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29 de abril de 2024

Canções de Abril #29

Um dos símbolos do 25 de Abril de 1974 é o slogan O Povo Unido Jamais Será Vencido”. A frase, popularizada em todo o mundo, poucos meses antes, aquando do golpe militar chileno que derrubou o governo de Salvador Allende, começou por ser o título de uma canção dos colombianos “Quilapayún”. E se, na década 1970, "O Povo Unido Jamais Será Vencido” representava um apelo à participação colectiva para a construção de um mundo melhor, hoje, quando essas ideias parecem utópicas e ultrapassadas, o slogan ainda constitui um factor de mobilização e participação, nas ruas, nas fábricas, ou mesmo nas redes sociais.

“Portugal Ressuscitado”, a primeira canção gravada em Portugal depois do 25 de Abril de 1974, aproveita a popularidade do slogan como mote para expressar os dias de grande euforia que se viviam logo após a revolução. A música é uma composição de Pedro Osório e o poema de Ary dos Santos introduz pequenas subtilezas que permitem que seja cantado de forma mais natural. Foi um enorme êxito e ganhou, por direito próprio, um lugar de destaque na música portuguesa do período revolucionário.

Na gravação, que ocorreu nos primeiros dias da revolução, participaram Tonicha, Fernando Tordo e o grupo InClave, dirigido por Pedro Osório, que contava com a participação de Herman José. É o próprio Herman que escutamos nesta versão.

23 de abril de 2024

Canções de Abril #23

 


A 24 de fevereiro de 1969, Simone de Oliveira ganhava o Festival com uma canção que fintou a censura. Versos como "quem faz um filho fá-lo por gosto" foram ouvidos demasiado tarde pelos guardiões da moral e dos bons costumes. A Desfolhada, poema de José Carlos Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, chegaria à Eurovisão com todos os holofotes apontados. De melodia revigorante e lirismo aglutinador, era considerada a melhor letra pelos jornais estrangeiros”. Mas esbarrou num assumido europeísmo anti-Portugal, numa altura em que a guerra em África ia longa e sangrenta.
Na vasta carreira de Simone, a Desfolhada haveria de tornar-se um símbolo, também pelo facto de coroar a maior finta à censura, ombreando apenas com a Tourada, de Fernando Tordo, em 1973. 
Em 1968, um tema de Zeca Afonso tinha sido afastado da competição, o que aliás se tornaria prática recorrente para um leque de artistas incómodos. O título da canção de Zeca Afonso era tão só "Vejam Bem".

Poucos saberão que esta canção não foi escrita para Simone de Oliveira, mas para Elisa Lisboa, uma jovem atriz do Teatro Experimental de Cascais. A poucos dias do  festival, Elisa desistiu, apresentando razões pessoais e um atestado médico, com diagnóstico de 'laringotraqueíte'. E assim se chamou Simone de Oliveira. Depois de vencer o festival, partiu da estação de Santa Apolónia, em Lisboa, em direcção a Madrid, pela rota ferroviária de duas ditaduras, alimentando grandes expetativas.  Ao longo do percurso, milhares de pessoas acenavam, exibindo cartazes de apoio.
Mas o  enorme sucesso da "Desfolhada" em Portugal não teve o mesmo resultado no Teatro Real de Madrid, palco do Festival Eurovisão de 1969. A canção seria atirada para um penúltimo lugar, apenas com quatro pontos. Para o público nacional, de pouco importou: Simone foi recebida em apoteose, à chegada a Lisboa. Curiosamente, até o Estado Novo lavraria o seu desencanto por "tamanha injustiça à música nacional". Em protesto, Portugal não se faria representar no Festival Eurovisão da Canção do ano seguinte (1970).
A verdade é que, 55 anos volvidos, a canção ainda hoje anda nas bocas do povo.

22 de abril de 2024

Canções de Abril #22


O disco “Venham Mais Cinco” de José Afonso é uma obra prima. Gravado em 1973, todas as suas letras e músicas são da autoria de José Afonso, muitas delas escritas na prisão de Caxias. Os arranjos são de José Mário Branco e conta com a participação de músicos com origens e formações muito diversas. O tempo das baladas de Coimbra já tinha ficado, definitivamente, para trás. O que José Afonso propõe neste disco é de uma inovação e genialidade raramente vistas no Portugal de então.

