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24 de março de 2026

O cata-vento laranja



Tenho acompanhado com atenção a atuação do presidente da Câmara Municipal de Pombal, que acumula funções como presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses, e não posso deixar de assinalar aquilo que considero ser um verdadeiro malabarismo de palavras — e de realidades.

Nos últimos meses, tenho visto coexistirem dois discursos que dificilmente se conciliam.

Por um lado, a nível local, é-nos apresentada a imagem de um concelho em recuperação, funcional, com capacidade de investimento e resposta. A comunicação municipal insiste numa narrativa de estabilidade, eficácia e mobilização de recursos, transmitindo confiança à população.

Por outro lado, a nível nacional, o mesmo responsável político surge repetidamente na comunicação social a alertar para a falta de meios dos municípios, defendendo a necessidade urgente de reforço financeiro e chegando a pedir um “pacote financeiro robusto” para o poder local.

O que me preocupa não é a existência destes dois planos — local e nacional —, mas sim o facto de estes discursos acontecerem ao mesmo tempo. Não estamos a falar de momentos diferentes ou de contextos distintos no tempo. Estamos a falar de declarações paralelas, feitas no mesmo período, que transmitem mensagens claramente divergentes.

E é aqui que coloco uma questão simples: afinal, em que ficamos?

Se o concelho tem capacidade de resposta, se consegue investir e apoiar a população, como é que se sustenta ao mesmo tempo a ideia de que os municípios estão estruturalmente sem meios? E se essa falta de meios é real e tão grave como se afirma, como se explica a narrativa de normalidade e sucesso a nível local?

Não estou a dizer que uma das versões é necessariamente falsa. O que afirmo é que esta dualidade cria confusão e levanta dúvidas legítimas sobre a coerência do discurso político.

Enquanto cidadão e enquanto alguém atento à vida pública, não posso deixar de questionar este malabarismo de realidades. A população merece clareza. Merece saber qual é, afinal, a verdadeira situação — sem discursos ajustados ao palco ou ao momento.

Porque a política, para ser credível, não pode viver de narrativas paralelas. Tem de assentar na coerência, na transparência e na verdade.


Emanuel Rocha 
#farpasconvidadas

22 de novembro de 2024

"Isto vai ficar assim?" Não, senhora ministra. É para desfazer.

 



Em Portugal há centenas de associações ambientais. Só na Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA), são mais de 120 associações. Pombal não é exceção e também conta com várias organizações que zelam pela natureza, ambiente, ecologia e bem estar animal.

Para muitos, esta é uma expressão de envolvimento social, de ativismo comunitário, do empenho popular em criar mais e melhores condições. Nunca entendi isto desta forma.

A necessidade de existir associativismo reenvidicativo nesta e noutras áreas é principalmente uma forma de expressão popular -  pelo fracasso das muitas leis e diretivas que a governação nacional e local se demitem de cumprir.

Na área ambiental o Grupo Proteção Sicó não substitui o ICNF, Os Amigos do Arunca não substituem a ARH-APA, a Ajuda Animal não substitui o Canil Municipal.

Existem apenas e só, porque aquilo que devia ser feito pelas entidades públicas é insuficiente ou pura e simplesmente não funciona.

Por toda a Europa, vários são os casos em que a governança se vai sobrepondo à gestão pública.

A governança é a capacidade das sociedades humanas para se dotarem de sistemas de representação, de instituições e processos e de corpos sociais, capazes de gerir localmente num movimento voluntário apoiado pelo poder local.

Se há coisa que aprendi nestes últimos anos, é que Pombal tem conhecimento, gente capaz, especialistas e investigadores, malta que representa internacionalmente o país e publica artigos científicos cá e por esse mundo fora.

Só que Pombal não os ouve, não quer saber, não quer aprender e teima em fazer mal só porque "é disto que o meu povo gosta".

Para quem nos governa, é muito mais fácil contratar o supra-sumo dos rios, pagar uma bela maquia e encher o peito para chamar ministros e secretários de estado, para ver o trabalho que eles pagaram com o que nós produzimos.

"Isto vai ficar assim?", perguntava a ministra ao ver aquele prejuízo ambiental e financeiro.

Só que o engenheiro que cá trouxeram joga noutro campeonato. Não anda à espera que lhe apresentem projetos.

Ele está noutra divisão que não a dos voluntários que só querem ajudar! Traz o financiamento, (que já acordou com quem manda nisto tudo), faz o que é ‘chapa cinco’ em todo o lado, tem os seus próprios empreiteiros e comem tudo sozinhos.

Os 600 mil euros que arranjou para Pombal, Leiria e Batalha vão ser gastos. E daqui a pouco estará tudo igual, se não lhe pagarem todos os anos para cá vir dar um ar da sua graça.

Só que como nós já cá andamos há muitos anos (e ele também), lembramo-nos que depois do que fez na primeira vez que cá andou, o Dr. Diogo Mateus mandou-o ir pregar para outra freguesia.

Podiam ter-nos ouvido antes de fazer, podiam... mas não era a mesma coisa.

Agora a destroçadora operada por um imigrante que não fala português (nem inglês, e por isso não há comunicação) já cortou o que não devia, já desapareceram os marcos dos terrenos, já não há dinheiro para mais e aquilo que era importante fazer e se calhar já não se faz.

Uma coisa é certa: aquela escadaria no centro de Pombal vai ter que ser refeita. Não tem as medidas que devia. A vala que abriram não dura um inverno, os Amieiros, Freixos e Salgueiros que foram crescendo nos últimos anos desapareceram e o dinheiro também.

Com 600 mil euros, contratavam-se 6 pessoas durante 5 ou 6 anos, o Rio Arunca tinha quem cuidasse dele e com o apoio dos pombalenses que gostam e sabem, fazia-se muito mais e melhor.

Emanuel Rocha

Ativista ambiental, membro d'Os Amigos do Arunca

13 de abril de 2024

Farpa Oferecida – Poema ao 25 de Abril de 1974


            De Rodrigues Marques - comentador proscrito, mas seguidor e leitor assíduo. 

            Cumprir Abril

9 de novembro de 2022

Ensino Superior em Pombal? Sim ou não? Como?

Vai em três décadas o desejo do município de Pombal ter uma escola ou polo de ensino superior na sua capital. Legítimo. Como legítimas são todas as opiniões sobre este projeto que deverá continuar a ser discutido, por políticos, professores, estudantes, suas famílias, empresários, forças vivas... como foi, sem filtros, no “café concerto” do passado dia 7 de novembro de 2022, no último piso do cineteatro.



Que ensino superior? Uma réplica de cursos que o Instituto Politécnico de Leiria (IPL) tem já em funcionamento nas suas escolas que estão a menos de 30 km de distância? Não! Não pode ser essa a via. Urge buscar, construir, coletivamente, em rede, um diagnóstico socioeducativo para encontrar o tema gerador e focalizador da que poderá ser a nova escola do IPL, futura Universidade de Leiria e Oeste (ULO).

