"E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa: apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal."
29 de outubro de 2021
28 de outubro de 2021
Sobre a governação do Pimpão
O “Presidente da Junta” - doutor Pimpão - tem cumprido, nos últimos dias, após a posse, uma vasta agenda de roteiros, celebrações e jantares que seria fastidioso enumerar.
Mas vale a pena realçar o frutuoso evento que conclui a semana e a primeira quinzena de mandato: um manjar, hoje, no Manjar do Marquês, para o qual convidou os directores dos jornais com o pretexto de apresentar o seu executivo a tão distintas figuras.
Podem muitos ainda não acreditar nas profecias do doutor Pimpão - profeta e mestre na teologia da felicidade. Mas que ele está a dar o seu melhor, está!
E o Zé, que ignora o que é isto da Felicidade, paga isto tudo.
27 de outubro de 2021
Eterno masculino
A nova composição da CIMRL - Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria - é uma espécie de regresso ao passado. Não apenas porque lá está Raul Castro - que volta à Câmara da Batalha 30 anos depois, não pelo CDS, mas agora como independente, depois de ter sido presidente da Câmara de Leiria durante três mandatos, pelo PS. É mesmo pela inusitada exclusividade masculina deste retrato da região, coisa que não acontecia desde a década de 90.
Bem podem os partidos acenar com as bandeiras das quotas, que a realidade é o que é. Em 2021, a região de Leiria voltou a ser exclusivamente dominada por homens, numa espécie de clube do charuto em que a foto podia ser confundida com uma qualquer dos anos 80. De resto, (ao menos) aí estamos em linha com o resto do país: nestas eleições autárquicas apenas 9% das Câmaras foram ganhas por mulheres, 28, portanto, menos do que há quatro anos. Na região, perdemos três: Castanheira de Pêra, Alvaiázere e Marinha Grande.
Pimpão é o caçula do grupo. E lá foi eleito vice-presidente da CIM, que continua a ser presidida pelo socialista Gonçalo Lopes.
Agora vamos ver se nos ficamos por aqui em matéria de retrocessos.
25 de outubro de 2021
Pombal dos Pelourinhos
Volvida uma semana sobre o anúncio, permanece pasmada a contemplação da pletora de pelouros do novo executivo que concretizam a Nova Ambição e prometem colocar Pombal a florir e na vanguarda, a smart city das smart cities, espaço de co-working e de clusters, spin-offs e fab labs, com tudo o que é lindo: verde, sustentável, digital, resiliente, inovador. Etc.
A questão que já ocorreu a muitas/os de nós, pombalenses, é a da governabilidade de um município cuja ação se pulveriza em meia centena de pelouros que, desconfiamos, nalguns casos se sobrepõem, distribuídos de acordo com uma lógica indiscernível, fazendo adivinhar os labirintos de secretaria em que terão de navegar os arrebatamentos retóricos do programa de campanha do presidente eleito e os eventuais projetos em que aqueles venham a materializar-se. Se a esta dificuldade juntarmos o anunciado novo modelo colaborativo de gestão autárquica, em que “todos contam e participam” - um “plano estratégico de desenvolvimento para a próxima década, envolvendo a sociedade civil e todos os setores de atividade, um plano orientado para a ação e indicadores e medidas concretas para identificar (…) clusters de desenvolvimento e definir as nossas prioridades de crescimento, num documento que tem de ser elaborado em sintonia com os objetivos do Desenvolvimento sustentável da UN para 2030, o Plano de Recuperação e Resiliência e o Novo Quadro Comunitário Portugal 2030” –, é legítimo que se instale, entre nós, a dúvida metódica. Sobre como e quando o prometido.
No discurso de tomada de posse, o público bateu palmas por três vezes: duas delas quando o presidente louvou e agradeceu à família e a outra quando anunciou para 2022 o regresso do posto de turismo ao centro da cidade. Já imaginamos a estrondosa cerimónia de inauguração. Além desta data, só as outras, acima, e a da neutralidade carbónica para 2050. De resto, tudo vaporoso e indefinido, mas para fazer em quatro anos. Por isso, em vez de cartazes de auto comprazimento pós-eleitoral, gostaria de ver anunciados horizontes temporais para concretizar os compromissos assumidos (o posto de turismo já não conta, Sr. Presidente).