O tema que dá nome ao álbum foi a primeira escolha do Capitão Santos Coelho para senha do 25 de Abril. Acontece que, já com tudo preparado, descobriu-se que essa música estava proibida pela Rádio Renascença, tendo a escolha alternativa recaído sobre "Grândola, Vila Morena". O resto é história.
 
"Venham Mais Cinco" é uma música icónica do trabalho de José Afonso. Ela expressa, de forma clara, a opção estética do autor, ao recorrer a ritmos de inspiração africana numa música de raiz portuguesa. A letra era, obviamente, muito incómoda para o regime fascista. Aparentemente, o poema refere-se a um conjunto de amigos que pedem mais cinco copos numa taberna. Acontece que, nesse ano, tinham passado cinco anos do início da "Primavera Marcelista", que prometia alterações políticas que nunca chegaram a acontecer. O famoso refrão - “Não me obriguem a vir para a rua gritar, que é já tempo d'embalar a trouxa e zarpar” - era um apelo claro à urgência revolta e um convite ao ditador para partir, o que viria a acontecer quatro meses depois, aquando do golpe militar de 25 de Abril de 1974.  
 
A versão de Ildo Lobo para "Os Tubarões", gravada no memorável concerto "Os Filhos da Madrugada", a 30 de Junho de 1994, no Estádio de Alvalade, constitui uma belíssima homenagem à obra de José Afonso e à vontade que o artista sempre manifestou de colocar em diálogo ritmos africanos e portugueses. É também uma oportunidade para lembrar os cantores africanos que tiverem um papel importante no combate à ditadura, como Ildo Lobo, Ruy Mingas, entre muitos outros.

20 de abril de 2024

Canções de Abril #20

 



Um poema de Sophia de Melo Breyner ganhou vida na voz do então padre Francisco Fanhais, integrando o único álbum que gravou: “Canções da Cidade Nova”, publicado em 1970 com o selo do programa Zip-Zip, da RTP.

Um ano antes, saíra o primeiro registo de Fanhais, um EP editado pela Orfeu com músicas suas a partir de poemas de Sebastião da Gama ou de João Apolinário e ainda um texto bíblico musicado por Pedro Lobo Antunes.

 

Em 1971, impedido de exercer o sacerdócio, Fanhais parte para França, onde participa nesse ano nas gravações do álbum “Cantigas do Maio”, de José Afonso. São também seus os passos que ouvimos em “Grândola, Vila Morena”, captados no exterior dos estúdios do Castelo de Hérouville, onde Zeca grava esse que era já o seu quinto álbum de estúdio. Fora algumas colaborações posteriores, desde logo ao lado de Zeca,  Francisco Fanhais não mais voltaria a gravar em nome próprio. Através da música tornou-se uma das mais ativas vozes dos chamados católicos progressistas que combateram a ditadura de Salazar.

18 de abril de 2024

Canções de Abril #18

Em 1971 foram publicados cinco dos mais importantes álbuns da música portuguesa: “Cantigas do Maio”, de José Afonso, “Os Sobreviventes”, de Sérgio Godinho, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades,” de José Mário Branco, gravados em França, e “Gente de Aqui e de Agora”, de Adriano Correia de Oliveira e “Movimento Perpétuo”, de Carlos Paredes, gravados em Portugal. Uma verdadeira revolução no panorama musical português. Para além disso, 1971 foi também o ano do primeiro Festival de Jazz de Cascais e do Festival de Vilar de Mouros. O ambiente era propício ao florescimento de ideias de mudança.

Por estratégia comercial da editora Sassetti, o álbum de Sérgio Godinho foi apenas lançado em 1972, evitando competir com trabalho de José Mário Branco (da mesma editora). O sucesso de “Os Sobreviventes” foi imediato, recebendo o Prémio da Imprensa, em 1972, e o Prémio Bordalo, entregue pela Casa da Imprensa, em 1973. “Que força é essa?”, a canção de abertura, é um apelo à consciencialização e à revolta dos trabalhadores injustiçados. Inspirado na situação dos emigrantes portugueses em França, Sérgio Godinho dirigia sua mensagem aos que viviam em Portugal sob o domínio da ditadura, enfrentando condições de trabalho mais adversas e com menos direitos laborais. O disco foi proibido pela Censura três dias após o lançamento.

