de negar ser o autor das mesmas, considerando que 'aquilo foi alguém para o tramar', teve um assomo de honestidade: foi à PSP e apresentou queixa por roubo do telemóvel.
Em tribunal, acedi virar a página mediante um pedido de desculpas. Mas Micael teve novo rasgo de verticalidade e decidiu adulterar o que estava combinado, com a conivência da concorrência. Lembro-me disso todas as vezes em que me cruzo, por estes dias, com o advogado Castanheira Neves, que o representou. Mais tarde, um homem que já cá não está, e que processara Narciso Mota por difamação, dizia-me, no hall do Tribunal: 'não se pode fazer acordos com eles, minha cara. Porque esta gente não é séria'.

2. Não me recordo de ter visto o vereador Micael pugnar pela sobrevivência dos jornais nessa ou noutras alturas. Fazia bem o papel de delfim, soprando ao ouvido de um manipulável presidente da Câmara que 'quem não era por ele era contra ele'. Os empresários eram candidamente aconselhados a não investirem naquele jornal, optando pelo outro. Não valeu de nada. Morreram todos.
E neste processo de asfixia da liberdade de imprensa - e da própria imprensa - não há inocentes, no espectro político e público. A dificuldade em lidar com a crítica e a deficiente capacidade de encaixe levaram a melhor, transformaram Pombal no que hoje é: dos quatro jornais que (con)viviam, entre as décadas de 1980-2000, não resta nenhum. Publicavam-se dois semanários e dois quinzenários. Hoje resta-nos o Pombal Jornal, quinzenalmente, e aquela publicação com sede no Louriçal, de nome 'Notícias da sua terra', que chega a noticiar suicídios - violando as mais elementares regras da ética e da deontologia, a que até os equiparados a jornalistas estão obrigados. 
Percebo os pés-de-lã, o conforto de viver com pancadinhas nas costas em vez de olhares adversos, mas nunca os vou aceitar. Foi essa postura que nos conduziu a esta pobreza. 

 3. A parte em que Micael tem razão é aquela em que diz que no jornal em causa 'só dá câmara municipal'. É uma espécie de contrapartida, quer ele dizer. E será, sim. Mas seria interessante perceber quanto pagavam os executivos que integrou ao extinto Correio de Pombal, e de que tamanho era a sua indignação...
Por força das responsabilidades sindicais, tenho percorrido o país em visitas a jornais e rádios regionais. Há terras (mais pequenas que a nossa) onde as rádios locais mantêm 5 (cinco) jornalistas profissionais. Há cooperativas com 600 cooperantes. Cadeiras de rádio em Trás-os-Montes. Jornais que noticiam, denunciam, intervêm, fazem reportagens e entrevistas. Onde o tecido empresarial tem consciência da importância de investir nos meios de comunicação, ao invés de encarar a publicidade como uma ajuda. Uma esmola. Afinal, ouvida a resposta de Diogo Mateus (fica para outro post), não andamos longe disso.  

3 de agosto de 2018

Bodo on tape, pessoal!


Eu até percebo os jovens que se querem divertir e ter algum protagonismo junto dos amigos. Agora a Rádio Cardal alinhar numa rubrica que de criativo apenas tem o conceito e de qualidade nem se fala, é que custa ver. 

Esta iniciativa da Rádio mostra que há espaço em Pombal para projectos arrojados, originais, irreverentes. Mas o ser "diferente" não justifica tudo e os nossos filhos nem sempre são os artistas que gostávamos que fossem. Se for para repetir a experiência - como espero - deixo um repto aos jovens protagonistas: revejam o que fizeram, sejam os vossos maiores críticos e trabalhem (muito) mais. O vosso potencial só tem hipótese de se traduzir em algo interessante se forem muito mais exigentes convosco próprios. 

Deixo também este último conselho também à Rádio Cardal. Sou um grande defensor das rádios locais e, por isso mesmo, contem sempre comigo para vos criticar. Acredito no sucesso dos meios de comunicação regionais de qualidade, geridos com rigor, comprometidos com as causas sociais da comunidade em que vivem, que saibam recuperar as redes locais de identidade e não cedam à tentação da subserviência ao poder. Já não acredito em projectos que valorizem o supérfluo e descurem o essencial. 