E ainda o pelouro da felicidade. Inútil, dir-se-ia, porque redundante, a ser verdadeira a observação do presidente, como coisa real, da “renovação da esperança bem patente na alegria e no sorriso estampado no rosto de cada um dos nossos concidadãos”. A felicidade por decreto, a gente já leu isto em algum lugar. A realidade, por outro lado, é triste. Vemo-la em múltiplos indicadores, entre eles nos números de quem desiste de Pombal, das pessoas jovens a quem doem os vazios e a estagnação, e cuja ambição é um bilhete só de ida, à procura de uma smart city onde construir um futuro.
Diz-me o dicionário que pelouro era também uma “bola oca de cera que se usava para nela se encerrar o voto escrito, por exemplo, para eleições municipais”. Oxalá nos enganemos.
Lina Oliveira
24 de outubro de 2021
Temos deputado!
22 de outubro de 2021
A felicidade começa agora
Depois de uma campanha animada, muito focada no culto da sua própria personalidade, Pedro Pimpão foi eleito, sem surpresa, Presidente da Câmara de Pombal. Amigo do seu amigo e com uma enorme vontade de agradar, o novel presidente teve a confirmação de que é amado pelos pombalenses. O seu "Obrigado Pombal!", que as más-línguas poderiam apelidar de bacoco, no caso de Pedro Pimpão é um agradecimento genuíno. O enorme cartaz que temos à entrada de Pombal é, em si mesmo, um manifesto político. O alegre e feliz Pedro o tudo fará para que a sua felicidade passe a ser a nossa felicidade. Muito obrigado, Pimpão!
Ficámos ontem a saber que o novo executivo camarário vai contar com pelouros como "Família, Parentalidade e Natalidade" e "Felicidade e Bem-estar Comunitário". E quem melhor do que o nosso jovem presidente para assumir tão arrojada tarefa? Tendo Certificação Internacional de Practitioner em PNL – Programação Neurolinguística, acreditada pela International Trainers Academy, Pedro Pimpão é a pessoa certa no lugar certo.
As sessões de banha da cobra, antes promovidas pela Junta, passarão agora a ser dinamizadas, com muito mais impacto, pela Câmara. Venham os Top Trainers, as sessões de Quantum Mind Training, os Facilitadores de Cursos de PNL, os Pedros Viera, os Doutores Negrelli, os Professores Karamba, as Astrólogas Maia ou os Videntes de Fátima! Mais do que resolver os problemas políticos e sociais, Pombal precisa de pílulas de felicidade. Aguardamos todos, ansiosamente e de boca aberta, pelos comprimidinhos do Doutor Pimpão.
21 de outubro de 2021
Precipitações do Pedro
O Pedro é demasiado precipitado; mas isto, na Junta e na Câmara, tem regras, não é uma simples comissão de festas.
Adenda 1: Surpreende e é preocupante que um presidente, com formação jurídica e ex-membro do executivo municipal, submeta ao executivo uma proposta de atribuição dos pelouros quando esta competência é puramente sua.
Adenda 2: Também não é o executivo que define/aprova quem é o/a vice-presidente, como diz o Pedro; é o presidente que o/a designa por despacho. Mas pronto, de atropelo em atropelo, a coisa vai arrancando.
18 de outubro de 2021
Habemos Papam - Profeta
Empossado ontem à tarde, logo animou a noite. E hoje saiu, logo de manhã, em peregrinação pela urbe, com todo o séquito – eleitos, não eleitos e ajudantes. Dirigiu-se ao quiosque da Central de Camionagem, onde se cruzou com o povo, benzeu as instalações e fez promessas.
Habemos Presidente da Junta. Habemos.
E habemos Junta. Habemos.
Abaixo o Despotismo Iluminado. Abaixo.
E Viva o Lirismo Militante. Viva.
E Viva o Presidente da Junta. Viva.
E viva a Junta. Viva.
O primeiro dia do resto da vida do PS
Ainda no andar de cima se arrumavam os restos da festarola que demos para receber como deve ser Pedro Pimpão & sua banda (vereadora Isabel Marto ao piano, exímia em Yann Tiersen e La Valse D’Amelie, pouco consentânea com o show dançante), e já no andar de baixo a meia dúzia de eleitos do PS para a Assembleia Municipal fazia aquilo que em 28 anos ninguém se lembrou de fazer: ouvir a sociedade civil, o que resta dela.