Mais de cinquenta anos depois, esta música permanece como o hino dos que se recusam a aceitar as injustiças e se insurgem contra a submissão à ordem de obedecer e calar. A prova está nesta versão dos Clã, Filipe Sambado e Cláudia Pascoal, apresentada no Festival da Canção de 2021.

15 de abril de 2024

Canções de Abril #15

 

No dia 6 de Maio de 1975, um ano depois da revolução, uma mulher fez parar o trânsito no cruzamento da avenida Miguel Bombarda com a 5 de Outubro. Chamava-se Teresa Torga, tinha 41 anos, fora corista e atriz do teatro de revista. Mas os ventos de liberdade e criação que sopravam no país não a arrastaram para o sucesso. Atirada para uma depressão, saiu para a rua despida.

 

“No centro a da Avenida

no cruzamento da rua

Às quatro em ponto perdida

Dançava uma mulher nua”

 

Por ali passava o repórter fotográfico António Capela, que registou todo o episódio: "Que aproveitando a barbuda/ Só pensa em fotografá-a/ Mulher na democracia não é biombo de sala".

O caso foi notícia nos diários da capital. E Zeca Afonso imortalizou-o, contando ao detalhe toda a história de Teresa Torga, num registo ímpar de humanidade. Há uma versão imperdível de Lúcia Moniz e Diogo Leite, em 2017, numa homenagem da Sociedade Portuguesa de Autores a Zeca Afonso. E nestes 50 anos do 25 de Abril, Mariza LiZ e Júlio Pereira oferecem-nos uma nova interpretação. 

14 de abril de 2024

Canções de Abril #14

 

 José Barata Moura ficou mais conhecido pela sua produção discográfica infantil do que como cantor de intervenção. O maior sucesso deste cantautor (que também é filósofo e professor catedrático) foi mesmo o "Fungagá da Bicharada", embora do seu trabalho se tenha destacado, logo em 1970, a canção "Olha a Bola, Manel".

Mas houve muitas outras músicas na obra de José Barata Moura, e sobretudo canções de intervenção e de combate ao regime. Exilado em França, Barata Moura gravou inicialmente em francês, também em 1970, o EP "Bidonville". Ainda antes do 25 de Abril grava em português.

O álbum "Caridadezinha" foi editado em 1973, com 12 canções. "Vamos Brincar à Caridadezinha" revelava-se uma crítica mordaz aos que praticavam, à época, a caridadezinha, num país profundamente desigual. 

13 de abril de 2024

Canções de Abril #13

“Queixa das Almas Jovens Censuraras” é uma das canções do álbum “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, de José Mário Branco, gravado em Paris em 1971, e conta com um belíssimo poema de Natália Correia.  O título sugere um lamento dos jovens a quem impedem de ser livres. O poema é altamente metafórico e denuncia um regime que perpetua uma educação castradora e sufocante. 

Este magnífico álbum foi o responsável por revelar José Mário Branco, na época um ilustre desconhecido no país. Já a autora da letra era uma figura de grande destaque na cultura portuguesa. Açoriana, poeta, antifascista, Natália Correia afrontou Salazar ao honrar a tradição erótica e satírica portuguesa. A sua “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”, de 1966, foi censurada pelo fascismo e valeu à autora uma condenação por "consciente e pública ofensa do pudor, da decência e da moralidade pública". Natália é a responsável pela publicação da obra “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (as “três Marias”), em 1972. O livro é proibido pelo regime três dias após o lançamento, que o considerou “pornográfico e contrário à moral e aos bons costumes”. O adultério, a violação, o aborto e a subordinação da mulher, eram temas proibidos pelo Estado Novo, que via as mulheres como cidadãos de segunda, não lhes concedendo o direito de votar ou a possibilidade de sair do país, abrir conta bancária ou tomar contraceptivos sem a autorização do marido. Um livro urgente nos dias de hoje, onde muitos parecem ter saudades de um tempo em que a "família tradicional" era sinónimo de discriminação da mulher.

12 de abril de 2024

Canções de Abril #12

 


Em 1970 o jovem Hugo Maia Loureiro destacou-se no VII Grande Prémio TV da Canção Portuguesa. Nesse ano a RTP decidiu não participar no Festival da  Eurovisão, ainda mal refeita das expetativas goradas do ano anterior, com a Desfolhada de Simone de Oliveira.