Dito isto, uma nova escola com a centralidade necessária ao desenvolvimento da cidade, mas, também, dos concelhos mais a norte do distrito (Alvaiázere, Castanheira de Pêra e Pedrógão Grande) que não deverão ficar fora desta equação de mediação comunitária para servir um território que deverá extravasar o do município.

Mas não num casulo; não num contentor, não de forma precária e a replicar outros cursos do IPL e de suas escolas que estão já devidamente apetrechadas para o efeito. É preciso pensar grande. Em termos de região e de país. É preciso criar, inovar e não repetir.

A resposta mais pessoal e local ao título desta minha “Farpa” é sim! Pombal precisa de se desenvolver e não apenas crescer. Precisa de fixar e de atrair estudantes que se venham a interessar pelos cursos a criar para o desenvolvimento do município e região envolvente e o ensino superior pode ser essa alavanca de rejuvenescimento e criação cultural, em parceria com as escolas secundária, tecnológica, empresas, organizações e instituições.

A minha resposta mais científica, mas não menos política, e mais centrada na região de Leria e Oeste, é que é o próprio IPL que precisa de uma escola em Pombal [como precisa duma em Torres Vedras] para poder afirmar-se no contexto nacional e internacional como a única grande região que não possui, ainda, uma Universidade. O IPL, e todo o país, que tem de proceder rapidamente à reorganização da sua rede de oferta de Ensino Superior, precisa dessa universidade multipolar; multicampi, entre Torres Vedras e Pombal (ULO).

Nesse contexto, Pombal seria um nó dessa rede universitária com a sua escola (não um polo) a desenvolver-se em torno do estudo potenciado por Luciano de Almeida (quando criou a escola de Peniche (ESTM), já no século passado) em torno das “Ciências Agrárias e Florestais de Pombal”. Em 2018, o anterior presidente da CMP, Diogo Mateus idealizou a criação uma “Escola Superior de Ciências Agro-Industriais e Florestais”. O atual presidente, Pedro Pimpão, tem sublinhado esta necessidade e lutado pelo ensino superior em Pombal. Mas creio que importa construir, conjuntamente, com escuta ativa da população e seus agentes culturais e socioeconómicos, e a mediação comunitária necessária, um projeto diferenciador das restantes escolas do IPL, assegurando a diversidade na unidade do IPL que assim ganharia ainda mais trunfos para conseguir o Estatuto de Universidade (“conhecimento universal”, com uma gama epistemológica que vai do mais global ao mais local e do mais teórico ao mais prático).

Termino deixando alguns exemplos de possibilidade de cursos/áreas para pensarmos (desde os CTeSP aos mestrados, passando pelas licenciaturas e pós-graduações): Sustentabilidade ambiental; Desenvolvimento sustentável; Inovação e sustentabilidade; Valorização do território e sustentabilidade; Ambiente, sustentabilidade e educação; Economia circular, com vista à utilização eficiente e sustentável dos recursos, integrando vários atores a trabalhar em rede, entre os quais município(s), empresas, associações, Escolas, Instituições Sociais... 

É tempo de passarmos do crescimento ao desenvolvimento (sustentável, integrado, endógeno, circular). Jogarmos pela antecipação e construirmos a diferença com a aposta numa nova escola para Pombal. Mas tudo isto tem de ser dialogado com toda a rede social e económica (mediação comunitária). Não pode, portanto, ser uma decisão imposta de cima para baixo.

Farpa Convidada

Ricardo Vieira - Professor no IPL  

18 de outubro de 2022

Pombal, temos um problema...


Por: Sidónio Santos

Fui desafiado pelos responsáveis deste Blog para dar a minha opinião sobre a situação política de Pombal, com especial enfoque neste primeiro ano de mandato do atual executivo.

O meu distanciamento da atividade política, faz com que se consiga efetuar uma avaliação sem influencia partidária ou de grupos de opinião formatados, embora mantenha intacto o meu pensamento político e por isso continuo a acreditar que chegamos a esta “estatização” devido a 30 anos de MAIORIA ABSOLUTA de um partido político, cujas decisões não precisam de ser discutidas, apresentadas e consensualizadas para serem implementadas. Por isso, há cada vez mais decisões inúteis e realização de obras cuja prioridade e funcionalidade são discutíveis. A bem da verdade, é necessário também referir que os projetos alternativos nunca conseguiram alcançar uma projeção que permitissem quebrar esta maioria do PSD.

Esta situação, fomentou um problema de génese em Pombal, pois normalizou a ideia de que a política é um EMPREGO e deixou de ser uma MISSÃO ou um SERVIÇO a Pombal e aos Pombalenses. Esta filosofia, associada ao amiguismo, está bem enraizada na cultura do atual executivo e equipas constituídas, e já nos está a criar um problema   que vai piorar com o tempo.

Mas vamos por partes:

Acredito que o atual executivo municipal seja bem-intencionado, mas durante este ano já é mais do que evidente a falta de preparação, pensamento político e desarticulação da equipa que nos governa. Para o exercício destas funções, não basta ser simpático, bem-parecido ou ter conhecimentos técnicos, mas sim ter capacidade de gestão operacional, estratégica de várias áreas de atuação de um Município e de um organismo público desta natureza.

Isto já era mais do que evidente na campanha, pois quem apresenta um programa com mais de 100 medidas ou propostas denota a ausência de uma ideia clara e do que é considerado prioritário para o Concelho, tendo este receio sido confirmado após a tomada de posse, com a decisão “inovadora” na designação e distribuição dos pelouros que apenas serviram para alimentar capas de jornais e que na realidade aumentaram a inoperacionalidade interna da Câmara devido à desarticulação orgânica.

É esta a realidade caótica criada que veio justificar em parte a abertura do concurso para contratação de um Diretor Municipal para fazer o trabalho que na sua maioria competia ao Presidente e tentar meter ordem na casa. 

Esta decisão é um “crime de lesa a pátria” (expressão utilizada frequentemente por Narciso Mota), pois além do custo que lhe está associado (+/-200 000€ de salários em 3 anos), vai provocar mais inoperacionalidade interna.  Como dizia um ex-PSD e apoiante do atual presidente “Até se viesse de borla, era uma má decisão”, devendo-se exigir ao Presidente que faça o trabalho para o qual foi eleito. Contratar alguém para fazer o seu trabalho e pagar com dinheiro de todos nós, aumentando despesa fixa é uma medida de gestão incorreta e que não foi validada pelos eleitores. É apenas mais um reflexo dos efeitos nefastos da maioria absoluta, pois confunde-se com poder absoluto. 