Num domingo à noite, João Coelho e os cinco que o acompanham conseguiram dar esse pequeno passo que é trazer à cidade gente de todo o concelho (e de vários quadrantes políticos) para saber o que espera o povo destes que agora se vão sentar na AM. É claro que a conversa descambou para uma catarse por parte de quem não consegue - por defeito, claro está - vislumbrar unicórnios ao virar da esquina da pastelaria Mota, estrelas cadentes na Várzea ou bolas de sabão multicolores no Cardal. Gente que viu os filhos partir, as fábricas e as lojas fechar, que pede mais do que os acordes do ‘ai meu Pombal’ para se sentir feliz, que gostava de ver de novo alegria nas ruas [não confundir com isso da felicidade, como bem lembrou Francisco Faro]; que esperava mais de uma Oposição, estes anos todos, como apontava Jaime Portela, candidato da CDU nestas autárquicas. E que oposição será esta na Assembleia? - quis saber (e bem) Célia Cavalheiro, última (e única) eleita do Bloco de Esquerda. Terá a mesma posição sobre os contratos de associação dos colégios? Pois. Faz-nos muita falta falar. Discutir. Perceber o concelho onde vivemos e quem o habita, o que pensa, por que o pensa. Nem todos estão dispostos a fazer esse exercício, como ficou claro na noite (que não das facas longas, apenas de uma nova ambição). A começar pela própria estrutura do PS.
É sintomático que num encontro como este nenhum dos vereadores eleitos se tenha dignado lá por os pés. Quem sabe tudo, não precisa de aprender nada, muito menos de perceber, quanto mais de ouvir.
Jorge Claro fez na sua intervenção a síntese perfeita do estado da arte.
Depois queixem-se do eleitorado.
Regresso ao Farpas e unanimismo
Como é do conhecimento público, estive em campanha eleitoral por um movimento independente à Assembleia Municipal.
Como não poderia deixar de ser, em termos éticos, não seria correcto usar esta plataforma durante a campanha eleitoral.
O Farpas não existe para promover qualquer movimento político, mas antes para acordar de uma dormência coletiva de unanimismo e trazer para a agenda assuntos que não eram assuntos. Ao fazer isso, trás para o domínio público o que muitas vezes nem se sonhava existir, promovendo a crítica, feroz por vezes, da coisa e dos agentes públicos, onde também me incluo.
Cada texto é de responsabilidade pessoal e por vezes contraditório de outros “farpeiros”. Mas é esse contraditório e comentário mordaz que gera a discussão e evidência diferenças e alternativa que garante democracia.
Quem assume um posicionamento político é “farpável”, e assim deve ser, com naturalidade. Quem não sabe lidar com o contraditório, dificilmente lidará com democracia.
Neste pontapé de saída do mandato, assusta o discurso de Pedro Pimpão de que tudo é importante, sem priorização, sem opções claras. Fala-se de um plano estratégico como primeira medida, depois de dizer que todas as áreas são uma prioridade.
Estudos há e houve como já aqui evidenciei.
http://farpaspombalinas.blogspot.com/2019/12/ha-estrategia-para-pombal.html?m=1
E por vezes este embalar de assuntos, numa música coletiva poderá servir para ganhar tempo, quando tempo é algo que não temos.
Por isso não pode haver unanimismo, porque isso prejudica-nos a todos.
15 de outubro de 2021
O triste fim de D. Diogo

Desse fabricado livro não constará, com certeza, as perseguições, os ultrajes e os saneamentos praticados por D. Diogo, mas ficarão por aqui gravados para memória futura.
Convém por isso recordar que a nulidade da nomeação do instrutor, e a consequente nulidade dos processos, foi decretada na sequência do primeiro recurso interposto pelo visado, sobre o passo inicial dos processos - a nomeação do instrutor. Mas convém também reafirmar que os processos estão cheios de vícios formais e trapaças, também alvo de recurso e/ou queixa, que, por via desta decisão, serão uns inevitavelmente arquivados e outras dirimidas nos tribunais.
A derrota é sempre um fim triste. Mas há criaturas - raras, cada vez mais raras - que sabem sair com dignidade, com o menor dos danos, sem enxovalho público. Por cá, temos pouca gente dessa. Mal para os/as que não sabem sair a tempo. E também para nós, que temos que os/as gramar mesmo depois de mortos. A Teologia diz-nos que há mortos que não se deixam enterrar, chama-lhes “almas penadas”. Gravitam muitas por cá.
