Três dias antes o do dia do Reino (o mui santo dia de São Martinho), por haver que atribuir comendas a benfeitores que se houvessem distinguido, o Príncipe mandou chamar os do seu conselho ao Convento de Santo António. Todos os estimáveis conselheiros marcaram presença: o comendador das Meirinhas, o doutor coiso, a doutora da Guia, a doutora das Mouriscas, a marquesa Prada, a Educadora-mor, o ministro das Obras-Tortas, e o conselheiro Jota; mui bem assistidos pelo fiel-escudeiro e pela escrivã-mor.
O Príncipe iniciou as práticas com uma arenga mui bem-feita, com grande solenidade, ordem e regimento, tudo em grande perfeição, e bem conforme ao caso. No final, Sua Alteza deu fala aos conselheiros, que mostraram grande descrição e mui singulares virtudes.
Iniciou as falas o conselheiro Jota, que destoou um pouco mas sem atingir o desprimor e a fogosidade habitual, ao propor ex-deputado da Nação e actual regedor da vila e a noviça actriz de novela oriunda do oeste; figuras que, apesar de mui principais, doutas e afamadas, não poderiam agradar ao Príncipe.
Destoou também a doutora das Mouriscas, não pelo estilo, sempre dócil e delicado, mas pelo atrevimento nas propostas, ademais e a muito a desagrado do Príncipe, ao propor o cônsul português em terras gaulesas, a caridosa doutora benzinho, a cozinheira do risoto, e outros.
O comendador, que não é homem de grandes finezas e lealdades, esteve mui discreto e em grande sintonia com o Príncipe; o doutor coiso não acrescentou coisa que para este escriba mereça registo; e a doutora da Guia esteve, como habitual, silenciosa e portentosa.
O Príncipe a todos ouviu, e com muita atenção. Depois, com palavras mui sábias e muitas razões, rejeitou as propostas por serem de figuras que fazem coisas mais a solto do que deviam, ou sem benefício para o reino, ou por razões de serem figuras sem real condição ou merecimento. Dito isto, silenciou por momentos, para dar entrada dos devidos arrimos; que vieram unicamente da Educadora-mor. Feito o compasso, Sua Alteza afirmou que o reino devia agraciar sete barões já assinalados; e porquê sete?, perguntou Ele e respondeu, afirmando que sete é número perfeito e mui cristão.
De balanço, deu Sua Alteza a conhecer, aos do seu conselho, os sete barões assinalados: os ronaldos da Pelariga; o pasquim “Os Doze”, pela grandiosa história e trabalho; a Misericórdia do Louriçal, pela miseração que pratica; o ilustre museu da pradaria, nas terras de Almagra, que pede meças ao museu do Prado; a indústria maxi, pelos plásticos que plastifica; a associação dos comerciantes, por sobreviver sem comerciantes; e o laborioso albergariense, de criação pobre mas de mui bom coração (“se isto se pode dizer de um pobre”, soltou num aparte), que por terras gaulesas alcançou muitas cousas e muita renda para si; e com alguma acaridou alguns.
E assim, com tudo consentido e mui bem acabado, a prestimosa escrivã assentou tudo o que Príncipe determinou com os do seu conselho. E todos se foram com grande contentamento pelo grande contributo dado ao reino e à humanidade. Excepto o Pança, coitado, que não compreendia tamanha manha e injustiça do Amo, ao não agraciar o irmão, um escravo do regime, aqui e além; que não agraciasse o cônsul, que nunca fora fiel ao regime, percebia-se; agora o irmão, regedor, deputado da Nação e profeta-maior da boa vontade, não! Resmungava por dentro, o Pança, que por fora não o podia fazer sem lhe cair no lombo mais açoites, e sabia bem que ainda lhe falta dar-se muitos, e o espinhaço já está dorido demais.
O Príncipe iniciou as práticas com uma arenga mui bem-feita, com grande solenidade, ordem e regimento, tudo em grande perfeição, e bem conforme ao caso. No final, Sua Alteza deu fala aos conselheiros, que mostraram grande descrição e mui singulares virtudes.
Iniciou as falas o conselheiro Jota, que destoou um pouco mas sem atingir o desprimor e a fogosidade habitual, ao propor ex-deputado da Nação e actual regedor da vila e a noviça actriz de novela oriunda do oeste; figuras que, apesar de mui principais, doutas e afamadas, não poderiam agradar ao Príncipe.
Destoou também a doutora das Mouriscas, não pelo estilo, sempre dócil e delicado, mas pelo atrevimento nas propostas, ademais e a muito a desagrado do Príncipe, ao propor o cônsul português em terras gaulesas, a caridosa doutora benzinho, a cozinheira do risoto, e outros.
O comendador, que não é homem de grandes finezas e lealdades, esteve mui discreto e em grande sintonia com o Príncipe; o doutor coiso não acrescentou coisa que para este escriba mereça registo; e a doutora da Guia esteve, como habitual, silenciosa e portentosa.
O Príncipe a todos ouviu, e com muita atenção. Depois, com palavras mui sábias e muitas razões, rejeitou as propostas por serem de figuras que fazem coisas mais a solto do que deviam, ou sem benefício para o reino, ou por razões de serem figuras sem real condição ou merecimento. Dito isto, silenciou por momentos, para dar entrada dos devidos arrimos; que vieram unicamente da Educadora-mor. Feito o compasso, Sua Alteza afirmou que o reino devia agraciar sete barões já assinalados; e porquê sete?, perguntou Ele e respondeu, afirmando que sete é número perfeito e mui cristão.
De balanço, deu Sua Alteza a conhecer, aos do seu conselho, os sete barões assinalados: os ronaldos da Pelariga; o pasquim “Os Doze”, pela grandiosa história e trabalho; a Misericórdia do Louriçal, pela miseração que pratica; o ilustre museu da pradaria, nas terras de Almagra, que pede meças ao museu do Prado; a indústria maxi, pelos plásticos que plastifica; a associação dos comerciantes, por sobreviver sem comerciantes; e o laborioso albergariense, de criação pobre mas de mui bom coração (“se isto se pode dizer de um pobre”, soltou num aparte), que por terras gaulesas alcançou muitas cousas e muita renda para si; e com alguma acaridou alguns.
E assim, com tudo consentido e mui bem acabado, a prestimosa escrivã assentou tudo o que Príncipe determinou com os do seu conselho. E todos se foram com grande contentamento pelo grande contributo dado ao reino e à humanidade. Excepto o Pança, coitado, que não compreendia tamanha manha e injustiça do Amo, ao não agraciar o irmão, um escravo do regime, aqui e além; que não agraciasse o cônsul, que nunca fora fiel ao regime, percebia-se; agora o irmão, regedor, deputado da Nação e profeta-maior da boa vontade, não! Resmungava por dentro, o Pança, que por fora não o podia fazer sem lhe cair no lombo mais açoites, e sabia bem que ainda lhe falta dar-se muitos, e o espinhaço já está dorido demais.
Viva o Príncipe,
Viva o Reino.
Miguel Saavedra