Hoje, se não fosse a enorme quantidade de imigrantes que o Concelho tem vindo a receber, com todos os benefícios e desafios que isso acarreta, os dados da demografia e da atividade económica seriam piores e as aldeias estariam mais desertificadas. Esta é uma dinâmica social a que o município não tem dado a devida atenção.    


Em suma, este ano de mandato tem sido caracterizado essencialmente por uma política de fachada e de representação, que se consubstancia:

1)Executar obras lançadas pelo anterior executivo, mas não se questionar porque não existem obras estratégicas em lançamento;

2)Estar presente em todos os eventos, mas não se questionar porque é que há cada vez menos eventos e qual o impacto dos mesmos para o Concelho;

3)Visitar empresas instaladas para promover o investimento privado, mas não se questionar porque não há nenhuma empresa de grande dimensão a querer instalar-se em Pombal;

4)Querer fazer uma residência para estudantes de ensino superior, mas não se questionar se tem comunidade estudantil e ensino superior que o justifique;

5)Contratar uma empresa externa para elaborar um Plano Estratégico para Pombal, mas não se questionar se essa empresa conhece as especificidades do Concelho de Pombal;  

Quando se faz e não se questiona porquê, decide-se com pouca responsabilidade. 

Pombal, temos um problema….Ainda faltam 3 anos de mandato!

* Economista, ex-candidato à Câmara pelo CDS-PP 

5 de agosto de 2022

Pombal de realidade alternativa





A 24 de abril a CIM Região de Coimbra promoveu uma caminhada que percorreu,  entre outras zonas, o Vale dos Poios.

Sempre que os nossos pés percorriam territórios geridos pela Câmara Municipal de Soure ou de Condeixa-a-Nova, os nossos sentidos sentiam-se reconfortados e tranquilos pela preparação dos espaços e pela adequação das indicações aos caminhantes. Todavia, a entrada em território do concelho de Pombal era facilmente identificada como se pode comprovar na imagem.

Um dos aspetos marcantes desta caminhada é a possibilidade de contacto direto com a Natureza, sentido os cheiros, escutando a fauna e observando a vida natural que ali prolifera, sem interferências tecnológicas. Nem poderia ser de outro pois pois, em grande parte do percurso, nem existe rede 2G, 3G ou 4G.
Mas eis que, com pompa e circunstância, se anuncia que Pombal é uma cidade 5G (e bem), com destaque para a realidade aumentada da Serra de Sicó. Esta é a imagem de Pombal nestes tempos: tudo é virtual, baseada em realidade aumentada, quiçá, realidade alternativa. Só para quem queira ver, claro.

Luís Gonçalves
professor

28 de junho de 2022

Do género "igualdade fofinha"



Quando a Secretária de Estado para a Igualdade e Migrações aborda os números de mulheres vítimas de Violência Doméstica e desabafa que não sabe o que mais havemos de fazer para combater o problema, pois temos as leis mais avançadas do mundo, isso diz muito do estado a que chegamos neste país. Quando a este desabafo se acrescenta um elogio ao Presidente de Câmara por este assumir o pelouro da Igualdade e Cidadania, sem que seja pública qualquer ação de monta nessa área, isso torna tudo ainda mais deprimente. Quando, no seu discurso, o Presidente sublinha que a Igualdade não se limita à Igualdade de Género, sem que seja claro o objeto do seu discurso, isso secundariza completamente qualquer intenção de valorizar o papel das mulheres na sociedade, mesmo que, pelo meio, refira que tem "muito carinho pelo tema da Violência Doméstica".

Quando a responsável (?) pelo Plano Municipal para a Igualdade refere que o Diagnóstico de Género foi um processo participado, ficamos a perceber que podemos ter as melhores leis do Universo, que não sairemos deste fado pombalense. Recordo o que já escrevi num post anterior: a município tem 18 pessoas em lugar de chefia tendo o questionário sido a aplicado a apenas 17 e, destas, responderam apenas 40%. Ou seja, num universo de centenas de trabalhadores do Município, o Plano Municipal para a Igualdade assenta na resposta dada por 7 (sete) pessoas. Sim, não é engano… 7 Pessoas. Podemos dizer que o documento hoje (28 de junho) apresentado assenta num processo participado?

Continuemos a brincar à Igualdadezinha e a criar documentos fofinhos para, de seguida, dizermos de modo compungido que não percebemos a razão de, em junho 2022, termos tantas mulheres assassinadas como em todo o ano de 2021.

 

Nota: na Assembleia Municipal de 29 de junho, debater-se-á uma proposta de recomendação relacionada com este plano (lá para a 1 ou 2 da manhã). Haverá debate, ou avançar-se-á diretamente para a votação, de modo a continuar os atropelos à democracia?


Luís Gonçalves - Farpas Convidadas

26 de abril de 2022

Liberdade, Igualdade, Fraternidade

No dia em que escrevo há um sol que brilha mesmo que ameaçado por algumas nuvens. O que vislumbro do lado de lá da minha janela poderia ser a  da noite eleitoral de ontem em França: a Democracia vence, mas muitas nuvens permanecem na mente de todos nós.

O lema da Revolução Francesa permanece no nosso imaginário e costuma ser evocado também nas comemorações do 25 de abril em Portugal. Todavia, como em muitos outros aspetos, muito do que se gritava em 1789 está ainda por cumprir.

No nosso concelho do interior, à beira-mar plantado, poderia parecer que a fraternidade se estaria a cumprir. As páginas publicitárias do Município (no FB aparece como comércio local, pelo que se compreende que estejam a tentar vender uma imagem) apresentam com alguma frequência a partilha de algumas migalhas com quem sofre às mãos de um invasor. Nos discursos oficiais, parecem existir campeões em todo o lado em linha com as orientações dos gurus holísticos de autoajuda. Todavia, os nossos idosos continuam ao abandono, as minorias estão esquecidas e guetizadas, as/os trabalhadoras/es continuam exploradas/os e a ter de trabalhar 12, 14 ou mais horas por dia para, no final, ainda escutarem as lengalengas da meritocracia. Que Fraternidade é esta?

Hoje, celebramos a Liberdade. Em Pombal, apesar dos percalços do mau-tempo(!), também a celebramos. Todavia, deveríamos questionar a qualidade da Liberdade quando escutamos tantas pessoas a dizerem que não se manifestam contra as opções do poder vigente com medo de represálias. Que Liberdade é esta?