Diz-se que quem não sabe ganhar também não sabe perder. D. Diogo nunca soube ganhar. Mostrou-o na Junta de Freguesia de Pombal, onde derramou fel e malvadez contra o pobre António Lopes; e mais recentemente nos dois mandatos que lhe concederam na presidência da câmara.
Este recurso, sobre a derrota nos processos movidos ao ex-Director de RH, que bateu contra a parede – nem foi sequer admitido –, é só mais um acto de litigância compulsiva, de quem não sabe perder. Para mais, a fundamentação desta decisão é um atestado de “burrice e desconhecimento” – como disse o doutor coiso –, não para o vereador que alertou para o erro, mas para os serviços jurídicos e para quem os presta, para os vereadores com suposta formação jurídica, e para o presidente da câmara.
Litigar compulsivamente com os dinheiros dos contribuintes, e escudado no cargo de presidente da câmara, é fácil e barato. O pior começa agora…
13 de outubro de 2021
12 de outubro de 2021
A Cercipom - e o que ela representa
Foto: Município de Pombal
O poder político e institucional da terra e da região foi em peso à inauguração das novas instalações do Centro de Formação e Inclusão Socioprofissional da Cercipom. É uma daquelas obras justas e necessárias, que "nunca dividiu" os actores políticos locais, como bem sublinhou no seu discurso o ainda presidente da Câmara, Diogo Mateus. De resto, por ser caso raro, sublinhou-o. A provar o que dizia, juntaram-se todos para a fotografia, para a posteridade. Foi bonito.
Mas o que fica, para lá do edifício novo, onde a autarquia investiu mais que oportunamente um milhão de euros, é a determinação de quem tem erguido esta obra social desde 1979, ano em que foi fundada a Cooperativa de Ensino e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados de Pombal. E para lá dos órgãos sociais, há alguém que está lá sempre, discreta, atenta, sem nunca se colocar em bicos de pés como é tão típico cá no burgo: Preciosa Santos. Quem a viu atrás do micro, não a fazer discurso mas a assegurar o protocolo, domingo passado, percebeu-lhe de novo a grandeza. Formalmente, é ela a directora-geral da Cercipom. Na prática, é ela a alma daquela casa onde trabalham 100 pessoas, para apoiar 570. Dessas, 270 estão fisicamente nas instalações.
Sabemos que a sorte dá muito trabalho, e que às vezes é Preciosa. Na Cercipom tem sido assim. Não sei há quantos a conheço, mas não me lembro nunca de a ver - de perto ou de longe, sem saber que é observada, que é quando melhor compreendemos o trabalho dos outros - sem que tivesse um sorriso ou um genuíno esgar de preocupação com os outros, longe dos holofotes que, já se sabe, esta área não atrai.
No domingo, através de um ecrã de telemóvel, senti uma obrigação imensa de dizer obrigada à Preciosa por tudo o que ela tem feito por esta comunidade. Porque como poucos encaixa naquelas notas breves que compõem a segunda parte da nossa linha editorial, que a muitos passa despercebida.
8 de outubro de 2021
Uff; terminou
Realizou-se hoje a última reunião do executivo que nos (des)governou nos últimos quatro anos. Terminou como “d'habitude”: envolta em polémicas, conflitos estéreis e irregularidades várias.
Para a última reunião, Diogo Mateus agendou a aprovação de várias actas fora de prazo – prática reiterada. Já em agosto tinha submetido ao executivo, numa reunião não transmitida e sem a presença do vereador Pedro Brilhante, uma simples lista de Excel com a identificação de dezenas de actas. Foram aprovadas!
Agora, Pedro Brilhante requereu antecipadamente a retirada do ponto da ordem de trabalhos, por a aprovação se fazer fora do prazo e por não existirem condições para a sua aprovação consciente (conhecendo-as). O requerimento foi indeferido.
Mas as afrontas à lei e aos princípios democráticos não se ficaram por aqui. O vereador Pedro Brilhante requereu também a participação na reunião por via remota, por se encontrar distante, e por a lei contemplar essa prerrogativa até 31 de dezembro. Competia ao presidente despachar favoravelmente o pedido e dar instruções aos serviços para assegurarem a participação do vereador na reunião. Não o fez. Resolveu submeter o pedido à consideração e decisão do executivo, violando a lei. Votaram pela concessão do pedido (do direito) os vereadores Narciso Mota, Ana Cabral, Ana Gonçalves e Odete Alves. Votaram pela rejeição do pedido (do direito) o presidente e os vereadores Pedro Murtinho, Pedro Martins e o coiso. O requerimento foi rejeitado com o voto de qualidade do presidente. E as actas foram aprovadas irregularmente e de “cruz”. Segue nova queixa para o Ministério Público.