25 de outubro de 2017

Ode aos mensageiros da propaganda


"Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade". A frase é normalmente atribuída a George Orwell por essa internet fora, mas terá sido dita por William Randolph Earst, proprietário de vários jornais e revistas, que de resto inspirou o filme "Citizen Kane", de Orson Welles. Elevar o nível é o mínimo que podemos fazer quando vamos citar o discurso de Diogo Mateus na sua tomada de posse, em que dedicou um minuto e dez segundos "aos órgãos de comunicação social" que acompanharam o último mandato.
Da ascensão e queda dos media em Pombal já reza a história, e Diogo Mateus tem capítulos reservados. Mas, por ora, não é desses que importa falar. Importa antes sublinhar como interpreta o papel dos órgãos de comunicação no exercício da democracia. Na verdade, tem a imprensa que lhe dá jeito, que não levanta ondas nem questiona, que não publica uma linha que belisque ou comprometa o "bom relacionamento", que prefere desempenhar o papel de mensageira, porque é muito mais cómodo. Ou alguém se lembra, nos últimos quatro anos, de qualquer "notícia" que não seja transmissão do que a Câmara disse, fez, ou pensa fazer, à laia de caixa de ressonância?
Retrocedemos muito, sim. Desde o tempo de Orwell ou Earst, quando Pombal ombreava com o resto do país, pela diversidade de jornais, isto para não irmos ao tempo do célebre "Cão de Fila". 
Diogo tem razões para agradecer, sim. Muitas. E o povo? Tem aquilo que merece, claro.

Adenda: Com uma imprensa desta, Diogo Mateus pôde dar-se ao luxo de promover a secretária Andreia Marques a Adjunta, e de mandar embora a adjunta para a comunicação, Alexandra Serôdio.

27 de abril de 2016

Liberdade de Imprensa

Falta pouco para o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, que se assinala a 3 de Maio. A propósito dos jornais que amanhã estão nas bancas, ocorre-me a célebre frase de Orson Welles:

"Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. 
Todo o resto é publicidade".

20 de março de 2015

Pasquins

Pasquim é um jornaleco que despreza a verdade, a lei, a ética jornalística e os leitores - um panfleto que difama para sobreviver. Abundam na chamada imprensa regional. Escrevinham “notícias” como quem faz chouriças, mas desconhecem os cuidados que as chouriças exigem para não se escaparem das mãos.
Há pasquins assumidos e não assumidos. Os assumidos são raros, têm propósitos claros e não enganam ninguém. Durante anos comprei um (destes). Os não assumidos, os que o são mas não lhe vestem a roupa, os que sendo-o, se fazem passar pelo que não são, são desprezíveis. Nos pasquins não assumidos distinguem-se ainda os inconscientemente não assumidos e os conscientemente não assumidos. Os inconscientemente não assumidos são, apesar de tudo, toleráveis, porque fazem o que não sabem e não sabem o que fazem. O mal vem dos pasquins conscientemente não assumidos, os que se fazem passar por órgãos de informação mas não respeitam as leis e as regras deontológicas destes, preferindo antes, por desígnio próprio, comportar-se como reles pasquins. Servem-se dos leitores para servir as suas clientelas e assim saciarem as necessidades básicas. Praticam uma das mais abjetas misérias humanas. E fazem-no com vaidade. A situação torna-se mais grave quando são alimentados por entidades oficiais com dados, factos e decisões redondamente falsos. É um serviço porco, feito por quem não repugna a própria porcaria, e tem, até, uma atração natural por ela.

6 de março de 2015

Quem tem medo do Manuel António?