Mas, acima de tudo, jamais existirá Liberdade, enquanto não existir Igualdade. A primeira nunca se conseguirá cumprir totalmente, enquanto a segunda não estiver garantida. O Município apresentou um Plano Municipal para a Igualdade. Mas este é, claramente, um plano para ficar na gaveta. Acima de tudo porque, em determinado ponto, se faz depender esse plano da existência de verbas externas para o poder executar. Basta esta alínea para perceber que o documento é uma mão cheia de quimeras, pois os planos municipais para a Igualdade são opções estratégias políticas para o território, sem alocação de verbas governamentais. A sua base (o diagnóstico de género em Pombal) tem lacunas metodológicas que apenas se compreendem pelo pouco investimento de quem ordenou a sua execução. Deixo alguns exemplos:

a) questionário de diagnóstico aplicado aos serviços: o município tinha 17 quadros dirigentes, foram aplicados 16 questionários, obtiveram apenas 9 respostas. Que validade tem este diagnóstico?

b) entidades externas: enviados 59 questionários, foram respondidos apenas 25. Não se explicita a qualidade das entidades externas (conselhos de administração? Técnicos especializados?) o que condiciona a leitura da realidade das respostas. Qual a razão de não ter existido uma deslocação às sedes?

c) Quantas ruas com nomes femininos tem a Cidade de Pombal? E o Concelho? Nos últimos 10 anos, que preocupações existiram em termos de toponímia? Que planos para a "década" e este propósito?

d) Quantos livros escritos por mulheres foram financiados pelo município nos últimos 10 anos? Que planos para a "década" e este propósito?

e) qual o espaço que as mulheres tiveram para expor as suas obras nos últimos 10 anos? (Sim, eu sei que a Casa Varela tem uma exposição de Lídia Carrola a decorrer.)

f) qual o espaço musical dado às mulheres, comparando com os homens, nos últimos 10 anos?

g) os estudos internacionais apontam a iluminação das cidades como um fator de desigualdade com prejuízo para as mulheres. Que diagnóstico foi feito a este propósito?

Não é necessário ser-se um perito em Igualdade para perceber muito do que falta cumprir. Basta estar atento e basta querer, efetivamente, mudar. Ao discurso oficial é necessário aliar as ações e essas tardam em aparecer.

Viva o 25 de abril! Viva a Liberdade, Viva a Igualdade, Vida a Fraternidade.


Luís Gonçalves

8 de abril de 2022

Do mal-estar animal


 
Pelourinhos deprimentes I

Discutia-se, na sessão de 4 de agosto das cortes constituintes, um projeto de lei para a proibição dos espetáculos tauromáquicos, contrários “às luzes do século" (o século era o XIX, o ano era 1821) , e "à natureza humana”. Não parecia legítimo, àqueles homens há já dois séculos, que se divertisse gente à custa do sofrimento dos animais. 

“Os homens não devem combater com os brutos, e é horroroso estar martirizando o animal, cravando-lhe farpas, fazendo-lhe mil feridas, e queimando-lhe estas com fogo: tão bárbaro espetáculo não é digno de nós, nem da nossa civilização”, lia-se na proposta do magistrado e político Borges Carneiro.

Também o deputado Teixeira Girão, empresário agrícola, jornalista, académico, político e 1.º Visconde de Vilarinho de São Romão, se refere às touradas como "bárbaro divertimento”, “tolice em expor a vida sem fim útil, sem necessidade, “crueldade e cobardia em atorment[ar]".

Não colheu. A sociedade portuguesa não estava ainda preparada para a extinção das corridas de touros. Ficaram-se pela decisão de diminuir a barbaridade, abolindo os touros de morte, e ir preparando os "costumes".

Volvidos dois séculos, nos espíritos dos nossos governantes, destas luzes nem sombras. Não só se mantém por cá o cruel, cobarde e "bárbaro divertimento", como o município a ele se associa, fazendo-se representar numa cerimónia de felicidade taurina, pela vice-presidente Isabel Marto, vereadora do pelouro do bem-estar animal, fotografada, sorridente, ao lado de um rapazola conhecido por atos de tortura sobre animais.

O presidente, que tem dado mostras do dom da ubiquidade, estando em toda a parte ao mesmo tempo, esteve, neste caso, estranhamente ausente. Não terá querido associar-se à celebração, pelo opróbrio que encerra? Ficando para a número dois o trabalho sujo? Terá evoluído no seu pensamento, e esteja hoje ao nível das luzes de 1821?

Oxalá seja este o caso, pois, de contrário, será apenas mais um presidente aficionado, o mesmo das fotografias de 2017.

Para quando #Pombalmunicipioantitourada?

NOTA: Faz-se, no próximo sábado, em Coimbra, uma Caminhada solidária - o “Cãoimbra Walk”-, com o objetivo de sensibilizar para causa animal. Participe, senhora vereadora, e tome notas.

Lina Oliveira 

Professora

28 de março de 2022

Fazer umas coisas...



O mundo do trabalho (mas também o do associativismo) tem mudado de forma radical nos últimos tempos. Essa mudança encontra-se alavancada numa nova forma de planear a ação das organizações (qualquer que seja a sua tipologia) assente no desenho e implementação de projetos, sobretudo pela forma como tal possibilita o acesso a fundos da União Europeia.
Quando um avaliador de candidaturas recebe uma dessas propostas, começará por se focar na análise de necessidades efetuada localmente, na definição de objetivos que dela decorre e no alinhamento destes com as atividades propostas. Posteriormente, atentará no potencial de impacto nas pessoas e nas organizações e as formas de avaliar e de monitorizar os resultados.
Neste processo, cabe ao avaliador distinguir um verdadeiro projeto, com significado para o seu público-alvo, de um conjunto de atividades soltas a que poderíamos chamar "fazer umas coisas..." O primeiro decorre de uma verdadeira planificação e de uma visão clara do que se entende vital e verdadeirame te transformador. O segundo costuma ser falta de preparação misturada, por vezes, com arrogância e incapacidade de escutar sugestões que sigam em sentido contrário.
A Resolução 66/281 adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 28 de junho de 2012 sugere aos Estados-Membro a comemoração do Dia Internacional da Felicidade a 20 de março, através de atividades de educação e de conscientização públicas. Essas atividades, deveriam contribuir para a inclusão, a equidade, a sustentabilidade, a erradicação da pobreza, de modo a promover a Felicidade e o Bem-Estar de todas as Pessoas.
O que aconteceu em Pombal recentemente foi mais uma prova de que estamos no ponto de "fazer umas coisas" para colocar nas redes sociais, de modo a garantir que tudo fica na mesma, que quem está bem continua bem e quem está mal fica cada vez pior. As necessidades locais estão bem identificadas. O problema é que não existe vontade, nem capacidade, para se definirem objetivos claros, concretos e mensuráveis (SMART), para se desenharem atividades alinhadas com esses objetivos nem com as necessidades do público-alvo. Não se envolvem parceiros que sejam mais-valias (onde ficou a Educação? No pedido de vídeos de legalidade duvidosa aos professores das A.E.C.?), nem se faz uma avaliação estruturada. Em resumo, este tipo de ação não apresenta qualquer potencial de impacto, pelo que se resume unicamente a um desperdício de verbas, sem qualquer retorno para as cidadãs e para os cidadãos.
A um avaliador de projetos caberia a tarefa de reprovar uma candidatura assim desenhada(?). Às e aos munícipes de Pombal pede-se que tomem nota desta e de outras ações semelhantes e que se questionem se foi este o sentido que quiseram ao seu voto.