“Canção de Madrugar” ficou classificada em segundo lugar, num concurso em que se sagrou vencedor Sérgio Borges, com o tema “Onde Vais Rio que eu canto”. Mas ficou no ouvido de todos o tema cantado por Hugo Maia Loureiro, um poema de Ary dos Santos, com música de Nuno Nazareth Fernandes.

Esta canção é uma obra poética, dividida em duas partes quase antagónicas. Na primeira, a alusão ao linho e aos nardos sugerem a preparar para algo sagrado. A segunda parte é marcada por uma entrega dolorosa, numa cadência de elementos negativos: nem 'choros', nem 'medos', nem 'uivos', nem 'gritos', ‘nem farpas nem farsas’…

A “canção de madrugar” termina sem a realização desse amor, mas com a persistência do desejo. O que à época foi um arrojo, e um desafio à censura. Ao longo dos anos muitas foram as versões que conheceu: Carlos do Carmo, Sérgio Borges, Conjunto Académico João Paulo, e mais recentemente Susana Félix, no projeto “Rua da Saudade”.

Foi banda sonora da série “E depois do Adeus”, da RTP, dedicada ao drama dos “retornados”.

Hugo Maia Loureiro morreu em fevereiro deste ano, afastado dos palcos. Canção de madrugar foi o seu maior sucesso. 

11 de abril de 2024

Canções de Abril #11


Canta, canta, amigo, canta
Vem cantar a nossa canção
Tu, sozinho, não és nada
Juntos temos o mundo na mão
 
Cinco mil pessoas, em coro, entoaram o refrão de “Erguer a Voz e Cantar” no I Encontro da Canção Portuguesa, que decorreu no Coliseu dos Recreios em Lisboa no dia 29 de Março de 1974. Na presença de um forte aparato policial, o público manifestava, dessa forma, a sua impaciência para ouvir os artistas que raramente tinha possibilidade de escutar: José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, José Jorge Letria, José Carlos Ary dos Santos entre outros. A canção tinha sido gravada quatro anos antes por António Macedo e, de imediato, se tornou um hino de resistência, adoptado por milhares de jovens em todo o país. O público que, nesse dia, enchia por completo o Coliseu era sensível à mensagem da canção, que apelava à solidariedade e à participação cívica activa.  
 
A singeleza musical e a mensagem simples e directa fizeram desta canção património da geração dos “filhos da madrugada”, ficando no imaginário popular de todos quantos viveram a Revolução dos Cravos. E se antes do 25 de Abril de 1974 a canção era cantada em festas privadas, reuniões estudantis e partidárias, depois da revolução passou também a fazer parte do cancioneiro litúrgico, cantada por muitos jovens em inúmeras igrejas do país. Na verdade, de todas as músicas de intervenção, “Erguer a Voz e Cantar” ou “Canta, Amigo, Canta”, como ficou conhecida, é talvez aquela que se pode dizer que se tornou verdadeiramente popular.

10 de abril de 2024

Canções de Abril #10



Nos últimos 20 anos do Estado Novo, estima-se que mais de 1,6 milhões de pessoas emigraram para diversos países da Europa e da América.  Mas o fluxo migratório acentuou-se na segunda metade da década de 60, essencialmente para França, como é disso exemplo o concelho de Pombal. E continuou nos primeiros anos da década de 70, com cerca de 300 mil a abalarem de Portugal. Depois do 25 de Abril, a emigração (legal) reduziu consideravelmente, mas ainda rondou as 100 mil pessoas até ao final da década.

Em 1970, o poema da galega Rosalia de Castro (1837-1885), escrito no século XIX, encontrou no Portugal do Estado Novo toda a atualidade. Desgraçadamente, em muitos momentos da nossa história manteve-se atual. José Niza musicou-o, e entregou este marco da música de intervenção à voz de Adriano Correia de Oliveira. Se fosse vivo, Adriano teria completado ontem 82 anos. 

A beleza triste desta canção perpassa também nas cordas da viola de Rui Pato e da flauta de Tiago Velez. "Cantar da Emigração" é do álbum 'Cantaremos', editado pela Orpheu em 1970. A canção marca o início de uma intensa colaboração entre Adriano e o compositor José Niza - com quem viria a gravar 'Gente daqui e de Agora', no ano seguinte. 