O Manuel António falou!
Fez a coisa como homem que é: foi à Assembleia Municipal, fez-se rodear pelos "seus", que estiveram com ele 12 anos ao serviço da população da Guia, que não o deixariam mentir, e que mostram assim que é necessário haver mérito para se guardarem estas lealdades.
Leu um documento em que faz a sua defesa da honra, e expôs-se, para que quem com tanta sobranceria o acusou, lhe pudesse fazer as perguntas que entendesse, cara a cara.
Um embate entre homens e garotos é sempre uma coisa penosa.
Virão aqui os anónimos encomendados do costume denegrir a imagem do Manuel António, de forma cobarde, sem apontar nenhum facto em concreto, sem sequer mostrarem a própria identidade.
No meu post, as minhas regras: não o permitirei!
Quanto aos contributos que queiram ser dados para esta questão, são bem vindos (quer defendam o Manuel António, quer o acusem de algo). Mas, ou que sejam feitos por pessoas identificáveis, ou sendo proferidos por "pseudónimos não identificáveis", que não se limitem a insultos.
Uma palavra final à comunicação social da terra, comprometida que está com os silêncios amuados do reino: a independência é uma aventura só ao alcance dos melhores, que custa no início, mas que produz resultados a longo prazo. A subserviência permite apenas os "encostos a recibo verde", que dão o pão com manteiga de hoje, mas que nunca trarão melhor do que outro pão com manteiga, para a semana.

29 de abril de 2014

Deus está nos detalhes

Por motivos profissionais, tenho passado muitos dias no estrangeiro. Como não sei funcionar com o Facebook (nem com nenhuma outra rede social), recorro aos sites dos órgãos de informação local para saber as notícias da santa terrinha. Depois da 97FM, da Rádio Cardal e do Notícias do Centro, agora consulto também a página do Pombal Jornal e a da PombalTV.  Como podem ver, estou muito bem informado! Mas não é sobre isso que agora quero falar.

Fui assinante d'O Eco e d'O Correio de Pombal até ao seu desaparecimento e, por isso, ocorreu-me também assinar o Pombal Jornal. É uma coisa minha; gosto de ler os jornais em papel. E foi ao consultar a nova página do Pombal Jornal que verifiquei que não é feita qualquer referência à sua ficha técnica. Espantoso! Como podem aspirar a ter credibilidade se não informam os leitores sobre quem são os responsáveis por aqueles conteúdos? Mas mais: com excepção do Notícias do Centro (que refere que Orlando Cardoso é o seu director) e da 97FM (que diz alguma coisa - pouco - nos "Contactos"), nenhum dos outros órgãos de informação refere a sua ficha técnica!  Está tudo muito lindinho, muito tenrinho, muito xuxu, mas falta o básico dos básicos. 

Sou dos que acredita no sucesso de uma imprensa regional de qualidade, gerida com rigor, comprometida com as causas sociais locais e, já agora, com jornalistas na redacção. Não numa imprensa que valoriza o supérfluo e descura o essencial. E se, como disse o arquitecto Mies van der Rohe, "Deus está nos detalhes", então a nossa imprensa local está totalmente fora da lei de Deus. 

11 de janeiro de 2014

A verdade a que temos direito

Num assomo de excesso de zelo, o município de Pombal publicou on-line os nomes completos e respectivos valores das indemninizações dos trabalhadores que aderiram ao programa de rescisão por mútuo acordo, no âmbito daquela "operação limpeza" dos funcionários públicos que o Governo incentivou.  
São dez, ao todo, o que representa para os cofres municipais uma despesa na ordem dos 150 mil euros. Qualquer coisa como 1/5 do estádio da Meirinhas, duas ou três obras como a da Féteira.
Mas o insólito não ficou por aqui. Num rasgo de criatividade, o Pombal Jornal chamou o assunto à primeira página: "Saiba quem são os trabalhadores do município que pediram rescisão". Lá dentro, a notícia teria sido correcta se ficasse pelo penúltimo parágrafo, mas o jornal preferiu aderir ao estilo pravdazinho e estampar os nomes das pessoas e os euros que cada uma vai levar, à laia de compensação. 
Talvez lá no jornal ninguém saiba que um funcionário público não é, necessariamente, uma figura pública. E que ainda assim, o acordo é privado. "E por isso só poderia ser tornado público com o consentimento de ambas as partes", tal como me disse ontem à noite Óscar Mascarenhas, provedor do leitor do DN, que durante anos presidiu ao conselho deontológico do Sindicato dos Jornalistas. É que à partida, as notícias que saem nos jornais não devem perder de vista o artº 9º do Código Deontológico: "O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos excepto quando estiver em causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente, valores e princípios que publicamente defende"(...)
Em tempos, o Diogo Mateus seria o primeiro a apontar o dedo a esta façanha. E em tempos, os jornais faziam mais do que reproduzir as informações municipais como verdades absolutas. Dizia o "velho" Pimpão que "o jornalista é que tem de ser esperto, os outros podem ser todos burros".
Estamos sempre a inovar em Pombal, está visto...