Luís Gonçalves
(professor)

19 de março de 2022

Felizes e mal pagos



Desde muito cedo que aprendi a conviver com a agricultura e com as hortas. Para lá do seu emprego, os meus pais sempre cultivaram largas extensões de terreno em pontos diversos da freguesia. Todavia até cuidar de catos e suculentas parece ser uma tarefa para a qual não terei sido talhado. Afinal, os conhecimentos não se partilham por osmose e, para saber do mester, é preciso trabalhá-lo e estudá-lo.

Verdades como esta são consideradas lapalissadas na maior parte do mundo civilizado. Porém, cá no nosso cantinho interior, à beira-mar encurralado, nada disso parece importar. 
Décadas de estudos em ciências da educação parecem ser meros apontamentos de rodapé nos currículos de especialistas, pois ser filho de docente parece ser condição suficiente para se perorar sobre tal matéria. E se ainda juntarmos umas digressões pelas escolas no âmbito do Parlamento dos Jovens bem como umas generalidades na Comissão Parlamentar de Educação, temos um cocktail que garante um conhecimento alargado sobre a matéria (com custos que descobriremos a curto prazo). 

Em Pombal, parece viver-se uma ficção. Publicam-se documentos encomendados a consultores, que apresentam pouca ligação à realidade local e, ultimamente, enveredou-se pelo caminho do "se pensar nisso com muita força, vai acontecer". No filme "Bruce, o Todo-Poderoso", a personagem principal consegue mudar o seu mundo apenas com a força de  vontade. Mas, até no mundo encantado do cinema se percebe que não é bem assim. Menos no tal concelho que resiste estoicamente à cultura do conhecimento, qual aldeia gaulesa do Astérix. Por lá, basta "querer muito", sobretudo se começarmos a "querer muito" desde o pré-escolar e a falar para as câmaras sobre o que é a felicidade (aguarda-se com expectativa o que dirá a Comissão Nacional de Proteção de Dados). 
Depois, levam-se esses testemunhos a conferências sobre "Happy schools", debitam-se banalidades durante 20 minutos perante nos novos gurus (resta saber quem os elevou a tal) e, no final, tudo se resume à defesa de uma Estratégia Nacional para a Felicidade e Bem-estar (onde estava tal autarca entre 2011 e 2015, quando o índice de pobreza em Portugal aumentou? Estaria a seguir uma expressão dos guias turísticos de Punta Cana? "Nosotros somos como los portugueses: j#didos pero felices") e que "os autarcas devem  ser facilitadores e não obstáculo". 

Basicamente, nesta lógica, os autarcas são meros relações públicas ou, se quisermos, uma espécie de Rainha de Inglaterra a quem basta ler um discurso, sobretudo se tiver sido soprado ao ouvido por esses grandes especialistas da Universidade Atlântica (com qualidade internacional reconhecida pelo Convento) ou por escribas de livros de auto-ajuda para quem o querer é suficiente para se ser feliz. Que o digam aquelas mães que se levantam todos os dias às 5 da manhã para ir fazer limpezas e que chegam a casa pelas 8 da noite... Ou as pessoas que vivem encurraladas entre um morro e um linha de caminho de ferro... Ou as pessoas que vivem sozinhas por essas aldeias deste interior/litoral... ou as mulheres que sofrem num mundo completamente dominado por homens... ou as pessoas que fogem de uma guerra que não poupa ninguém... estou ansioso por escutar,  amanhã, os testemunhos destas pessoas, na convenção da felicidade.

Luís Gonçalves 
professor

25 de outubro de 2021

Pombal dos Pelourinhos





Volvida uma semana sobre o anúncio, permanece pasmada a contemplação da pletora de pelouros do novo executivo que concretizam a Nova Ambição e prometem colocar Pombal a florir e na vanguarda, a smart city das smart cities, espaço de co-working e de clusters, spin-offs e fab labs, com tudo o que é lindo: verde, sustentável, digital, resiliente, inovador. Etc.

A questão que já ocorreu a muitas/os de nós, pombalenses, é a da governabilidade de um município cuja ação se pulveriza em meia centena de pelouros que, desconfiamos, nalguns casos se sobrepõem, distribuídos de acordo com uma lógica indiscernível, fazendo adivinhar os labirintos de secretaria em que terão de navegar os arrebatamentos retóricos do programa de campanha do presidente eleito e os eventuais projetos em que aqueles venham a materializar-se. Se a esta dificuldade juntarmos o anunciado novo modelo colaborativo de gestão autárquica, em que “todos contam e participam” -  um “plano estratégico de desenvolvimento para a próxima década, envolvendo a sociedade civil e todos os setores de atividade, um plano orientado para a ação e indicadores e medidas concretas para identificar (…) clusters de desenvolvimento e definir as nossas prioridades de crescimento, num documento que tem de ser elaborado em sintonia com os objetivos do Desenvolvimento sustentável da UN para 2030, o Plano de Recuperação e Resiliência e o Novo Quadro Comunitário Portugal 2030” –, é legítimo que se instale, entre nós, a dúvida metódica. Sobre como e quando o prometido.

No discurso de tomada de posse, o público bateu palmas por três vezes: duas delas quando o presidente louvou e agradeceu à família e a outra quando anunciou para 2022 o regresso do posto de turismo ao centro da cidade. Já imaginamos a estrondosa cerimónia de inauguração. Além desta data, só as outras, acima, e a da neutralidade carbónica para 2050. De resto, tudo vaporoso e indefinido, mas para fazer em quatro anos. Por isso, em vez de cartazes de auto comprazimento pós-eleitoral, gostaria de ver anunciados horizontes temporais para concretizar os compromissos assumidos (o posto de turismo já não conta, Sr. Presidente).

E ainda o pelouro da felicidade. Inútil, dir-se-ia, porque redundante, a ser verdadeira a observação do presidente, como coisa real, da “renovação da esperança bem patente na alegria e no sorriso estampado no rosto de cada um dos nossos concidadãos”. A felicidade por decreto, a gente já leu isto em algum lugar. A realidade, por outro lado, é triste. Vemo-la em múltiplos indicadores, entre eles nos números de quem desiste de Pombal, das pessoas jovens a quem doem os vazios e a estagnação, e cuja ambição é um bilhete só de ida, à procura de uma smart city onde construir um futuro.

Diz-me o dicionário que pelouro era também uma “bola oca de cera que se usava para nela se encerrar o voto escrito, por exemplo, para eleições municipais”. Oxalá nos enganemos.