9 de abril de 2024

Canções de Abril #9

“Caio Guembo, 4 de Abril de 1972. Querida: Já é certeza, amanhã vou para Luanda, portanto não te preocupes. Já estou livre de perigo, agora é só aguardar o dia quinze para dizer adeus a esta Angola que não me deixa saudades algumas. Portanto fica descansada. Se Deus quiser no dia dezasseis já estou ao pé de ti. Adeus até ao meu regresso.”

O primeiro-cabo atirador Carlos Cândido da Silva Neves, que tinha partido para Angola a 18 de Fevereiro de 1970 a bordo do paquete Uíge, regressou à “Metrópole” no dia 16 de Abril de 1972, estando à sua espera, na estação de Faro, a sua madrinha de guerra e futura esposa, Rosa Maria Santos de Matos, com toda a sua família. Final diferente tiveram os mais de 100 mil civis e os 10 mil militares portugueses que faleceram Guerra Colonial, para além dos mais de 20 mil ficaram inválidos. Cerca de 90% da população jovem masculina de Portugal foi mobilizada para uma Guerra que durou 13 anos e só acabou depois da Revolução de Abril de 1974. Portugal era um país criticado pela comunidade internacional, isolado, “orgulhosamente só”, persistindo num esforço de guerra que chegou a consumir mais de 40% da despesa nacional, o que diz bem da demência do ditador e de toda a corja que governava o país.

“Menina dos Olhos Tristes", escrita por José Afonso para a voz de Adriano Correia de Oliveira por volta de 1963, é uma das muitas canções anti-guerra gravadas nessa altura. Com um poema de Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (poeta português radicado em Moçambique, falecido em 1958 e filho do famoso Repórter X), a mensagem remetia abertamente para as Rosas de olhos tristes, que não viam os seus soldadinhos voltarem do outro lado do mar.  A Censura rapidamente proíbe o disco, mas não consegue apagar a música. Aliás, essa como muitas outras canções cruzaram o oceano e chegaram aos soldados, que as cantavam e adaptavam à realidade que viviam. Exemplo disso, é o chamado Cancioneiro do Niassa, uma colectânea canções centradas na vida dos militares portugueses colocados na região do Niassa, Moçambique, durante a Guerra Colonial, nos finais da década de 1960. 

No vídeo podemos ouvir a versão que José Afonso gravou para a Orfeu, em 1969, acompanhado pela viola de Rui Pato, e ainda as canções “Ronda do Soldadinho” e “Pedro Soldado”, interpretadas, respectivamente, por José Mário Branco e Manuel Freire.

8 de abril de 2024

Canções de Abril #8


O ano 1961 foi muito complicado para o regime de Salazar. Em Janeiro deu-se o assalto a um dos maiores paquetes portugueses, o "Santa Maria", por um comando liderado pelo capitão Henrique Galvão, o que constituiu um escândalo internacional. A 4 de Fevereiro, a insurreição do povo angolano marca o início das guerras coloniais. A 12 de Novembro, na farsa eleitoral para a Assembleia Nacional, a totalidade dos deputados eleitos pertence à União Nacional, o que desencadeou várias manifestações. Numa delas, em Almada, o operário Cândido Martins foi barbaramente assassinado pela polícia enquanto gritava "Não há medo". Tinha 28 anos. No dia 4 de Dezembro um grupo de dirigentes comunistas foge da prisão de Caxias no carro oficial de Salazar. A 18 de Dezembro as forças indianas invadem Goa, Damão e Diu, iniciando a derrocada do império colonial português. 
 
Tudo corria mal ao ditador. Em desespero, dá ordens para que a PIDE intensifique os métodos repressivos e de vigilância. No dia 19 de Dezembro, às oito horas da noite, José Dias Coelho, artista plástico na clandestinidade, militante do Partido Comunista Português e responsável sector intelectual do partido, é detectado pela brigada da PIDE. Um tiro à queima-roupa, em pleno peito, deitou-o por terra; o outro foi disparado com ele já no chão. Os assassinos meteram-no num carro e só duas horas mais tarde, quando estava a expirar, o entregaram no Hospital da CUF. «De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas»: esta foi a legenda que José Dias Coelho deu à sua última gravura, dedicada a Cândido Martins. Hoje, esta frase encontra-se inscrita no mesmo lugar onde foi assassinado. 