Já tínhamos aqui dado a extrema-unção (política) a D. Diogo e aos comparsas que o acompanharam nesta malfadada descida aos infernos. Consumado o afastamento, dele e dos seus comparsas, ignorámos os seus actos e os seus comportamentos. Ignorámos até uma licenciatura escandalosa; e deixei passar sem o respectivo troco injúrias falsas e cobardes (nas costas) do lacaio falso. Tudo por uma saída com um mínimo de dignidade. Que se tornou inviável.
Terminou a guerrilha política mas não terminou a guerra. Seguem-se as batalhas judiciais. O pior dos fins.
7 de outubro de 2021
Ainda os Resultados das Eleições Autárquicas
Muita coisa já se disse sobre os resultados das autárquicas - sobre os vencedores, sobre os derrotados, sobre a abstenção, etc. Por cá correu tudo dentro das previsões: ganhou o mesmo, perdeu o mesmo, e o resto não contou para nada.
Mas poucos terão reparado na expressiva dimensão dos votos Brancos (950 – 4,14 %) e Nulos (511 – 2,23 %). Somados dão 1461 – 6,37%. Ou seja, no momento em que se tornou muito difícil mobilizar e envolver as pessoas na política e levá-las participar e a votar – mais de metade não vota (53,33 %), pelas mais diversas razões -, 1461 (6,37%) eleitores vão às urnas expressar a convicção que não se revêm em nenhuma força política.
Mais: a coisa é de tal forma proeminente que os Brancos (950 – 4,4 %) já representam o 3.º maior resultado – batem o Chega (841 – 3,67%), a Iniciativa Liberal (741 – 3,23%), o Bloco de Esquerda (668 – 2,91%) e o PCP/PEV (407 – 1,77%).
Dá que pensar. E deveria fazer repensar a forma de fazer política por parte dos pequenos partidos. E pelo PS local - também já um pequeno partido, partido.
Anatomia de um órgão [agora em funcionamento]
Ao fim 7 (leram bem, SETE anos), ontem tive a sensação de que o Conselho Geral do Agrupamento de Escolas de Pombal está finalmente a funcionar de forma completamente autónoma e independente, mesmo que estas normas do regulamento para a eleição dos representantes de pais, mães e encarregados de educação nos pareçam saídas de um quebra-cabeças.
Quem por aqui anda há mais tempo lembrar-se-á dessa novela, que começou aqui, com protagonistas que (na sua maioria) já desempenham outros papéis, noutros lugares. Na verdade, estamos condenados a isto: temos grande propensão para ser barriga de aluguer, aqui e ali, deste e daquele. Mais: há até protagonistas que conseguiram mudar de lugar, e outros que agora experimentam papéis que tanto condenaram. Afinal, Cartola tinha razão: o mundo é um moinho.
Nem sequer conheço a maioria dos representantes de encarregados de educação da (única) lista que ontem se apresentou a sufrágio. Mas confio que defenderão os interesses de todos, o melhor que souberem e puderem. O que importa aqui vincar, para memória futura, é que pela primeira vez uma eleição destas foi feita como deve ser: no seio do conselho geral, sob a égide do (novo) presidente, Arlindo Araújo, sem mais interferências.
Para tudo é preciso um caminho. E arriscar fazê-lo, contornar as pedras, sem ter de fazer delas castelos. Já temos de sobra. Convém é termos memória.
O resto é o resto.
3 de outubro de 2021
Prelúdio outonal, em Pombal
Depois de um verão tórrido começou o outono: choveu forte, reina um céu nublado e sereno que entrelaça nuvens escuras e brancas; sente-se a brisa fria, uma a húmida melancolia, o ar pesado e a miséria oculta; caem as primeiras folhas.