Lina Oliveira

6 de fevereiro de 2020

A tua cidade...é minha e é nossa

“O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro.” 
Leonardo Boff

Todos os dias os lugares por onde passamos, vão sendo usados por uns e por outros. Como eu, são visitantes, moradores e vizinhos, pessoas do próprio concelho ou vindas de fora, que de um lugar para o outro, se deslocam, permanecem, brincam ou fazem compras. Tudo isso, acontece todos os dias, numa multiplicidade de atividades que se acumulam, num constante pisar e repisar dos lugares públicos da cidade de Pombal, que goza de uma centralidade que remonta à sua fundação e que nos dias de hoje mantém e conserva. 
Assim nos relacionamos com os lugares que valorizamos…
Existem também um sem número de agentes que se preocupam com o bom funcionamento da cidade de Pombal. Todos juntos, estão encarregues de garantir o bom funcionamento de todos estes espaços urbanos e procuram perceber como podem melhorar o seu desempenho e tornar a cidade de Pombal mais resiliente.
Seguramente foi com esse propósito, que se aprovou a Operação de Reabilitação Urbana da zona central de Pombal, delimitada por uma área de 54,3 hectares. Através dela justificaram-se, um conjunto de investimentos para realizar na “Área de reabilitação urbana: a área territorialmente delimitada que, em virtude da insuficiência, degradação ou obsolescência dos edifícios, das infraestruturas, dos equipamentos de utilização coletiva e dos espaços urbanos e verdes de utilização coletiva, designadamente no que se refere às suas condições de uso, solidez, segurança, estética ou salubridade, justifique uma intervenção integrada, através de uma operação de reabilitação urbana aprovada em instrumento próprio ou em plano de pormenor de reabilitação urbana” ORU - memória descritiva, pág 02. 
A noção de intervenção integrada cumpre-se aqui pela concentração e a proximidade das intervenções urbanísticas, ao invés de outras operações do género, que reconhecem nas obras apenas um efeito catalisador, quando na verdade a transformação dos espaços publicas dá-se através de um conjunto de medidas sociais e económicas claramente identificadas e incrementadas, durante um período de tempo que idealmente vai para além de um mandato. Nesse clima as obras são um fator de indução de novas dinâmicas económicas e sociais dentro da cidade e quando bem acompanhadas, transformam e mobilizam um concelho e uma região.
Para o centro de Pombal: Que imagem queremos? …O que é que pretendemos? …Quem serão os futuros moradores? …Que atividades económicas e sociais serão necessárias? …Que função poderá desempenhar, no quadro mais alargado do concelho? São apenas algumas das questões que terão que ser respondidas. Mas antes, urge re-conhecer a atual realidade de Pombal, contextualizar e refletir sobre ela.
Para os investimentos previstos serem potenciadores de mudança é necessária uma ampla e profunda reflexão ao longo de todas as fases de incrementação deste projeto, a ser liderado pela Câmara Municipal de Pombal em estreita delegação/participação dos agentes que atuam dentro deste perímetro (IEFP, Associações empresarial e comercial, Misericórdia, Bombeiros, IPSS, Igreja, CNEs etc…) e a uma comunidade organizada em torno de associações de moradores pronta a participar construtivamente. 
É num clima de partilha sincera e de apresentação das motivações de cada parte, que se constrói uma comunidade resiliente, fortemente identificada com os seus espaços urbanos e seus equipamentos públicos. Um centro urbano construído a pensar nas necessidades das suas estruturas civis, capaz de dar respostas aos múltiplos usos e contribuir para valorizar, cuidar e proteger os valores do concelho de Pombal, no seu contexto regional.

Carlos Vitorino
Arquiteto, orador no debate sobre Urbanismo, a cidade e o espaço público, promovido pelo Farpas a 27 de Janeiro

2 de fevereiro de 2018

Síntese da intervenção inicial do GPS no debate

O GPS – GRUPO PROTECÇÃO SICÓ foi convidado pelo Farpas, por email, a participar num debate sobre: “(...) os projectos já anunciados pelo poder autárquico, nomeadamente a ponte suspensa. Gostaríamos de centrar a questão na pergunta: melhorar ou estragar?". Os promotores do debate também referiram: "temos todo interesse em contar com a vossa participação, assumindo o que é a vossa posição sobre as anunciadas obras.”

O GPS aceitou participar, enviando a seguinte resposta: “Desde já aceitem o nosso agradecimento pelo vosso convite encetado, inclusive sobre a escolha do tema em causa o que muito honra o GPS. Referente à posição expectável a defender do GPS, em qualquer debate, sobre a temática em questão, "ponte suspensa" a construir no(s) vale(s) do poio (novo e/ou velho) na freguesia da Redinha-Pombal, a mesma só poderá ser a de pugnar pelo seu indeferimento, ou seja, o GPS afirmará sempre publicamente o seu repúdio a tal intenção, descabida, desproporcional, disfuncional, e atentatória de paisagem protegida que encerram tais geomonumentos naturais. Neste âmbito, confirma-se que aceitamos o convite e que podem contar connosco para o debate.”

Mais ainda se informou, no decurso do debate, que o interveniente/orador e aqui ora infra signatário, ali se encontrava na representação do GPS na qualidade de Coordenador do Grupo de Trabalho de Denúncias de Atentados Ambientais e de Participação nas Discussões Públicas de Planos e de Projectos Públicos e Privados (AIA), e que, nesse sentido, passaria a ler o seguinte comunicado público, o qual em 23/01/2018, foi enviado a várias entidades com competências públicas materiais sobre a temática, e, tendo também sido elaborado com a colaboração do Doutor João Forte, referente ao projecto CIMU SICÓ/EXPLORE SICÓ localizado em Poios/Redinha – Município de Pombal para o que se solicitou a leitura/discussão no âmbito da próxima reunião do respectivo órgão a que preside (cada um dos destinatários), com o objectivo de serem tomadas todas as diligências havidas enquanto necessárias no cumprimento do conteúdo do que aí consta exigido e requerido:

COMUNICADO PÚBLICO

O GPS – GRUPO PROTECÇÃO SICÓ vem comunicar publicamente que:
– Exige às respectivas entidades públicas que tomem as diligências havidas como necessárias para procederem e executarem à demolição do 1º andar do edifício ainda em construção referente ao projecto do CIMU SICÓ/EXPLORE SICÓ (pelo menos do edifício do lado norte localizado junto à Rua Principal – a estrada que vai para a Capela da Senhora da Estrela), por este apresentar uma altura e dimensão muito exagerada e constituir um autêntico MONO na paisagem, totalmente desproporcional e descaracterizador da Paisagem Protegida de Interesse Municipal (omissa de classificação). Nesta paisagem de interesse municipal e regional, destacam-se a falésia da Senhora da Estrela, que constitui um geossítio (omisso de classificação) e que representa, conjuntamente com os geossítios do Vale do Poio Novo e do Vale do Poio Velho (omissos de classificação), uma área passível de classificação enquanto unidade de gestão única. Mais requer e exige que sejam tomadas as respectivas medidas para as imediatas e respectivas classificações supra mencionadas, através do Decreto-Lei nº 142/2008, de 24 de Julho, e, da Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro, por parte da(s) respectiva(s) autarquia(s) e demais entidades e, inerente elaboração a sujeitar à discussão pública dos respectivos Planos de Gestão.
– Exige a integração da população local no projecto, principalmente dos habitantes da localidade dos Poios e inclusive da Estrela Poiense – Associação Cultural e Recreativa.