Em 1972, José Afonso, no seu disco "Eu vou ser como a toupeira", dedica-lhe o magnífico tema "A morte saiu à rua". É a voz do poeta que escutamos nesta versão.

6 de abril de 2024

Canções de Abril #6


A editora Orfeu é uma referência incontornável no panorama musical português das décadas de 1960 e 1970. Fundada em 1956, no Porto, por Arnaldo Trindade, a etiqueta prosperou apostando sempre nos novos valores da cena musical portuguesa, muitos deles ligados à chamada canção de protesto. Adriano Correia de Oliveira, primeiro, e José Afonso, depois, estabeleceram uma relação duradoura com a empresa, sem que esta impusesse condições à sua criatividade musical.

Um exemplo paradigmático das edições da Orfeu é o álbum “Fala de um Homem Nascido”, de 1972, uma opereta em duas partes composta por José Niza (trabalho iniciado enquanto alferes-médico em Angola), com encenação musical de José Calvário e baseada em poemas de António Gedeão. Os intérpretes escolhidos foram Duarte Mendes, Carlos Mendes, Samuel e Tonicha que, no ano anterior, tinha ganhado o Festival da Canção com "Menina", uma música de Nuno Nazareth Fernandes com letra de José Carlos Ary dos Santos. Um dos poemas musicados nesse disco, “Lágrima de Preta”, escrito em 1961, continua a ser, ainda hoje, um dos mais magníficos hinos à igualdade. Tornou-se conhecido na voz de vários cantores. A canção foi proibida pela censura, até à revolução de Abril de 1974.

A versão aqui partilhada não é das mais conhecidas. Interpretada por Duarte Mendes, capitão de Abril e vencedor do primeiro Festival da Canção em liberdade, tem um arranjo lindíssimo de José Calvário. A título de curiosidade, refira-se que Sam The Kid usou um sample deste arranjo no seu "Até Um Dia", do álbum “Beats Vol 1: Amor”. 

5 de abril de 2024

Canções de Abril #5


Em 1963, uma música do álbum Baladas de Coimbra (o mesmo que inclui o icónico "Os Vampiros"), intitulada "Menino Do Bairro Negro", emergiu como obra seminal da canção de protesto, marcando uma ruptura significativa com o fado coimbrão tradicional. Esta canção, além de expressar temas de desigualdade e esperança, carrega consigo os traços distintivos das músicas de resistência à ditadura portuguesa. Acompanhada magistralmente pela viola de Rui Pato, esta balada de Coimbra revelou-se de uma eficácia surpreendente, tendo a simplicidade musical contribuído para realçar a mensagem do belíssimo poema de José Afonso.  

José Afonso afirmou que a negritude de que fala a canção não diz respeito à cor da pele, mas à condição dos meninos explorados nos bairros da cidade do Porto: "Tudo aquilo me chocou de uma maneira espantosa. A primeira vez que cheguei ao Porto depois de várias boleias era de noite. Num dos bairros da Ribeira, vejo quatro tipos a urinar para dentro de uma lata. Era uma cena altamente surrealista, mas muito tripeira. Lembro-me de ter visto os meninos que pululavam por aquelas ilhas. Foi uma coisa que eu pensei que só existisse nos filmes...". O "carácter subversivo" da canção não passou despercebido ao Secretariado Nacional de Informação (SNI) que se apressou a apreender "urgentemente os invólucros do disco de 45 r.p.m. da autoria do dr. João (sic) Afonso que contem (sic) as canções "Menino do Bairro Negro" e "Os Vampiros" e a solicitar ao Director dos Serviços de Censura que "se digne promover à acção conjunta para obviar aos malefícios provocados pela divulgação das referidas canções." A bem da nação!

A canção do “Zeca” sobreviveu ao SNI. A prova da sua intemporalidade é evidente na versão que aqui partilhamos, interpretada por Rita Dias, com acompanhamento de Miguel Pimenta.

2 de abril de 2024

Canções de Abril #2


Vozes ao alto, vozes ao alto
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada
Ao Sol desta canção!
 