Como dizia Pessoa, na vida tudo se renova: à primavera
segue-se o verão, ao verão o outono, ao outono o inverno, e ao inverno a
primavera, e assim gira e regira o tempo nesta volta contínua. Só a vida humana
corre para o seu fim, ligeira, mais do que o tempo, sem esperar o renovar-se, a
não ser na outra, que não tem termos que a limitem. Cada outono que vem é mais perto do último outono que teremos.
Por cá, depois do outono que
agora começa virá um inverno, que trará uma primavera ou não - ou não.
29 de setembro de 2021
Um concelho abstencionista, notável e extraordinário
Nas eleições de domingo, o PSD conseguiu no concelho de Pombal o seu melhor resultado em todo o distrito de Leiria - que em tempos foi um impenetrável bastião laranja. Um orgulho partidário: o concelho onde apenas 46,77% dos eleitores foi votar, o único que perdeu vereadores e eleitos na Assembleia Municipal, pode continuar a abanar a bandeirinha, que aqui ninguém nos bate. Sobre a vitória anunciada de Pedro Pimpão já aqui falámos, no dia das eleições; sobre a derrota do PS e da Odete Alves também. Por isso falta perceber que Câmara e Juntas vamos ter.
Dentro de 15 dias tomará posse a ilustre desconhecida equipa do Pedro: Isabel Marto, Gina Domingues, Pedro Navega e Catarina Silva compõem o naipe de vereadores eleitos pelo PSD. Esperamos pela tomada de posse e pela distribuição de pelouros para mais pormenores acerca deste quarteto, onde apenas a última tem experiência autárquica. Nos lugares do PS vão sentar-se Odete Alves e Luís Simões.
Ao fim de dois mandatos com uma Assembleia Municipal mais plural, com a presença do CDS, do PCP e do Bloco de Esquerda, voltamos (quase) ao antigamente: o PSD elegeu 14 dos 21 lugares. Além de Paulo Mota Pinto - que fará o obséquio de vir a Pombal, cinco vezes por ano, presidir a estas reuniões - foram eleitos João Coucelo, Adelaide Conceição, José Gomes Fernandes, Renato Guardado, Elisabete João, João Antunes dos Santos, Henrique Mota, Andreia Marques, Ilídio da Mota, Manuel Serra, Nicolle Lourenço, Fernando Matias e Alexandre Santos.
O PS conseguiu recuperar dois lugares na AM. Neste regresso de João Coelho juntam-se a ele Aníbal Cardona, Carla Mariza Pereira, Leandro Siopa, Nuno Gabriel Oliveira e Marlene Matias.
A única novidade chama-se Oeste Independentes. O Luís Couto encabeçou uma lista a partir da sua região (Ilha, Guia e Mata Mourisca) e conseguiu ser eleito, contra todos os prognósticos.
Nas freguesias, pouca coisa mexe. Começa agora o último mandato da maioria de uma geração de autarcas. Mas é melhor vermos caso a caso:
Abiul. A campeã da abstenção (60%). Sandra Barros começou por ganhar a Junta há 8 anos para o CDS. Mudou-se para o PSD há 4. Perde um membro na assembleia de freguesia (7-2) para o PS, através do resistente Manuel Silva, na sua terceira tentativa. Ainda assim, o PSD ganha com 71.79% dos votos.
Almagreira. Humberto Lopes chegou a ser dado como certo na equipa de Pedro Pimpão para a Câmara, mas acabou por ir a jogo para um segundo mandato. É dele a segunda maior vitória para o PSD numa freguesia (73.25%). O PS também cresce, mas pouco. Não é alheio aqui o facto do CDS - que nas últimas duas eleições fora a segunda força política mais votada - ter desaparecido.
Carnide. Uma estreia, e uma das três mulheres que vão liderar autarquias no concelho. Sofia Gonçalves ganhou confortavelmente a Junta para o PSD (67.14%), mas é aqui que - surpreendentemente - o PS consegue a segunda melhor percentagem numa freguesia. Vítor Morgado conseguiu uma votação bastante superior à do partido para a Câmara, por exemplo. Elegeu dois membros para a Assembleia de Freguesia, de onde o PS fora varrido nas últimas eleições.
Carriço. Pedro Silva vai pegar ao serviço na Câmara com a mesma tranquilidade com que ganha a Junta, em cada mandato. Não se dá por ele, mas está sempre lá. O PS fez-lhe o favor de nem sequer concorrer. Ali, só o CDS lhe roubou cerca de 200 votos para não ser uma coisa muito aborrecida. Ganhou as eleições com 74.75% dos votos.