Citando Gro Harlem Brundtland, “O ambiente é o local onde todos nós vivemos, e o desenvolvimento é aquilo que todos nós fazemos na tentativa de melhorar o nosso lote dentro desse meio”.

Hugo Silva Neves, pelo Grupo de Trabalho de Denúncias de Atentados Ambientais e de Participação nas Discussões Públicas de Planos e de Projectos Públicos e Privados (AIA) do GPS

31 de janeiro de 2018

A importância e a estratégia do CIMU (Explore) Sicó


Os investimentos anunciados para os Poios, na Redinha, valorizam ou estragam a serra? (CIMU/Explore Sicó e Ponte no Vale do Poio)

Percebendo pela “linha editorial do blog” e pelo facto da construção do edifício do CIMU Sicó ter sido suspensa, pelo alarmismo criado à volta da intenção de construção de uma ponte (que ainda pouco ou nada se sabe sobre a mesma), e conhecendo os interlocutores, torna-se evidente que a questão aqui apresentada encerra em si uma forte carga negativa sobre o tema.
A minha presença no debate tem exatamente a ver com esse facto, e por considerar importante realçar e recordar, os prós dos investimentos na Serra de Sicó, procurando refutar um certo alarmismo, ou perspetivas de “copo meio vazio” que encontram terreno fértil sempre que se intervém em zonas ambientalmente sensíveis.
1.       Relativamente ao “CIMU Sicó”
Para que seja possível organizarmos ideias e para que o debate seja claro considero que a discussão deve ser colocada em 2 níveis distintos. Por um lado, a temática do edifício e a sua arquitetura, por outro lado a estratégia de promoção, desenvolvimento e proteção da Serra de Sicó.
1º Nível: O Edifício
Uma coisa é o edifício do CIMU Sicó, a sua localização, o seu programa funcional, o seu aspeto e volumetria, ou seja, um nível de discussão relacionado com a sua arquitetura.
Sobre a localização, importa relembrar que esta foi inicialmente escolhida para este local, uma vez que onde está a ser construído existia um grande desaterro ilegal que constituía uma “ferida” na paisagem. Para além disso existiam também todas as razões naturais na implantação deste tipo de infraestrutura, uma localização próxima dos vales dos poios, próximo das grandes vias de comunicação, etc. etc.
Relativamente ao programa funcional, para além dos espaços expositivos existem também um conjunto de valências que irão servir para a potenciação do território para além do edifício, um espaço de loja, um auditório, gabinetes para investigação, refeitório, zonas de dormidas e balneários.
Tanto na localização, como no programa, e até mesmo sobre a arquitetura do edifício saliento que houve à época da conceção do projeto um consenso alargado entre os vários parceiros do mesmo.
Não me parecendo que alguma destas premissas iniciais estejam em causa, e com a frontalidade que impera, importa referir aqui também as razões pelas quais a obra teve de ser interrompida. Identificaram-se no decurso da obra alguns pontos a rever no projeto, sendo que a maior parte deles esta relacionada com o facto deste ter já alguns anos. Elenco então de uma forma muito breve os principais pontos a rever.
- Necessidade de ajustamentos interiores – Prever a possibilidade de autonomização da zona de dormidas e gabinetes, da zona de exposição, bem como a adaptação de alguns espaços a novas ferramentas expositivas que, entretanto, surgiram.
Necessidade de ajustamento dos projetos de especialidades (elétrica, AVAC, etc) fruto da evolução tecnológica.
E por fim o ponto que gera mais preocupação à população, a altura acima do solo do 1º volume (o mais próximo da estrada). Apesar de parecer não coincidir com o projetado, realço que essa impressão é gerada pelo facto de a obra não estar terminada e faltar fazer a reposição de terras no local. A orientação neste ponto é a de se respeitar o projeto original. 
(consulta do projeto original - https://www.cm-pombal.pt/obras-e-projetos/cimu-sico-centro-de-interpretacao-e-museu-da-serra-de-sico/)
Face ao exposto parece-me francamente redutor concluir por aqui se o edifício em si vai valorizar ou “estragar” a Serra do Sicó.
Considero que, da mesma forma que uma escola nova por si só não valoriza/melhora a educação das crianças, apenas cria condições para que isso aconteça, o mesmo acontece neste caso, apesar de o edifício não valorizar por si a serra, parece-me evidente que virá criar condições para que isso possa acontecer.
2º Nível – A estratégia
Debate diferente e muito mais importante, é a estratégia de intervenção no território que este investimento irá potenciar, e aí há muitíssima mais matéria a discutir, uma vez que a Serra do Sicó tem como todos conhecemos um enorme potencial por promover, explorar e preservar.
Neste nível mais do que um edifício, estamos a debater um plano estratégico, que parte do Centro Interpretativo e da forma como será feita a sua gestão, mas que terá de ter uma intervenção em todo o território de Sicó.
Se repararem a alteração do nome significa em si mesmo essa abordagem. Passar de CIMU Sicó (Centro interpretativo e Museu) para Explore Sicó (Intenção de exploração de um território) significa que o enfoque da revisão agora em curso é reforçar a importância da intervenção no território de Sicó. E isso poderá ser visível ao nível de:
Programação de atividades – Tanto as públicas, como as promovidas pelos diferentes parceiros do território, numa estratégia de divulgação articulada.
Aproveitar a importância crescente dos desportos e do Turismo de Natureza dando-lhes melhores condições - desportos de montanha, pedestrianismo, orientação (geocaching), birdwatching, escalada, rapel, espeleologia, BTT, etc.
Inclusão da Sicó nas várias redes nacionais e internacionais da área (Bike Hotel, Centro de BTT, natura.pt, etc.)
Promoção de parcerias – envolver os diferentes atores do território (associações, clubes, privados, restaurantes, alojamento local, empresas de turismo de natureza, etc.)
Criação de um Conselho de Comunidade – A gestão deste edifício terá, para além dos recursos humanos alocados, um conselho de comunidade que represente a população nas opções a tomar.
Recursos humanos – Afetar a este território técnicos que terão como função/desígnio, pensar e “Puxar” especificamente por este território.
Proporcionar uma maior atenção à conservação da biodiversidade e Geodiversidade de Sicó.
Efeito no mundo cientifico, gerando melhores condições para que os especialistas investiguem o nosso território, incentivando a obtenção do conhecimento cientifico e cultural (elaboração de parcerias com universidades, com a fundação do Coa, com investigadores como Helena Moura, Thierry Aubry, Lúcio Cunha, GPS, etc.)

