A minha costela masoquista levou-me a espreitar a gravação da Assembleia Municipal. A bem da verdade, se cada um de nós soubesse os mínimos do que se passa na coisa pública, talvez não deixássemos que a mesma chegasse a este estado, que o nível baixasse além da indigência. O Adelino Malho já aqui fez um bom resumo do que é aquele ajuntamento, por isso não importa repisar na forma, na deformada forma do órgão que deveria fiscalizar a actividade municipal. Sendo assim, aqui deixo apenas duas notas para reflexão:
1. Os eleitos do PSD, incluindo os presidentes de junta, encarnam bem o papel da formiga no carreiro - mas nunca ousam ir em sentido contrário, como cantava Zeca Afonso, para nunca correrem o risco de lerpar e trepar às tábuas. Noutros tempos, a defesa da maioria (e do executivo) era feita com pensamento próprio. A excepção era o que agora se tornou regra: o elogio bacoco da actividade municipal, a lambebotice enfadonha. E a oposição? Prepara-se mal, fala a medo, deixou-se tomar pelos bullies que povoam a maioria.
Olhando para o quadro de miséria que se abre à nossa frente, percebemos que é preciso afagar egos para singrar na vida: as assessoras/adjuntas que conseguiram um lugarzito nos gabinetes de ministros ou secretários de estado, os que ainda não conseguiram mas têm na vida esse objectivo, os que foram penosamente afastados e agora regressam, todos contentes. E voltamos aos presidentes de junta: só aqui é que são tidos como figuras políticas, só aqui têm a veleidade de perorar sobre as posições da oposição. Os que falam, gastam mais tempo a engordar o coro de ataque aos desgraçados do PS e Independentes do que a levantar os problemas - concretos e reais - das suas freguesias. Os que não falam, aprenderam rapidamente a rir, de gozo. Estão ali por inerência. Só para lembrar.
2. Custou-me, nesta assembleia, ver um homem que muito estimo (enquanto médico, mas também enquanto cidadão) tecer loas a um dos ramos de enfeite do poder: a assembleia municipal sénior. José Grilo Gonçalves tem dedicado uma parte importante da sua vida à gerontologia. E saberá tão bem como eu que todos aqueles planos e estratégias "para o envelhecimento activo" não passam de balelas. Quem está nesta fase da vida sabe que lidar com a velhice dos pais é o verdadeiro desafio da idade adulta. E somos muitos. Não, não é com estes números de folclore (cujo critério de selecção já é, por si, duvidoso) que combatemos o idadismo, o isolamento, os dias dos que definham dentro de suas casas ou nas salas dos lares e centros de dia. Queremos dar visibilidade aos mais velhos? É incluí-los nas listas às juntas, à Câmara, à Assembleia. A intervenção de José Grilo teve o condão de colocar a nu a nossa realidade: por cada 100 jovens temos 261 idosos.
Depois de ouvir uns e outros tecer loas à eleição da jovem autarca, à realização da assembleia sénior e quejandos, uma pessoa fica a pensar que um dia destes ainda replicam os modelos na creche e no infantário; depois hão-de fazer a assembleia das mulheres, dos migrantes, dos canhotos e dos que usam bigode. Tudo serve para a fotografia, que é, afinal, o que lhes importa.
Uma nota final para os que gostam de embandeirar em arco com "a juventude a discursar no 25 de abril". Que o façam uma vez, percebe-se. Que se torne prática, só se entende na lógica do "olhem para nós, em Pombal, que nos importamos com os jovens e com aquilo que pensam". Balelas. Duas coisas, senhores: o 25 de Abril é uma data política. Os partidos devem indicar para falar sobre ela quem entendem. Isto não é a jotalândia, ao contrário do que pensa o PSD, com anuência do PS - e do resto.

O grande problema disto tudo esta na falta de cultura democratica do povo que vota. O povo só esta interessado em saber se a Câmara dá o subsidio lá para a festa das sopas. Se paga as obras la no clube da aldeia, financia as festas da capela la da terrinha. O povo não quer saber de mais nada. O povo só tem a democracia que merece e com a qual se sente bem. Festas e Bolos...Sigaaa.
ResponderEliminarPaula, de todo o seu comentário da realidade da nossa assembleia, não deixa de ser uma apreciação de uma reunião do interesse coletivo.
ResponderEliminarNão seria de esperar que fosse outra coisa que não uma critica no timbre habitual do farpas - Farpando.
Servem as observações atentas para escrutíneo das situações mais evidentes e impactantes, cuja classifcação podemos ou não concordar, mas de todo o modo indicadoras do que para onde cada um de nós deve olhar e, caso a carapuça lhe sirva, encontre forma de melhorar a sua prestação.
Sobre os presidentes de Junta a maioria são novatos ainda à procura do seu espaço e estabilidade e logo mais não fazem que assitir e votar.
Sobre os mais habilidosos já se sabe que é de onde aparecem as habilidades.
Sobre o bater nos mais fracos é do espirito humano, sabe sempre melhor e é mais gratificante carregar nos que mais se põem a jeito e mais saltam nas labaredas acusatórias... digamos que a contenda fica muito mais animada. A degladiação (vem de gladiador) é tanto mais entusiamente quanto maior for o sangue derramado... "Nero dixit".( e se não dixit, dixit eu agora...😊)
Sobre o pensamento político próprio julgo que é raridade que procura como se fosse abundante mas não é. Por isso o erro é seu e não de quem o não o tem!
Respigo o mais importante e mais preocupante do seu Post: "Por cada 100 jovens temos 261 idosos". No entanto há ainda uma consideração que poderemos tirar e que poderá vir a fazer baixar esta relação, é que os idosos atuais vêm de uma geração numerosa mas cujo horizonte natural não é longo, logo, por morte o denominador irá também ter um decrescimo acentuado nos proximos anos.
De resto, retiro ainda um chavão que nós os mais velhos ( cuidado portanto na parte que lhe toca) gostamos de ostentar: Nos outros tempos é que eram todos melhores e faziam bem quase tudo aquilo que os de hoje fazem mal... Lêdo engano e total discordancia consigo, porque os de outros tempos eram tão maus como os de hoje, só que hoje já não estorvam tanto...
Repare o habitual elogio funebre portugues : Faleceu X, pessoa de enormes qualidades, quase sem defeitos, perde a sociedade um dos melhores dos seus e blá blá blá bla´.... e... Paz à sua alma....; Pois, mas porque é que em vida ninguém falou disso ou deu por isso???
Eu sei porque é, porque eu até sou dos que tenta pensar um pouco: É porque gostamos todos de descansar a consciência nesse epílogo pelos nossos erros e omissões para com o defunto em vida coletiva.
Por isso olhe, vá-se conformando com o que tem, com os que os outros à sua volta vão fazendo e esperando e regressando, porque os que vão ocupando lugares publicos não o fazem essencialmente por esperar grandes retribuições mas pelo espirito civico de contribuir para a defesa do bem comum.
Fazemos cá todos falta, os que fazem, os que não fazem e, veja lá, até os que farpam e criticam. 🌹