Louriçal. Devoto de Diogo Mateus, estamos curiosos em ver como é que José Manuel Marques vai adaptar o estilo. Perde votos, mas continua absolutíssimo (8-1), com uma vitória de 68.37% dos votos. O candidato do PS - que num debate reconheceu ter sido "empurrado" para ali, foi o único eleito. João Pedro Domingues, do Bloco de Esquerda, subiu a votação mas falhou a eleição. E anunciou a retirada da vida política. Um descanso para o Zé Manel.
Meirinhas. João Pimpão é o segundo "achadiço" (adoro a palavra e aprendi-a em Vermoil) a ganhar a Junta. É a vitória mais pequena em percentagem (56.35%) para o PSD, mas era aqui que se concentrava o maior número de candidaturas. Será a Assembleia de Freguesia mais plural, com representantes do PS (que sobe ligeiramente a votação e por isso elege dois membros) e um da Iniciativa Liberal.
Pelariga. Nelson Pereira perde votos e um membro na Assembleia de Freguesia (6-3). É aqui que o PS consegue o seu melhor resultado numa freguesia - mesmo que sejam só 29.39% dos votos - com a persistência de Raul Bruno, que voltou lá, pela segunda vez.
Pombal. Carla Longo é a primeira mulher a presidir [oficialmente] à Junta de freguesia. Na verdade, foi ela a presidente nos últimos quatros anos. Conseguiu recuperar eleitorado que fugira para o Movimento NMPH há quatro anos e apesar da vitória com 56.41% dos votos, passa de 7 para 9 membros na Assembleia de Freguesia. O PS, através de Elisabete Alves, também sobe em número de votos, percentagem e eleitos, recuperando um (9-4).
UF Santiago, São Simão de Litém e Albergaria dos Doze. Manuel Henriques Nogueira Matos (um dos mais antigos autarcas em funções no distrito e talvez no país) arrecadou mais uma vitória para o PSD, mas desta vez não foi sem espinhas: a eleição de Maria José Anastácio, da CDU, é a nota dominante aqui, acompanhada da subida do PS, que praticamente duplica a votação e elege dois membros para a AF.
Vermoil. Parada no tempo e no espaço, a freguesia ainda consegue reforçar a vitória no PSD (7-2), para quem Daniel Ferreira consegue mais de 60% dos votos. O PS tinha ali um dos seus melhores candidatos, Luís Fernandes, mas o povo é soberano: se está bem assim, está bem assim. Fixemos antes atenções no que se passa ali internamente, pois que ontem mesmo, na reunião da assembleia de freguesia (transmitida em directo no facebook) o presidente da assembleia, Ilídio Mota (ex-presidente da junta) foi mais incómodo que qualquer oposição. Um caso a acompanhar.
Vila Cã. Finalmente o PSD respira de alívio. Ana Tenente não se recandidatou, e através de Rogério Santos, o partido recupera a Junta com maioria absoluta. Liliana Silva, a líder local do CDS, que tinha um pé na candidatura à Assembleia Municipal e outro na da Freguesia, foi a segunda mais votada.
Redinha. Teoricamente esta é a (única) freguesia do PS (46.38% dos votos), uma vitória suada de Paulo "Silas" Duarte em 2017, por apenas 7 votos, começada em 2013. Mas pelas razões que já aqui contámos várias vezes, a vitória é dele e pronto. o PS que continue refém dele. Desta vez conseguiu maioria, o que lhe facilita a vida. E com isto, talvez Carlos Cardoso perceba, finalmente, que a água não passa duas vezes debaixo da ponte. Nem na Redinha.
ps: uma nota digna de registo - é aqui que a abstenção é mais baixa, no universo concelhio, 38%.
União de Freguesias da Guia, Ilha e Mata Mourisca. Por um voto se ganha e por um voto se perde. No oeste, cada voto foi contado como se fora ouro garimpado. A campanha fez-se com a raiva nos dentes, como se estivéssemos em pleno PREC. No final, Gonçalo Ramos venceu as eleições por escassos 64 votos, mesmo que tenha subido a votação face à sua primeira eleição, então sob a capa de Narciso Mota. Não tem maioria, de novo, e o PS - repetindo a escolha de Hugo Silva - conseguiu ainda descer a votação. Os eleitos do CDS desta vez aliaram-se ao PSD, que também subiu. No oeste, aquilo não foi uma campanha. Foi uma guerra. E ainda há quem não tenha percebido que as eleições acabaram no dia 26. A esses, recordo aqui as palavras de Manuel Serra, em setembro de 2017, quando assumiu a derrota: "aquilo que se constrói em cima de indignações e revoltas tem sempre os dias contados, porque essas, felizmente, são passageiras".