Relativamente a esta estratégia de intervenção no território, para a qual o edifício é apenas uma ferramenta que virá facilitar a sua implementação, julgo ser difícil considerar que a mesma venha estragar a Serra do Sicó.

2.       Relativamente à Ponte no Vale do Poio
Não conheço o processo (é bastante recente portanto), a imagem apresentada no debate é uma ilustração feita pelos “da casa Farpas”, com um propósito de orientar os leitores e os presentes para uma opinião negativa sobre a mesma. Formular esta imagem e esta opinião sem conhecer o verdadeiro projeto, considero ser a manifestação de um mero preconceito e uma tentativa de manipulação da opinião pública. Uma intervenção por ser feita no meio da natureza não tem necessariamente que ser má, há variadíssimos exemplos do contrário (Casa da Cascata, Passadiços do Paiva, a própria capela da senhora da Estrela, etc.), e portanto, até se conhecer o verdadeiro projeto, as suas intenções o seu aspeto e o seu enquadramento, julgo que é completamente prematuro fazer essa discussão. Importa realçar que ao contrário do que terá sido veiculado, tive oportunidade de confirmar no orçamento municipal para 2018 que o valor previsto são 20 000€ (que correspondem normalmente a uma verba para o estudo/projeto) e não os 420 000€ referentes à construção como erradamente aqui foi veiculado.

Em jeito de conclusão e para lançar o debate, tenho a forte convicção de que estes investimentos e os que se seguirão irão valorizar imenso a Serra do Sicó. Afirmo-o na plena certeza de que mais do que infraestruturas, estes investimentos trarão consigo recursos humanos, parcerias com privados, associações locais, construindo sinergias que beneficiarão todos, e que a nós enquanto comunidade nos obrigará a colocar o nosso empenho na valorização e promoção de uma das maiores riquezas do nosso território que é a Serra de Sicó.
Renato Guardado (arquitecto, ex-vereador da CMP)

6 de janeiro de 2018

Mostra, mostra, mostra...



Parece ironia o facto de, ao pesquisar no site da Câmara Municipal de Pombal, na parte relativa ao ambiente, a primeira coisa que vi foi mesmo um certificado de qualidade de água. Isto ilustra a dicotomia que é, por um lado, ver ali referenciada a notável “avaliação qualitativa de aspectos relacionados com a gestão, o cumprimento de preceitos legais e ocorrências significativas com impacto na qualidade do serviço que é prestado aos munícipes” e por outro ver o que se tem passado nas nascentes do Rio Ourão e do Rio Anços, locais onde a porcalhice anda bem activa, tal como o Grupo Protecção Sicó nos tem mostrado.Já agora, onde estão as análises da água das nascentes referidas? Eu estou particularmente interessado em ver as análises à água daquelas nascentes, já que gostava de saber se levam um selo de qualidade ou de porcalhice. 
Pelas fotos que já vi não há sequer dúvidas...Não é novidade o facto de os nossos autarcas não darem a necessária atenção a este recurso essencial à nossa existência. É certo que também é um tema que não dá grandes votos e já todos sabemos como funciona a (i)lógica política. Há, portanto, que mudar o paradigma!Não há o conhecimento por parte dos autarcas e isso reflecte-se numa atitude passiva e que constantemente subvaloriza os graves problemas que afectam os nossos recursos hídricos, aquíferos e não só. Daí não ser surpresa constatar o que o autarca Diogo Mateus disse, ao referir ao Jornal Terras de Sicó, que a contaminação que ali tem ocorrido“tende a regularizar-se sem grandes consequências”. Sou céptico quando oiço um não especialista nestas matérias a afirmar que não há grandes consequências associadas à poluição e por aí adiante. São afirmações que atestam a falta de competência de quem deveria gerir com mão de ferro este recurso estratégico que é a água potável.
Desafio Diogo Mateus a dizer qual o real estado dos recursos aquíferos da região de Sicó. Sim, da região de Sicó, já que na Natureza não há limites administrativos e tudo está interligado. Sim, já sei que este autarca não me conseguirá dizer tal coisa, facto que me leva a convidá-lo para uma reflexão urgente. E mesmo que o problema possa eventualmente ser causado fora dos limites deste município, o interesse e a dedicação na resolução da situação deve ser o mesmo dos outros, já que a água é um bem comum e todos bebemos da mesma fonte, mais tarde ou mais cedo.
Não se trata de saber as causas das alegadas descargas, mas sim de não querer saber do problema em si mesmo (ver a big picture), no protelar algo que é fundamental, conhecer os recursos aquíferos e defendê-los de toda e qualquer fonte de poluição, seja esporádica ou regular. Já todos sabemos que quando há alguém poderoso a poluir as coisas demoram a resolver-se, “sabe-se lá porquê”... A ver vamos quem são os responsáveis por estes actos.Já agora, onde estão publicadas as tais análises feitas? Mostra, mostra, mostra!As imagens disponibilizadas nas redes sociais pelo Grupo Protecção Sicó, um dos grandes defensores deste nosso património, deveria envergonhar todos os autarcas desta região. Este caso é apenas mais um entre muitos outros. Sim, sei que a memória é curta, mas para quem,como eu e como o Grupo Protecção Sicó sabemos, isto é infelizmente a regra e não a excepção.Há umas semanas desafiei um executivo a fazer algo, que agora estendo a todos os municípios da região de Sicó. Reúnam-se, rodeiem-se dos especialistas e esbocem uma candidatura a fundos comunitários, deforma a estabelecer um projecto ímpar para o conhecimento e gestão dos recursos aquíferos em meio cársico. Investigação pura e dura, aplicada a este recurso de primordial importância. É algo que ainda não existe,que colmatará uma falha inaceitável numa região com características tão específicas e que servirá como base a algo de tão simples como gerir um dos recursos mais preciosos que podemos ter, a água!Lembrem-se que temos recursos aquíferos mas que não sabemos, de facto,o seu real estado para consumo humano. E não é o facto de, por agora,podermos ir buscar água a outros lados que nos deve descansar, já que,tal como ainda há poucas semanas voltou a acontecer, em Ansião, quando a água falta e não se pode ir buscar a outra captação, então é sinal que devemos estar preocupados, muito preocupados...E se precisarem de uma ajuda, aqui estarei para o que der e vier. Têm também a Universidade de Coimbra aqui ao lado, fica a dica...
Finalizando, utilizo esta figura (acima), que ilustra este comentário, sempre que preciso de abordar esta questão. É uma figura clara e concisa,restando saber se os nossos autarcas conseguem entender o básico... 

João Paulo Forte
http://azinheiragate.blogspot.pt/