"Jornada", composta por Fernando Lopes-Graça em 1945-1946, é talvez a mais emblemática de entre as suas "Canções Heróicas", em grande parte devido ao poema de José Gomes Ferreira que a acompanha. Estas composições musicais assumiram um significado profundo no contexto da oposição ao Estado Novo, em particular no seio do Movimento de Unidade Democrática (MUD). O movimento, criado em 1945 para reorganizar a oposição e mobilizá-la para eleições, foi rapidamente ilegalizado por Salazar e as "Heróicas" proibidas pela Inspecção Geral dos Espectáculos. A "Jornada", descrita pela própria PIDE como o hino não oficial do MUD, passou a ser apenas cantada em convívios privados, em colectividades recreativas e associações estudantis. Na verdade, o poema de José Gomes Ferreira era demasiado provocatório para um regime opressivo, prepotente e para um ditador bacoco e provinciano.
 
Esta versão resulta de um projecto colectivo entre o Coro Polifónico Eborae Mvsica, o Coro da Universidade de Lisboa, o Grupo Coral ViVa Voz, o Grupo Coral Laudamus, alunos da Escola de Música Nossa Senhora do Cabo, o Coro Cardif a plein tubes, entre outros. Antes de "Jornada" pode ouvir-se "Acordai", outra das "Heróicas" de Lopes-Graça e José Gomes Ferreira.

1 de abril de 2024

Canções de Abril #1

 


Zeca Afonso adaptou-a de uma canção tradicional da beira alta. Gravou-a pela primeira vez em 1969, no disco "Menina dos Olhos Tristes", e o tema  tornou-se um dos principais hinos de luta durante o fascismo, incluindo nas cadeias, onde  frequentemente lhe eram incorporadas outras estrofes, como "pára-raios na igreja/é para mostrar aos ateus/que o crente por mais que o seja/não tem confiança em Deus".

Na plataforma Spotify aparece sobretudo a versão de Maria da Glória, a cantora alentejana de voz grave, que editou o seu último disco em 1974. 


25 de março de 2024

O 25 de Abril na Ilha

 



O café Lanheiro estava à pinha: novos e velhos reunidos para ouvir "histórias do25 de Abril nas tabernas", naquela que terá sido a mais genuína iniciativa das comemorações dos 50 anos da revolução -  testemunhos de quem a viveu, sob diversas formas. Durante a tarde de domingo, esteve ali tudo:  o povo e a forma como vivia, sem paz, pão, habitação; os privilegiados da Guia (Artur Carreira e Amândio Neves assumiram-no e contaram-no com grande generosidade, desde a campanha de Humberto Delgado às lutas estudantis em Coimbra), os que não conseguiram escapar à guerra e combatiam contra a vontade, os que foram vítimas do processo de descolonização. E os que cresceram a ouvir as histórias dos pais e avós, que já nunca conheceram a ditadura mas têm consciência e valorizam as portas que abril abriu. Ao fundo, uma fotografia antiga dos homens que criaram a primeira Comissão de Melhoramentos da Ilha, essa terra especial onde o tempo fez cinza da brasa. Um mão cheia deles. 

"Estes homens sofreram muito. Ninguém imagina. O povo vivia mal". As palavras da Ti Preciosa, viúva de um desses homens, avó da Patrícia, que agora gere o Lanheiro (antiga taberna) vão ecoar-me por muito tempo. O medo. O medo de falar, de agir, de ser "chamado a Pombal", à Câmara, ou ao capitão Gonzaga. Os pides infiltrados entre a populaça, controlados pelos homens poderosos da terra. As diferenças tão vincadas entre uma aldeia como a Ilha (que podia ser a minha Moita do Boi) e a Guia, "que ao pé de nós era uma cidade". As diferenças tão vincadas na sociedade. E a declaração emocionada de António Moderno, professor jubilado: "Ninguém imagina a alegria que eu sinto em olhar à minha volta e ver que o neto do sapateiro é engenheiro, que toda a gente tem instrução, quando naquela altura havia três ou quatro licenciados. O 25 de Abril foi o dia mais feliz da minha vida".

A ilha é uma terra especial. Dali sempre brotou intervenção pública, sobretudo cultural. E ontem, ao ver aquele encontro de gerações e de interesses (que terminou com a brilhante atuação dos músicos André Ramalhais e Evandro Capitão, a acompanhar a declamação da poesia de Ary dos Santos pela Lina Oliveira), tive a certeza de que ali se cumpriu Abril. 

Só nos faltava agora que este Abril não se cumprisse.