28 de setembro de 2021
Carta Aberta de Miguel Saavedra ao Pedro Profeta da Boa-Vontade
Caríssimo Pedro, digníssimo Profeta da Boa-Vontade e ilustre Presidente da Junta;
Estimo que te encontres com perfeita saúde na companhia da tua família e de todos os nossos companheiros e amigos, que eu, maldito escriba, desdenhado por ti – agora o vejo –, pelos teus e pelos outros, por aqui vou andando entretido com as minhas crónicas, ora desavindo ora conformado.
Desculpa-me tratar-te por tu. Bem sei que não é tratamento correcto para pessoas na tua condição – Presidente da Junta -, mas sendo nós amigos - ou julgava eu que éramos - que sempre se trataram assim, e falando tu connosco regularmente na primeira-pessoa, não será com certeza despropositado falar contigo na segunda.
Acredita, Pedro: nunca imaginei incomodar-te nesta fase de euforia e deslumbramento que justamente estás a viver. Faço-o a desgosto, impelido pela profunda desilusão que provocaste, porventura inconscientemente, a mim e à maioria dos nossos conterrâneos.
Acreditei tanto em ti, Pedro, na tua boa-vontade, na tua bondade, e na tua ladainha agregadora que prometia abarcar todos, que nem quero imaginar que te esqueceste de mim, daquele que tudo fez para enaltecer as tuas qualidades, que tanto confiou nas tuas juras inclusivas, daquele que sabes ser um apaixonado por árvores. Bem sei, que cometi o pecado de não ter ido votar (em ti); pecado compreensível, Pedro: o dia estava lindo, precisava de espairecer e tu não precisavas do meu voto. Que me excluas desta tão valiosa medida, é ingratidão que mal ou bem hei-de curar. O que não se compreende é que um profeta da boa-vontade, da bondade e do amor exclua da sua primeira e simbólica medida a maior parte do rebanho.
Bem sei que ainda nada está decidido, que ainda não tomaste posse, que continuas em campanha eleitoral (estás sempre em campanha), mas não há uma segunda oportunidade para deixar uma boa primeira impressão.
Diz-me, Pedro: por que é que só dás árvores aos que votaram, aos que votaram em ti - sim, os que votaram, votaram quase todos, ou todos, em ti. Por que é que castigas os outros, a maioria, os que não quiseram ou não puderam votar em ti?
Estou tão desiludido contigo, Pedro; revoltado até. É tão doloroso chegar à conclusão que D. Diogo e o Obras-tortas são mais democratas que tu. Já que eles oferecem as árvores a quem gosta delas, não aos amigos ou aos que votam neles. O teu procedimento é mais de um tirano empenhado em perseguir que de um profeta preocupado em agradar.
Ainda não começaste, Pedro, e já começaste tão mal.
Um abraço amigo, deste que tanto bem te queria.
Miguel Saavedra
27 de setembro de 2021
A derrota da Odete
A derrota da Odete nestas eleições era tão certa como a vitória do Pedro. Mas faltava perceber a dimensão de (mais uma) humilhação para o PS, sobretudo neste quadro bicéfalo em que apresentou a eleições. E o que temos a reter, em primeiro lugar, é que em toda a parte o eleitorado votou mais no PS para a Assembleia do que para a Câmara.
Feitas as contas, o PS elegeu dois vereadores para o executivo (Odete Alves e Luís Simões) e seis eleitos para a Assembleia Municipal: João Coelho, Aníbal Cardona, Carla Mariza Pereira, Nuno Gabriel Oliveira, Leandro Siopa e Marlene Matias. Em termos globais, Coelho consegue mais 176 votos que Odete, o que ainda assim equivale a menos de um por cento de vantagem.
Impermeável à crítica, o PS não percebeu que era preciso cavalgar o descontentamento crescente - e visível - e limitou-se a agarrar-se às cordas, sem conseguir dar corpo e rosto ao que seria uma oposição.
Aí está o resultado.














