Mostrar mensagens com a etiqueta Sicó. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sicó. Mostrar todas as mensagens

24 de março de 2017

A tragédia dos comuns


Diz-se, muitas vezes, que uma imagem vale mais que mil palavras. Se isso fosse verdade, bastava o forte impacto visual provocado pelas pedreiras do concelho de Pombal para convencer que estamos perante um atentado ambiental. Infelizmente não é o caso. Daí a relevância da luta do Grupo de Protecção Sicó (GPS), uma associação que presta um verdadeiro serviço público.

Depois do alerta, em sede de discussão do Plano Director Municipal, sobre as consequências da eventual expansão das pedreiras existentes no concelho, a associação vem agora mostrar que as suas as preocupações não eram infundadas. A exploração da pedreira avança, sem escrúpulos,  para os terrenos baldios circundantes e o poder local assiste a tudo isto impávido e sereno.

As populações estão, naturalmente, revoltadas. A prepotência com que os mais fortes impõem a sua lei, desrespeitando as mais elementares regras de convivência comum, é típica de uma república das bananas, não de um estado que se pretende democrático.  Thomas Hobbes, em 1651, na sua famosa obra “Leviatã", afirmou que os homens são fundamentalmente egoístas cabendo aos governos controla-los para que não se destruam mutuamente na busca dos seus interesses próprios. Mas quando o poder político assume, claramente, o interesse de uma das partes, o seu papel regulador desaparece. 

Em Pombal, temos um poder autárquico beato, mas que despreza as populações, e uma oposição de serviços mínimos, simpática e delicodoce. Neste cenário, a regulação dos comportamentos egoístas terá que ser feita pelas pessoas, pelas associações e pelos partidos que insistem em faz seus os problemas comuns. Ah! E pelo Farpas, claro!

22 de fevereiro de 2017

A Realidade da Obra do Regime

Quando se junta voluntarismo e megalomania à cegueira e surdez, o caminho para o desastre está traçado.
O Centro de Interpretação e Museu da Serra da Sicó (CIMU SICÓ) é um desastre completo: conceptual, arquitectónico, paisagístico, construtivo, económico, etc.
A obra foi lançada no final de 2014, com um orçamento de 2,139 MEuros e um prazo de construção de 360 dias. A 29 Janeiro 2014, Diogo Mateus disse que a obra deveria “estar pronta e a funcionar em 2015”. Está parada há mais de um ano, no estado de abandono que as imagens mostram.
A obra é um desastre conceptual porque nunca teve um conceito claro estabelecido - servia para quase tudo, e o que serve para tudo não serve para nada. É um desastre arquitectónico porque não obedece a um conceito claro, está mal implantado – dizem, agora, que houve um erro de projecto - choca e desfigura espaço e a paisagem envolvente. É um desastre paisagístico porque, para além de ferir a paisagem, encobre a serra, que tanto se propunha valorizar. É um desastre construtivo porque, nos moldes actuais, não o conseguem construir: a câmara porque não sabe o que construir - não sabe o fim a que se destina e também não consegue encontrar conteúdos para lá colocar; e a construtora porque não tem orçamento suficiente. É um desastre económico porque, se for concluído, vai exigir elevados custos de funcionamento e manutenção, e não gerará receitas significativas.
Chegados aqui, com uma boa parte do orçamento consumido e com três quartos da despesa por fazer, o que fazer? Assumir o erro. Demolir. Responsabilizar. Penalizar.

A Obra do Regime

O Centro de Interpretação e Museu da Serra da Sicó (CIMU SICÓ) foi apresentado ao concelho e à região como a grande obra do regime. A maquete, as imagens 3D, os objectivos, as valências e as virtualidades do projecto demonstravam a visão, o arrojo e a capacidade de transformar pedras em rosas, e ouro. O projecto colocaria Pombal, não onde está, no centro do país, mas no centro do mundo. Seria uma atracção mundial para cientistas, investigadores, projectistas, desportistas, turistas, etc.
O projecto resultou – disse-o Diogo Mateus – de “muitas horas de reflexão” (o mal esteve aí – digo eu). Foi concebido com tal polivalência que: “promoveria o desenvolvimento e de valorização regional e local”; “divulgaria o conhecimento associado ao património natural, cultural e científico”; “facilitaria a divulgação e a sensibilização ambiental”; “promoveria e apoiaria o turismo de natureza e a divulgação do desporto de montanha"; “facilitaria visitas e/ou estadias de grupos e fomentaria a realização acções de conservação da natureza, da biodiversidade e da paisagem”; seria a base de um futuro geoparque na Serra de Sicó”; “alojaria uma delegação do Centro Ciência Viva”.
O CIMU SICÓ seria, como nos disseram e se vê na figura, a última maravilha na Terra - uma espécie de Bênção-Divina sobre Pombal - que nos daria tudo o que nunca tivemos e ninguém imaginou – salve Diogo Mateus - “assente em princípios de sustentabilidade ambiental e económica”; com “um carácter de inovação e demonstração em áreas como a eficiência energética e passividade térmica"; “o armazenamento e reutilização de água”; “a integração paisagística e a recuperação ambiental da área envolvente".
E tudo isto no prazo de um ano, a contar do final de 2014, por uns módicos 2,139 MEuros.
Contei-vos o sonho. Falta contar-vos a realidade. Desfrutem antes do pesadelo.