26 de novembro de 2013

De pasquim

Para além da qualidade da informação, o que distingue um pasquim de um jornal é o respeito pela deontologia jornalística e pelo conflito de interesses.

Um dirigente de uma associação de empresários que aceita ser dirigente de um órgão de informação expõe-se a conflitos de interesses. Quando assina editoriais de um órgão de informação desrespeita regras básicas da deontologia jornalística. E quando utiliza os editoriais para promover eventos da sua associação empresarial desrespeita tudo e todos.

11 de dezembro de 2012

Síntese do debate

Na sexta-feira passada o Hotel Cardal acolheu, simpaticamente, mais um debate da série "Um café e uma farpa". Para a sua gerência, as primeiras palavras de agradecimento.

A nossa proposta consistiu em colocar à discussão do tema “Imprensa de Pombal: morreu ou mataram-na?”. Com o desaparecimento de “O Correio de Pombal”, essa discussão tornou-se pertinente pois, pela primeira vez em 100 anos, Pombal deixou de contar com um jornal de âmbito concelhio.  

As intervenções iniciais (de 5 minutos) ficaram a cargo de Alfredo Faustino, a quem coube defender a tese do “morreu”, e de Paula Sofia Luz,  que assumiu a defesa do “mataram-na”. Percebeu-se imediatamente que o tema proposto, mais do que potenciar conflitos, foi gerador de consensos.  Tanto os defensores da “morte matada” como os da “morte falecida”, para citar o Daniel Abrunheiro, concordaram no essencial. A prova disso foi que, já o debate ia longo, a Sofia – uma jovem aluna de Comunicação Social – iniciou a sua intervenção com “concordo com tudo o que foi dito até agora”. Mas tal não significa que a discussão tivesse sido morna ou desinteressante. Antes pelo contrário. Puseram-se os “nomes aos bois” e debateu-se com profundidade.

Durante  hora e meia de discussão, foi caracterizado o cenário e identificados os protagonistas do enredo. E foram várias as causas apontadas para o infeliz desenlace. Destaco as que me pareceram mais consensuais: a falta de profissionalismo na imprensa local; a pouca disponibilidade das empresas para apoiar financeiramente um projecto jornalístico; uma classe política com sérios problemas em lidar com a crítica; um crescente desinteresse dos cidadãos, especialmente dos mais novos, pelos jornais locais, privilegiando novas formas de acesso à informação. Tudo isto num cenário de um país em forte crise económica e num concelho com pouca massa crítica.

Mas a riqueza do debate não esteve na constatação da tragédia mas sim nos tópicos que convocaram a reflexão. Este período de nojo em que vivemos, para usar as palavras de Carlos Camponez, deve fazer-nos pensar na grande importância que pode ter a imprensa local. O nosso sentimento de pertença à comunidade necessita de um espaço que dê eco às pequenas notícias, às festas populares, aos resultados desportivos, para já não falar nas secções de necrologia, dos aniversários, do cartaz do cinema e das farmácias de serviço.

Precisamos de uma imprensa regional de qualidade, comprometida com as causas sociais da comunidade em que vive e que saiba recuperar as redes locais de identidade. Uma imprensa regional gerida com rigor, que aprenda com a experiência e erros do passado e não se deixe deslumbrar com cintilantes modelos de gestão, muitas vezes desadequados. E, já agora, com jornalistas na redacção.

7 de dezembro de 2012

Hoje à noite

Pouco importa se os rumores de renascimento são verdadeiros ou falsos. Oxalá sejam verdadeiros, a coberto de boas intenções. Para já, importa discutir isto: